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terça-feira, setembro 14, 2010
De Cervantes a Kafka
Não pretendo escrever um tratado, para tal não tenho habilitações suficientes (nem é minha ambição fazê-lo, pelo menos aqui), nem acrescentar qualquer ponto literário ou intelectual que porventura enriqueça a interpretação destas obras fundamentais da Cultura Ocidental; apenas quero escrevinhar umas ideias simples que me foram surgindo sobre o Quixote e sobre (talvez maioritariamente o Processo de) Kafka.
A minha tese é que o Ocidente andou à procura de Kafka desde que leu o Quixote. Este último, para além de ser um genial compêndio de sabedoria e uma caracterização sociológica da Europa crescendo do século XVI para o XVII, da Espanha em particular, centra-se na figura obviamente tresloucada de D. Quixote de la Mancha, figura anacrónica, patética e certamente anedótica de uma certa nobreza decadente e saudosista contemporânea de Cervantes. D. Quixote é então o mote que permite a Cervantes expor o seu subtil pensamento e o seu imenso conhecimento, tanto o intelectual como o mundano; Quixote representa, na minha certamente simplista tese, o quanto o individuo se pode alhear do que o rodeia, criar a sua "realidade" e vivê-la com tal intensidade e imersão que tudo o que se passa à sua volta se reduz ao seu mundo de sonho e à dimensão da sua "loucura"; a sua leitura ressurge pertinente, curiosamente, no mundo actual em que a Realidade Virtual se apresenta cada vez mais "à mão". Em Kafka, K., é pelo contrário o mote para contar a história do individuo, pelo menos na aparência normal, podemos dizer frio, que se confronta com a "loucura" burocrática e tecnocrata, onde o sentido das coisas se perdeu na mecânica incontrolada e esmagadora, ou pelo menos estranhamente arbitrária (para os mais paranóicos o termo adequado será, conspiratória...), do "Sistema".
Comum aos dois personagens é uma solidão fundamental, ambos estão desligados da "realidade" - Quixote porque enlouqueceu, K. porque o "Sistema" está louco. O sentimento Ocidental está então emparedado entre a loucura individual e a loucura da sociedade burocrática que foi evoluindo, talvez, para regrar e filtrar a loucura dos seus membros. Os casos patológicos, Quixote e o "Sistema" de K., documentam a precariedade em que vivemos, entre a loucura do indivíduo e a loucura da sociedade.
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Liberdade de Opinião
"[...]If all mankind minus one, were of one opinion, and only one person were of the contrary opinion, mankind would be no more justified in silencing that one person, than he, if he had the power, would be justified in silencing mankind."
John Stuart Mill (1859), On Liberty, Chapter II - Of the Liberty of Thought and Discussion
Este preceito, aparentemente fundamental em qualquer tipo de regime que se diga democrático, não é um dado adquirido e, a meu ver, para que seja devidamente salvaguardado e compreendido, deve ser constantemente reaprendido por cada geração.
A opinião não é em si um delito, por mais incómoda (ou repugnante para alguém, seja maioria ou minoria) que seja. E a opinião "maioritária" tem que ter em conta e saber respeitar qualquer outra. Isto como é evidente nunca será fácil e, em certos momentos, para certas pessoas, parecerá impossível.
Neste aspecto uma das grandes questões da vida numa sociedade democrática está em conseguir discernir por entre a saudável multidão de opiniões quais delas está disposta a trazer do mundo das ideias para o frio escrutínio da realidade e para o julgamento da História.
John Stuart Mill (1859), On Liberty, Chapter II - Of the Liberty of Thought and Discussion
Este preceito, aparentemente fundamental em qualquer tipo de regime que se diga democrático, não é um dado adquirido e, a meu ver, para que seja devidamente salvaguardado e compreendido, deve ser constantemente reaprendido por cada geração.
A opinião não é em si um delito, por mais incómoda (ou repugnante para alguém, seja maioria ou minoria) que seja. E a opinião "maioritária" tem que ter em conta e saber respeitar qualquer outra. Isto como é evidente nunca será fácil e, em certos momentos, para certas pessoas, parecerá impossível.
Neste aspecto uma das grandes questões da vida numa sociedade democrática está em conseguir discernir por entre a saudável multidão de opiniões quais delas está disposta a trazer do mundo das ideias para o frio escrutínio da realidade e para o julgamento da História.
quinta-feira, novembro 12, 2009
Visão Plural (2)
Quando o próprio universo sabe a conspiração, todas as nuances parecem pré-destinadas. Então, convém perceber que não existe centro, apenas uma pluralidade de caminhos possíveis.
segunda-feira, julho 06, 2009
Uma Serena Revolução
Em conversa com um amigo o assunto recaiu sobre qual o papel/peso do Estado numa sociedade (verdadeiramente) democrática. Caricaturalmente direi aqui que o meu amigo é um liberal "a la" John Stuart Mill e que eu mantenho algumas reservas assentes essencialmente na ideia de uma fundamental falta de ética nas relações humanas, as quais, à falta de melhor mecanismo, devem ser reguladas pelo(s) Estado(s) à custa de certas liberdades individuais.
No final da conversa, apesar de partirmos de pontos ligeiramente diferentes, chegámos a conclusões idênticas. O Estado deve, no mínimo, garantir a dignidade, cuidados de saúde e educação daqueles que considera (e se consideram!) seus cidadãos. Um dos problemas é a definição deste "mínimo"; na minha ideia, será tanto maior quanto menor for a "preparação" cívica dos seus cidadãos. Não vou entrar em detalhes, até porque existem algumas lacunas de conhecimento que me impedem de ter uma visão global suficientemente fundamentada, apenas direi que o aspecto cultural me parece absolutamente fundamental. Em Portugal um dos principais défices tem origem cultural; existem algumas "ignorâncias" fundamentais que fazem com que a vida cívica (em democracia) não seja elevada ao seu máximo potencial.
Como poderemos alterar isto? Uma Revolução? Sim, mas ao invés de fazermos uma revolução na base da força, impondo uma "visão", um "modelo", uma "filosofia", porque não apostar definitivamente na ideia de dar a "ferramenta" - fomentar o conhecimento e o espírito crítico, ensinar a "pensar" - para finalmente fazer acontecer a tão badalada "revolução das mentalidades"?
Já estou a imaginar os sorrisos e os comentários sobre a ingenuidade da ideia. A ideia é de facto ingénua, mas, é bem mais poderosa que ingénua.
Portugal é muitas vezes (auto)caricaturado como o país dos 3 Fs - Futebol, Fátima e Fado - uma das heranças "pesadas" do "Estado Novo" da qual ainda não nos livrámos. Uma verdadeira Revolução seria transmutá-lo no país dos 3 Es - Ética, Economia e Estatística.
Porquê estas três áreas? No fundo porque além de serem extremamente práticas contêm muito do que explica o que o Mundo foi, é e aquilo que poderá ser. Pessoas bem informadas nestas três áreas terão em si o conhecimento e o poder de entenderem e poderem influenciar o rumo do mundo que as rodeia. Não digo aqui que ignorássemos todas as outras áreas de conhecimento, nada disso, apenas defendo que pessoas armadas com este conhecimento nuclear serão certamente cidadãos formidáveis.
Isto seria, mais que uma Revolução, uma Evolução efectiva e possível em uma ou duas gerações; porque nunca foi tentada?! Boa pergunta...
No final da conversa, apesar de partirmos de pontos ligeiramente diferentes, chegámos a conclusões idênticas. O Estado deve, no mínimo, garantir a dignidade, cuidados de saúde e educação daqueles que considera (e se consideram!) seus cidadãos. Um dos problemas é a definição deste "mínimo"; na minha ideia, será tanto maior quanto menor for a "preparação" cívica dos seus cidadãos. Não vou entrar em detalhes, até porque existem algumas lacunas de conhecimento que me impedem de ter uma visão global suficientemente fundamentada, apenas direi que o aspecto cultural me parece absolutamente fundamental. Em Portugal um dos principais défices tem origem cultural; existem algumas "ignorâncias" fundamentais que fazem com que a vida cívica (em democracia) não seja elevada ao seu máximo potencial.
Como poderemos alterar isto? Uma Revolução? Sim, mas ao invés de fazermos uma revolução na base da força, impondo uma "visão", um "modelo", uma "filosofia", porque não apostar definitivamente na ideia de dar a "ferramenta" - fomentar o conhecimento e o espírito crítico, ensinar a "pensar" - para finalmente fazer acontecer a tão badalada "revolução das mentalidades"?
Já estou a imaginar os sorrisos e os comentários sobre a ingenuidade da ideia. A ideia é de facto ingénua, mas, é bem mais poderosa que ingénua.
Portugal é muitas vezes (auto)caricaturado como o país dos 3 Fs - Futebol, Fátima e Fado - uma das heranças "pesadas" do "Estado Novo" da qual ainda não nos livrámos. Uma verdadeira Revolução seria transmutá-lo no país dos 3 Es - Ética, Economia e Estatística.
Porquê estas três áreas? No fundo porque além de serem extremamente práticas contêm muito do que explica o que o Mundo foi, é e aquilo que poderá ser. Pessoas bem informadas nestas três áreas terão em si o conhecimento e o poder de entenderem e poderem influenciar o rumo do mundo que as rodeia. Não digo aqui que ignorássemos todas as outras áreas de conhecimento, nada disso, apenas defendo que pessoas armadas com este conhecimento nuclear serão certamente cidadãos formidáveis.
Isto seria, mais que uma Revolução, uma Evolução efectiva e possível em uma ou duas gerações; porque nunca foi tentada?! Boa pergunta...
quarta-feira, julho 01, 2009
Interpretações
Viver as nossas próprias palavras é uma "arte" difícil, talvez impossível. Por isso medir o seu alcance torna-se mais imperativo quando usamos a palavra escrita e, assim, deixamos de poder controlar as suas possíveis interpretações.
Quando somos julgados pelas nossas palavras, devemos fazer a viagem interpretativa de quem julga e procurar as conotações "criminosas". Uma vez, e se, identificadas temos duas opções: admitir todas as conotações, contextos temporais e pessoais que possam influenciar a interpretação; ou, ao contrário, apenas admitir como verdadeira a intenção "original" da mensagem.
Qualquer que seja a intenção primeira da mensagem e a interpretação consequente da mesma por outrem, o que interessará no final resume-se à interpretação que cada uma das partes faz e ao conhecimento real que se tem um do outro.
Eu, enquanto emissor, apenas posso dizer com o poeta:
"[...]Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou."
Quando somos julgados pelas nossas palavras, devemos fazer a viagem interpretativa de quem julga e procurar as conotações "criminosas". Uma vez, e se, identificadas temos duas opções: admitir todas as conotações, contextos temporais e pessoais que possam influenciar a interpretação; ou, ao contrário, apenas admitir como verdadeira a intenção "original" da mensagem.
Qualquer que seja a intenção primeira da mensagem e a interpretação consequente da mesma por outrem, o que interessará no final resume-se à interpretação que cada uma das partes faz e ao conhecimento real que se tem um do outro.
Eu, enquanto emissor, apenas posso dizer com o poeta:
"[...]Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou."
Terminator
Tantas vezes temos que gramar estopadas hollywoodianas com monstros de diversa índole com a única preocupação de extinguir a nossa raça... Estes tipos é que, pelos vistos, encontraram o verdadeiro “exterminador implacável”, e não houve John Connor que lhes valesse!
segunda-feira, junho 29, 2009
Criacionismo
O Criacionismo perfila-se não apenas como uma interpretação alternativa mas antes como a explicação inquestionável do Mundo.
No presente o Criacionismo mascarou-se de Ciência e apresenta o "Desenho Inteligente" como a (única e irrefutável) explicação para o aparecimento e desenvolvimento da vida na Terra. Um dos argumentos mais utilizados actualmente resume-se ao seguinte:
1- Informação codificada tem sempre origem inteligente
2- O DNA tem informação codificada
3- O DNA teve origem inteligente
O argumento da "informação" inexoravelmente ligada à "inteligência" é de facto muito apelativo, principalmente nesta nossa "Era da Informação" e, à partida, parece ser um argumento interessante. No entanto o mesmo pode ser dito, por exemplo, em relação ás "Leis" da Natureza que a Ciência tem vindo a estudar, ou ás "constantes físicas" que de forma aparentemente milagrosa pareceram conspirar para tornar o universo que contemplamos possível. Tudo isto de uma maneira ou de outra pode ser considerado como informação "escondida" na Natureza e "inexplicável" e assim "suportar" uma acção divina.
Os adeptos do DI usam e abusam do argumento puramente estatístico dizendo que seria impossível explicar a "Teoria da Evolução" usando a aleatoriedade de mutações do ADN e, com este raciocínio, descartam uma teoria que tem sido observada vezes sem conta à luz do método científico. O argumento puramente estatístico é reducionista dado que não tem em linha de conta as "leis" da natureza, os processos bioquímicos e os factores ambientais que a Ciência já observou e que podem, deixando discorrer o tempo necessário, servir-se da aleatoriedade para criar e eleger algo como o ADN como a base para a Vida na Terra. Por outro lado, não sabemos até que ponto a "matéria prima" da Vida não estará espalhada pelo Universo e que, no fundo, não sejamos todos fruto de um encontro de moléculas extraterrestres com os elementos da "nossa" Terra, atalhando significativamente o processo de "criação" das bases da Vida tal como a conhecemos.
Existem claramente mais perguntas que respostas e isso é um estímulo e não um engulho.
De facto temos muitas "deixas" para deixarmos de pensar e questionar o nosso mundo e voltarmos aos tempos em que o Conhecimento se resumia à simples contemplação e interpretação dos desígnios de Deus.
O mais perigoso no "debate" Criacionismo vs Evolucionismo é o primeiro implicar que deixemos de lado o cepticismo empírico e metódico da Ciência, que nos fez avançar no conhecimento do Cosmos, pela certeza inexplicável da Fé que nos fechou dentro de nós mesmos durante milhares de anos... para quê?
No presente o Criacionismo mascarou-se de Ciência e apresenta o "Desenho Inteligente" como a (única e irrefutável) explicação para o aparecimento e desenvolvimento da vida na Terra. Um dos argumentos mais utilizados actualmente resume-se ao seguinte:
1- Informação codificada tem sempre origem inteligente
2- O DNA tem informação codificada
3- O DNA teve origem inteligente
O argumento da "informação" inexoravelmente ligada à "inteligência" é de facto muito apelativo, principalmente nesta nossa "Era da Informação" e, à partida, parece ser um argumento interessante. No entanto o mesmo pode ser dito, por exemplo, em relação ás "Leis" da Natureza que a Ciência tem vindo a estudar, ou ás "constantes físicas" que de forma aparentemente milagrosa pareceram conspirar para tornar o universo que contemplamos possível. Tudo isto de uma maneira ou de outra pode ser considerado como informação "escondida" na Natureza e "inexplicável" e assim "suportar" uma acção divina.
Os adeptos do DI usam e abusam do argumento puramente estatístico dizendo que seria impossível explicar a "Teoria da Evolução" usando a aleatoriedade de mutações do ADN e, com este raciocínio, descartam uma teoria que tem sido observada vezes sem conta à luz do método científico. O argumento puramente estatístico é reducionista dado que não tem em linha de conta as "leis" da natureza, os processos bioquímicos e os factores ambientais que a Ciência já observou e que podem, deixando discorrer o tempo necessário, servir-se da aleatoriedade para criar e eleger algo como o ADN como a base para a Vida na Terra. Por outro lado, não sabemos até que ponto a "matéria prima" da Vida não estará espalhada pelo Universo e que, no fundo, não sejamos todos fruto de um encontro de moléculas extraterrestres com os elementos da "nossa" Terra, atalhando significativamente o processo de "criação" das bases da Vida tal como a conhecemos.
Existem claramente mais perguntas que respostas e isso é um estímulo e não um engulho.
De facto temos muitas "deixas" para deixarmos de pensar e questionar o nosso mundo e voltarmos aos tempos em que o Conhecimento se resumia à simples contemplação e interpretação dos desígnios de Deus.
O mais perigoso no "debate" Criacionismo vs Evolucionismo é o primeiro implicar que deixemos de lado o cepticismo empírico e metódico da Ciência, que nos fez avançar no conhecimento do Cosmos, pela certeza inexplicável da Fé que nos fechou dentro de nós mesmos durante milhares de anos... para quê?
quinta-feira, junho 18, 2009
Observações...
A observação das relações humanas, independentemente da qualidade transmitida pelo observador nas suas conclusões, permite assestar alguns pontos interessantes.
Ainda que defendido pelo escudo sonoro da “minha” música digitalizada, tive a oportunidade de presenciar com o devido distanciamento mais uma discussão de “princípio” (infelizmente nada de muito elevado, embora este juízo de valor seja algo descabido no presente contexto) entre dois colegas.
Como em muitas discussões deste tipo, as conclusões não se pretendem construtivas e aglutinadoras; temos mais uma espécie de competição que quase inevitavelmente atinge um clímax sonoro – a razão tende a acompanhar quem gritar mais alto…
No final cada ego retira para lamber as feridas tentando reconstruir as certezas e manter a sua integridade mais ou menos intacta.
Mas debrucemo-nos um pouco sobre este estado de coisas. Como se podem eles retirar com as mesmas certezas que tinham no início? Apenas se não se chegaram a ouvir um ao outro. Também poderíamos admitir que ambos têm razão, mas tal soa a estranho e sendo ambos inteligentes tal deveria promover uma aproximação, não um rejeitar mais ou menos azedo e liminar do outro. Por outro lado podemos ter em conta as dimensões egóicas e assim postular que aceitar o outro e as suas ideias implica uma humildade não acessível a todos.
Provavelmente será legítimo concluir, ainda que sob a forma de hipótese especulativa, que a discussão entre dois “absolutos” inevitavelmente se conclui na forma de dois absurdos que se perpetuam…
Ainda que defendido pelo escudo sonoro da “minha” música digitalizada, tive a oportunidade de presenciar com o devido distanciamento mais uma discussão de “princípio” (infelizmente nada de muito elevado, embora este juízo de valor seja algo descabido no presente contexto) entre dois colegas.
Como em muitas discussões deste tipo, as conclusões não se pretendem construtivas e aglutinadoras; temos mais uma espécie de competição que quase inevitavelmente atinge um clímax sonoro – a razão tende a acompanhar quem gritar mais alto…
No final cada ego retira para lamber as feridas tentando reconstruir as certezas e manter a sua integridade mais ou menos intacta.
Mas debrucemo-nos um pouco sobre este estado de coisas. Como se podem eles retirar com as mesmas certezas que tinham no início? Apenas se não se chegaram a ouvir um ao outro. Também poderíamos admitir que ambos têm razão, mas tal soa a estranho e sendo ambos inteligentes tal deveria promover uma aproximação, não um rejeitar mais ou menos azedo e liminar do outro. Por outro lado podemos ter em conta as dimensões egóicas e assim postular que aceitar o outro e as suas ideias implica uma humildade não acessível a todos.
Provavelmente será legítimo concluir, ainda que sob a forma de hipótese especulativa, que a discussão entre dois “absolutos” inevitavelmente se conclui na forma de dois absurdos que se perpetuam…
quarta-feira, junho 17, 2009
Indelicadezas...
Existem pessoas em relação ás quais, nunca percebi exactamente porquê, sinto um enfado enojado e permanente. Uma dessas pessoas ocupa um espaço próximo no meu local de trabalho, assim como que bem (ou mesmo) demasiado próximo; isto torna os meus dias, bastas vezes, processos desgastantes e penosos. Mas tal estado de coisas é um problema meu e, provavelmente, origina-se numa qualquer falha da minha parte… adiante!
Esta dita criatura, voltando de férias, deu-nos o distinto prazer de partilhar um momento pungente e de (alguma) intimidade familiar ainda que, temo, algo indelicado. Disse ele que “ela” (a sua mulher…) “quase chorou” para que o médico o deixasse a ele (a dita criatura que me causa alguns engulhos) assistir a uma certa e determinada intervenção cirúrgica. Isto foi dito com uma ligeireza arrepiante, quase senti pena da rapariga, mas seguiram-se mais pérolas!...
Após a cena de (quase ou mesmo efectivo) “choro” lá foi o homem autorizado a presenciar a dita operação.
“Assistir àquelas séries estilo ‘Nip/Tuck’ ajuda mesmo”, “Vi bué da sangue” e finalmente “Depois daquilo o médico perguntou-me o que é que eu fazia e disse – ‘portou-se muito bem!’ – ah!, ganda homem, penso eu de mim para mim – eh! eh! eh!” – riu-se ele apatetado.
Na verdade a coisa foi ainda mais detalhada, não sei se o conseguem imaginar...
Respirei fundo e continuei… É difícil mas consegue-se…
Esta dita criatura, voltando de férias, deu-nos o distinto prazer de partilhar um momento pungente e de (alguma) intimidade familiar ainda que, temo, algo indelicado. Disse ele que “ela” (a sua mulher…) “quase chorou” para que o médico o deixasse a ele (a dita criatura que me causa alguns engulhos) assistir a uma certa e determinada intervenção cirúrgica. Isto foi dito com uma ligeireza arrepiante, quase senti pena da rapariga, mas seguiram-se mais pérolas!...
Após a cena de (quase ou mesmo efectivo) “choro” lá foi o homem autorizado a presenciar a dita operação.
“Assistir àquelas séries estilo ‘Nip/Tuck’ ajuda mesmo”, “Vi bué da sangue” e finalmente “Depois daquilo o médico perguntou-me o que é que eu fazia e disse – ‘portou-se muito bem!’ – ah!, ganda homem, penso eu de mim para mim – eh! eh! eh!” – riu-se ele apatetado.
Na verdade a coisa foi ainda mais detalhada, não sei se o conseguem imaginar...
Respirei fundo e continuei… É difícil mas consegue-se…
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