sexta-feira, agosto 31, 2012

colapsar


o cacto tem má fama.
não bastando que suplante a aridez dos desertos,
bem como doses bastardas de solidão,
para que se lhe atenue o ditado podre
dos homens.
a luz vagueia indecisa por fronteiras sombrias,
e o cinzento que se insinua finalmente em preto
sabe mais de todos os trejeitos desta,
no seu remansar de quase eternidade,
que o sol
esse despudorado esbanjador.
eis-nos
nestes precisos dias
perante o maior colosso da humanidade
- a exponencial inquebrantável
da estupidez!...

quinta-feira, agosto 30, 2012

labirinto


a matéria que me faz
desmemoria-se em um pó ubíquo,
e exala inquietações agudas,
porém,
sem definição precisa.
correm céleres imagens epilépticas
e os sons despegam-se em mil despudores sem propósito.
observa-se,
talvez sem o devido e respeitoso comprometimento,
o seguir de subtilezas inanes
sustento que são agora
da mecânica inteira
e indiferente pois sumamente presumida
dos dias.
aqui e ali exacerbam-se gritos,
abafados pelo peso de um cinzento musculado;
são como crianças dobrando esquinas
a quem negam o estrépito inigualável da surpresa,
e o desconhecido é um medo
de onde se esqueceu a esperança
e de onde a dor sussurra
então
como senhora de toda a parte.
não se julgue tudo pela crueza infantil de um final,
seja sonhado,
seja feito,
é no meio das coisas que a dúvida se agudiza nas carnes;
aqui descalçarei os sapatos,
os pés farão a procura de um caminho
sentindo-o na dureza dos factos
que não sabem fazer promessas.

sexta-feira, agosto 03, 2012

passos na calmaria



é uma matemática descuidada
aquela que conta pelos dedos
a passagem dos dias sossegados.
a matéria que se postula
até nos sonhos de homens ociosos,
cria no mundo portentos imprevisíveis,
enquanto o sol,
numa indolência que aborrece almas mais exigentes,
teima na sua curvatura estável
insinuando por isso,
nos desejos discretos dos homens pios,
um anseio de imortalidade.
A forma como os tempos correm
tem destas coisas
que conluiam por se perpetuar iguais,
mas vai inspirando diferenças subtis
vibrando no seio de cada átomo
que se agrega a um outro qualquer,
para que,
mesmo sob o ditado das leis naturais,
a surpresa nos morda
demudando o tédio da certeza
na feliz inquietação da dúvida.