terça-feira, novembro 30, 2010

Contagens

É como se da memória
pingassem os momentos,
um a um,
lentamente,
como num adágio
discorrendo as escalas inefáveis
da minha possível felicidade...
Procuramos cunhar a vida
com os rótulos mais fáceis;
olhar o sentimento à lupa
é o mesmo que medir a dor,
contando lágrimas...

sexta-feira, novembro 26, 2010

Sei que não...

O silêncio é uma forma dorida
de cavar distâncias,
sangrando a terra que nos incarna
sob os passos
que numa dureza cruamente alienada
nos perdem.
Talvez a noite
permita escutar os murmúrios
inaudíveis no bulício do excessivamente luminoso,
talvez...
E talvez esses sussurros doces
transportem aquele nome sonhado perfeito
no perfume quente que nos invade
e que apenas a saudade
sabe, tão bem, excitar...
Talvez possa, então,
simplesmente respirar
sem urgências ou descontrolo,
na calmaria das coisas que imaginamos resolvidas.
Talvez...
Talvez tudo possa ser mais simples,
talvez...
Mas sei que não.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Visão

Sou um corolário de esperas,
um passadiço que se perde,
em toda a sua fragilidade,
num horizonte brumosamente indistinto.
Sou uma dor que fica a meio,
entre os teus olhos
e a nudez incómoda do que,
tanto e tão confuso,
sinto.
Um vento gélido anuncia,
finalmente,
a vontade cortante dos deuses que imagino
para conforto precário das minhas dúvidas.
A bruma dispersa fugaz,
revelando um súbito mar luminoso
incendiando o olhar.
Por vezes a Luz
é a dolorosa medida
da nossa constante cegueira...

sexta-feira, novembro 19, 2010

A Meio...

Não é a distância que nos magoa
mas a ausência que nos dói...
E quando o presente se acinzenta,
pois as cores alegres se condenam ao degredo,
resta o refúgio iluminado da memória
evocando, quais ecoados murmúrios,
o som do que já foi perfeito
e a ideia esperançosa
do que ainda poderemos ser.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Não te percas no Destino, compromete-te tentando

Procuras nos ventos
mensagens dos deuses,
mas os deuses estão mortos
e o coração humano,
outrora sujeito aos caprichos mesquinhos dos elementos,
motor subtil  que ousou mover montanhas pela vontade,
anuncia agora um compasso diferente.

Hoje, o cinzento do dia
promete outro dia cinzento,
e a luz do sol
é fonte de energia
e já não evoca poesia.
O mundo não te permite parar
e se paras
é para que sintas um castigo
definitivamente mecânico.
E no entanto,
o vórtice estonteante que nos consome
é ele mesmo fonte de estímulos,
de prazeres ignotos,
de esperanças por sonhar.

O universo esconde-se
nos interstícios do tempo
e nas texturas porosas,
grandes e ínfimas, do espaço,
e tudo isto se enrola
num labirinto
aliciando a mente à descoberta
de cintilantes surpresas
que iluminarão, sem dogmas,
todas as hesitações da busca.

terça-feira, novembro 16, 2010

Mito

Havia uma flor isolada que numa bravata desmedida se opôs ao ritmo das Estações e às voltas cegas do Tempo.
Protegia-se do vento ignorando as suas rajadas com a força que lhe advinha de apenas o desejar, abraçava com tal vontade todos os raios do Sol que este, fatalmente, se apaixonou, jorrando-lhe amorosamente toda a sua luz.
Os céus, comovidos, choraram-lhe delicadamente a água e os solos, por baixo, deram-lhe sem descanso tudo o que tinham.
A flor finalmente cantou o seu perfume sublime, pacientemente colhido de todos os momentos passados, tanto dos seus como dos partilhados, harmonizando os elementos no seu desejo férreo de ser eternidade. Mas neste preceito, entendeu por fim o lugar da decadência, pois, atingindo um tal pináculo de perfeição, o mundo desequilibrou-se em todos os seus outros pontos e engoliu, sôfrego, aquela perfeição singular, perdendo-a assim para sempre.
Mas se a perdeu, à perfeição feita flor ou à flor perfeita, a ideia, junto com a memória, inevitavelmente floresceu. E se naquele ponto singular se perdeu essa entidade única, por todo o lado é agora memória, perfume, desejo e esperança.

segunda-feira, novembro 15, 2010

A Luz da Manhã

A luz desta manhã
como de todas as outras manhãs
trouxe-me a novidade
e renovou-me a angústia.
Pois se iluminando,
aquece e conforta,
força contudo
um necessário desconhecido.
Não é o medo que me tolhe,
aquele medo mesquinho
que suspende com um toque subtil
de frio terror
aquilo que há de vir,
mas antes a inevitabilidade da perda,
imensamente mais certa
que qualquer parca forma de felicidade.
Leio cada nova manhã
como uma carta que chega
com um cheirinho anunciando
a saudade.
O resto fica em suspenso,
o resto virá mais tarde.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Nunca Tenho Tempo Para Nada...

O Tempo exige-nos toda a urgência de ser, cada passo inexorável seguido de outro inevitável, ou assim aparentando, postulando-se o absurdo de uma eternidade que o justifica e na qual julgamos encontrar algum conforto; nem que seja apenas pela ilusão de, dentro dessa infinidade, ser possível que tenhamos algum momento, "apenas" para nós.
Se ontem o tempo faltava, hoje já sabemos que não basta, e agora, neste preciso momento, qualquer insignificante distracção parece um sufoco, mas, em boa verdade, altera muito pouco, ou mesmo nada, a multiplicidade de urgências que cada um nós dentro de si mesmo transporta, e, ainda menos, aliviará o pânico de morte que sentimos por saber como certa, irremediável e fatal, a passagem do tempo.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Onde Ainda se Escutam Sorrisos e Sombras

O sol arrasta as coisas do mundo até às sombras
que cobrem em escurecidas insinuações
as paredes brancas, fronteirando a privacidade
de quem atrás delas se acoita
dos olhos do mundo.
O vento então fala,
na resistência sonora que lhe fazem
as coisas que dependem, mesmo que vagamente,
das bênçãos desinteressadas da terra.
E nesse vale onde o bulício da restolhada
faz esquecer o ruído da mecanicidade urbana
o sorriso escuta-se
na serenidade que o vento sopra
e o sol, num abraço quente,
suavemente o contorna e estampa,
sem egoísmos ou distracções,
no sussurro demorado das sombras...

terça-feira, novembro 09, 2010

Sobre o Cansaço

Encontramo-nos quando cruzamos os passos,
inadvertidos ou previstos,
por caminhos de escolhas parcas...
E o amor, esse nada escolhe,
e esconde muito pouco no pudor
que docemente o acoita.
Apenas persegue um sentimento límpido
que se suplicia nas tormentas da dúvida
com que os dias nos castigam.
O cansaço é a herança
a que a vida sucessivamente nos sujeita,
e a incerteza é o prémio
que nos espera a cada passo.
Para lá de certos e de incertos,
do esforço inglório, finalmente da morte,
existem momentos nossos
pois partilhados com outros
que se tocam na faísca das paixões
ou no sublime conforto do amor,
e em cujas memórias
vibramos e fazemos,
e faremos certamente, a vida.
Pelo menos a vida que interessa,
aquela que vale a pena viver.

segunda-feira, novembro 08, 2010

Alguns Momentos

A saudade embrulha-se numa dor
que faz agudamente presente
o que sentimos ausente.
As lágrimas,
quais arautos do momento,
caem com estrondo
nos lagos salgados do desapontamento.
O mundo não se perde no meu desconsolo,
indiferente assume o seu rumo desconhecido,
mas por vezes, sem aviso,
os seus passos encontram o meu caminho
e no perfume de uma rosa,
na graça de uma deusa,
num simples olhar que sorri,
expõe-se a fonte da minha dor
a uma esquiva carícia que aplaca
o desassossego que, perene, me descreve.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Ciclo

Degradam-se as flores
quais testemunhos do inevitável
enquanto os limites se acanham
na monotonia do tempo que passa.
O caule dobra, fenece,
o perfume evola e perde-se para sempre
no ar que indiferente
o reduz a uma distante memória.
O botão, antes belo e deliciosamente frágil
é agora um espectro acinzado,
figura hirta, seca,
cheirando a conclusão...

Todos os finais
excitam uma profunda melancolia,
e por cada caminho que se cerra
a vida reinventa-se noutro
que seguirá, pujante e fraco,
vulgar e sublime,
até ao altar
onde o sacrifício necessário
regenera o Mundo...

quinta-feira, novembro 04, 2010

Gradações

São azuis os momentos
em que o vazio acaricia o silêncio
enclausurando as formas
com que o espaço engole o pensamento
para depois o parir, em maior perfeição...
São rosa aquelas alturas
em que o ar se perfuma
na insinuação dos teus passos,
em que o espaço se dobra em si mesmo
como que prometendo aconchego, consolo...
São verdes as paisagens
que adornam o horizonte
onde a esperança ilumina
os meus tantos sonhos e devaneios
dos quais o mundo teima troçar...
São arco-íris os passos
na companhia daqueles
que me sopram um viver quase perfeito
onde tudo o mais se funde
e cresce
nos caminhos e nos sentimentos...
São cinzentos que tingem as tensões,
quebras, prisões e perdas
que estropiam o sossego
e se promovem num sofrimento absurdo.

Tudo isto me constrói,
tudo isto me faz,
tudo isto sou eu.

Sem luz,
um nada,
se queda o resto.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Despertar

Estranho as entranhas dos sonhos;
descem como véus enredos desconexos
acariciando desconfortavelmente
uma pele imaginária que se excita.
Brisas fantasmagóricas
percorrem sem obstáculo real
as atmosferas onde se ilude o presente,
são como rochedos escuros
recortando abruptamente um céu impossível
e sangrando a delicada película
que aparta os pensamentos
do que corre no mundo.
Imagino como um certo olhar alheio
se concentra num pormenor
das coisas que, de certo,
num outro momento me escapou.
E por esse filtro estrangeiro
leio impotente
desejos imensos e sentimentos profundos
eleitos em uma vontade diversa.
Nestes ocasos espontâneos
a realidade corrompe-se e coroa-se
num movimento perpétuo
de impossibilidades,
e o mundo finalmente se espanta
no olhar e nos actos de quem,
por fim,
desperta!...

terça-feira, novembro 02, 2010

Caminhando

Escalei montanhas inventadas,
vi o mundo de pináculos impossíveis
onde num ar despojado de pesos
as ideias se fazem senhoras do Tempo
enganando a Morte
por labirintos de utopia.
E à verdade,
esbocei-a levemente entre dores e pecado,
lavada em prantos desvairados,
traçada por gargalhadas soberbas!
Submeti, ilusoriamente, todos os meus defeitos
a uma sobriedade asceta,
marcada na solidão
por engodos cavernosos
e compromissos murmurados,
celeremente traídos
nos caminhos precisos da realidade.
São todas as ilusões
vontades entorpecidas
pela confusão das alternativas,
promessas e impossibilidades;
o futuro promete-se enquanto véu
seduzindo com sonhos
e matando, subtilmente, com a excessividade
da Luz...