segunda-feira, outubro 31, 2011

[a]fatalismo


Quanto nas cores se confessa o dia?
As folhas castanhas do Outono
contam o fado da decadência
como se de um nome apenas
exalasse precisa
a nomeação da senescência.
É inútil desejar a Primavera
mesmo que o nome
imortalize a vitalidade;
o mundo não se compadece disso.

Da inutilidade física
desse fatalismo a que cheira a realidade
promoveu-se o estranho perfume do sonho
a mortificação idílica do desejo
e a memória
referência suprema daquele que sonha e deseja
mesmo que indiferentes lhe sejam
todos os ciclos do mundo.

Tanto no desprovimento do Inverno como na prolixidade da Primavera
germinam desejos e sonhos.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Seis Confissões


I
A memória é como o som de passos pequeninos
eco de risos infantes
trespassando o coração da indiferença.

II
Situados acima do horizonte estão os teus olhos
brilham com a certeza que reconheço impossível
das coisas que medram dos átomos da simplicidade.
E como simples as classifico humildes
e como humildes as sussurro quais verdades universais.

III
A manhã segue-me após a noite com uma inevitabilidade mortal
e cada mutação entre o Sol e a Lua
soa como um "tic tac" ineludível
universalmente disposto para mim
oculto porém da intelecção mundana.

IV
Esgotam-se lá fora as gotas em chuva intensa
e em cada uma zune uma sílaba
marcando o passo do poema inteiro
que passa pelos dias de Inverno.
E nesta cadência imersiva
distinta
e minha
escuto um outro compasso
aquele que ritma dentro do peito.

V
É toda esta sequência uma promessa;
após o poema da chuva
virá outra coisa
e aí reside toda a esperança.

VI
Eu mudo na mudez própria da minha solidão
sabendo que sendo fundamentalmente só
tenho mãos que dão e tocam
braços que erguem e abraçam
lábios que beijam
e lágrimas
e sorrisos
para juntar tudo isto.

quinta-feira, outubro 27, 2011

Micro Ensaio sobre a Canseira


Queixas-te da monotonia
da canseira profunda dos cinzentos.
Sabe pois que existem sorrisos perfeitos
mesmo quando apenas os vês
a "preto e branco"...

E agora imagino-te diva
doando ao mundo o teu corpo
num espreguiçar atávico
anacronicamente descolorido
e sensualmente variado.

E agora imagino-me sorrindo
e tu sorrindo de volta.
E assim se faz impossível
cansar-me do mundo
mesmo que apenas sorrias
a "preto e branco"...

quarta-feira, outubro 26, 2011

Julgamento


São estrangeiros os olhos que me julgam
como exteriores são também os dedos
dos quais
talvez
deseje em segredo
tanto carícias quanto sedução.

Na distância a que ficam os horizontes
o troar de tumultos abafa-se
quase se esquece
e o desassossego é apenas um perigo latente
longínquo
afastado do cerne dos medos.

São os meus desejos
assim
como preces infames
rogando clemência a uma deusa
entre pia e ímpia
que me ame para além de véus e sombras.

Fecho então os olhos
com força
e assim
de um falso negrume profundo
insinuam-se-me
impossíveis e paradoxais
os contornos últimos da perfeição.

terça-feira, outubro 25, 2011

Do Que Tu Não Vês


O vento não passa
por essas flores que imaginas
e os risos que sonhas
soam a coisa nenhuma.
E mesmo assim choras
por dentro
e quem para ti olha
não vê sofrimento
apenas a luz serena
que brilha no olhar
sujeito principal
dos motes emudecidos
da esperança.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Temporário


Sentado no topo
encontra-se o Tempo
velho e mudo
enquanto o resto tudo
passa num jorro sem sentido.
E estando figurativamente ali
não é separado
mas uno
com todas as coisas.

A seiva do universo
germina de toda a sorte possível de eventos
num vasto teatro desinteressado
palco de passos e pensamentos
vestes e corpos
num molde entrópico
de interacções materiais.

O sol nasce
mas não o conhece
e ainda menos o sente;
e quem assim o julga
perecerá num ápice.

Do centro da Galáxia aos nossos olhos
concentram-se
nos elementos da Luz
sem nada querer com sentidos ou razões
desejos ou desvarios
tantas histórias mais
que todas quanto somamos
a essa ousadia temporária
a que entregámos o nome
História.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Escravidão


Os segredos manipulados;
as sombras que se mexem
frenéticas
sem rumo
arte
ou ciência aparente
nas paredes confusas
que tudo envolvem.

A ignorância suprema do medo.

Contam-se as pedras como entulho
apenas
engulhos vários
asfixiando inercialmente o futuro.
Há um cansaço definitivo nas fronteiras de quem sente
degradando-se na vileza
zombeteira dessa decência vítima de opressão externa.

Há quem lamente
amparando os olhos nas mãos rudes
construtoras mecânicas
do presente afastadamente opulento de outrem
sem provisão própria
de esperança
de luz.

A indiferença é um mote dorido
nesta ladainha mortífera
levantada de um chão desolado
por espíritos sem tino nem fito.
É certo
nos desertos também brotam flores
mas nos desertos
morre-se muito mais.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Luta


Enquanto entregas as mãos
a esse teu colo de realidade
a realidade
ela mesma
desvela-se numa sensual ilusão.
Eu trago um futuro nas minhas memórias
e como um dique instável
sinto a premonição ruidosa do passado
destroçando as frágeis linhas
do que por agora nos mente.
Ergueste um punho de coragem
talvez possas depois sorrir
mas agora
não é tempo disso.

quarta-feira, outubro 19, 2011

O Sentido (3)


Foram outrora remos
e velas
a rasgarem o Desconhecido
e sob o signo de um desenho divino
afastaram-se as fronteiras do fim do mundo
desvelando o despropósito de tudo.
Foram outrora braços voluntariosos
que elevaram pedras
e levantaram templos
a deuses sedentos
apenas
da riqueza humana e dos recursos da terra.
Foram outrora enganos
que hoje nos traem os ossos;
amanhã vencerá
em toda a probabilidade
mais um engodo
agora
não havendo desígnios exógenos
não há propósito melhor
que o amor que sentes.

terça-feira, outubro 18, 2011

O Sentido (2)


Entre o espiritual
e o concreto do chão
consome-se
gentilmente
ou dolorosamente
o modo de as coisas serem.
De versos
se constrói o poema
e neles
em todos eles
se consome o poeta.
A viagem do mundo
consome-se em pedras
e o sentido
encontra-se
apenas
em cada um
e em todos
nós.

O Sentido

segunda-feira, outubro 17, 2011

Relatividade


O homem na capa
não é o homem na capa
o homem que olha
não vê aquilo que os teus olhos imaginam visto.
O absurdo de algumas palavras
não torna coerente o restante do mundo.
E se todas estas margens se relativizam
moldando-se em interpenetrações múltiplas
com pensamentos, sentimentos
vontades, submissões
enfim
não se conclui forçosamente
que tudo se iguale
nem que tudo se diferencie
fundamentalmente.
O espaço entre fases é
talvez
apenas combustível  da loucura;
os preceitos do movimento
anulam-se entre si
e o motor alimenta-se
por fim
no golpe libertador
da Consciência.

sexta-feira, outubro 14, 2011



Ser feliz.
O que é a Felicidade?
A pergunta é ela própria... feliz?!

Ainda consigo recordar, difusa, aquela nota precisa que me comoveu outrora.

Vejo claramente, agora, o quanto se engana o sentimento e então
É a vontade, entre outras imagens, descuidos e desvarios vários
Unívoca referência das distâncias metafísicas, e morais, entre todos quantos são.

Sendo feliz
Omito o passado, esqueço-me de sonhar o futuro, não há precisão
Agora estou aqui, sendo feliz... Assim.

A presença é a miragem, a miragem é tudo, agora, nada o logo após, enquanto ainda o não é.

Num pedestal está, o tal mundo, aquele que vêem meus olhos
Anelado numa certeza inequívoca
Demoradamente presente, demoradamente o Presente...
Afinal, onde estou eu?

Quando te sentas, finalmente,
Usas da calmaria num concreto lugar
Estremecendo por dentro ou simplesmente suspirando.

Mantém então esse zelo íntegro
Essa vontade soberba que sustenta a vastidão que desconheces.
Rebela-te e grita!
Defende-te e destrói os ícones fáceis!
Ah! És no final, tudo! - mesmo sendo nada; ilude-te, desilude-te, mas vive sem grilhões!

quinta-feira, outubro 13, 2011

os Passos


Esconde-se entre as rugas da terra que piso
uma espécie de vergonha que se tumula em cada passo.
É um sentimento disperso e baixo mas não totalmente impuro
que progride em lentidão pela memória que se faz depois
como se a razão que logo lhe assiste seja somente enquanto futuro.
Deixei de contar os cabelos brancos
mergulhando naquele fatalismo informe
que define o desmame desse outro conceito tolo que nos sonha eternos
e de todas essas outras formas desconexas e pueris de ser
a que nos damos pelo cheiro até nos acharmos finalmente velhos.
Não é um compasso de morte nem um preciso fim de caminho que se pressente
é antes a calma improvável e parcimoniosa de quem já viu morrer o quanto baste.
Todas as estradas servem pelo menos um destino
e raramente este se casa com as sortes dos perdidos que por lá seguem.

Seca então as tuas lágrimas
irmão
e sorri comigo.
A vontade que nos fez não é mais um limite
mas uma esperança fundada na memória
e o futuro
qual seja
sabes bem
está logo ali.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Erodido


Nem suavidade
nem calmaria
se finaram
perdeu-se
antes
a forma ingénua
que se comovia ao senti-las.
Hoje ocorrem enxames de medo
perversões de outros
com que outros ainda
mais nos sufocam.
São hoje céleres os abismos
a que destinamos os dias
e o que se erodiu
na verdade
não foram as coisas em si
mas antes
o nosso sentimento delas.

terça-feira, outubro 11, 2011

Esquecidos


Existe uma noção perdida
nos passos do tempo
talvez...
Existe um agoiro presente
nos caminhos do dia
que descuidado se grita
querendo-se mais do que é.
A moda dos motes
soa constante
e perde-se
inefável
na poeira dos argumentos.
Antigamente as gentes juntavam-se
e juntas
tocando-se
bebiam as palavras dos velhos.
O sonho fazia-se no deleite das horas.

A memória persiste
mas o esquecimento
tem por aliança
a entropia.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Abismo silencioso


Encontro
nos locais da minha perdição
um conforto estranho
e um caos torturante.
Como se no próprio instante
se fizesse excessivamente claro
um sentir raro e calmo
e desejo
puro
consumindo o infinito.
A decisão enferma de uma pequenez pecadora
de uma meticulosa demonstração de humanidade
a noite cai-me
e a solidão toma uma cor inconfessável
tingindo a ilusão da alma
numa paz impossível;
aguardo notícia de um abraço
talvez menção de um beijo
mas a resignação sussurra-me
a fatalidade de tudo isto.
Todos os sons que me envolvem
chamam aquilo
que para outros apenas tangencialmente se insinua
e que
para mim
é um desenho perfeito
precisamente dimensionado
de um abismo.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Obscuro


São os acasos
paradoxos caminhantes
dessa outra pose
antítese assumida
da fatalidade.
Nascemos num incompleto centro de tudo
factualmente sós
na multidão dispersa dos átomos
e do outro.
Crás se lembrará no discurso
o contorno da explicação
pacientemente escrutinada
pelas mentes
que numa teimosia pueril
barram
a inevitável maré da distância.
São os acasos
o mote final do poema
ainda por escrever
e depois
a luz cessará
no silêncio.