Sinto o enleio dos sentimentos
nesta clausura amorfa que simplesmente acontece
a cada novo sol.
Fecho os olhos
e imagino um céu cuja luz abandonou as sombras
e de onde se sente um sopro
que leve e mornamente nos toca a insinuada presença da pele;
sabe o ar que aí mora
ao desmaculado sentir
que suponho povoar os picos impossíveis
de montanhas ideais, intangíveis,
não o recebo qual lâmina gélida
torturando a indolência dos sentidos,
mas como uma brisa desenhando
a forma de um perfume divino.
No leito sensual dos sonhos
é a paixão conforto,
e o tormento
nasce na calmaria,
pois é do mais secreto dos desejos
que se alimenta o fulgor da alma;
apenas sonhando
pode a paixão ser outro algo
além desassossego
transmutando a quietude numa espécie de morte
carpida, quase sem voz, nos murmúrios da resignação.
Sonho coisas, ideias, impossíveis
- pois sim,
mas de outra forma estaria por certo morto,
vítima da vertigem imensa
norma das coisas (absurdamente) serenas...