quarta-feira, março 30, 2011

Movimento duvidoso

Eu não sei por onde se esconde o medo
para que dele não veja a sombra
até dele ter sentido já, o arrepio...
Viaja o medo pelos fios dos meus nervos
até me ver cair no gelo da decisão,
e num momento,
entre arremedos de astúcia
e um ignoto fatalismo,
rumar a mais um sonho
levado nos passos
que,
depois de dados,
se acham inevitáveis.

sexta-feira, março 25, 2011

Violência

Fazias um gracejo inocente,
qualquer coisa, um não sei que mais,
sobre como sou assim tão indolente...
E hoje o que nos dizem os jornais
enforma uma loucura colectiva
que notoriamente se efectiva
na morte da indolência burguesa...

Que venha a Revolução Francesa!

A violência é, bem sei, um mal
mas há quem a mereça afinal...

quinta-feira, março 24, 2011

Crises...

Os desaforos rolam na fúria incontida,
contida agora em segundos imparáveis.
A memória arroga-se,
nos seus abismos humanos,
de direitos e soberbas,
deslizando com fel
por caminhos de exagero e omissão.
Morrem as ideias
sacrificadas aos gritos vazios da circunstância.
Uma chusma demagógica
cola-se ao tecido do mundo
e o seu som perturbado
confunde quem se força a escutar
até
quiçá
ser tarde sem remedeio...

Talvez, por entre a tempestade dos índices
e a mecânica viciada que dá a quem tem
tirando dos cada vez mais, nadas...
Talvez,
possa ainda existir
a vontade decente da consciência...

terça-feira, março 22, 2011

Olhares...

Quem olha vê coisas que outros olhos verão, mas verá mais e menos, tudo e nada, vibrações e finas linhas imóveis tecendo histórias diferentes em mundos idênticos; trocando os mesmos átomos mas excitando-os com paixões diversas.
E o silêncio.

sexta-feira, março 18, 2011

Subtilezas...

As palavras sabem-me ao sangue
que o momento moribundo me dá;
e languidamente os segundos que o matam,
desprovidos de sentimento,
sem mancha ou remorso,
rasgam-lhe a pele cúmplice
que se oferta ao despudor fatal
que toda a urgência implica.
O que a mão acaricia,
não sendo de todo ilusão,
compreende bem menos
que o mais singelo dos sentimentos
revela
na pouquidade enganosa de um gemido.

quarta-feira, março 16, 2011

Pistas...

Os senhores de toda a razão
transformam as fronteiras difusas
que conformam o frágil copro das coisas livres
num cárcere duro,
num agreste e inóspito degredo,
onde a dor fala
e a incompreensão grita
com a voz de quem se vê
desesperar.

O falso e o verdadeiro
escondem-se nas cegas fábricas do cosmos
amalgamando numa indiferença permanente
a dúvida e a certeza
com o trajecto da vida.
São árduos os caminhos do pensamento
e extenuantes os desvios profícuos do sentimento;
nada somos além de passos
vontades crescendo além-corpo,
vontades de ser
universo,
vontades de construir
liberdade.
Vontades
tão somente...
E tão mais que isso!

sexta-feira, março 11, 2011

Padrão

Meço-me perante as medidas ideais
das metas que invento
no resguardo que continuadamente se agasta
em todas as minhas tentativas
e por todas as coisas por mim falhadas.
São os momentos corridas,
promessas e mentiras,
verdades incertas, dúvidas tíbias,
alimentos de loucura,
porventura ténue inflexão de morte.
Sei que aquilo que simplório chamo sorte
procede numa neutra indiferença
nos intervalos anestesiados
que sentem as minhas crenças;
sou hoje incerto pensamento
do que ontem tinha como certeza,
e por certo,
amanhã serei menos preciso,
ainda que, sonhadamente, possa ser feliz.
Talvez nisso resida o verdadeiro saber,
feito de uma aceitação inquieta,
um interminável jogo de aproximações,
das alegrias e dos escolhos do mundo.
Creio o maior dos sábios
como o mais simples dos sabedores.

quarta-feira, março 09, 2011

Logro

Sinto o enleio dos sentimentos
nesta clausura amorfa que simplesmente acontece
a cada novo sol.
Fecho os olhos
e imagino um céu cuja luz abandonou as sombras
e de onde se sente um sopro 
que leve e mornamente nos toca a insinuada presença da pele;
sabe o ar que aí mora
ao desmaculado sentir
que suponho povoar os picos impossíveis
de montanhas ideais, intangíveis,
não o recebo qual lâmina gélida
torturando a indolência dos sentidos,
mas como uma brisa desenhando 
a forma de um perfume divino.

No leito sensual dos sonhos
é a paixão conforto,
e o tormento
nasce na calmaria,
pois é do mais secreto dos desejos
que se alimenta o fulgor da alma;
apenas sonhando
pode a paixão ser outro algo
além desassossego
transmutando a quietude numa espécie de morte
carpida, quase sem voz, nos murmúrios da resignação.

Sonho coisas, ideias, impossíveis
- pois sim,
mas de outra forma estaria por certo morto,
vítima da vertigem imensa
norma das coisas (absurdamente) serenas...

terça-feira, março 01, 2011

Teu

Já não me vejo para além de ti,
e os teus silêncios são como véus implícitos
adormecendo a luz que conforta o que sinto.
Não sei como adivinhar as palavras
que seriam por certo justiça na tua voz,
são talvez como sonhos que se sonham pelo sonho adentro
e sendo assim se dotam desta fatalidade incongruente
das coisas que jamais se farão passado.

Adiante,
(invento, talvez) uma hesitação nos teus lábios mudos,
um trejeito inocente
que se morde quase imperceptivelmente...
e aí mesmo ouso a possibilidade de um beijo,
um grito furioso de tempestade!,
e não é mais isto que um desejo,
um desejo de ser
para ser
só teu.

Teu.