terça-feira, outubro 20, 2015

descontinuação

a estrada
os espinhos
as arestas.
algures um raio de sol,
rasgando a pele
quase líquida
deixada pela noite.
eu meço a densidade impossível
do sentimento,
essa robusta parede rugosa,
enquanto a memória dos olhos
humedece em um prelúdio barroco.
a estrada
os espinhos
as arestas;
insinuação de ti,
alusão de mim,
mais nada.

sexta-feira, junho 12, 2015

imprecisão

por vezes procuro ser vão,
apenas viver
sem buscar um sentido.
estar como as pedras,
talvez como as flores;
sucumbo a esta soberba sem decoro:
como se vãs fossem as flores,
ou menos úteis que eu,
as pedras.
ganho instantes exaltados
no raiar impreciso de um olhar,
no invento desmedido de um sorriso
que foi,
tão somente
e nada mais,
que um esgar sem motivo;
até volver desse gaudio passageiro,
ao espaço labiríntico
deste presente sem lustro,
que pinga
o eco de cada segundo.

sexta-feira, março 06, 2015

tudo isto é fácil por certo...

é fácil,
facílimo,
perder noção do momento
"certo".
a paisagem também mente,
escondendo na brisa,
na folhagem dobrando com vagar sem senso,
o jeito preciso de como passam os gestos.
eu recolho a nota aguda com que perscrutas;
noto a subtileza de um segundo,
em que o pó esvoaçou numa espiral nortenha,
segui-o distraído e perdi aí
o sentido
desse mais profundo e comovente
dos teus gemidos.
é de resto uma montanha com altura,
e arestas,
de rasgar as nuvens mais altas,
onde assoma a minha ignorância das coisas simples
que dizem ser a verdade.
pode ser que tudo se consuma num intervalo insignificante aos homens,
ou tudo se reduza ao modo como o vento,
enquanto brisa e não tormenta,
vai espalhando o mundo pelo mundo
sem pressa nem propósito,
sem pensamento
nem tormento.
pode ser tudo quanto quiseres,
que nada será assim mesmo.

tudo isto é fácil por certo...

terça-feira, fevereiro 24, 2015

sem tido

acordas morosa
todas as manhãs;
acordas com manhas
de gata;
acordas ao jeito
de uma intemperança divina;
acordas como se o mundo se finasse
esta noite;
acordas
e eu fico-me numa caligem sonolenta,
sem a convicção imperiosa de ser
na palma das mãos.

senti o veludo da tua pele,
na ponta dos meus dedos;
senti o efémero prazer
das carícias trocadas
neste agora já,
que logo-logo acaba de ser;
senti o pavor inexplicável de esquecer,
de perder os detalhes agudos do momento.

acordas no afã sem cessamento dos dias
que correm sem destino;
e eu fico assim olhando,
calado,
pois todas as palavras
soam-me,
todas,
trôpegas.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

cortei-me vagamente na lâmina dos teus olhos

temporário na forma
suspendo o teor do momento
na beira da fraga resoluta
cortando a direito o músculo do caminho.
a rectidão é uma espécie de remédio
e a santidade geme solitária
enquanto o corpo se curva no estiraçar dos segundos.
amanhã postular-se-á o preceito
para um novo teorema do ser.
antes porém,
será de conveniência que se pesquise
alguma decência...

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

jus

o avançado ditou no espaço vazio,
dois passos céleres sobre o corpo esvaído
de uma vaca com cio.
resumindo,
amiúde,
a ressalva contínua do momento,
resolve-se equacionando um calvário pendente,
balançando de um filamento
de desvarios.
consola por entre dois poros:
um quieto,
o outro afanado,
um brilho azul palpitando quente
enquanto por outro lado
se perdem demoradamente dois porcos
fitando os fluxos da alta finança.
ele regressa,
ela parte,
ele fica,
com tanta coragem circula
que a tomo,
olhando,
por gula.
a vontade quieta,
nos olhos forçosos de extensa dieta,
ajoelha um pedido;
ele parte e ela rege,
um bate o outro geme,
dois ovos crescem no horizonte.
era o adeus que vias
na curva do arco-íris.
que merda!

terça-feira, janeiro 27, 2015

o pastor ateu 4

eu vejo o horizonte,
lá longe,
mordiscado pela humidade da manhã,
semiescondido pela névoa
esvoaçando numa lentidão sem rumo.
e vejo por isso cores
parceladas numa curva do céu.

aí alguns imaginam um deus,
benigno e calmo,
desenhando a dedo invisível
os passos perfeitos do dia.
eu não vejo nada disso,
vejo apenas as gotas,
e vejo só como o sol as toca,
sem vontade disso ter,
sem isso sonhar ou querer,
e vejo como o calor transforma,
e vejo como a luz prisma...
e sinto,
sinto tudo isto enquanto inspiro
quase chorando...

estou então vivo!
palpitando sentimentos,
sensações,
calmaria.
não cuido de preces,
não quero pressas.
respiro.

sexta-feira, janeiro 02, 2015

novo

pensa mais longe,
enquanto passeias sonhando
por sítios trôpegos,
tomado da tontura rasgada
das pedras
que se põem lá,
em profética farsa,
onde depois as pisas
sem desformar propósitos frios.
sais assim sangrando,
sagrado campeão de futuros inúteis,
sorrindo caminhos impossíveis.
de tal corso se rabisca um sentido,
mas a perfeição cobiçada
decai no pedestal patético
que se toma imortal.

entre a ruína depois
e a vontade agora modorrenta,
está o espaço de seres
tu.