terça-feira, fevereiro 22, 2011

Os teus olhos são cor e som e esperança

Existe um cinzento além cinzento
que se vai insinuando até se fazer tudo,
já não é sombra, nem só um tormento,
é uma venda cegando o horizonte
degredando o simples movimento
para uma não vida desprovida do consolo das cores
perdendo-se num abismo sem sons...
É assim que urge a memória do sol
colorindo a brisa com o seu amarelejado cântico.
É assim que o monótono dos dias
se pinta com a luz da memória,
talvez remota, talvez perdida,
mas soberbamente decorada
por uma paixão que explode em pequenos detalhes.
É assim que o sorriso nos enleva
enredando-nos no sonho suave que apenas a cor sabe dar
à música
que apenas os teus olhos me cantam...

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

É ilusivo o que eterno nos cerca
e se dá como névoa e nos cega
desfazendo o presente em distância.
É tão triste perder-se da infância

o sentir que se molda incerteza
esquecendo deslumbre e surpresa.
Elegemos incertos momentos,
da falácia montando argumentos,

exigimos que o mel que tocamos
nos sublime e venere seu amado;
reduzimos o que é desejado

a ser só como nós desejamos...
Se este mundo se faz da vontade
o desejo esmorece em saudade.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Ilusões

Comparo-me ao desagrado,
desagradando em degredo
a um desagradável medo...
Comparo-me ao triste fado,
pois a luz, eternizada
pela sucessão dos dias
traz minh'alma atormentada
entre as inúmeras vias
por onde o mal se adivinha.
Comparo-me ao azarado,
vou percorrendo enganado
uma estrada que não a minha,
e ao fundo, quase invisível,
pressinto o jeito impossível
da verdade e da certeza.
Comparo-me à fraqueza,
partícula de desejo
que se perde por um beijo
cedendo à ilusão
que me esvazia o coração.
Não sei o quanto serei inútil
mas tudo aquilo que sou
é tudo o quanto te dou,
ainda que o julgues fútil.
É nas palavras, enfim,
que inscrevo os meus desenganos,
se aí encontrares por fim
os demónios humanos
que comandam os meus passos,
verás já não os vagos traços
que mentem as minhas formas,
mas antes as firmes normas
que relevam no meu peito
a ilusão de ser perfeito.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Lembrança

Imagino de onde chega o ódio,
mas eu, eu não o consigo entender.
A imagem reflectida do próprio
terror, remete a um sentir perder

que isola do medo o cheiro exacto
de um detalhe subtil da memória...
E desta minha lembrança aflora,
quase com a certeza do tacto,

a vontade nua de o teu corpo
ser um templo e os teus olhos um outro
altar onde me prostro devoto.

Mas tudo é um tanto ilusivo,
do meu desejo se faz castigo
e do teu olhar um sonho remoto.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Eu sou dor que se busca

Eu sou dor que se busca
sem desejo de se encontrar
quando todos os propósitos se mostram,
na distância indefinida de um horizonte,
como duvidosas promessas de transcendência.
A luz aquece a escuridão
mas não sossega o preconceito do vácuo,
e são vastas as bifurcações
que magoam o tecido áspero da vida;
como se os passos se condenassem sem remédio
na fatalidade de um caminho excessivamente rugoso,
cujas sinuosidades tolhem o sonho.
Valem as cores sobre os princípios do cinzento,
frágeis testemunhas da sensação,
que se faz urgente,
de querer sorrir, de saber chorar.
Passado e Futuro são janelas impossíveis
vistas de um Presente que,
mal se contempla,
já não existe mais.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Somos como um sussurro

Somos como um sussurro
subindo a delicada espiral do tempo.
Um som subtil
bebendo melancolia e esperança,
sofrimento e êxtase,
tudo e nada
e mais o indiferente.
E este dualismo louco
é a essência inefável
de cada pequena história,
de cada minúsculo fragmento de vontade,
dos incontáveis motes
colando os versos
que improvisam aquilo a que chamamos
o mundo...

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Procurando um beijo barroco

As minhas palavras são incómodos,
escarpas cortantes por onde
os ventos se anunciam párodos
bramando o que o coração esconde.
As minhas lágrimas resvalam
lentamente até aos teus pés
e aí soando a adágio salgam
a minha dor uma e outra vez...
O som da minha fome grita
e tudo quanto eu sou se agita
na urgência a que chamam desejo.
Pudesse eu comandar o tempo,
e pará-lo junto a um teu beijo,
e seria então, num momento,
ó inconcebível vaidade!,
uma espécie de eternidade.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Resvala a mão acompanhando-a um olhar
desligado, sem aparente propósito,
escarnecendo de qualquer urgência ou vontade.
E no entanto é o desejo que me toma
num crescendo de emoção
que formiga com desmedida intensidade.
Tudo quanto vibra ao nosso redor é ilusão,
imprecisa mesura de formas
que nos abraçam, que nos tolhem,
que enganadamente queremos amar.
E através destes véus palpáveis
esconde-se a outra verdade quase insubstancial,
mergulhada no invisível plano
que só os olhos fechados iluminam.
A madrugada abre-se finalmente
e os seus raios primaveris
rasgam as películas amnióticas
da mentirosa quietude noctívaga.
Cheira ao orvalho beijando o sol
e a brisa segreda-nos suavemente
o epílogo de um sonho...

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Nada de novo

Todas as mentiras, dizem,
são como pequenas mortes,
cada vício, mortal doença,
se cada uma destas coisas
te acontece todo o dia
então morrerás bem mais
que a contagem dos teus dias.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Só

A noite fechou
descolorando as formas
sob um céu que se apagou.
Não encontro o teu olhar
que imagino generosamente perdido nos mil sonhos
belos e subtis
que amorosamente desejo sonhar junto a ti.
Não sinto o respirar sensual do teu peito,
trazendo a promessa do teu corpo,
nem a forma como os teus lábios perfumam
o cinzento do meu nome.
Não estás
e essa evidente ausência
desnuda a conspiração
entre o ensurdecedor silêncio nocturno
e a indefinida forma dos meus desatinos.
Não estás
e por isso mesmo eu estou, e estarei, aqui
só...
à espera...