sinto-me uma velha mentira
gasta.
um rumor antigo,
riscado na rocha de uma caverna imemorial.
sinto-me figura descarnada,
um espectro inventado
num simulacro asséptico.
sinto-me a noite vulgar,
imitando as estrelas do céu infinito;
sinto-me a luz que emudece
nos caminhos curvos do espaço-tempo.
sinto-me o azul que morre
no oceano envenenado.
sinto-me a náusea de estar vivo
na certeza da morte.
sinto-me a casca vertida
da serpente renovada.
sinto-me a memória perdida
na ausência da história.
sinto-me este imenso lastro
que sou;
sinto-me as escolhas;
sinto-me as cobardias;
sinto-me as omissões;
sinto-me triste, nesta tristeza minha,
tua,
de tudo e de nada;
sinto-me na felicidade aparente dos outros;
sinto-me nas possibilidades e nos becos;
sinto-me na carne e no vácuo;
sinto-me nas sobras;
sinto-me no tédio;
sinto-me no espelho;
sinto-me no momento
e depois
sinto-me na lembrança;
sinto-me vivo,
afinal,
se hoje desmorono,
amanhã sonho-me
novo
e depois?
diz-me tu...
sexta-feira, setembro 14, 2018
terça-feira, agosto 07, 2018
deserto
amanhã, pois talvez,
hoje, por certo não.
e se quando me vês
pareço sem noção,
perdido na incerteza
e ausente do momento,
digo em minha defesa
que te busco no absurdo
dos véus que nos apartam;
é nesse vil aturdo
que dúvidas me assaltam,
numa pureza líquida,
escoando-se em vertigem
com a pujança épica
de uma vontade virgem…
sentei-me nesta beira
do caminho em aberto,
ali fica o universo
aqui a minha canseira.
hoje, por certo não.
e se quando me vês
pareço sem noção,
perdido na incerteza
e ausente do momento,
digo em minha defesa
que te busco no absurdo
dos véus que nos apartam;
é nesse vil aturdo
que dúvidas me assaltam,
numa pureza líquida,
escoando-se em vertigem
com a pujança épica
de uma vontade virgem…
sentei-me nesta beira
do caminho em aberto,
ali fica o universo
aqui a minha canseira.
sexta-feira, junho 15, 2018
vício
manhã,
memória ferida
dos traços oblíquos da noite;
deixados pingar
por uma lua de prata,
resvalando depois,
das copas das árvores
deste meu jardim
espectral.
por aqui sinto escorrer
as preces das sementes,
como se o vento ordenasse escusa
e um intervalo silencioso
mussitasse o fim do mundo.
nada detém o tempo,
nem sementes,
nem deuses;
a minha solidão soma-se
até à próxima
manhã.
memória ferida
dos traços oblíquos da noite;
deixados pingar
por uma lua de prata,
resvalando depois,
das copas das árvores
deste meu jardim
espectral.
por aqui sinto escorrer
as preces das sementes,
como se o vento ordenasse escusa
e um intervalo silencioso
mussitasse o fim do mundo.
nada detém o tempo,
nem sementes,
nem deuses;
a minha solidão soma-se
até à próxima
manhã.
quarta-feira, maio 30, 2018
mapa
traz-me a manhã
ecos de velhos arrependimentos,
de escolhas ocas,
de supérfluos acasos.
é como se a brisa fresca
tragasse uma parte da vontade,
entre suspiros e conspirações.
consta que a linha do horizonte,
assenta na beira de um precipício indizível,
onde a vontade desliza para a vertigem
e o sonho forja o porvir;
entre tantas contingências,
escolhi,
fui tomando aqui,
dando ali,
até cada sentimento ter seu lugarejo
no laborioso mapa de imprecisões
que eu sou.
posso então sossegar
- estou aqui.
ecos de velhos arrependimentos,
de escolhas ocas,
de supérfluos acasos.
é como se a brisa fresca
tragasse uma parte da vontade,
entre suspiros e conspirações.
consta que a linha do horizonte,
assenta na beira de um precipício indizível,
onde a vontade desliza para a vertigem
e o sonho forja o porvir;
entre tantas contingências,
escolhi,
fui tomando aqui,
dando ali,
até cada sentimento ter seu lugarejo
no laborioso mapa de imprecisões
que eu sou.
posso então sossegar
- estou aqui.
sexta-feira, fevereiro 02, 2018
onde encontro engodos ou nada
gosto de provar a saudade;
que da melancolia da estrada,
guarda um nome: felicidade.
fado que proclama desgraça
com a graça desmesurada,
de quem atrai luz encantada,
destronando o sol, e ameaça
contar os dias num desprazer
absurdo em recato dorido.
deixo este pesar despender,
escolhi um caminho perdido...
gosto de provar a saudade;
que da melancolia da estrada,
guarda um nome: felicidade.
fado que proclama desgraça
com a graça desmesurada,
de quem atrai luz encantada,
destronando o sol, e ameaça
contar os dias num desprazer
absurdo em recato dorido.
deixo este pesar despender,
escolhi um caminho perdido...
terça-feira, outubro 17, 2017
sufocar
o pendulo dos passos
desce sobre a calçada,
escorrendo os pés,
pelo denso ruminar dos sentimentos,
ao ritmo lesto
de um final de dia.
um momento desfaz-se na multidão,
rompe em olhares sem fito
tomba de escadarias impossíveis,
de parapeitos escarpados,
até focar um corpo
crivado de vergonha.
o vento sopra furioso
no silêncio vencido
de um monte solitário;
enquanto alguém,
sem nome,
esquece sonhar.
amarga o vulto sem voz
na surdina leprosa do desprezo.
enquanto dói o tempo,
a memória rasga a carne
traçando a linha
de um mapa sem fortuna.
assim se cruza o norte dos sentidos;
entre vagalhões arremessados a pontões inúteis,
portos sem esperança,
faróis sem luz.
os náufragos mortos se farão felizes.
o agrado do olhar
perdeu-se;
esvai-se no vazio das noites.
fica o desassossego.
desce sobre a calçada,
escorrendo os pés,
pelo denso ruminar dos sentimentos,
ao ritmo lesto
de um final de dia.
um momento desfaz-se na multidão,
rompe em olhares sem fito
tomba de escadarias impossíveis,
de parapeitos escarpados,
até focar um corpo
crivado de vergonha.
o vento sopra furioso
no silêncio vencido
de um monte solitário;
enquanto alguém,
sem nome,
esquece sonhar.
amarga o vulto sem voz
na surdina leprosa do desprezo.
enquanto dói o tempo,
a memória rasga a carne
traçando a linha
de um mapa sem fortuna.
assim se cruza o norte dos sentidos;
entre vagalhões arremessados a pontões inúteis,
portos sem esperança,
faróis sem luz.
os náufragos mortos se farão felizes.
o agrado do olhar
perdeu-se;
esvai-se no vazio das noites.
fica o desassossego.
quarta-feira, outubro 11, 2017
seguimento
fazes esse gesto leviano
como se arranhasses o tempo
para me fazer chorar.
não importa se o vento sopra,
ou que a lua escorra
da linha do horizonte,
até o seu espelho luminoso
se desfazer aos meus pés
em preces e lamentos salgados.
de nada serve que o mundo
esqueça o propósito omisso dos deuses
e escorrace a frágil certeza dos homens,
renascendo indiferente
no ciclo maciço dos astros.
eu serei assim,
tu serás tu,
nada mudará,
tudo será distinto.
como se arranhasses o tempo
para me fazer chorar.
não importa se o vento sopra,
ou que a lua escorra
da linha do horizonte,
até o seu espelho luminoso
se desfazer aos meus pés
em preces e lamentos salgados.
de nada serve que o mundo
esqueça o propósito omisso dos deuses
e escorrace a frágil certeza dos homens,
renascendo indiferente
no ciclo maciço dos astros.
eu serei assim,
tu serás tu,
nada mudará,
tudo será distinto.
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