Eu oiço dos nomes o desconcerto dos sentimentos que me despertam. Como se, por exemplo, um dado nome se plastificasse de encontro ao molde de um dia de sol e que umas nuvens esfarrapadas num fundo idealmente azul o associassem a algodão, quem sabe se doce.
O primeiro sentido dos nomes é poder chamá-los às coisas, e pessoas, bem entendido, identificar, catalogar, racionalizar; mas também se formam por lhe associarmos algo além: credos, desejos, esperanças, sentimentos, até mundanas sensações - materialismo puro e duro.
Mas os nomes das coisas, e das pessoas, carregam consigo, além de todas as coisas boas em que gostamos de acreditar e com as quais sonhamos e sobre as quais construímos e vivemos, de todas as nossas obsessões ou vícios, o peso individualmente inconcebível da história e, mais em concreto, os preconceitos que nos encarceram num determinado lugar e tempo do mundo.
Os nomes são, ao mesmo tempo, fonte de aparente constância e constante fonte de mudança.
sexta-feira, abril 29, 2011
terça-feira, abril 26, 2011
Até onde?
A felicidade vê-se,
escuta-se,
sente-se na ponta dos dedos,
no som das palavras
e nas incontáveis vertigens
que nos enchem
sentidos e sentimentos;
tal qual a miséria,
o rancor,
a tristeza,
todas as coisas que,
continuadamente,
sustentam os nossos passos.
Apenas os mortos sossegam
e não mais se agastam,
sob os conluios da Sorte,
entre a saudade e o sonho.
escuta-se,
sente-se na ponta dos dedos,
no som das palavras
e nas incontáveis vertigens
que nos enchem
sentidos e sentimentos;
tal qual a miséria,
o rancor,
a tristeza,
todas as coisas que,
continuadamente,
sustentam os nossos passos.
Apenas os mortos sossegam
e não mais se agastam,
sob os conluios da Sorte,
entre a saudade e o sonho.
segunda-feira, abril 18, 2011
Anátema
A voz da humanidade é sincopada, organicamente impossível de escutar. Uma tragédia cacofónica descompassada, contraditória, brusca.
Nos seus extremos mora um silêncio sem objectivo, não menos tumultuoso, vastamente espectacular, mas sem a glória e o tormento da consciência.
Aquilo que nos separa deste silêncio sonoramente potente, é uma gloriosa forma de inconsequência; mas ainda assim é uma forma de o mesmo, silêncio, ter, ainda que momentaneamente, uma espécie de destino.
Talvez este curto espaço de memória, estranho momento em que o inconsciente se permite a consciência de ser com base naquilo que já foi, seja além de um acontecimento raro também uma maldição.
Efectivamente, o vasto silêncio de tudo finalmente se apercebe de uma fundamental precariedade - a morte da voz consciente é inevitável - da memória, a estatística do equilíbrio termodinâmico apagará a memória, e o silêncio, enumerará o nada.
Melhor seria que o nada fosse apenas nada?
A tragédia poderia não o ser, apenas por não ser conscientemente prevista; seria muda eventualmente classificada como néscia por uma consciência impossível de ser - melhor assim como é/foi, então...
Nos seus extremos mora um silêncio sem objectivo, não menos tumultuoso, vastamente espectacular, mas sem a glória e o tormento da consciência.
Aquilo que nos separa deste silêncio sonoramente potente, é uma gloriosa forma de inconsequência; mas ainda assim é uma forma de o mesmo, silêncio, ter, ainda que momentaneamente, uma espécie de destino.
Talvez este curto espaço de memória, estranho momento em que o inconsciente se permite a consciência de ser com base naquilo que já foi, seja além de um acontecimento raro também uma maldição.
Efectivamente, o vasto silêncio de tudo finalmente se apercebe de uma fundamental precariedade - a morte da voz consciente é inevitável - da memória, a estatística do equilíbrio termodinâmico apagará a memória, e o silêncio, enumerará o nada.
Melhor seria que o nada fosse apenas nada?
A tragédia poderia não o ser, apenas por não ser conscientemente prevista; seria muda eventualmente classificada como néscia por uma consciência impossível de ser - melhor assim como é/foi, então...
sexta-feira, abril 15, 2011
quinta-feira, abril 14, 2011
Sobre a Utilidade
O útil é um freio à liberdade,
por força quer despejar tudo
quanto julga, superficialmente, inútil...
Esquece-se o útil que inútil terá sido
antes de ser o que ora é,
ou seja,
temporariamente... útil!
O útil e o seu contrário
morrem
tal como, desapaixonada,
a entropia segue a sua estatística fatal.
O mais patético do útil
é que quem o cria,
em toda a probabilidade,
é... digamos assim,
inútil!
por força quer despejar tudo
quanto julga, superficialmente, inútil...
Esquece-se o útil que inútil terá sido
antes de ser o que ora é,
ou seja,
temporariamente... útil!
O útil e o seu contrário
morrem
tal como, desapaixonada,
a entropia segue a sua estatística fatal.
O mais patético do útil
é que quem o cria,
em toda a probabilidade,
é... digamos assim,
inútil!
quarta-feira, abril 13, 2011
Beijo
O olhar prendeu-se muito antes
de qualquer outro preceito,
e não foi um feitiço ou enfeite
que nos fez um por instantes,
foi só, um beijo perfeito!
de qualquer outro preceito,
e não foi um feitiço ou enfeite
que nos fez um por instantes,
foi só, um beijo perfeito!
terça-feira, abril 12, 2011
Os sonhos esquecem-nos do mundo,
e sonhamos,
na inocência imprecisa
dos nossos medos,
todas as perplexidades imaturas
que testemunham a história vã dos dias que nos fazem.
São os dias então como duros degraus,
obstinadas traições íngremes
exaurindo a liberdade
numa embrumada vontade
que seguramente nos condena
a todo um rol de inanes verdades.
O caminho consome em nós a memória,
na umbra das incertezas,
de todo este nada
que implacavelmente nos define,
que implacavelmente nos limita.
terça-feira, abril 05, 2011
Quanto em cada nova manhã
se perde para todas as outras manhãs?
Quantas coisas doces apodrecem
sem que o mundo saiba
quão doce a sua doçura seria?
Quantas lágrimas desacompanhadas
se perdem
num angustioso e descompassado nada?
Quantos sorrisos não abençoam
quem, de um ou de outro sonho,
os fez brotar?
Quanto de nós se perde,
a cada instante,
no império das obsessões fúteis?
Todas as horas encerram
uma espécie de juízo mudo;
todas as horas conjuram
incessantemente,
no massacre célere dos segundos,
sombras com augúrios,
luz com paixão,
vida e morte.
Adivinha-se na poeira que molda as coisas,
que lentamente se agrega num húmus
fertilizador de vidas inteiras,
uma calma que a distância, qualquer que seja, promete;
e quando esta quietude, finalmente,
desliza, se desprende dos preceitos mecânicos do mundo,
renova-se algo de precioso
talvez num adágio, quem sabe se num suspiro,
sussurrando a urgência
de unir as vontades
de tudo a quanto, pacientemente, sentimos o pulso.
E assim seguimos,
rumando...
Com um fito talvez preciso,
em cada nova manhã...
se perde para todas as outras manhãs?
Quantas coisas doces apodrecem
sem que o mundo saiba
quão doce a sua doçura seria?
Quantas lágrimas desacompanhadas
se perdem
num angustioso e descompassado nada?
Quantos sorrisos não abençoam
quem, de um ou de outro sonho,
os fez brotar?
Quanto de nós se perde,
a cada instante,
no império das obsessões fúteis?
Todas as horas encerram
uma espécie de juízo mudo;
todas as horas conjuram
incessantemente,
no massacre célere dos segundos,
sombras com augúrios,
luz com paixão,
vida e morte.
Adivinha-se na poeira que molda as coisas,
que lentamente se agrega num húmus
fertilizador de vidas inteiras,
uma calma que a distância, qualquer que seja, promete;
e quando esta quietude, finalmente,
desliza, se desprende dos preceitos mecânicos do mundo,
renova-se algo de precioso
talvez num adágio, quem sabe se num suspiro,
sussurrando a urgência
de unir as vontades
de tudo a quanto, pacientemente, sentimos o pulso.
E assim seguimos,
rumando...
Com um fito talvez preciso,
em cada nova manhã...
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