quarta-feira, maio 29, 2013

crasso


não tentes poupar a memória
ao enguiço cortante
que sangra cada falhanço.
eu guardo no caminho da sarjeta
o retrato límpido de cada perpendicular
ao meu caminho;
quem sabe a soberba
se faça ditado de cada pausa
do meu discursar sem mote,
por vezes o vento traz-me ao sentido
o mau cheiro de frases antigas
e o mofo de certas ideias bolorentas.
hoje,
aqui e agora,
o peso dos segundos,
de cada um deles,
pendula-me o compasso do tédio;
aguardei em vão o desenho de um simples sorriso,
talvez até o merecesse
- feitas todas as contas
do deve e haver
das almas.
sou este pedinte,
danado,
da atenciosa passagem do teu corpo;
a revolta começa
na precisa medida
dessa ausência.
fica o amargo de boca
cerca um sonho
cheirando a rosas.

sexta-feira, maio 24, 2013

reductio ad


o absurdo vende-se com um rótulo meloso.
a matéria invade o discurso,
feito de películas sonoras
amontoando-se na viscosa fronteira
do entendimento.
a impossibilidade rege-se no aprumo esquemático
das paredes,
subindo iletradamente até alturas
sem escrutínio;
cansas-me a vista com poeiras inexplicadas,
quero escutar-te
mas todos os parágrafos propostos
me arranham a voz.
sou ingrato ao tempo,
em cada segundo uma irritação
até à irascibilidade das horas...
e o gozo lento desliza pelo chão
aderindo-lhe a merda
e junto com ela todos os pós
que resvalam para debaixo dos pés,
até se dispor tudo
num aflitivo adágio inaudível.
os meus argumentos caem
no teu regaço,
mas tu,
indiferente,
nem te apercebes.

quinta-feira, maio 23, 2013

{a}preço


sobra por metade
o apreço vão das coisas vivas;
a constante rotação da carne
esvai-se na liquefacção portentosa do sangue
escorrendo metodicamente
até morrer.
a praia jaz
no regaço pária do grito
- naufraga a esperança nas rochas
apressadas
do vento.

pinga depois a chuva
aqui num momento
ali em um outro afago.

desejo o teu abraço,
consolo fraco de um fraco,
fraquejo enfim no redondo corso
do marulhar das areias de um deserto escaldante.

a realidade constrói um monte de oliveiras
onde pingarão as gotas amargas de um condenado,
ecoando a dor humana
pelas cavernas húmidas e solitárias
da história
como opróbrio divino.

o palhaço chora,
sem dor ocorrer no pensamento da folha
que após desabrochar flor
morre
na cor precisa do pólen,
queda numa mesa mecânica
e industrial.

há um zunido eterno
ninguém o deseja escutar
e ainda bem.

terça-feira, maio 21, 2013

desinspirado


o desconsolo materializa-se,
edifica-se com a lentidão implacável
do que se toma por certo
e inevitável.
tento mais um discurso
sob o medo incorpóreo
que assola os desinspirados.
hoje o sol parece caminhar
pelo paradoxo azul do céu,
desenhado por regras exactas
num imaginário infinito,
como se o universo acima do mundo
nada mais se desejasse
que aconchego de homens
e astros.

o regular funcionamento das instituições
é uma chaga do fim do tempo,
um pé certinho,
após o outro,
dirigindo-se com apresto,
e radioso rigor,
ao que nada interessa.
rodeado por tantas fontes
de produtividade eficiente,
adivinho o acento tónico
da substância inverosímil
que pinta o cenário dos horizontes
com a cor que dissolve o peso das nuvens;
aí,
onde cimento algum alçará muros,
mora o último suspiro da imaginação,
cada vez mais distante
destes olhos ensombrados.

segunda-feira, maio 13, 2013

vagar


comecei devagar,
a lentidão nomeia-se
em um arrastado
e consentido
silêncio.
seguro imaginariamente
a tua mão,
desenho-a vaga
no perfume tecido
no espaço estendido,
quase até ao infinito,
entre nós.
o degredo dos gestos e dos sons
transforma o regaço escorregadio dos olhos
numa ponte traiçoeira,
não há mentira na brisa
escorrendo entre o raso da terra
e a abstracção do céu,
mas uma espécie de medo,
um medo fundamental,
confundindo a sequência escorreita
dos passos.
acoitam-se os pés
no sossego impossível da noite,
das entranha das sombras
rasga-se o grumoso compasso dos sonhos
fazendo-se gotejar,
sem fito preciso
mas com precisão aritmética,
entre arestas e distâncias.
depois,
o sumo dos teus lábios
fala-me das delícias do corpo,
tudo o resto
rega-se de sentimentos
que te contornam
em descontrolo.

Há uma nobreza respeitosa na decadência,
baixo o olhar
não para fugir como um cobarde
ao escrutínio de outros olhos,
apenas para que neles
não me force reflectir a finitude pueril
dos meus.
entre todos estes soluços
não há precisão
em ter
qualquer pressa.

quinta-feira, maio 09, 2013

espoleta


eu regresso da guerra
com este cheiro a sangue
imaginário,
ser em um dia
depois de um outro
é como demorar entre poros:
absorvendo e expelindo.
e deste ruído perene,
avozeando o meu nome
entre pedras
e musgos,
alegro alegorias várias
no vento cortante
das promessas incumpridas.
fazes contas à vida,
luciluzindo-te na face
os feixes de luz
de uma electrónica
útil;
a verdade,
porém,
escorrega sozinha
e invisível,
até um dia
nos cair em cima.