quinta-feira, julho 05, 2007

... da Perfeição...

Dizem alguns, os que têm tempo e estômago para tais actividades, que é apanágio (palavra ruim) do ser humano a busca da Perfeição. Tenho para mim que tal é um (perfeito?) disparate.
Que sabe a humanidade da Perfeição? Exceptuando a palavra, pouco mais... o conceito em si, isto é, a explicação da Palavra ou a descrição da Ideia, transporta o inquiridor honesto para um abismo intelectual. Sim, meus amigos, é através da dissecação Racional que os conceitos se podem, de facto, apreender, dominar e compreender. Explico... uma definição compreensível é forçosamente baseada numa articulação coerente e sequencial de palavras, ideias e conceitos. Aquilo a que humildemente chamamos Conhecimento é esta teia, a Razão e a Experiência são os guias que nos permitem "ver" para além do aparente caos, tirar o sentido das coisas associando ideias e experiências para construir "novas" ideias e fazer crescer o que sabemos, mas esta é uma outra conversa.
Existem conceitos ilusivos, que tentam consubstanciar e instanciar nas nossas pobres cavidades cranianas algo que manifestamente nos transcende. Se essa transcendência é absoluta, temporária ou meramente fruto da estupidez torna-se irrelevante para o assunto em discussão, e este é, pois também eu tenho já dificuldade em situá-lo, a Perfeição e a sua "busca". A Perfeição é, pois então, uma daquelas quimeras que na impossibilidade de lhe atribuirmos uma definição universalmente (perigoso advérbio de modo) aceite, se transforma num ditame cultural e, em muitos casos, num dogma de Fé.
Para o céptico conceitos como a Perfeição sublinham a necessidade imperativa da coragem intelectual, isto é, a transposição do confortável lugar-comum cultural ou referência religiosa, para um mundo onde a Dúvida reina suprema.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

P'la boca...

O meu país é livre! Ele é bom! Faz parte do distinto grupo da ocidentalidade, talvez apenas por acidente; ou seja aqui vive-se uma ocidentalidade por acidentalidade. E como todas as coisas acidentais, tem o seu quê de inesperado... Portugal nasceu de um acidente no ocidente, é um país bastardo cuja mamã se calhar até queria abortar...

Talvez daí, desse trauma fundamental, e não do poder da Santa Madre Igreja de Roma como muitos intelectuais com óculos parecem ter cristalizado no pensamento, haja tanto melindre nesta coisa de despenalizar o aborto. Afinal estamos aqui precisamente porque, em dada altura da História, não abortaram o embrião de Portugal!

Tendo estabelecido este ponto, devia, como fervoroso patriota manifestar-me contra essa coisa da despenalização. Se não querem ter filhos, diria com os olhos raiados e um pouco de baba a escorrer pelos cantos da boca, Não os façam!

Suprema idiotice...

Querem os votantes do Não, palavra querida de todos os bébés, bem a propósito, convencer-nos com toda uma argumentação de grande profundidade. Dizem eles:
Financiar clínicas de aborto com o dinheiro dos meus impostos? Não obrigada
Brilhante! É preferível gastá-lo a tratar os traumas físicos e psicológicos de quem abortou num talho.
Despenalizar é banalizar!
Pois é, pelo menos a estupidez é coisa banal neste nosso Portugal... E nunca foi penalizada... se calhar devia ser...

E por aí fora...

Neste triste país os que mais abortam fazem-no, infelizmente, pela boca... E nem dão por isso!