choveu sem pinga
na noite sonora em que me fiz calar;
se calhar indaguei pela certeza errada,
e é bem provável ter-me enganado
quando certeiro em demasia te retorqui!
aguardo em meus afazeres conformados
que desvendes a revolução,
pois da serenidade dos guerreiros,
muitas e tantas vezes,
se faz um hino à paz...
estavas ontem dizendo
como creio em coisas falsas,
em ficções antigas e relatos de agora,
de como os números desenrolam verdades precisas
e os discursos montam e desmontam desconcerto.
é de minha natureza procurar dentro
as palavras,
e com vagar e cuidado tomá-las em carreira
até se misturarem com a saliva
em um gosto só meu.
depois mordo-as
para não me permitir falar
sem o imperativo torso.
é nestas paragens sós que me encontrarás quase sempre,
entre fugas e adágios,
pingando até o passado tombar de vez.
sábado, dezembro 21, 2013
quinta-feira, dezembro 12, 2013
velho
quantos silêncios
retornam sanguinárias farpas,
rasgando feridas na pele infinita
por onde me sangram os sentimentos.
por vezes
a proximidade flutua
qual equação incisiva;
manifesto de uma
directamente proporcional relação,
entre a causa
advinda desse teu olhar sem rumo
e a consequente falta,
guiada por gélida precisão laplaciana,
demonstrando o teorema da minha angústia.
o futuro produz-se zombando-me
em todos os infinitésimos erros,
colecciona-se em pedacinhos de memórias ásperas,
até se criar entropia máxima
de uma antepassada esperança.
talvez seja este o peso bruto do tempo,
manifesto inescapável da senescência.
talvez o primevo fascínio do horizonte,
renovado na promessa de cada aurora,
tombe agora em um medo
medrando a cada novo poente.
retornam sanguinárias farpas,
rasgando feridas na pele infinita
por onde me sangram os sentimentos.
por vezes
a proximidade flutua
qual equação incisiva;
manifesto de uma
directamente proporcional relação,
entre a causa
advinda desse teu olhar sem rumo
e a consequente falta,
guiada por gélida precisão laplaciana,
demonstrando o teorema da minha angústia.
o futuro produz-se zombando-me
em todos os infinitésimos erros,
colecciona-se em pedacinhos de memórias ásperas,
até se criar entropia máxima
de uma antepassada esperança.
talvez seja este o peso bruto do tempo,
manifesto inescapável da senescência.
talvez o primevo fascínio do horizonte,
renovado na promessa de cada aurora,
tombe agora em um medo
medrando a cada novo poente.
segunda-feira, dezembro 02, 2013
caminhando
evito espectar
a sombra inerte
da absoluta certeza.
consta que,
no regaço tácito da verdade imposta,
se anuem somente olhos tapados;
aguardo de pé
que o jeito inquieto da dúvida,
me entrance o corpo
de angústia e frémito.
incessável é o caminho
de quem ousa procurar.
a sombra inerte
da absoluta certeza.
consta que,
no regaço tácito da verdade imposta,
se anuem somente olhos tapados;
aguardo de pé
que o jeito inquieto da dúvida,
me entrance o corpo
de angústia e frémito.
incessável é o caminho
de quem ousa procurar.
sexta-feira, novembro 15, 2013
guarda
a matéria de que se faz o norte,
no esquema moral dos acontecimentos rochosos,
busca uma quimera soberba,
qual princesa
demorando-se nos preceitos fúteis
de todas as manhãs.
roda entretanto na aurora
a metafórica procissão das flores,
velejando o esquecimento
com o vagar da brisa e o desfiar cego
do tempo;
agradeço-te esse olhar mais ou menos vagaroso,
entre devassa e timidez,
engrandecendo a vontade vertical dos monumentos
antes do crepúsculo nos molhar com dádivas,
e lágrimas,
por vir.
é esse o perfume que buscava,
sugerindo a promessa
da cor dos teus olhos fechados
e dos teus lábios mordidos;
agarro a veemência dessa imagem nas masmorras onde adoeço
os outros dias completos
- é o fogo que flama o enxame
sem rumo
que se parte sem dele jorrar som
aqui mesmo
a meus pés.
no esquema moral dos acontecimentos rochosos,
busca uma quimera soberba,
qual princesa
demorando-se nos preceitos fúteis
de todas as manhãs.
roda entretanto na aurora
a metafórica procissão das flores,
velejando o esquecimento
com o vagar da brisa e o desfiar cego
do tempo;
agradeço-te esse olhar mais ou menos vagaroso,
entre devassa e timidez,
engrandecendo a vontade vertical dos monumentos
antes do crepúsculo nos molhar com dádivas,
e lágrimas,
por vir.
é esse o perfume que buscava,
sugerindo a promessa
da cor dos teus olhos fechados
e dos teus lábios mordidos;
agarro a veemência dessa imagem nas masmorras onde adoeço
os outros dias completos
- é o fogo que flama o enxame
sem rumo
que se parte sem dele jorrar som
aqui mesmo
a meus pés.
quarta-feira, novembro 13, 2013
frente
o calafrio vincou-me a pele imaginária
no preciso momento em que o fecho seccionou a verdade
num decreto impopular.
talvez a aparência dos juros,
esse formato enigmático dos números
expresso em sovinice pelo tempo,
comente por si a emergência incontornável da morte;
talvez,
atrevo-me a supor,
o esgueirar lesto dos sonhos
seja mais concreto que os estores
batendo sonoramente na pedra,
sem sentimentos,
que desenha a base rectilínea de uma certa janela tangente.
a roda consuma enfim a pesada herança da inteligência,
enquanto na distância
o vento escarnece desalinhando idealmente o teu cabelo.
guardo esta imagem nos olhos
enquanto o pó,
ordenado e sisudo,
se escorre por entre as frestas salgadas do futuro;
ordeno aros metálicos enquanto murmúrios simples
de uma destreza conjuntural,
descem por fim estas cores sobre o meu corpo,
desmemoriado dos teus dedos.
é a canção do frio soprando-me
as memórias da primavera.
no preciso momento em que o fecho seccionou a verdade
num decreto impopular.
talvez a aparência dos juros,
esse formato enigmático dos números
expresso em sovinice pelo tempo,
comente por si a emergência incontornável da morte;
talvez,
atrevo-me a supor,
o esgueirar lesto dos sonhos
seja mais concreto que os estores
batendo sonoramente na pedra,
sem sentimentos,
que desenha a base rectilínea de uma certa janela tangente.
a roda consuma enfim a pesada herança da inteligência,
enquanto na distância
o vento escarnece desalinhando idealmente o teu cabelo.
guardo esta imagem nos olhos
enquanto o pó,
ordenado e sisudo,
se escorre por entre as frestas salgadas do futuro;
ordeno aros metálicos enquanto murmúrios simples
de uma destreza conjuntural,
descem por fim estas cores sobre o meu corpo,
desmemoriado dos teus dedos.
é a canção do frio soprando-me
as memórias da primavera.
quinta-feira, outubro 31, 2013
barro
eu estou no ponto do mundo
inundado por tal densidade ruidosa
que cuida o ser,
o meu ser,
tecido num filigrana de choro e riso,
dotar-se de unicidades mórbidas
a jusante do contentamento e,
em todo o caso,
conotadas com a desmemória de um sossego antigo.
o concreto valor do olhar
escorre pela encosta áspera que aparenta futuro,
desenhando o caminho
na medida do adivinhar dos passos.
disseste-me um horror gélido,
paralisando-me os contornos da esperança,
naquele processo vago que se usa
para deslizar por um outro sulco,
e fugir;
os caminhos separam-se definitivos
em filamentos subtis,
um passo lado a lado
e uma queda escarpada...
eu quis diferente,
mas querer não chega
quando a vida cimenta uma parede
por onde antes
se imaginou deslizar
uma nascente...
inundado por tal densidade ruidosa
que cuida o ser,
o meu ser,
tecido num filigrana de choro e riso,
dotar-se de unicidades mórbidas
a jusante do contentamento e,
em todo o caso,
conotadas com a desmemória de um sossego antigo.
o concreto valor do olhar
escorre pela encosta áspera que aparenta futuro,
desenhando o caminho
na medida do adivinhar dos passos.
disseste-me um horror gélido,
paralisando-me os contornos da esperança,
naquele processo vago que se usa
para deslizar por um outro sulco,
e fugir;
os caminhos separam-se definitivos
em filamentos subtis,
um passo lado a lado
e uma queda escarpada...
eu quis diferente,
mas querer não chega
quando a vida cimenta uma parede
por onde antes
se imaginou deslizar
uma nascente...
quinta-feira, setembro 19, 2013
vinco
acho a morte
viés a fresta
de uma janela impossível,
tingida pela luz mortiça
dos preconceitos
que me afrouxam o tento.
a cosmética da noite,
perene balada dos sós,
sussurra uma aparência
de verdades profundas.
esquece tudo quanto essa musa canta,
deita-te sem pudor
com teus medos e anseios
até se fazer alto o dia
e feroz a dança.
o tempo afana-se em cousas vãs
como a estrutura
com que a fortuna
te escora,
e como as palavras,
que te confortam,
vão descendo sem tino ou sustento
até um fantasma de ti.
junta na memória o bulício alegre
de todos os sorrisos esboçados,
depois será noite
uma e outra vez.
viés a fresta
de uma janela impossível,
tingida pela luz mortiça
dos preconceitos
que me afrouxam o tento.
a cosmética da noite,
perene balada dos sós,
sussurra uma aparência
de verdades profundas.
esquece tudo quanto essa musa canta,
deita-te sem pudor
com teus medos e anseios
até se fazer alto o dia
e feroz a dança.
o tempo afana-se em cousas vãs
como a estrutura
com que a fortuna
te escora,
e como as palavras,
que te confortam,
vão descendo sem tino ou sustento
até um fantasma de ti.
junta na memória o bulício alegre
de todos os sorrisos esboçados,
depois será noite
uma e outra vez.
sexta-feira, julho 26, 2013
lema
toda a matemática,
espessa,
expressa sem entendimento de si
o mais profundo e subtil
sentido substancial,
do miolo do universo.
as coisas simples adensam-se em postulados,
fragmentos tautológicos,
juntos em teoria
na complexidade incontável dos números.
tão longe está a realidade do mundo
da verdade tangencial
dos sentimentos...
espessa,
expressa sem entendimento de si
o mais profundo e subtil
sentido substancial,
do miolo do universo.
as coisas simples adensam-se em postulados,
fragmentos tautológicos,
juntos em teoria
na complexidade incontável dos números.
tão longe está a realidade do mundo
da verdade tangencial
dos sentimentos...
terça-feira, julho 23, 2013
ruído
contam os loucos
o número infante
da passagem dos dias,
tendo como preceito a clareza da lua
e a incontabilidade dos estados
da vergonha.
quando tornei da batalha,
após te haver morto
uma cruel dezena de vezes,
procurei a afronta nas paredes.
acenei vagamente
a sombra que me projecta em escuridão,
e o momento escapou para o céu
até se perder
por um vórtice incompreendido.
os pirilampos morrem avisados
no coito de uma noite indiferente e infinita,
talvez o cansaço me conceda a sua mão materna,
talvez faleça a montanha que se insinua por ti
ao som de um azulado danúbio,
uma fronteira bárbara
de esparvados territórios eruditos.
consta-me o fim;
e o prazer obscuro da brisa
humilha a respiração
deste que ofega em compromissos vãos.
o ódio é um nome silencioso,
faz-se de gestos contundentes,
úlceras
e sangue.
as bestas procuram deslembrar o castigo do sol,
na memória por ele sombreada;
todos os ventos amenos trazem um nome próprio,
uma vítima senhorial,
pois os custos são notáveis
e a fama,
um fardo.
ruiu finalmente o remorso,
por entre ruminações ruidosas
e a utilidade perfeita
do tempo;
em cada segundo geme um conto
em cada conto
esporeia uma vida.
segue-se a estrada
triturada por um ciúme insubmisso,
é impossível seguir por outra vontade.
o número infante
da passagem dos dias,
tendo como preceito a clareza da lua
e a incontabilidade dos estados
da vergonha.
quando tornei da batalha,
após te haver morto
uma cruel dezena de vezes,
procurei a afronta nas paredes.
acenei vagamente
a sombra que me projecta em escuridão,
e o momento escapou para o céu
até se perder
por um vórtice incompreendido.
os pirilampos morrem avisados
no coito de uma noite indiferente e infinita,
talvez o cansaço me conceda a sua mão materna,
talvez faleça a montanha que se insinua por ti
ao som de um azulado danúbio,
uma fronteira bárbara
de esparvados territórios eruditos.
consta-me o fim;
e o prazer obscuro da brisa
humilha a respiração
deste que ofega em compromissos vãos.
o ódio é um nome silencioso,
faz-se de gestos contundentes,
úlceras
e sangue.
as bestas procuram deslembrar o castigo do sol,
na memória por ele sombreada;
todos os ventos amenos trazem um nome próprio,
uma vítima senhorial,
pois os custos são notáveis
e a fama,
um fardo.
ruiu finalmente o remorso,
por entre ruminações ruidosas
e a utilidade perfeita
do tempo;
em cada segundo geme um conto
em cada conto
esporeia uma vida.
segue-se a estrada
triturada por um ciúme insubmisso,
é impossível seguir por outra vontade.
sexta-feira, julho 12, 2013
circular
a memória esboroa-se em detalhes.
é a cor que se amedronta
ou o espaço
que se contrai,
e a metáfora entretecendo tempo e matéria
perde-nos
ignorando a consciência
frágil
na inevitabilidade universal
da sorte.
ocorre-me pensar num conforto imortal;
mas o jugo de uma fantasia divina
é mais um grilho na carne
que sente,
na carne
que pensa.
o gesto é tudo o que resta,
o gesto que arrasta ao presente
a percepção dorida
desse impossível que aí vem.
é a cor que se amedronta
ou o espaço
que se contrai,
e a metáfora entretecendo tempo e matéria
perde-nos
ignorando a consciência
frágil
na inevitabilidade universal
da sorte.
ocorre-me pensar num conforto imortal;
mas o jugo de uma fantasia divina
é mais um grilho na carne
que sente,
na carne
que pensa.
o gesto é tudo o que resta,
o gesto que arrasta ao presente
a percepção dorida
desse impossível que aí vem.
quarta-feira, julho 10, 2013
atractor
havia um pedaço frugal da Lua
no teu olhar firme,
era rochoso o projecto mútuo,
um ditado coeso de dispersões,
como se a reciprocidade dos gestos
fosse apenas o amuo,
caprichoso,
de um espasmo evolucionário.
aguardo a devolução dos sentimentos;
é escuro este labirinto
cujas paredes mentirosas tento em vão,
impedir de crescer.
havia uma crença,
por certo vaga,
na brisa que nos unia,
hoje apenas se nota a brusquidão de um vento agressivo;
entre os impropérios tão mudos quanto inúteis
subjaz uma verdade temporária,
pois são assim dotadas as coisas humanas,
não houve,
nem poderá haver,
qualquer fantasma de falsidade.
no teu olhar firme,
era rochoso o projecto mútuo,
um ditado coeso de dispersões,
como se a reciprocidade dos gestos
fosse apenas o amuo,
caprichoso,
de um espasmo evolucionário.
aguardo a devolução dos sentimentos;
é escuro este labirinto
cujas paredes mentirosas tento em vão,
impedir de crescer.
havia uma crença,
por certo vaga,
na brisa que nos unia,
hoje apenas se nota a brusquidão de um vento agressivo;
entre os impropérios tão mudos quanto inúteis
subjaz uma verdade temporária,
pois são assim dotadas as coisas humanas,
não houve,
nem poderá haver,
qualquer fantasma de falsidade.
sexta-feira, julho 05, 2013
chiça
remoto é o medo
que morre quieto
num atalho
com cheiro a motim.
e quando se chega ao norte
viajando de um beijo mal dado,
a noite fatalmente chora
num murmúrio lembrando o outono.
faz hoje dias
que foi certa noite,
noutra altura,
em que se fez algo mais
e enumerámos momentos afoitos
na aflição tola de tudo lembrar.
a memória é uma pequeníssima morte,
uma sombra atenta
à arte de dobrar os sinos,
no estrépito esbugalhado da hora final.
remoto é o medo
- pertinho está o terror.
chove sempre ácido
sobre a palavra
fim.
que morre quieto
num atalho
com cheiro a motim.
e quando se chega ao norte
viajando de um beijo mal dado,
a noite fatalmente chora
num murmúrio lembrando o outono.
faz hoje dias
que foi certa noite,
noutra altura,
em que se fez algo mais
e enumerámos momentos afoitos
na aflição tola de tudo lembrar.
a memória é uma pequeníssima morte,
uma sombra atenta
à arte de dobrar os sinos,
no estrépito esbugalhado da hora final.
remoto é o medo
- pertinho está o terror.
chove sempre ácido
sobre a palavra
fim.
terça-feira, julho 02, 2013
vaidade
dizem-me,
com a piedade dos pagadores de dízimos,
que se recortou do plano dos vivos
o teu nome.
por temerem castigo
as paredes escondem o reverso
do lado que o sol aquece;
enquanto imaginam um vento
uivando impropérios
aos incautos pedregulhos
que silenciam a aparência
da montanha.
na verdade
minto.
não senti quase nada,
e a vergonha desce alfim
como de um andaime impróprio.
o solo poeirento acolhe sem queixumes
a humidade que de mim verte,
mas um sal imenso impede o florir
do sentimento urgente.
pendula agora,
ao preciso meio-dia,
o som aguado
navegador da imaginação do porvir.
o traje das velhas
escolta piedosamente os passos compassados
em procissão,
e velas pingam-se em cera nas velhas mãos encarquilhadas,
enguiçando projectos cinzentos
postulados em almas.
diz-me agora a brisa,
num murmúrio de coisa quase nenhuma,
que a cor do receio inchado
sufoca-se no calor imoderado deste verão nosso;
digo-te eu agora
um vazio aberto
e procuro no exercício da ponta dos dedos
o tacto da certeza.
em jeito de epílogo.
num momento de rejúbilo pensei o consolo
como quem bebe da mãe;
eu fechei os olhos
não por desespero,
nem por desejo ou outro qualquer delírio vão,
somente para,
em descomedida soberba,
escutar o mote
de como se deve viver.
com a piedade dos pagadores de dízimos,
que se recortou do plano dos vivos
o teu nome.
por temerem castigo
as paredes escondem o reverso
do lado que o sol aquece;
enquanto imaginam um vento
uivando impropérios
aos incautos pedregulhos
que silenciam a aparência
da montanha.
na verdade
minto.
não senti quase nada,
e a vergonha desce alfim
como de um andaime impróprio.
o solo poeirento acolhe sem queixumes
a humidade que de mim verte,
mas um sal imenso impede o florir
do sentimento urgente.
pendula agora,
ao preciso meio-dia,
o som aguado
navegador da imaginação do porvir.
o traje das velhas
escolta piedosamente os passos compassados
em procissão,
e velas pingam-se em cera nas velhas mãos encarquilhadas,
enguiçando projectos cinzentos
postulados em almas.
diz-me agora a brisa,
num murmúrio de coisa quase nenhuma,
que a cor do receio inchado
sufoca-se no calor imoderado deste verão nosso;
digo-te eu agora
um vazio aberto
e procuro no exercício da ponta dos dedos
o tacto da certeza.
em jeito de epílogo.
num momento de rejúbilo pensei o consolo
como quem bebe da mãe;
eu fechei os olhos
não por desespero,
nem por desejo ou outro qualquer delírio vão,
somente para,
em descomedida soberba,
escutar o mote
de como se deve viver.
terça-feira, junho 25, 2013
(con)junto
desenrolo
na aspereza da solução imposta,
o mote audaz da subversão.
os dedos procuram sofreguidão
no frémito inducto
pelo traçado voluptuário das formas;
é nestes deleites inventados
que se rasgam as nascentes da loucura
e,
por felícia,
noto entre lágrimas perplexas
o véu de subtilezas
resguardando a tua verdade
dos acessos perversos
do meu preconceito.
encosto finalmente a cabeça
no conceito abstracto
que em mim enforma
o teu coito;
é aí que depois fecho os olhos,
e vejo,
cristalino,
como o compasso do meu desejo segue,
unicamente,
a respiração do mundo.
na aspereza da solução imposta,
o mote audaz da subversão.
os dedos procuram sofreguidão
no frémito inducto
pelo traçado voluptuário das formas;
é nestes deleites inventados
que se rasgam as nascentes da loucura
e,
por felícia,
noto entre lágrimas perplexas
o véu de subtilezas
resguardando a tua verdade
dos acessos perversos
do meu preconceito.
encosto finalmente a cabeça
no conceito abstracto
que em mim enforma
o teu coito;
é aí que depois fecho os olhos,
e vejo,
cristalino,
como o compasso do meu desejo segue,
unicamente,
a respiração do mundo.
sexta-feira, junho 07, 2013
[sem]rumo
existe o mar,
as estrelas suspendem-se na impossibilidade
aparente
de um céu profundo e intangível,
fonte antiga de antigos prodígios;
ecos divinos outrora faróis de almas,
agora belos e mortos.
parece-me o destino
a assombração do entendido,
e o entendedor
concha envergonhada
e fogacho do tempo;
um capricho sorteado
no caos dos átomos.
desperto cada dia
com o sentimento vigoroso
de estar vivo,
é uma espécie de dor
e comove-me as vísceras
até se conceber em labirinto melancólico
enformando-me as decisões.
tenho por mote,
a dúvida.
as coisas,
na aparência evidentes,
afogam a verdade na extensão imensa
da opinião que ruge nos passos apressados
da rua.
se os meus pés,
no final,
se movem por uma estrada,
trilhando na aparência uma ordem ditada,
os meus pensamentos libertam-se
por todos os caminhos
por onde diverge
o mundo.
as estrelas suspendem-se na impossibilidade
aparente
de um céu profundo e intangível,
fonte antiga de antigos prodígios;
ecos divinos outrora faróis de almas,
agora belos e mortos.
parece-me o destino
a assombração do entendido,
e o entendedor
concha envergonhada
e fogacho do tempo;
um capricho sorteado
no caos dos átomos.
desperto cada dia
com o sentimento vigoroso
de estar vivo,
é uma espécie de dor
e comove-me as vísceras
até se conceber em labirinto melancólico
enformando-me as decisões.
tenho por mote,
a dúvida.
as coisas,
na aparência evidentes,
afogam a verdade na extensão imensa
da opinião que ruge nos passos apressados
da rua.
se os meus pés,
no final,
se movem por uma estrada,
trilhando na aparência uma ordem ditada,
os meus pensamentos libertam-se
por todos os caminhos
por onde diverge
o mundo.
quarta-feira, maio 29, 2013
crasso
não tentes poupar a memória
ao enguiço cortante
que sangra cada falhanço.
eu guardo no caminho da sarjeta
o retrato límpido de cada perpendicular
ao meu caminho;
quem sabe a soberba
se faça ditado de cada pausa
do meu discursar sem mote,
por vezes o vento traz-me ao sentido
o mau cheiro de frases antigas
e o mofo de certas ideias bolorentas.
hoje,
aqui e agora,
o peso dos segundos,
de cada um deles,
pendula-me o compasso do tédio;
aguardei em vão o desenho de um simples sorriso,
talvez até o merecesse
- feitas todas as contas
do deve e haver
das almas.
sou este pedinte,
danado,
da atenciosa passagem do teu corpo;
a revolta começa
na precisa medida
dessa ausência.
fica o amargo de boca
cerca um sonho
cheirando a rosas.
sexta-feira, maio 24, 2013
reductio ad
o absurdo vende-se com um rótulo meloso.
a matéria invade o discurso,
feito de películas sonoras
amontoando-se na viscosa fronteira
do entendimento.
a impossibilidade rege-se no aprumo esquemático
das paredes,
subindo iletradamente até alturas
sem escrutínio;
cansas-me a vista com poeiras inexplicadas,
quero escutar-te
mas todos os parágrafos propostos
me arranham a voz.
sou ingrato ao tempo,
em cada segundo uma irritação
até à irascibilidade das horas...
e o gozo lento desliza pelo chão
aderindo-lhe a merda
e junto com ela todos os pós
que resvalam para debaixo dos pés,
até se dispor tudo
num aflitivo adágio inaudível.
os meus argumentos caem
no teu regaço,
mas tu,
indiferente,
nem te apercebes.
quinta-feira, maio 23, 2013
{a}preço
sobra por metade
o apreço vão das coisas vivas;
a constante rotação da carne
esvai-se na liquefacção portentosa do sangue
escorrendo metodicamente
até morrer.
a praia jaz
no regaço pária do grito
- naufraga a esperança nas rochas
apressadas
do vento.
pinga depois a chuva
aqui num momento
ali em um outro afago.
desejo o teu abraço,
consolo fraco de um fraco,
fraquejo enfim no redondo corso
do marulhar das areias de um deserto escaldante.
a realidade constrói um monte de oliveiras
onde pingarão as gotas amargas de um condenado,
ecoando a dor humana
pelas cavernas húmidas e solitárias
da história
como opróbrio divino.
o palhaço chora,
sem dor ocorrer no pensamento da folha
que após desabrochar flor
morre
na cor precisa do pólen,
queda numa mesa mecânica
e industrial.
há um zunido eterno
ninguém o deseja escutar
e ainda bem.
terça-feira, maio 21, 2013
desinspirado
o desconsolo materializa-se,
edifica-se com a lentidão implacável
do que se toma por certo
e inevitável.
tento mais um discurso
sob o medo incorpóreo
que assola os desinspirados.
hoje o sol parece caminhar
pelo paradoxo azul do céu,
desenhado por regras exactas
num imaginário infinito,
como se o universo acima do mundo
nada mais se desejasse
que aconchego de homens
e astros.
o regular funcionamento das instituições
é uma chaga do fim do tempo,
um pé certinho,
após o outro,
dirigindo-se com apresto,
e radioso rigor,
ao que nada interessa.
rodeado por tantas fontes
de produtividade eficiente,
adivinho o acento tónico
da substância inverosímil
que pinta o cenário dos horizontes
com a cor que dissolve o peso das nuvens;
aí,
onde cimento algum alçará muros,
mora o último suspiro da imaginação,
cada vez mais distante
destes olhos ensombrados.
segunda-feira, maio 13, 2013
vagar
comecei devagar,
a lentidão nomeia-se
em um arrastado
e consentido
silêncio.
seguro imaginariamente
a tua mão,
desenho-a vaga
no perfume tecido
no espaço estendido,
quase até ao infinito,
entre nós.
o degredo dos gestos e dos sons
transforma o regaço escorregadio dos olhos
numa ponte traiçoeira,
não há mentira na brisa
escorrendo entre o raso da terra
e a abstracção do céu,
mas uma espécie de medo,
um medo fundamental,
confundindo a sequência escorreita
dos passos.
acoitam-se os pés
no sossego impossível da noite,
das entranha das sombras
rasga-se o grumoso compasso dos sonhos
fazendo-se gotejar,
sem fito preciso
mas com precisão aritmética,
entre arestas e distâncias.
depois,
o sumo dos teus lábios
fala-me das delícias do corpo,
tudo o resto
rega-se de sentimentos
que te contornam
em descontrolo.
Há uma nobreza respeitosa na decadência,
baixo o olhar
não para fugir como um cobarde
ao escrutínio de outros olhos,
apenas para que neles
não me force reflectir a finitude pueril
dos meus.
entre todos estes soluços
não há precisão
em ter
qualquer pressa.
quinta-feira, maio 09, 2013
espoleta
eu regresso da guerra
com este cheiro a sangue
imaginário,
ser em um dia
depois de um outro
é como demorar entre poros:
absorvendo e expelindo.
e deste ruído perene,
avozeando o meu nome
entre pedras
e musgos,
alegro alegorias várias
no vento cortante
das promessas incumpridas.
fazes contas à vida,
luciluzindo-te na face
os feixes de luz
de uma electrónica
útil;
a verdade,
porém,
escorrega sozinha
e invisível,
até um dia
nos cair em cima.
terça-feira, abril 30, 2013
impossíveis
é assim que faz fazer-se
a voz
vontade inclusa em moribundo volteio regular,
percepcionando um fundo injusto
nesse jeito estranho que tens
de amar;
acção precisa
ao assalto de montes fumegantes
prenhes de cheiro a morte,
controlando a infinidade de consolos e propósitos fátuos.
ruge além um invólucro vazio
votado ao som do desapego,
soado nos sigilos sonoros dos suores das bestas
e no gemer confuso e húmido do sexo.
a ferrugem que esconde o brilho do metal afiado
não aquece,
assomando à omissão da frieza
uma aptidão pronta
ao rasgar da carne,
se por tal se excitar
uma vontade qualquer.
ao redor do corpo
insinuam-se fronteiras bruxuleantes,
os olhos mentem
até o sentido imaterial se desfazer
aos pedaços
no chão indiferente que sobra.
desejas voltar,
é impossível.
sexta-feira, abril 26, 2013
templo
faça-se do dia
um doce melaço
escorregando com a lentidão do ócio
e pingando dos meus dedos
como pingam os segundos
nos compassos de tédio
que inspiram o tempo.
o templo da liberdade
vê-se cercado por desertos,
arde,
e a madeira do futuro
crepita até se fazer carvão podre
alimento de fábricas perversas
produzindo vastidões de nada!
ergue-se a mão furiosa
esganando num aperto viril
o círculo esgotado,
que eternamente retorna,
como sede e como depósito eterno
de promessas;
o pão pagar-se-á com ouro encharcado de sangue,
as feridas
quando finalmente fechadas
lembrar-se-ão como esboços talvez vagos
sulcados numa pele velha.
toma a minha mão,
sente-a,
aí se entorna
o único sentido das coisas.
sexta-feira, abril 19, 2013
[du]vi[dar]
começo com esta dúvida
embrumando-se na memória actual
das coisas
como um fumo
arquitectado em volutas
quase invisíveis.
eu aguardo o momento
ritmado ao compasso das subtilezas
por onde se perdem todas as notas.
estava porém a olhar-te
perdido na instável concessão feita
todos os dias
aos dias por vir.
não era isso distracção
não era isso alheamento.
e se te olhava assim
na tua ausência física
era por ser um castigo
este querer ver-te aqui
no agora que se enfeita
de pedaços certos
num mundo de arestas
em carne-viva.
começo
pois
com esta dúvida
já não é ela bruma
mas cimento.
começo
e depois
acabo.
e assim se sussurra a verdade.
terça-feira, março 19, 2013
enfrear
a morte fecha-se num ciclo,
e os corpos
consumidos por vícios diários,
mentem-se numa caixa exígua
fronteira ao sobressalto.
às vezes
o sentimento cerra-se num punho
como postema na garganta,
e nega ao sangue
o trilho do coração.
a crueldade das horas é esta,
um esquema excessivo
detalhando o pesar em cada segundo.
eu quero sossegar-te
com uma carícia sem propósito,
e todos os átomos sem dono
comem a vontade
na inércia perene
que se faz tempo.
sexta-feira, março 15, 2013
quando trazes noite nos olhos
quando trazes noite nos olhos,
eu prometo ser a moda fresca do vento
servindo de atalho
aos pequenos passos dos pequenos deuses
que no caminho me olham santamente
as rugas das mãos.
o consumo dos dias
escorre ligeiro,
detenho-me na consciência desse caso
e como nele se misturam as promessas,
os detalhes já vagos
de uma vontade que se fez antes
robusta.
quando trazes noite nos olhos,
eu faço desse teu jeito
mote para o meu dia.
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
o pastor ateu 3
não falo de onde nasce a melancolia,
nem sei como se rendem os pólenes
ao farejar virginal das crianças;
entendo o chão que piso,
enquanto o piso,
e as palavras que deixas em meu ouvir,
e os gestos que fazes ou deixas por fazer.
as nuvens lá por cima,
prometem prodígios que abastam o sonhar
de quem a isso se atreve.
todos os monumentos dos homens
desejam transtornar o senhorio da morte;
e apenas esses,
no entendimento que faz a coisa consciente,
roçam a imagem de um deus;
mas tal sucede,
precisamente,
por nisso não saberem
meditar.
sexta-feira, fevereiro 08, 2013
neocamoniano...
aprestada vai precisa
leonor pelo asfalto;
vai jeitosa, e não duvida.
leva na cabeça um casco,
as barras, nas mãos aperta,
e a jersey de cor esperta
dá-lhe um ar de tal frescura
mais leve que a neve pura.
vai jeitosa, e não duvida.
do vento salva a garganta
com um lencinho à medida
do seu pescoço rosado,
tão gira que o mundo abana;
e pedala com tal gana
que suplanta a própria vida.
vai jeitosa, e não duvida.
terça-feira, fevereiro 05, 2013
rasgo
o raro ao fazer-se do espaço
neste vento de alegrias espumantes
que contagia a animação dos corpos,
corrompe-se em cores imparáveis,
em luz lampejando por traços hesitantes,
ou no ribombar perverso
gritando os nomes da submissão
ao estado contínuo
das coisas insubstanciais.
sonham-se os átomos
à temporária satisfação dos pedaços
que a noite
faz inventar depois,
e esses componentes
derretendo-se pingam,
numa teimosia sem plano,
na parte de fora dos caixões por vir.
assim se consomem
as partículas do tempo,
queimando uma pele imaginária
enquanto chuva espectral,
obrigada a cair
segundo uma regra sem criador.
é aqui que se rompe o tecido atilado do universo,
e só o mortal
se enche de todo esse poder soberbo
para,
inutilmente,
o fazer.
sexta-feira, fevereiro 01, 2013
o pastor ateu 2
guardo em mim
um silêncio de mil palavras;
cada uma
um pequeno símbolo,
talvez vazio de sentido último,
do amor que sinto intenso
por cada pequena coisa
que se agita da terra.
eu vejo-as,
a essas emanações físicas,
movendo-se por linhas
que se ultimamente divergem
pontualmente se ajuntam,
e tenho a robusta ilusão
de zelar até
pela mais exígua vírgula
ou indecisa forma de reticência...
a erva sibila agora,
e zomba de mim,
soprada por um vento
que em quase tudo me é alheio.
o pensamento dissolve-se
na vontade poente do sol,
adormece em todos os nomes amados,
passeia no dorso de sombras
que crescem na lentidão velhaca do velho tempo,
e desliza por sobre os montes que querem beijar
os farrapos baixos
das nuvens.
faz-se então hora precisa
de acordar.
quarta-feira, janeiro 30, 2013
absurdo
o absurdo
adorna cada esquina do mundo,
arredondando suas aresta sangradas
com a precisão dolente de um bisturi,
cortando sem remorso
a película liberal
de um sonho
imoderadamente lúcido.
e nessa dimensão abstracta,
onde o tecido vivo
deslembra o remoer das vísceras,
se promove um senso real:
a rosa morta
freme em um vermelho vivo
e a húmida promessa,
que escorrega lânguida pela encosta
de uma submissão perfumada,
encharca a consciência
de fados impossíveis.
enrolando-se em tudo,
tudo flui;
sinais,
vertigens,
são promessas embusteiras,
murmuradas para dentro
gritadas depois
ao mundo.
adorna cada esquina do mundo,
arredondando suas aresta sangradas
com a precisão dolente de um bisturi,
cortando sem remorso
a película liberal
de um sonho
imoderadamente lúcido.
e nessa dimensão abstracta,
onde o tecido vivo
deslembra o remoer das vísceras,
se promove um senso real:
a rosa morta
freme em um vermelho vivo
e a húmida promessa,
que escorrega lânguida pela encosta
de uma submissão perfumada,
encharca a consciência
de fados impossíveis.
enrolando-se em tudo,
tudo flui;
sinais,
vertigens,
são promessas embusteiras,
murmuradas para dentro
gritadas depois
ao mundo.
sexta-feira, janeiro 25, 2013
ver
o que está lá,
se queda ingenuamente aqui
por ali estar exposto,
embora o que lá esteja
possa ser,
digamos,
predicado diferente
por divergir em opinião outra;
olhos vários
espiralam pois
numa voragem de interpretações.
apenas morrer,
aventuro postular,
será igual,
ou parecido
enfim,
mas apenas
para quem não pode mais
usar as vísceras
para nisso assestar um julgamento.
nada muda
apenas fitando,
nada fica o mesmo
após ser olhado.
quarta-feira, janeiro 23, 2013
máquinas
quando se ignora o murmúrio frágil
que impregna um sentido inventado
nas coisas,
com a soberba
dúctil
de quem escolheu esquecer as subtilezas,
por vezes doridas,
de sentir,
resta então,
a esse novelo de coisas impossíveis
cujo objecto deve ser
entrelaçar carne além-carne,
elevar
sem hesitações excessivas
o dedo indicador,
e desligar
o botão.
quinta-feira, janeiro 17, 2013
penso-rápido
redunda no arredondar do vento
a expressão provavelmente correcta.
remonta na afronta do eco
a voz de outrora,
rouca,
com o pensamento suspenso
na dimensão iludente de uma acção futura.
consola-me,
em toda esta roda inútil,
a ilusão fugaz
de não estar só.
o regaço,
enfim,
cumpre o efeito postulado,
como faz o aço
pela estrutura exógena,
sustento desta sorte de caverna,
que me anexa em conforto obsequente;
e assim se tenta embustear o devir
embora o mundo teime na sujeição ao tempo,
não vertendo olhar que seja
por sobre a parvidade
dos meus medos.
terça-feira, janeiro 15, 2013
fascinação
seduz-se a moribunda ideia dos instantes
na palavra que despe,
com a demora exigida aos sábios,
o sentimento.
cada sílaba reverbera,
e exala-se qual incenso,
voluteando
uma fronteira do infinito;
ecoa-se,
póstuma,
na abstracção assisada
com que lemos augúrios inúteis.
o segredo da eternidade
desvela-se com um pudor ingénuo
na consciência que pinga
sobre todos os segundos;
depois decai,
como um pó,
uma subtileza permeando tudo,
imperceptível
por sobre as cabeças mortais
que inutilmente
a namoram.
segunda-feira, janeiro 07, 2013
cerco
concretiza-se a memória dos sonhos
na verdade oculta,
chamada com modos lentos,
no domínio oblíquo dos desejos.
os dedos
adivinham um progresso erótico
seguindo o trilho de um corpo,
que se curva e se molda
e se respira
com a urgência do tempo
que se esvai.
para além dos olhos,
muito além da teimosa vigília
que ineludível nos tolhe,
ficam as imagens proibidas
das coisas várias
que coleccionamos
enquanto pecados sem substância.
e é por isso,
e não por medo ou vergonha,
que os olhos se baixam;
ver assim
dói.
quarta-feira, janeiro 02, 2013
das coisas que (não) são
coisas são
que se tomam,
no mover pendulado dos dias,
de uma leveza excessiva.
como acontece
à superfície adimensional
separando a água,
por debaixo,
do ar ao de cima;
coisas são
que se nomeiam
em conceitos ingénuos,
que após se revelam
inesperadas definições de complexidade.
coisas são
que na substância das outras coisas,
afinal,
não são;
sendo que nestas,
coisas que não são,
se imprime a película mais insubstancial de todas
- o sentido.
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