terça-feira, dezembro 18, 2012

esquematicamente-intento


arranca-se às vísceras
o sentimento gritado nos costumes antigos,
cada passo sorve mais um trago do passado,
cada passo esquece mais um pouco
a herança que o firmou;
afinal,
decadência,
é o sentido que se dá ao auge das coisas,
quando estas,
imergidas na anatomia entrópica do mundo,
concedem ao tempo
o sussurro abismado do fim.
o anúncio do caos
nasce do desespero e de horizontes sem luz,
a mão ergue-se num punho,
e de um símbolo que se fecha
se excita vigor no gesto puro
- depois far-se-á possível
construir.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

voltas


acresce ao dinamismo,
a essa classe fremente de verdades poentas,
inchada de vazios populosos,
o sentido excelso de um bem
indizivelmente ético;
conforma-se-nos o corpo,
então,
nas curvas mentirosas
baixando violentas
sobre o destino indiviso
de todos os homens.
há um percurso,
um caminhar hesitando,
que se guia na promessa falsa,
companhia de outras e de tantas,
que berra sem tino nas volutas insensíveis
que desenrolam a luz dos dias.
e consome-se o futuro
olhando
vigorosamente
 para o resvalar dos musgos,
enquanto se encantam os calhaus
entre salpicos inúteis e divertidos,
com a melodia conformada
dos minutos decadentes.
caem as gotas,
seguidas e impossíveis,
macetadas como um dedilhado compassar;
sentem-se as pequenas quedas
como pequeníssimas notas
elevando-se de um piano imaginado e,
erguendo-se lentamente o gesto,
produz-se um sorriso,
um sorriso que se suspende
para além do infinito,
pois aí se comove por fim
o deus que não existe.
fica o uivo do vento,
sem o tento,
afinal,
de quem por via dele
se arrepia.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

sem estar


estás por delícia coberta
no fulgor extático da cobrança,
aquela que tu
e outros
fazem
muito para além do apropriado,
até que sendo a queda
evidente,
se morrem os dedos
antes de morderem uns calcanhares sem rumo.
o silêncio é agora
esta espécie de guarda,
firme na resolução subsumida da sua constante dor,
comiserando a infidelidade
que os ventos maliciosos
murmuram sem descanso.
roda ao redor o medo,
construindo nos intervalos da cor
as pequenas ausências que conspiraram
em tempos idos
os teus olhos letais.
a vontade chora-se,
porém,
no advento forçado de um mergulho ético;
daqueles ousados perfumes
por que se desfazem as palavras inúteis,
sem se deleitarem na depravação geral das sílabas.
começo então
em um ponto preciso,
doença fatal
condutora ao enfado que após pernoita
nas alcofas mortais aconchegando-nos de corpos.
vê ao longe
afinal
a torrente de lágrimas
lavando as chagas injustiçadas,
aquelas que se rasgaram profundas
na carne dos homens;
um comentário faz-se,
e não há mais precisão de colonizar o espaço das promessas.
o coito abre-se no fim do caminhante
e aceita a palavra contundente
que por ele dentro se adentra
até ser dele saído
todo um mundo.

terça-feira, dezembro 04, 2012

moiras


talvez a montanha se defina
como os loucos a desenham;
sem a precisão excessiva de traços certos,
ou aquela coloração intacta
dos factos intocados;
talvez se concretize
numa ideia aos tropeções,
bamboleando de aqui e de ali,
qual impropriedade emprenhando-se
por linhas cruzadas sem intento
no secretismo dos nevoeiros.
talvez o cume não conquistado
simplesmente nem o seja,
já que dista da visão dos seres
a mesma distância
que vai ao gume afiado dos desejos
que não se fazem cumprir.
talvez,
então,
a razão de tudo,
e de nada,
esteja no discurso desconexo
de quem não vê
onde os próprios pés assentam.

por maior que seja o homem
a memória perdê-lo-á,
perdendo-se ela depois
no fulgor fatal
que tece
o devir inconsequente
de todas as coisas.