Amontoando paixões e ilusão
corre célere o rio que tudo move.
E os espectros divergem como loucos
sob a volúpia insensata das águas
e o devaneio hipnótico das sombras.
Ao vento, obedecem-lhe os acordes
que ora vão ora chegam, mas nunca partem,
naquele carecimento sonoro
que aferretoa sentir e momento.
A fúria encerra uma porção de sonho,
e é num olhar que o nome se grita
tendo no horizonte mais uma ponte.
terça-feira, maio 31, 2011
segunda-feira, maio 30, 2011
É sábio o caminho da água;
em toda a sua fúria,
em toda a sua calmaria,
encontra sempre modo
de se fazer futuro.
Por detrás do véu subtil dos sonhos
acaricia-nos o conforto prometido da luz
que, sempre além, a vigília não sabe alcançar.
É sábio o caminho dos sonhos,
mas duros são os passos do sonhador.
em toda a sua fúria,
em toda a sua calmaria,
encontra sempre modo
de se fazer futuro.
Por detrás do véu subtil dos sonhos
acaricia-nos o conforto prometido da luz
que, sempre além, a vigília não sabe alcançar.
É sábio o caminho dos sonhos,
mas duros são os passos do sonhador.
sexta-feira, maio 27, 2011
Do que não se vê
A rua dobra e oculta
tudo quanto dessa volta depois fica.
O desenho das coisas conspira
com o invisível,
fazendo do desejo
um arauto enlouquecido
gritando pelas migalhas
que escorrem pelas frestas dos sonhos.
Os nossos dias cobrem-se de espaço e de tempo
embrumando o caminho por onde flui o futuro,
mas se desconhecemos o porvir,
somos donos, ainda que por instantes,
das nossas memórias
e dos nossos amores...
tudo quanto dessa volta depois fica.
O desenho das coisas conspira
com o invisível,
fazendo do desejo
um arauto enlouquecido
gritando pelas migalhas
que escorrem pelas frestas dos sonhos.
Os nossos dias cobrem-se de espaço e de tempo
embrumando o caminho por onde flui o futuro,
mas se desconhecemos o porvir,
somos donos, ainda que por instantes,
das nossas memórias
e dos nossos amores...
quinta-feira, maio 26, 2011
Aparências
Existe sempre uma mancha,
uma névoa, um véu,
escondendo a ideia de uma alma
num engano suave
que morre numa lágrima.
Como num azul falsamente infinito
se esconde a verdade dos céus,
também na torrente das palavras casuais
e na babel ruidosa dos gestos mundanos
se ensombra tudo
quanto os olhos espelham.
uma névoa, um véu,
escondendo a ideia de uma alma
num engano suave
que morre numa lágrima.
Como num azul falsamente infinito
se esconde a verdade dos céus,
também na torrente das palavras casuais
e na babel ruidosa dos gestos mundanos
se ensombra tudo
quanto os olhos espelham.
quarta-feira, maio 25, 2011
Derivas
Perdi-me algures
em verdades nuas,
fragilidades e impurezas,
juras entre ficções,
talvez,
mas, com uma fronteira invadida
por inexpressivas multidões
reconheço a fundação dos meus medos.
A solidão não é irmã do silêncio,
os sentidos doem
e o perdão é como uma expressão cortante
ecoando pelos oblíquos planos da vida.
A rocha sente a acção das espumas
que, contra si,
a água revolta despacha;
é desse revoltar cíclico,
dessa suada sexualidade,
que a paisagem nasce
para, finalmente, os olhos a beberem.
Morro e renasço no regaço de cada hora que passa,
e nisso me toma um cansaço feito de tempo
e abrem-se os ramos rugosos
que, sem o rigor dos escritos,
abraçam os contornos esponjosos
de um futuro...
em verdades nuas,
fragilidades e impurezas,
juras entre ficções,
talvez,
mas, com uma fronteira invadida
por inexpressivas multidões
reconheço a fundação dos meus medos.
A solidão não é irmã do silêncio,
os sentidos doem
e o perdão é como uma expressão cortante
ecoando pelos oblíquos planos da vida.
A rocha sente a acção das espumas
que, contra si,
a água revolta despacha;
é desse revoltar cíclico,
dessa suada sexualidade,
que a paisagem nasce
para, finalmente, os olhos a beberem.
Morro e renasço no regaço de cada hora que passa,
e nisso me toma um cansaço feito de tempo
e abrem-se os ramos rugosos
que, sem o rigor dos escritos,
abraçam os contornos esponjosos
de um futuro...
terça-feira, maio 24, 2011
Peso
Sente-se a inutilidade pesar
sobre a matéria e sobre o sonho
como um nefando augúrio
oprimindo em abstracta distância
aquilo que se fará inevitável.
É certa a temporalidade paradoxal
de todas as rochas,
de todas as formas de recortar
nos horizontes
a metáfora infinita dos céus.
No meio de tantas coisas que se finam,
de tantas imagens tácteis do que cessa,
talvez eterno
seja
apenas
sentimento.
sobre a matéria e sobre o sonho
como um nefando augúrio
oprimindo em abstracta distância
aquilo que se fará inevitável.
É certa a temporalidade paradoxal
de todas as rochas,
de todas as formas de recortar
nos horizontes
a metáfora infinita dos céus.
No meio de tantas coisas que se finam,
de tantas imagens tácteis do que cessa,
talvez eterno
seja
apenas
sentimento.
sexta-feira, maio 20, 2011
Silêncios...
Os silêncios são coisas maravilhosas,
sussurros de deuses mortos
segredando baixinho ao ouvido solitário
fórmulas de verdades impossíveis;
e são também momentos a que se nomeia,
por vezes,
de angústia...
Mas quando o mundo não fala,
está calado,
e o silêncio é o único discurso
fazendo-se e desfazendo-se nos gestos
e nos movimentos dos vivos,
podemos, talvez, ouvir-nos
e, numa epifania,
improvavelmente,
descobrir.
sussurros de deuses mortos
segredando baixinho ao ouvido solitário
fórmulas de verdades impossíveis;
e são também momentos a que se nomeia,
por vezes,
de angústia...
Mas quando o mundo não fala,
está calado,
e o silêncio é o único discurso
fazendo-se e desfazendo-se nos gestos
e nos movimentos dos vivos,
podemos, talvez, ouvir-nos
e, numa epifania,
improvavelmente,
descobrir.
quinta-feira, maio 19, 2011
Distâncias
É na distância das coisas
que se chega ao destino
do que delas podemos entender.
Entretanto,
perdidos na dolência aguda da proximidade,
no tempo ou no espaço,
somos néscios ao fundamental.
Nada existe de mais perfeito
que o perfume fresco das flores,
mas apenas o descobrimos,
quando essa perfeição secou,
no cheiro que intangivelmente se sente
nos labirintos da recordação.
que se chega ao destino
do que delas podemos entender.
Entretanto,
perdidos na dolência aguda da proximidade,
no tempo ou no espaço,
somos néscios ao fundamental.
Nada existe de mais perfeito
que o perfume fresco das flores,
mas apenas o descobrimos,
quando essa perfeição secou,
no cheiro que intangivelmente se sente
nos labirintos da recordação.
quarta-feira, maio 18, 2011
Lá, onde
O embaraço desce
pelo emaranhado confuso dos momentos,
e um soluço distancia-se
da imagem que se concretiza
logo ali.
Perfumes e musas
são como beijos divinos,
motes mélicos
suspirados pelos poros
por onde sensualmente bebem
os jardins da Terra
toda a sorte de coisas.
Lá onde o sol se vê deitar
estará o refúgio,
para sempre indiscernível,
de quem nunca se encontra
onde está.
pelo emaranhado confuso dos momentos,
e um soluço distancia-se
da imagem que se concretiza
logo ali.
Perfumes e musas
são como beijos divinos,
motes mélicos
suspirados pelos poros
por onde sensualmente bebem
os jardins da Terra
toda a sorte de coisas.
Lá onde o sol se vê deitar
estará o refúgio,
para sempre indiscernível,
de quem nunca se encontra
onde está.
terça-feira, maio 17, 2011
Legados
Não são impossíveis os sons certos,
não são definitivas as teias
enredando os dias que velejam por nós
céleres e inevitáveis.
As mensagens do Passado
tanto se lêem
quanto se escutam;
algures entre o som das palavras
e a tinta das letras,
está uma construção do Futuro
- por aí se faz o caminho
aí se inscreve a esperança.
não são definitivas as teias
enredando os dias que velejam por nós
céleres e inevitáveis.
As mensagens do Passado
tanto se lêem
quanto se escutam;
algures entre o som das palavras
e a tinta das letras,
está uma construção do Futuro
- por aí se faz o caminho
aí se inscreve a esperança.
segunda-feira, maio 16, 2011
Sobre a Perfeição
É por vezes o mundo,
enquanto sentimento,
nada mais do que imagino ser
tudo quanto, generosamente aberto,
o teu olhar alcança.
E quando sonho,
com os teus olhos
procurando encontrar os meus,
o mundo deixa de ser infinito,
poderoso, vasto, incompreensível...
para ser,
simplesmente,
um templo de memória
a esse momento perfeito.
enquanto sentimento,
nada mais do que imagino ser
tudo quanto, generosamente aberto,
o teu olhar alcança.
E quando sonho,
com os teus olhos
procurando encontrar os meus,
o mundo deixa de ser infinito,
poderoso, vasto, incompreensível...
para ser,
simplesmente,
um templo de memória
a esse momento perfeito.
quinta-feira, maio 12, 2011
Daquilo que pode ser
Ponderei e pondero
sobre imagens impossíveis.
Sentimentos secretos,
talvez impudicos, doridos;
ideias que sem prumo
se elaboram como memórias falsas
numa espécie de resumo exangue
de todos os meus intentos.
São os desejos como gritos
- desaforos patéticos largados ao mundo.
As palavras calam-se
no fumo espiralado da dúvida,
e os olhares, que querem urgentemente encontrar-se,
afastam-se comprometidos,
submissos ao reino
daquilo que pode ser.
sobre imagens impossíveis.
Sentimentos secretos,
talvez impudicos, doridos;
ideias que sem prumo
se elaboram como memórias falsas
numa espécie de resumo exangue
de todos os meus intentos.
São os desejos como gritos
- desaforos patéticos largados ao mundo.
As palavras calam-se
no fumo espiralado da dúvida,
e os olhares, que querem urgentemente encontrar-se,
afastam-se comprometidos,
submissos ao reino
daquilo que pode ser.
terça-feira, maio 10, 2011
Sonhei obviamente demais.
Todo o sonho é demasia,
desejo que se deseja impossível
para que possa ser aquilo que é
- sonho.
No silêncio da noite,
enquanto uma Lua imensa despudoradamente sorri
a luz com que o Sol secretamente a ama,
fantasia-se a fantasia num manto ilusoriamente concreto
e, num soberbo instante,
o sonho respira
e é quase conforto, e é quase memória,
e, decerto,
será alimento
da esperança.
Todo o sonho é demasia,
desejo que se deseja impossível
para que possa ser aquilo que é
- sonho.
No silêncio da noite,
enquanto uma Lua imensa despudoradamente sorri
a luz com que o Sol secretamente a ama,
fantasia-se a fantasia num manto ilusoriamente concreto
e, num soberbo instante,
o sonho respira
e é quase conforto, e é quase memória,
e, decerto,
será alimento
da esperança.
sexta-feira, maio 06, 2011
La Folie
Os átomos, que procedem dos elementos da matéria, entrelaçam-se precisamente, contendo essa precisão as necessárias mesuras, explicando, talvez, a função observada.
Extravia-se dessa exactidão, pelo menos na aparência, a confusa e abstracta produção do discurso, coerente ou incoerente; produzido que é por uma ordem estatisticamente reforçada de inúmeros processos mecânicos.
Ser louco, desnormalizado, diferente, estranho, é um produto exacto, e necessário, das "leis" da Física...
E ainda bem!
Extravia-se dessa exactidão, pelo menos na aparência, a confusa e abstracta produção do discurso, coerente ou incoerente; produzido que é por uma ordem estatisticamente reforçada de inúmeros processos mecânicos.
Ser louco, desnormalizado, diferente, estranho, é um produto exacto, e necessário, das "leis" da Física...
E ainda bem!
quarta-feira, maio 04, 2011
Perdição
Um cinzento chuvoso
lamenta gemidamente uma ausência.
Um passado ignoto esbanjou-se algures
e assombra, num lamento silencioso,
a quietude das pedras.
Sobe da ruína um adágio
sonegando às palavras a esperança,
pois o cião não se respira aqui
nem a suave brisa de um sol primaveril
trazendo em insinuação florida
o som de sorrisos profanos.
Os meus olhos fecham
e forçam a contemplação
da impossibilidade do desejo;
sinto na pele
o gelo de uma escuridão
de onde se apaga o calor
que luz nos teus olhos...
E assim sou perdido.
lamenta gemidamente uma ausência.
Um passado ignoto esbanjou-se algures
e assombra, num lamento silencioso,
a quietude das pedras.
Sobe da ruína um adágio
sonegando às palavras a esperança,
pois o cião não se respira aqui
nem a suave brisa de um sol primaveril
trazendo em insinuação florida
o som de sorrisos profanos.
Os meus olhos fecham
e forçam a contemplação
da impossibilidade do desejo;
sinto na pele
o gelo de uma escuridão
de onde se apaga o calor
que luz nos teus olhos...
E assim sou perdido.
terça-feira, maio 03, 2011
No íntimo dos momentos,
no colo célere dos segundos,
enrolam-nos as tramas tensas
onde se vão enredando
todas as nossas pequenas histórias.
Dessa manta emaranhada pelos fios do tempo
nascem rugas,
ásperos e descontínuos testemunhos,
que cobrem de ilusão
a inevitabilidade de um caminho
rasgado por incontáveis espinhos.
É nos limites do silêncio
que o ser se escuta
e, enquanto murmurado segredo,
finalmente se dá
sem os ruídos do medo.
no colo célere dos segundos,
enrolam-nos as tramas tensas
onde se vão enredando
todas as nossas pequenas histórias.
Dessa manta emaranhada pelos fios do tempo
nascem rugas,
ásperos e descontínuos testemunhos,
que cobrem de ilusão
a inevitabilidade de um caminho
rasgado por incontáveis espinhos.
É nos limites do silêncio
que o ser se escuta
e, enquanto murmurado segredo,
finalmente se dá
sem os ruídos do medo.
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