sinto-me uma velha mentira
gasta.
um rumor antigo,
riscado na rocha de uma caverna imemorial.
sinto-me figura descarnada,
um espectro inventado
num simulacro asséptico.
sinto-me a noite vulgar,
imitando as estrelas do céu infinito;
sinto-me a luz que emudece
nos caminhos curvos do espaço-tempo.
sinto-me o azul que morre
no oceano envenenado.
sinto-me a náusea de estar vivo
na certeza da morte.
sinto-me a casca vertida
da serpente renovada.
sinto-me a memória perdida
na ausência da história.
sinto-me este imenso lastro
que sou;
sinto-me as escolhas;
sinto-me as cobardias;
sinto-me as omissões;
sinto-me triste, nesta tristeza minha,
tua,
de tudo e de nada;
sinto-me na felicidade aparente dos outros;
sinto-me nas possibilidades e nos becos;
sinto-me na carne e no vácuo;
sinto-me nas sobras;
sinto-me no tédio;
sinto-me no espelho;
sinto-me no momento
e depois
sinto-me na lembrança;
sinto-me vivo,
afinal,
se hoje desmorono,
amanhã sonho-me
novo
e depois?
diz-me tu...