terça-feira, abril 24, 2012

soberba

já não são apenas sombras
envolvendo em véus cinzentos 
o que se nomeia envergonhadamente por dúvida.
o ar ele mesmo
remete para um peso de excessos,
oprimindo a respiração
e com ela,
a urgência de ser livre.
a urbe medra numa soberba irreprimível,
arvoando sentidos e decência,
deslaçando gesto de sentimento,
negando aos passos o concreto do chão
e a promessa dos sonhos.
são perdidos
aqueles que encontramos prostrados por becos escuros,
secos de esperança
cegos ao porvir.
a balança pende já para a morte,
a forma exausta 
curva-se sob a rectidão falsa de outros;
o número devora a carne
e rasga as ruas com dentes de cimento.
não há crime mais ignóbil
que o crime
do homem moral.

sexta-feira, abril 20, 2012

diferença


toma-se por loucura
a palavra omissa
no gesto inexplicável.
mas o louco é um explicador de impossíveis,
amontoando com descuido
a intemperança da palavra incongruente.
o visionário
acaricia contornos possíveis
onde outros sentem o pavor do vazio.
entre os dois
existe somente
a distância ao futuro.

quarta-feira, abril 18, 2012

urgência



teimo em observar a metáfora dos sons
enlaçando as imagens dos dias.
como se o pó,
que em toda a aparência dança feliz pelos fios dourados do sol,
desprendesse a energia frenética de um alegro;
e no avistar da folha outonal
se segredasse a abertura do inverno
num adágio
acariciando a subtileza da saudade.
tudo isto perece na cacofonia da urgência,
debelando os sons que se sentem
no artifício repetido
pelo compasso ditador
dos segundos.

sexta-feira, abril 13, 2012

medo


naufraga o ridículo
entre vagas e ventos sem amo,
sobra das veias sangue
para resgatar aos sentidos dormentes
um clamor de vingança.
da lua pingam os pedaços com que a luz chora
a inconcebível distância ao sol,
um fio desassombrado escorrega
da cúpula celeste
mentindo longamente a origem de tudo;
o engodo serpenteia falsamente luminoso,
distraído por relevos forçados,
sujeitando a vontade à topologia adversa
dos preconceitos.
os olhos tomam-se pela escuridão
de vícios e desesperanças.
não se faz futuro sem medo,
não se tem presente quando tudo se teme.

quarta-feira, abril 11, 2012

corte


entre pausas e comércios estranhos
a vileza adere grosseira
aos fios incolores que insistem vestir a noite.
o ar satura-se com o bafio de uma promessa
que jamais se fará cumprir.
como esquecimento
jaz numa lonjura quase concebível
o corpo daquela moura
que já não sabe encantar.
as eras ecoam em cadências vincadas
marcando o apagão de palavras velhas.
deuses expiram,
impérios desfazem-se no pó de ruínas inevitáveis.
a memória produz-se
depois
daquela nostalgia que espreita nas pedras.
quando o vento varre o silêncio da decadência
a morte é um ditado,
resta escrevinhar com urgência
em todas as paredes que ainda teimam
uma revolução.

terça-feira, abril 10, 2012

mortais


existe um leve remorso
miscrando-se nos gestos mais exíguos
que nos sussurra irrespiráveis notícias
desse mistério que nos dota os átomos do existir.
os dedos acham
na porosidade rochosa das coisas
um prazer simples;
a aspereza imperfeita do mundo
insinua-se em rugas que transmutam da terra para os corpos
e nesse processo se conjuram certezas frágeis
por cada nova e improrrogável dúvida.
num universo onde todas as coisas se fazem de morte
inventou-se o homem
para nele se sonhar a abstracção do infinito.
desse sonho impossível
nasce tudo o que sublima a consciência sobre os calhaus;
o instante em que urdimos a imortalidade
talvez seja afinal
raiz do bem
e fonte do mal.

quinta-feira, abril 05, 2012

ab intra


presumo demais.
presumo que
quando de mim se despegam palavras
delas emergem verdades aflitivas
subtis
plenas daquela urgência recta e precisa
que dota as coisas
naturalmente sem interesse
de um sentido profundo.
tudo quanto importa à consciência
veste pomposos desígnios ápices
desprovidos embora
de relevância estatística.
no obrigativo aumento do caos
uma palavra nada conta
muitas
ainda menos;
o silêncio é o final entrópico do pensamento
putrefaz
entre pavores de fatalidade
o valor melhor do discurso vivo.
indiferente a tudo isto
o universo experimenta.

segunda-feira, abril 02, 2012

fim


nas cores de um fim de dia
cheiram-se as farsas da vida.
o demente debochado
queda-se no abandono
talvez premeditado
de um vão de escada,
a memória esvai-se no seguimento demolidor
das curvas,
padrão inescapável ilustrando a inexistência da sorte.
o regresso será fortuito,
um processo de gozo decíduo,
decaindo inóxio em inexpressiva indiferença.
a ideia de ontem torna-se mais uma abstracção intangível,
comiserando-se no choro inconsequente da alienação,
rebelião sem frutos,
paixão sem futuro.
o arco-íris estende-se abstruso
pintando de cores sorridentes a infelicidade de um céu que se fina;
dói o passo que logo se enoja dessa dispersão de cinzentos
que corrói a cor de quem sente.
tantos esses sentimentos nobres,
desejos,
falácias,
crenças improváveis,
verdades absolutas!
tudo eclipsado pela sombra do que se esvaece e acaba,
num adágio que um dia se sonhou sorriso.
a cegueira indomável do tempo
impõe o seu travo final
no caminho que se quebra abrupto.
apenas o eco freme
por instantes,
depois,
o silêncio,
a seguir,
nem isso sobrará.