quarta-feira, dezembro 23, 2009

Fraquejando

As palavras ficam amarradas
junto à emoção. São como fronteiras
longínquas, adivinhadas apenas,
por descobrir, por conquistar.
Nestas paisagens bravias,
labirintos cavados pelo
receio de sentir,
por vezes de ser,
lar das quimeras que me definem,
desenham-se os sons e as cores
dos meus dias,
e é o odor do medo
que dispensa companhia
numa quieta, sussurrante, indiferença.
Sou um subtil desesperar...
Por um beijo que nunca chega,
por uma carícia que se perdeu
sem me tocar;
caio vítima de um gesto
que de compreensão
decai em censura.
Sou fraco...

Certamente tudo isto mereço,
certamente,
mas não é isso que o torna
fácil,
não é isso que o faz
certo...

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Padecimento

Adivinhei o porvir em certa manhã,
a indiferença desvelou o meu fim.
O pulsar do mundo não é coisa vã,
e a voz amadurecida que se fez em mim
farol, também não... Vivo o castigo
imposto pelas fronteiras da emoção,
algo que não explico, ou não o consigo
eu, indigno, tolo sem tino ou razão...
Sou uma sombra, exangue mortalidade,
visão de caos! É indiferente agora
por onde se perde ou por onde se chora
aquilo que resta da minha vontade.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

(Des)Ilusão

Observo como os olhares se evitam,
como o mundo é um reflexo e a realidade
um fardo da consciência, inutilidade
definitiva com que porfiadamente se excitam
os sentidos e se adormece o discernimento...
Sou uma forma espectral de sentimento,
uma miragem votada ao sentido transitório
da existência, uma medida sem dimensão,
um movimento ciclicamente inglório,
feito de carne, tormento e paixão.

Septuagésimo post...

Todo o conhecimento, principalmente quando individualizado, tem a sua fonte em meta-interpretações - construções sobre interpretações de interpretações de ideias e proto-ideias - as quais ocultam, com ou sem intencionalidade, partes, por vezes essenciais, dos objectos sob escrutínio.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Perímetro do (meu) Futuro

Este meu cansaço é emanação
de toda aquela desilusão
que me acompanha e me define
de alguma maneira. Em mim
se funde a tristeza, insigne
tratado de Mal, contorno de fim
que me barra esquecer a sorte
de ser assim, aqui e agora, forte
como a esperança que me suporta!
Ah, quanta vileza comporta
este caminho que me carrega
e com subtis enganos me cega.
Sou uma confusão de júbilo e dor,
omissões, gestos, palavras, amor!...
Sou também o ânimo que me sustenta,
soberbo esforço que em mim alimenta
um fogo indómito, teimosamente seguro,
conforto presente, desejo de Futuro!

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Métrica

Existe um local
onde espaço e tempo
são meras brincadeiras;
em que o próprio medo é
ora sombra,
ora terror...
E nessa morada interior,
onde o tudo e o nada
subtilmente se entretecem,
decides uma parte do futuro
esperando que dessa
espécie de sonho
se construam os actos
que, assumes, serão reais...

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Entendimento/Esperança

O sentimento é por vezes uma indefinição dolorosa, uma luta interior única, recorrentemente vivida desde que somos (auto) consciência até ao momento em que deixamos de o ser. A unicidade desta luta interior é um corolário da individualidade e a sua percepção uma racionalização. Talvez o momento de libertação possa vir da descoberta do "outro", do entendimento de que esta luta interior, embora essencialmente intransmissível, é porém comum a uma pluralidade de consciências. Mecanicismos à parte, é um conforto, mesmo que fraco, entender que não estamos sós, que outros lutam dentro de si procurando as perguntas para as quais, individualmente, faz sentido procurar respostas - esta busca será, talvez, o verdadeiro sentido da vida.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Desabafo

Eu sou uma espécie de cor
que evolve colada ao sentimento...
E consonante com a minha dor,
assim é o tom do meu momento.
E em cada som, em cada suspiro
é como se um espécie de brilho
intenso me inundasse a alma...
E todo o bulício que soa no mundo
recua e devolve uma certa calma
descansando o mais profundo
daquilo que faz este mesmo que sou.
E em mim, e por esse mundo fora,
sinto que nada importante mudou,
que existe sempre quem chora
e quem ri, e quem sente desmesuradamente!
Não haverá, eu sei, de mim memória,
o devir prossegue deixando a semente
do futuro e minha gesta inglória,
terá sido um pequeno grão, um evento
insignificante - signo de esquecimento...

quinta-feira, novembro 12, 2009

Visão Plural (2)

Quando o próprio universo sabe a conspiração, todas as nuances parecem pré-destinadas. Então, convém perceber que não existe centro, apenas uma pluralidade de caminhos possíveis.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Visão Plural

Eu sou um pedaço de estrelas
perdido
em um outro pedaço de estrelas,
navegando sem destino
no espaço-tempo.
Eu sou um sentimento e
uma consciência que acordou
um dia
no local onde se permite
o sonho
e onde, por oposição, se permite
matá-lo...
Eu sou ilusão, utopia
feita matéria,
consciência da dor
e da morte,
paz e desassossego,
amor e ódio,
mas sou mais que isso tudo
simplesmente
porque não estou só.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Incompreensão

Sofremos também com o silêncio
essa forma perversa de esconder.
O rosto fecha e as palavras
que tristemente se abafam
revelam-se quais punhais
que, cruelmente,
se cravam no inconfessado sentir.
Fui no passado uma certa
forma de ingenuidade
que ora jaz morta, perdida,
e como todas as perdas
é, em igual medida,
um caminho que se fecha
e uma lição de continuidade...
A Beleza tem os seus espinhos,
e o Mal em nós obriga não
tanto a triste resignação
mas antes ao cultivo da esperança!

segunda-feira, novembro 02, 2009

Minha Culpa

Encantaram-me as promessas
que se soltaram como gargalhadas
de crianças travessas...
Recolhi-as em acções desbragadas
e, com o meu ego enfunado,
traguei-as ávido como um louco!
Quando acordei foi-me dado
a contemplar o quão pouco
sei do mundo; arranquei momentos
alheios, gentis sentimentos
que não eram certamente os meus.
Venha pois o certo e justo castigo
decrete-o então a Sorte ou Deus
pois a culpa, essa já carrego comigo!

sexta-feira, outubro 30, 2009

As Minhas Vozes...

Todos os sentimentos em excesso
soam, em excesso, patéticos!
Todas as vozes que em vão
internamente se debatem,
quando finalmente libertadas,
troam em desmesura ecoando
uma incoerente desagregação do Eu.
A serenidade, quando volta,
é como uma luz fraca que nos
alumia a desdita mas,
por via da sua subtil intensidade
nos permite, por momentos,
esconder a face da vergonha...

quarta-feira, outubro 28, 2009

A Dor do Outro

Quando sofro
por te ver sofrer
a minha dor é a mesma,
e é diferente.
Como se o sofrimento
fosse um fio invisível
atando as diferenças
num afogo tal,
que a dor que em nós diverge
se funde, por momentos,
num sentir igual...

quinta-feira, outubro 22, 2009

Que Sabes Tu…

Discutes hoje da morte o nome,
a ideia, o vago conceito,
como se fosse esse o preceito
para cessares essa fome
que acompanha teus dias...
Sabe que à morte não fias
e quando chegar teu momento
cessarão as vãs especulações
ficando de ti o sentimento
com que tocaste outros corações...

quarta-feira, outubro 21, 2009

Máxima

Parece legítimo exigir dos outros aquilo que honestamente exigimos de nós mesmos, é demonstração de sabedoria viver de acordo com o princípio que os nossos princípios (e exigências) não são universais...

quinta-feira, outubro 15, 2009

Interregnos (Suspensão)

Sou intento, na mesma medida
em que sou invento...
Uma memória de acção
entre a confusão dos dias.
Sou uma lição do passado
voz de antanho abafada
pelas distâncias do Tempo...
Sou ignorância e ignorado,
e enquanto esperança
sou uma convicção de futuro
uma forma de estar
feita uma maneira de ser...

sexta-feira, outubro 09, 2009

Sobre Sonho e Desejo

Os sonhos permitem-nos projectar os nossos desejos, aspirações, paixões em sentimentos e, por vezes, são poderosos guias para a vida.
A realidade força-nos a sentir sem filtros e, por vezes, a desejar não o fazer.

terça-feira, outubro 06, 2009

Confesso-me uma Procura...

O som da minha derrota é estrondoso!
E o silêncio do que chamo esperança,
morre à distância, num cansaço pesaroso.
Nisto se enfrentam, em furiosa dança,
Passado e Futuro, e o infernal Presente
que afirma uma teimosa continuidade
é afinal uma outra forma de ser ausente,
uma angustiosa manipulação da vontade
contrária aos justos movimentos naturais,
onde o todo se resume a conjuras causais.
Sou pois como uma simulação de alento,
para além de toda a manifestação honesta
de querer, determinação e sentimento.
Sou um coração a quem o amor admoesta,
Uma ideia que busca ser um ideal,
Ruína recomposta, Bem afeito ao Mal.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Temporariamente, aqui...

Cumpre-se mais um amanhecer
sobre uma Terra sabendo a igual.
Desenha-se uma vontade de ser
sobre um corpo feito Bem e Mal.
E o sentimento, exibido em desejo,
é como uma pujante fonte de vida,
fugaz mas com a força de um beijo,
que renova a memória, enfraquecida
pela passagem do tempo, indiferente
aos devaneios de passado e presente.

És forma de ligar cada novo momento,
súplica efémera, futuro esquecimento.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Raíz

Estive aqui e ali, umas vezes fugido, outras, simplesmente vivendo. É raro (querer) partir, pois deixando algo do que fui/sou nesse lugar onde estive/estou, é sempre nostálgica a separação, às vezes dolorosa; este sentir não é tanto uma paixão pelos sítios, mas antes um estranho penar feito de momentos descontínuos, por vezes imprevisíveis, em que me entranho no espaço, ou este a mim se cola num qualquer, incerto, instante de solidão.
A minha riqueza está no espaço que me oferece aqueles momentos que mais me confortam; onde se movem e sentem as pessoas, onde evoluem as coisas do mundo, que na sua cumplicidade feita de tempo e partilha me ajudam a sentir tudo o que verdadeiramente interessa.
Tendo pois a detestar as minhas partidas - vou ficando...

terça-feira, setembro 22, 2009

Inevitável momento

Observaste,
qual metáfora de triste abandono,
aquela folha que jaz
seca e solitária no chão...
Esse pedaço de caminho,
inadvertido espectador
de incontáveis
manifestações de morte,
é agora,num instante,
singelo abrigo
para uma ideia pungente
que fazes do mundo...
E de súbito, és tu mesmo
manifestação dessa imagem
e o mundo,
outrora imparável fonte de sensações,
congelou num ponto,
igual a tantos outros,
onde outras folhas caíram,
secas e solitárias,
e onde se queda agora
o que restou
dos teus sentimentos...

segunda-feira, setembro 21, 2009

(Uma) Viagem para a Luz...

É vaga a luz
que envolve a mente,
mas do pensamento
surge
uma ideia de libertação.
Do ignaro negrume
a incessante luta
entre dúvida,
descoberta e prova,
arrebata sabedoria.
Assim se desmontam mitos,
despedaçando
com galante destemor
as certezas do passado.

sexta-feira, setembro 11, 2009

(Uma certa ideia de) Solidão

Hoje é um dia em que todas as palavras confundem e todas as ideias competem em multidão. E é um aparente paradoxo que tal bulício se expresse em mim como solidão. Mas não será esta uma boa definição? Sinto-me só porque todos os meus pensamentos, sentimentos até sensações, envolvem tal mancha de confusões que, inevitavelmente me afastam da sã companhia dos outros...

quinta-feira, setembro 10, 2009

Argumentar (contra) a superficialidade

Luto contra a facilidade do comentário superficial mas, muitas vezes, sou vítima do momento e esqueço o meu próprio preceito...
Que sou na mente de outros para além daquilo que digo ou escrevo ou do que os outros lêem daquilo que digo ou escrevo? Para a maior parte serei, é certo, nada; e a minha preocupação reside fundamentalmente em função do respeito, carinho e amor que me ligam ao outro.
Existe porém uma ressalva fundamental. O respeito (intelectual) ao outro em que pretendo embeber as minhas ideias e a sua defesa, obriga-me a usar de honestidade intelectual e, desta forma, faz com que a formalização daquilo que escrevo exija rigor. Esse rigor, no entanto, não deve excluir a paixão que enriquece a defesa/(contra-)argumentação de qualquer convicção, caso contrário iremos entrar no campo da conversa estéril e da discussão sem sentido.
Dito tudo isto, sobra que se diga que, na maior parte do tempo que temos nesta vida, devemos procurar viver de acordo com preceitos mais simples e, talvez, não sermos tão chatos!

quarta-feira, setembro 09, 2009

Motivações...

Nutro por este dia de hoje
um arrastado sentimento neutro.
Algo entre o que sempre me foge
e o que se queda no meu centro,
me é, total e verdadeiramente,
fonte de sentimento indiferente...
E no entanto açula-me um frémito,
um estremecer feito inquietação,
Que me eleva sem aparente razão.
Será a vida um indagar épico?
Vitória final da vida sobre a dor
Realizando o abstracto em Amor.

terça-feira, setembro 08, 2009

Sobre a Saudade

A saudade sente-se qual pequeno mas persistente e contínuo mordiscar no fundo desse conveniente invento chamado "eu"; é como um sabor agridoce, excitação temporária e sentimento perene, oposto de ser, mas atributo fundamental de quem diz de si - "estou vivo!".

quinta-feira, setembro 03, 2009

Da Verdade

Descobriste o Mal em ti
olhando o que 'inda agora ignoravas...
E a vergonha doeu-te,
entre a confusão e o horror...
Julgavas-te imune à dúvida
e és agora vítima, sem recurso,
do pior dos verdugos
- a tua consciência...

quarta-feira, setembro 02, 2009

És Tu...

Estas palavras querem mostrar
todo o meu sentimento,
mas falha-me arte para te dar,
mais que uma singela flor,
quando vales, meu amor,
todo um viçoso jardim...

Quem és para além do que sinto?
és mais, bem o sei,
mas sei também que não minto
quando na minha cega altivez
me imagino o centro
de todos os teus sorrisos.

É assim que és o meu sentir
- perfume, som, tudo!
ao mesmo tempo vento gentil
e tempestade furiosa!
Vereda de calmaria
e lugar de desassossego...

terça-feira, setembro 01, 2009

Discernimento

Viver é sobrepor o caos de todas as fúrias
de todas as dúvidas, descobertas
paixões, amores, desencantos,
de todas as desilusões...
Depois de tudo isto,
sobra um envoltório esgotado,
arremedo de ser,
ecoando, sem tino,
- desisto!

sexta-feira, julho 31, 2009

Insinuando

-Essa cor fica-te bem!
Podia dizer algo mais, a insinuação tensa estava lá; uma desculpa para dizer qualquer coisa e, dizendo, insinuar uma vontade.
Qual vontade?
Um olhar respondeu e partimos daí...

quinta-feira, julho 30, 2009

Loucura Desapiedada

Uma revolução implica momentos de loucura, por vezes sanguinária. O sangue pingou em simultâneo com uma irritação irreprimível. Um som ecoou, compassado, uma simetria esperada, um momento de ordem. Aquela madrugada acordava sob o signo do sangue, mas sem violência... ainda.
O pensamento alheou-se por momentos, por entre imagens de paz - estranhas, tão distantes como uma luz de farol avistada numa noite de mar revolto.
A lâmina pousou humedecida; olhou-se mecanicamente através de vários reflexos, a ferida não era profunda, a morte ainda assim espreitava.
Num momento o vermelho transferiu-se manchando cruamente um pano imundo, oferecendo uma distante estranha memória de pureza; um gesto impaciente selou mais um final.
As certezas virão depois, quando o julgamento tiver o poder da serenidade, quando a loucura finalmente acabar - o mundo voltará a ser o mundo, mas as almas estarão para sempre perdidas; será o pesadelo então distante como é agora o sonho?
A morte responderá ao futuro e o esquecimento fará, a seu tempo, voltar o passado - escuro, vermelho e louco!...

quarta-feira, julho 29, 2009

Momento Perfeito...

A perfeição desvela-se fulgurante!
Um momento sublime, sem fim!
E paradoxalmente perdido, assim
Num fugaz e efémero instante.
Adere depois aos fios da memória
Uma agradável e potente recordação,
Um gentil veludo, ideia de glória,
Entre o pensamento e o coração...

segunda-feira, julho 27, 2009

A Distância...

Vestem-se as palavras de mansinho,
Com aquele pudor feito carinho
Com que os amantes se tocam.
Fala-te, num olhar, o coração
De quem olha, e um turbilhão
Cresce na alma, lá onde chocam
Os sentimentos - tantos, tão diversos...
Por onde se perderam estes versos.

sexta-feira, julho 24, 2009

Partidas…

Chegadas podem ser evitadas, simplesmente escolhendo não ir… Mas uma vez feita a escolha (e feito o movimento) o que se torna inevitável é a partida.

No fundo há aqui uma lição: estamos condenados a diversas partidas e, após a nossa “primeira chegada” a este mundo, temos uma vida que nos permite, ainda que com algumas limitações, escolher até onde queremos chegar…

Na hora de qualquer das nossas partidas seremos provavelmente julgados pelas escolhas que fizémos e muitas delas foram, muito simplesmente, chegadas… e há um elemento de desconforto e aleatoriedade em todas estas coisas.

quarta-feira, julho 22, 2009

Pennsylvania Blues

Fechado num quarto de hotel; uma luz, uma Bíblia e a minha falta de fé… O desconsolo de uma solidão desterrada…

Nestes momentos somos obrigados a ser nós mesmos, e nada mais, para mais ninguém! Não temos o outro, o nosso conforto está ausente, a companhia é feita de sons estrangeiros, estranhos, externos, alheios...

E a saudade é uma moínha que cresce incessante, até que bulício de uma nova manhã traz consigo a urgência obliterante do que há para fazer.

It’s the Pennsylvania Blues, baby!…

sexta-feira, julho 17, 2009

Eterno Retorno

Custam-me as barreiras do mundo...
Os intransponíveis muros de tempo
Que se elevam nos dias que vivemos
Testemunhos frios e nús do afastamento
Que se nos impõe...

Custam-me as palavras da solidão,
Como árvores desfolhadas na invernagem,
Despidas do seu sentido;
Longe de quem querem acariciar,
São como sementes mortas
Sem destino a cumprir...

Custam-me os momentos sozinho,
Em que me lanço nos braços do Mundo,
Com uma sufocante vontade de ser tudo,
Mas descubro em mim,
Todas as barreiras do mundo...

quarta-feira, julho 15, 2009

Abandono

De soslaio tenho
Uma visão de beleza,
Mas depois venho
Dentro da incerteza,
Numa difusa luz,
Como se portasse a Cruz
De todo o mal
Que tolheu o mundo.
Vejo um sinal,
Esquecido no mais profundo
Sentimento sentido
E sei que no fim da estrada
Encontrarei o nada!

segunda-feira, julho 13, 2009

Longe...

O cansaço acolhe-me em seu regaço,
E sussurra-me baixinho um nome,
E tudo o que no momento faço
Se perde e transforma numa fome,
Feita de sentimento e distância,
Que me faz sonhar aquele momento
Em que cessará todo este tormento...
E irei fitar-me em olhos de criança...

quinta-feira, julho 09, 2009

Todas as minhas manhãs...

Todas as minhas manhãs mergulho
Num inevitável oceano desconhecido,
E todos os dias perco, em algum sentido,
Pedaços inteiros do meu orgulho...

Sementes hão, que vogam na brisa
De tudo o que sinto e sei maravilhoso,
E o Destino que tudo força e realiza,
As derrama e germina poderoso...

Serei por fim esquecido por ti e todos,
Transformado em simples flores e lodos,
Mas todas as minhas restantes manhãs
Em nada serão, eu o prometo, vãs...

Esqueçam-me vos rogo nestes versos,
Ligeiros e pobres, mesmo que sentidos,
Pois neles apenas verão, submersos,
Momentos passados pr'a sempre perdidos...

terça-feira, julho 07, 2009

Mais um aviso, mais um aviso...

See level rise: It's worse than we thought

"[...] At stake are the lives and livelihoods of hundreds of millions of people, not to mention millions of square kilometres of cities and coastal land, and trillions of dollars in economic terms."

"[...] The oceans are already rising. Global average sea level rose about 17 centimetres in the 20th century, and the rate of rise is increasing."

"[...] Even if all emissions stopped today, sea level would continue to rise."

"[...] Greenland is now losing about 300 gigatonnes of ice per year, enough to raise sea level by 0.83 millimetres. Antarctica is losing about 200 gigatonnes per year, almost all of it from West Antarctica and the Antarctic Peninsula, raising levels by 0.55 millimetres."

Estamos a "meter" muita água...

segunda-feira, julho 06, 2009

Uma Serena Revolução

Em conversa com um amigo o assunto recaiu sobre qual o papel/peso do Estado numa sociedade (verdadeiramente) democrática. Caricaturalmente direi aqui que o meu amigo é um liberal "a la" John Stuart Mill e que eu mantenho algumas reservas assentes essencialmente na ideia de uma fundamental falta de ética nas relações humanas, as quais, à falta de melhor mecanismo, devem ser reguladas pelo(s) Estado(s) à custa de certas liberdades individuais.
No final da conversa, apesar de partirmos de pontos ligeiramente diferentes, chegámos a conclusões idênticas. O Estado deve, no mínimo, garantir a dignidade, cuidados de saúde e educação daqueles que considera (e se consideram!) seus cidadãos. Um dos problemas é a definição deste "mínimo"; na minha ideia, será tanto maior quanto menor for a "preparação" cívica dos seus cidadãos. Não vou entrar em detalhes, até porque existem algumas lacunas de conhecimento que me impedem de ter uma visão global suficientemente fundamentada, apenas direi que o aspecto cultural me parece absolutamente fundamental. Em Portugal um dos principais défices tem origem cultural; existem algumas "ignorâncias" fundamentais que fazem com que a vida cívica (em democracia) não seja elevada ao seu máximo potencial.
Como poderemos alterar isto? Uma Revolução? Sim, mas ao invés de fazermos uma revolução na base da força, impondo uma "visão", um "modelo", uma "filosofia", porque não apostar definitivamente na ideia de dar a "ferramenta" - fomentar o conhecimento e o espírito crítico, ensinar a "pensar" - para finalmente fazer acontecer a tão badalada "revolução das mentalidades"?
Já estou a imaginar os sorrisos e os comentários sobre a ingenuidade da ideia. A ideia é de facto ingénua, mas, é bem mais poderosa que ingénua.
Portugal é muitas vezes (auto)caricaturado como o país dos 3 Fs - Futebol, Fátima e Fado - uma das heranças "pesadas" do "Estado Novo" da qual ainda não nos livrámos. Uma verdadeira Revolução seria transmutá-lo no país dos 3 Es - Ética, Economia e Estatística.
Porquê estas três áreas? No fundo porque além de serem extremamente práticas contêm muito do que explica o que o Mundo foi, é e aquilo que poderá ser. Pessoas bem informadas nestas três áreas terão em si o conhecimento e o poder de entenderem e poderem influenciar o rumo do mundo que as rodeia. Não digo aqui que ignorássemos todas as outras áreas de conhecimento, nada disso, apenas defendo que pessoas armadas com este conhecimento nuclear serão certamente cidadãos formidáveis.
Isto seria, mais que uma Revolução, uma Evolução efectiva e possível em uma ou duas gerações; porque nunca foi tentada?! Boa pergunta...

quarta-feira, julho 01, 2009

Interpretações

Viver as nossas próprias palavras é uma "arte" difícil, talvez impossível. Por isso medir o seu alcance torna-se mais imperativo quando usamos a palavra escrita e, assim, deixamos de poder controlar as suas possíveis interpretações.

Quando somos julgados pelas nossas palavras, devemos fazer a viagem interpretativa de quem julga e procurar as conotações "criminosas". Uma vez, e se, identificadas temos duas opções: admitir todas as conotações, contextos temporais e pessoais que possam influenciar a interpretação; ou, ao contrário, apenas admitir como verdadeira a intenção "original" da mensagem.

Qualquer que seja a intenção primeira da mensagem e a interpretação consequente da mesma por outrem, o que interessará no final resume-se à interpretação que cada uma das partes faz e ao conhecimento real que se tem um do outro.

Eu, enquanto emissor, apenas posso dizer com o poeta:

"[...]Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou."

Terminator

Tantas vezes temos que gramar estopadas hollywoodianas com monstros de diversa índole com a única preocupação de extinguir a nossa raça... Estes tipos é que, pelos vistos, encontraram o verdadeiro “exterminador implacável”, e não houve John Connor que lhes valesse!

segunda-feira, junho 29, 2009

Criacionismo

O Criacionismo perfila-se não apenas como uma interpretação alternativa mas antes como a explicação inquestionável do Mundo.
No presente o Criacionismo mascarou-se de Ciência e apresenta o "Desenho Inteligente" como a (única e irrefutável) explicação para o aparecimento e desenvolvimento da vida na Terra. Um dos argumentos mais utilizados actualmente resume-se ao seguinte:
1- Informação codificada tem sempre origem inteligente
2- O DNA tem informação codificada
3- O DNA teve origem inteligente

O argumento da "informação" inexoravelmente ligada à "inteligência" é de facto muito apelativo, principalmente nesta nossa "Era da Informação" e, à partida, parece ser um argumento interessante. No entanto o mesmo pode ser dito, por exemplo, em relação ás "Leis" da Natureza que a Ciência tem vindo a estudar, ou ás "constantes físicas" que de forma aparentemente milagrosa pareceram conspirar para tornar o universo que contemplamos possível. Tudo isto de uma maneira ou de outra pode ser considerado como informação "escondida" na Natureza e "inexplicável" e assim "suportar" uma acção divina.

Os adeptos do DI usam e abusam do argumento puramente estatístico dizendo que seria impossível explicar a "Teoria da Evolução" usando a aleatoriedade de mutações do ADN e, com este raciocínio, descartam uma teoria que tem sido observada vezes sem conta à luz do método científico. O argumento puramente estatístico é reducionista dado que não tem em linha de conta as "leis" da natureza, os processos bioquímicos e os factores ambientais que a Ciência já observou e que podem, deixando discorrer o tempo necessário, servir-se da aleatoriedade para criar e eleger algo como o ADN como a base para a Vida na Terra. Por outro lado, não sabemos até que ponto a "matéria prima" da Vida não estará espalhada pelo Universo e que, no fundo, não sejamos todos fruto de um encontro de moléculas extraterrestres com os elementos da "nossa" Terra, atalhando significativamente o processo de "criação" das bases da Vida tal como a conhecemos.

Existem claramente mais perguntas que respostas e isso é um estímulo e não um engulho.
De facto temos muitas "deixas" para deixarmos de pensar e questionar o nosso mundo e voltarmos aos tempos em que o Conhecimento se resumia à simples contemplação e interpretação dos desígnios de Deus.
O mais perigoso no "debate" Criacionismo vs Evolucionismo é o primeiro implicar que deixemos de lado o cepticismo empírico e metódico da Ciência, que nos fez avançar no conhecimento do Cosmos, pela certeza inexplicável da Fé que nos fechou dentro de nós mesmos durante milhares de anos... para quê?

As Viagens dos Outros...

Não gosto particularmente de viajar.
Compreendo no entanto essa necessidade, melhor, essa obsessão, de fugir para longe da rotina; nada melhor que uma viagem para deixar para trás o que nos frustra no dia-a-dia. Também entendo o prazer sentido ao contemplar certas paisagens ou conhecer outras gentes, culturas, etc.
No entanto, "sabendo" tudo isto, sei também que estes momentos ficarão apenas como memórias entre uma imensidão de outras e que, para mim, não se destacam acima do prazer da leitura, da simples e boa conversa, do convívio em familia, da amizade singela e desinteressada que, no fundo, poderemos igualmente descrever como viagens do espírito...

Pessoas existem que falam ad nauseam das suas viagens, deste ou daquele pormenor que as maravilhou: do mergulho "fabuloso", da caminhada exigente e compensadora, da paisagem fantástica,...
É bom sentir estes prazeres, excelente ficar com as recordações, fantástico enriquecer a alma com experiências variadas, maravilhoso partilhar os momentos. Mas não convém esquecer que viajar é apenas um adereço entre as muitas coisas que definem aquilo somos.

quarta-feira, junho 24, 2009

Caminho...

Há dias em que o peso do Mundo se abate inexplicavelmente sobre nós. Em que tudo parece mais sombrio do que na realidade é. Em que os desabafos entristecem sem aliviar e a vontade é esmagada.
Há dias em que não se explica o que nos dói, pois essa dor é feita de coisas que não se explicam.
Há dias em que procuramos paz, mas apenas recebemos bulício e desassossego.
Há dias que precisamos viver, mas fazer por esquecer, para depois podermos voltar a ser o que somos até, em definitivo, deixarmos de o ser.

sábado, junho 20, 2009

Viver e Morrer…

“[…] Ninguém se preocupa em viver bem, mas sim em durar muito, quando afinal viver bem está ao alcance de todos, ao passo que durar muito não está ao de ninguém.”

Lúcio Aneu Séneca, in ‘Cartas a Lucílio’, 22,17 (Ed. Fundação Calouste Gulbenkian)

sexta-feira, junho 19, 2009

Com Um Brilhozinho Nos Olhos...



Palavra puxa palavra e as palavras fazem adivinhar a alma que, lá atrás, se dá a conhecer como o tesouro que realmente é.

Hoje soube-me a muito: a amizade é assim!

quinta-feira, junho 18, 2009

Observações...

A observação das relações humanas, independentemente da qualidade transmitida pelo observador nas suas conclusões, permite assestar alguns pontos interessantes.

Ainda que defendido pelo escudo sonoro da “minha” música digitalizada, tive a oportunidade de presenciar com o devido distanciamento mais uma discussão de “princípio” (infelizmente nada de muito elevado, embora este juízo de valor seja algo descabido no presente contexto) entre dois colegas.

Como em muitas discussões deste tipo, as conclusões não se pretendem construtivas e aglutinadoras; temos mais uma espécie de competição que quase inevitavelmente atinge um clímax sonoro – a razão tende a acompanhar quem gritar mais alto…

No final cada ego retira para lamber as feridas tentando reconstruir as certezas e manter a sua integridade mais ou menos intacta.

Mas debrucemo-nos um pouco sobre este estado de coisas. Como se podem eles retirar com as mesmas certezas que tinham no início? Apenas se não se chegaram a ouvir um ao outro. Também poderíamos admitir que ambos têm razão, mas tal soa a estranho e sendo ambos inteligentes tal deveria promover uma aproximação, não um rejeitar mais ou menos azedo e liminar do outro. Por outro lado podemos ter em conta as dimensões egóicas e assim postular que aceitar o outro e as suas ideias implica uma humildade não acessível a todos.

Provavelmente será legítimo concluir, ainda que sob a forma de hipótese especulativa, que a discussão entre dois “absolutos” inevitavelmente se conclui na forma de dois absurdos que se perpetuam…

quarta-feira, junho 17, 2009

Angustia dos Momentos

Há por vezes interregnos que se concretizam em ausências dolorosas.
Aquela palavra daquela pessoa que nos falhou naquele inefável momento que se perdeu para todo o sempre… Aquela carícia que nunca se concretizou… Aquele olhar que nunca nos chegou a cruzar…
Momentos que se perderam mesmo antes de o serem e que nos magoam mais que qualquer dor.

Indelicadezas...

Existem pessoas em relação ás quais, nunca percebi exactamente porquê, sinto um enfado enojado e permanente. Uma dessas pessoas ocupa um espaço próximo no meu local de trabalho, assim como que bem (ou mesmo) demasiado próximo; isto torna os meus dias, bastas vezes, processos desgastantes e penosos. Mas tal estado de coisas é um problema meu e, provavelmente, origina-se numa qualquer falha da minha parte… adiante!
Esta dita criatura, voltando de férias, deu-nos o distinto prazer de partilhar um momento pungente e de (alguma) intimidade familiar ainda que, temo, algo indelicado. Disse ele que “ela” (a sua mulher…) “quase chorou” para que o médico o deixasse a ele (a dita criatura que me causa alguns engulhos) assistir a uma certa e determinada intervenção cirúrgica. Isto foi dito com uma ligeireza arrepiante, quase senti pena da rapariga, mas seguiram-se mais pérolas!...
Após a cena de (quase ou mesmo efectivo) “choro” lá foi o homem autorizado a presenciar a dita operação.
“Assistir àquelas séries estilo ‘Nip/Tuck’ ajuda mesmo”, “Vi bué da sangue” e finalmente “Depois daquilo o médico perguntou-me o que é que eu fazia e disse – ‘portou-se muito bem!’ – ah!, ganda homem, penso eu de mim para mim – eh! eh! eh!” – riu-se ele apatetado.
Na verdade a coisa foi ainda mais detalhada, não sei se o conseguem imaginar...

Respirei fundo e continuei… É difícil mas consegue-se…

quarta-feira, abril 29, 2009

Foi apenas um olhar...

No teu olhar uma promessa de sexo...
Provavelmente inventei-a, como (re)invento todas as minhas paixões...
todos os dias!

Procurei...
Mas esfumou-se como uma promessa leviana
facilmente esquecida.

Que sobra?

Nada!

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Não faz sentido nenhum!

Há pessoas que falam com tantas certezas que, se falassem com propriedade, seriam certamente génios!
Mas não são...

Que irritante!...

terça-feira, janeiro 06, 2009

...Pensamento na retrete

ás vezes pergunto-me
(cada vez menos)
o que faço aqui,
e a resposta sai-me
somente assim:
se soubesse seria mais feliz?
...
Duvido!