Em conversa com um amigo o assunto recaiu sobre qual o papel/peso do Estado numa sociedade (verdadeiramente) democrática. Caricaturalmente direi aqui que o meu amigo é um liberal "a la" John Stuart Mill e que eu mantenho algumas reservas assentes essencialmente na ideia de uma fundamental falta de ética nas relações humanas, as quais, à falta de melhor mecanismo, devem ser reguladas pelo(s) Estado(s) à custa de certas liberdades individuais.
No final da conversa, apesar de partirmos de pontos ligeiramente diferentes, chegámos a conclusões idênticas. O Estado deve, no mínimo, garantir a dignidade, cuidados de saúde e educação daqueles que considera (e se consideram!) seus cidadãos. Um dos problemas é a definição deste "mínimo"; na minha ideia, será tanto maior quanto menor for a "preparação" cívica dos seus cidadãos. Não vou entrar em detalhes, até porque existem algumas lacunas de conhecimento que me impedem de ter uma visão global suficientemente fundamentada, apenas direi que o aspecto cultural me parece absolutamente fundamental. Em Portugal um dos principais défices tem origem cultural; existem algumas "ignorâncias" fundamentais que fazem com que a vida cívica (em democracia) não seja elevada ao seu máximo potencial.
Como poderemos alterar isto? Uma Revolução? Sim, mas ao invés de fazermos uma revolução na base da força, impondo uma "visão", um "modelo", uma "filosofia", porque não apostar definitivamente na ideia de dar a "ferramenta" - fomentar o conhecimento e o espírito crítico, ensinar a "pensar" - para finalmente fazer acontecer a tão badalada "revolução das mentalidades"?
Já estou a imaginar os sorrisos e os comentários sobre a ingenuidade da ideia. A ideia é de facto ingénua, mas, é bem mais poderosa que ingénua.
Portugal é muitas vezes (auto)caricaturado como o país dos 3 Fs - Futebol, Fátima e Fado - uma das heranças "pesadas" do "Estado Novo" da qual ainda não nos livrámos. Uma verdadeira Revolução seria transmutá-lo no país dos 3 Es - Ética, Economia e Estatística.
Porquê estas três áreas? No fundo porque além de serem extremamente práticas contêm muito do que explica o que o Mundo foi, é e aquilo que poderá ser. Pessoas bem informadas nestas três áreas terão em si o conhecimento e o poder de entenderem e poderem influenciar o rumo do mundo que as rodeia. Não digo aqui que ignorássemos todas as outras áreas de conhecimento, nada disso, apenas defendo que pessoas armadas com este conhecimento nuclear serão certamente cidadãos formidáveis.
Isto seria, mais que uma Revolução, uma Evolução efectiva e possível em uma ou duas gerações; porque nunca foi tentada?! Boa pergunta...
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