quinta-feira, setembro 30, 2010

O meu bebé adormeceu... ssshhh...

A noite envolveu-te
serena e silenciosa,
e o teu rosto pequenino vai brilhando
na frágil luminosidade
que visivelmente te isola
de papões invisíveis,
com a perfeição fantasiosa
dos anjinhos...
ssshhh...
Estou aqui, pertinho,
suspirando devagarinho
junto com o meu desejo
de ser companhia, amorosa e atenta,
perfeitamente ligado
ao perfeito ciclo do teu perfeito respirar...
Tens agora, sob os teus olhinhos adormentados,
sonhos próprios dos bebés
onde eu, sonhando acordado,
espero ser sonhado,
guiando-te pela mãozinha
e iluminando os teus passitos que hesitam de curiosos
com a firmeza de um sorriso
e depois, de mais um beijinho...
Mas, mais que tudo isto que aqui digo,
sonho estar, em todos os teus caminhos,
agora e depois,
acordados ou sonhados,
não tanto como um deus protector,
mas sempre como teu pai amoroso.

quarta-feira, setembro 29, 2010

Pequeno Conto (de) Infantil(idade)...

Existiam naquela terra dois anões que, conta-se, eram também irmãos. Um anão branco e um anão cinzento. Quando interpelados separadamente, o anão branco mostrava-se feliz e sonhador, o cinzento resignado e realista.
Certo dia chegou um grupo de saltimbancos e um circo rapidamente se instalou. No meio da algazarra o anão branco sorriu e o anão cinzento respingou.
O anão branco chamava-se Luz e o anão cinzento Sombra. Os dois andavam sempre juntos. Não havia Luz sem Sombra. Não havia Sombra sem Luz. Completavam-se e eram muito amigos.
Ora, é contado que, de entre o tal grupo circense, se destacava uma bela e formosa rapariga a quem os pais haviam nomeado Discórdia. Nome apropriado, aliás, para esta história que vou contar.
Consta que Luz foi quem primeiro, digamos assim, iluminou a Discórdia e que logo após Sombra a quis envolver. Discórdia, não querendo nem um nem o outro, decidiu-se, de forma mesquinha, a separá-los e assim, conta-se, da intromissão da Discórdia entre Sombra e Luz ao mundo vieram as ignominiosas irmãs, as Trevas!...
Ora, Esperança, irmã inconformada da Discórdia e conhecedora das limitações sentimentais dos homens, sejam eles anões ou não, decidiu-se a ajudar. Esperança tocou então Sombra e fez-lhe lembrar Luz, as Trevas não gostaram muito, mas não mais conseguiram apagar Luz da cabeça de Sombra. Sombra sem Luz? Impossível!
Entretanto, Esperança soprou subtilmente, como só ela sabe fazer, um ventinho de saudade no ouvido de Luz e este, inevitavelmente, percebeu quanta falta Sombra lhe fazia.
As Trevas, como já disse, não gostaram nada e, queixaram-se à Discórdia
- Vem Discórdia, vem! Que a Esperança junta Luz e Sombra!
A Discórdia veio, furiosa!, tão furiosa que até as Trevas tremeram.
Esperança e Discórdia lutam, a luta dura até hoje, umas vezes a Esperança cede e as Trevas esvaziam o espaço de Luz e Sombra, outras vezes quebra um pouco a Discórdia e Luz abraça Sombra sorrindo.
É por causa disto que temos Dia e Noite, e é também por isto que a única forma de separar Luz e Sombra, definhando a Esperança, é ceder aos caprichos e à força da Discórdia e das Trevas...

terça-feira, setembro 28, 2010

Desgaste

As insinuações do desejo e da rejeição
enfeitam-se de incontáveis formas;
diáfanos mantos, levíssimos robes
insuportavelmente sensuais,
deixando entrever aquele pouco
que o sonho agigantará,
e que para sempre nos será vedado,
e que nesse momento preciso nos fará loucos...

Todas as paixões encerram
um sentir desmedido da dor,
e esta, nos mais felizes encontros,
transmuta libertando-se em êxtase
num caudal imparável prometendo imortalidade
mas quebrando-se inevitavelmente,
com um estrondo externamente imperceptível,
na rocha dos nossos impossíveis.

A perda resolve-se em silêncio
convocando os pedaços de sentimento
banidos pela força dos argumentos sensatos,
respirando-lhes a urgência
e calando-lhes os queixumes.
Alargam-se, por fim e mais um pouco, as infames fronteiras da indiferença.
O Mundo pode ser constante renovação,
mas o coração, sempre generoso, não se renovará eternamente...

Palavras...

- Estava aqui à procura da palavra certa, quando tal coisa não há. Existem momentos, raros, que parecem emprestar alguma perfeição às palavras, quando passam estas naufragam inevitavelmente no tumulto tempestuoso dos oceanos dos contextos e das interpretações.
- Que dizes!?
- Precisamente...

segunda-feira, setembro 27, 2010

Margens

Não procurem em mim postulados,
nem teoremas;
apenas argumentos de incerteza
na honestidade que as palavras 
podem contar.
Existir é estender o entendimento
ao sentir do outro, um ser que nos é alheio,
e ousar nisso, uma ponte.
Todas as pontes carecem de margens,
pontos de outra forma desunidos
em diferenças dolorosas, mas também gloriosas,
diferenças tão somente,
espraiando-se entre paisagens e vontades
que se amam, odeiam e completam.
São por tal, estas pontes tentadas,
um conceito sagrado,
Escrituras sem Deus tacteando cegamente
o relevo esquivo e impossível 
daquilo que sonhamos ser a Verdade.
E no fim, depois de tocados os extremos,
aquieta-se a inefável angústia,
a suprema náusea,
que nasce só 
na solidão que mora
em cada um de nós.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Subtileza?

É com estranheza que sinto
na brisa matinal
o suave olor da esperança
desfazendo-se no enxofre
da reprovação.
É como se uma conspiração
se revelasse
e um sentimento de impotência
me soprasse ao ouvido
uma nebulosa definição
dos medos que devo sentir...
São subtis as tramas
que nos envolvem,
como subtis são
os dons que as revelam.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Sentido III

O Belo e o Justo
não se amam,
e a sua passagem por entre os elementos,
ignota,
apenas se substancia
nos passos
da Consciência,
ora ponderados, ora exaltados,
perpetuamente atolados em incerteza.
Um processo cósmico,
desprovido do mais ínfimo pudor,
sentir ou pensamento,
promoveu um dos seus frutos
ao penar da sabedoria
e, por entre labirintos e abismos,
permite o sonho,
o sonho
que tudo faça sentido...

quarta-feira, setembro 22, 2010

Sentido II

Morrem as flores
e os seus pólenes caem 
na infertilidade dura do cimento.
Os espaços cobrem-se de um cinzento urbano
descolorindo os sonhos
e engolindo a esperança.
Todos os momentos se cumprem numa tonalidade
e ainda assim
perdemos a cor
em toda a sua exuberância etérea,
estando imersos nas efémeras tristezas
que compõem a paleta dos dias...
A liberdade é também assumir a coragem
de ousar um Futuro colorido
confundidos que estamos
neste Presente sem cores...

Sentido

Reduzes as palavras ao sentido do mundo
e o sentido do mundo não existe
pois o mundo não se pensa,
nem fala,
nem escreve,
nem espera pelo amanhã.
O que sobra?
Sobram as palavras,
e o nosso pobre entendimento delas
e do mundo,
em todas as suas omissões,
interpretações,
loucura,
e tudo o resto,
harmonizando o diálogo impossível
entre coração e razão,
dando um frágil, mas profundo, sentido humano
ao que em si mesmo
e fora de todos nós
não tem nem faz
sentido nenhum!

terça-feira, setembro 21, 2010

De um fôlego...

Fulaninho raíz de si mesmo é loucura que se perpetua soando distante a um uivo na noite que nunca se cansa de procurar o abrigo dos sãos nos olhos fechados da vendetta e do improviso excelso e pedante da mentira pensada na altura precisa em que te disseram adeus e tudo termina assim numa nuvem enganosa e num nevoeiro que não se dissipa para além dos desejos humedecidos pela incerteza no afã ecológico das árvores e das flores adeus então enquanto buscas pois nas intricadas florestas do teu pensamento lembrar-te de que nada pára até definitivamente morrer!

Sentimento de Mim

Descem as palavras
sobre aquele vale profundo
onde, agrilhoados,
dialogam os motes
dos meus medos
e das minhas crenças.
Estou só
e a torrente sem sentido
acomete-se de contextos
e soma interpretações
sem vestígios de sentimento,
sem remorso possível,
ignorando a compaixão.
E nesse tumulto,
origem enevoada para uma revolta
e um sentimento de ser,
amontoam-se penosamente os átomos
que substanciam
o meu conceito de mundo;
e a partilha, dorida e frágil,
promete uma esperança
à distância de um arco-íris
alimentado em desejos,
perplexidades,
fúrias,
exaltações,
devaneios,
multidões...

segunda-feira, setembro 20, 2010

O Nome do Desejo

Todas as metas se reduzem
ao odor que docemente te contorna,
como se dele se desprendesse
a tua definição.
E teu nome, qual flor, 
se libertasse num amoroso espreguiçar
exalando num perfume irresistível
o sussurro do desejo,
até roçar subtil a ponta dos meus dedos...
Toda a respiração cessa
e o Silêncio reclama o momento, 
frágil, temporário, etéreo
e, assim mesmo, eternamente perfeito...

sexta-feira, setembro 17, 2010

Pensa nisto...

O sol é indiferente a Bem e Mal
não se apoquenta com o que pensas;
é verdadeiro na sua luz
e sincero no seu calor,
mas não ama ninguém
nem se importa
e, sendo, para tantos,
motivo de felicidade,
não se pode sentir, ele mesmo,
feliz...

Ladainha Decrescente

De manhã a promessa
de ser mais logo,
depois se verá,
e entretanto
vou sendo
agora...

quinta-feira, setembro 16, 2010

Cicuta


Tomou-a acreditando que se libertaria e a liberdade que do gesto se desprendeu tornou inútil o esforço de ser livre pois prendeu-o, em definitivo, ao seu próprio fim, desconhecendo se o gesto originalmente livre, temporariamente libertador, libertou por fim aqueles que, sendo dos seus ou sendo dos outros, nele sentiram, sentem ou sentirão o conceito, a ideia de sacrifício, o ideal que o inspirou, e como consequência se verão forçados a torná-lo parte do futuro.
Acreditou, e isso, independentemente de todas as conjecturas, previsões ou censuras, melhorou uma parte do mundo.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Dor

Um nevoeiro aperta-me os passos
e um labirinto assome, na aparência,
de uma eternidade dispersa;
da confusão urge
a necessidade do futuro...
No momento procuro paliativos
mas é inútil contrariar
esta dor presente;
o tempo, esse companheiro 
alheio e analgésico,
amenizará a dor
em outros passos, outros nevoeiros,
outro dia
restando no meu caminho, qual rasto,
uma porção de fantasia,
uma porção de desejo,
um sentimento impossível...

Dúvida

Os momentos encerram
loucura e sanidade,
falando ao rebordo dos sonhos
enquanto o todo emite,
num continuado zunir,
a mensagem do início dos tempos
pressagiando, talvez, o seu fim...
Insistimos, e a busca
bebe de qualquer coisa
esquivamente fundamental,
talvez um deus ou uma certeza
para além de toda a dúvida...
Mas duvidar soma honestidade
e a dúvida não precisa de deuses,
não carece de nada,
para além do tempo
e de quem, em consciência, o viva.

terça-feira, setembro 14, 2010

De Cervantes a Kafka



Não pretendo escrever um tratado, para tal não tenho habilitações suficientes (nem é minha ambição fazê-lo, pelo menos aqui), nem acrescentar qualquer ponto literário ou intelectual que porventura enriqueça a interpretação destas obras fundamentais da Cultura Ocidental; apenas quero escrevinhar umas ideias simples que me foram surgindo sobre o Quixote e sobre (talvez maioritariamente o Processo de) Kafka.
A minha tese é que o Ocidente andou à procura de Kafka desde que leu o Quixote. Este último, para além de ser um genial compêndio de sabedoria e uma caracterização sociológica da Europa crescendo do século XVI para o XVII, da Espanha em particular, centra-se na figura obviamente tresloucada de D. Quixote de la Mancha, figura anacrónica, patética e certamente anedótica de uma certa nobreza decadente e saudosista contemporânea de Cervantes. D. Quixote é então o mote que permite a Cervantes expor o seu subtil pensamento e o seu imenso conhecimento, tanto o intelectual como o mundano; Quixote representa, na minha certamente simplista tese, o quanto o individuo se pode alhear do que o rodeia, criar a sua "realidade" e vivê-la com tal intensidade e imersão que tudo o que se passa à sua volta se reduz ao seu mundo de sonho e à dimensão da sua "loucura"; a sua leitura ressurge pertinente, curiosamente, no mundo actual em que a Realidade Virtual se apresenta cada vez mais "à mão". Em Kafka, K., é pelo contrário o mote para contar a história do individuo, pelo menos na aparência normal, podemos dizer frio, que se confronta com a "loucura" burocrática e tecnocrata, onde o sentido das coisas se perdeu na mecânica incontrolada e esmagadora, ou pelo menos estranhamente arbitrária (para os mais paranóicos o termo adequado será, conspiratória...), do "Sistema".
Comum aos dois personagens é uma solidão fundamental, ambos estão desligados da "realidade" - Quixote porque enlouqueceu, K. porque o "Sistema" está louco. O sentimento Ocidental está então emparedado entre a loucura individual e a loucura da sociedade burocrática que foi evoluindo, talvez, para regrar e filtrar a loucura dos seus membros. Os casos patológicos, Quixote e o "Sistema" de K., documentam a precariedade em que vivemos, entre a loucura do indivíduo e a loucura da sociedade.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Estudo

Ventos e labirintos
tormentas e confusas tramas
entrelaçam-se enquanto dor e esperança
num longo beijo apaixonado.
A luz dobra-se
na gravidade excessiva da emoção,
rasgando o espaço
onde se manifestam vontades
e registam reacções;
tudo o resto se sonha
enquanto dúvida
gerando novos desejos
com o sabor idoso
da curiosidade.
O Mundo nada sabe
da Consciência
e esta descobre-se
descobrindo, finalmente,
o Mundo...

sábado, setembro 11, 2010

O Voo do Desejo

Reconheço certos ecos
como perto de um infinito,
perturbando a definição
de um longínquo plano
que por certo desconheço
e por onde, ainda mais certo,
me engano...
Múltiplos motes enlaçam a sorte
e os meus vícios escorrem
pelas escusas ruas da evidência;
e não será grande ciência
descobri-los brilhando,
em indecorosa inocência,
no reflexo imaculado dos teus olhos...

sexta-feira, setembro 10, 2010

Sem Glória...

Sufoco lentamente
na aversão louca de ser gente,
e nos passos perdidos
que marcam os motivos doridos
de ser quase outro eu
num oblívio murmurado de Orfeu.
Não sou de modas,
e digo-te que sinto as cordas
amarrando a paixão
aos tumultos crescendo no coração...
Enlouqueço, finalmente,
na sanidade perversa que a mente
faz impor como aceite e boa,
e é assim que o dia segue
e é assim, que me magoa...

quinta-feira, setembro 09, 2010

Desert Rose

Movem-se as sombras
com a velocidade urgente
do desconhecido.
E desse mundo de sussurros
brotam órfãos e subtis,
os botões quase invisíveis
donde explodirão,
em violência amorosa,
as suaves pétalas da esperança.

terça-feira, setembro 07, 2010

The Flower Blues

Existe um suave pranto
escondido por entre os véus
que acariciam os mais profundos segredos;
um espaço constrito
onde a dor é sagrada
e o sentido do futuro se constrói
nas memórias
e se sente, qual premonição,
no vento
trazido por vultos estrangeiros...

segunda-feira, setembro 06, 2010

Regressos...

O vazio enche-nos
com os ecos dos sentimentos
que ainda ontem
eram tudo.
O vento sibila
a presença incómoda
da solidão,
mais tarde, do Silêncio!...
E o mundo é
contínuo e indiferente
nos seus gumes doridos,
com ou sem percepção...