quarta-feira, julho 28, 2010

Vontade

Não uses as palavras
como adagas mortais,
nem faças da dor,
em prosa definitiva,
uma mecânica descrição
do desespero.
Liberta o que sentes
como a luz
que rasga as trevas na alvorada
qual radiosa imagem de liberdade;
ou a escuridão,
que amorosamente
supre o fulgor do sol,
abraçando devagarinho
as formas que sentem
mais todas as suas sombras.

terça-feira, julho 27, 2010

O Tempo (que) urge

A urgência dos relógios
marca-nos os Sonhos
com a fúria áscua
do Presente.
Mas no mesmo mundo
onde o afogadilho dos ponteiros
seca as pétalas da esperança,
crescem rosas
em jardins viçosos
e o seu perfume,
frágil e temporário,
é testemunho do Bem
que, é certo,
algures
nos espera...

sexta-feira, julho 23, 2010

Venho daqui

Como gotas
caem as palavras
com a cadência
ritmo
de quem deseja
das coisas
os nomes
e substância.
O mundo vive-se
nesta distância
entre sonhos
e caminhos.

terça-feira, julho 20, 2010

A noite exibe a sua dança
dissimulada numa miríade
de véus subtis
marcando
na sua pauta obscura
e incerta,
os acordes do silêncio
e as harmonias
de um fim
imperfeito.

segunda-feira, julho 19, 2010

O meu Silêncio

Sou esta viagem sem requintes,
sem dotes nem substância;
sou aquela ideia,
que se fez dor abandonada
por todos os olhos que amo...
Oiço agora das pedras do caminho
um lamento sumido, quase inaudível
no seu distanciamento sereno e perene,
falando-me de todas as histórias da solidão;
e nessa confusão de culpas e omissões,
conspiração entre dúvidas e certezas,
vão tombando sem estrondo,
como folhas de Outono,
as despudoradas máscaras
que, lá fora, no mundo,
acoitam ainda
a minha vergonha.

terça-feira, julho 13, 2010

Cá em baixo

Os meus absurdos são cristalina evidência
da minha insanidade absoluta...
Existem loucos que cantam
não sou um deles.
De todos quantos olham o azul do céu
sou o que do ponto mais baixo o faz,
por isso toda a luz
sinto-a enquanto bênção.
E ao calor do sol sinto-o mais
ou talvez não.
O Destino não existe,
mas a sua ilusão não deixa de magoar
e toda a dor
é um passo implacavelmente lúcido
em direcção
à morte...

segunda-feira, julho 12, 2010

Medidas

A minha medida de ilusão faz-se de olhar,
daqueles que vejo, daqueles que sinto verem-me,
de quantos de mim se afastam, e de todos os outros.
E de ninguém...

A minha medida de vazio enche-se de ausências,
das que me entristecem, das que me negam,
de quantas de mim arrancam pedacinhos de esperança.
E mais nada...

A minha medida de solidão escreve-se nas palavras,
das que sonhei ditas, das que não foram escritas,
de quantas, e são tantas, que não disse e não me disseram.
E o silêncio...

A minha medida de futuro rasga-se na minha pele,
nas rugas do tempo, nas carícias ainda possíveis
de quantos momentos que implicam, ainda, o desconhecimento.
E a morte...

Existir...

Existe uma escarpa, na minha montanha,
de onde apenas a morte murmura,
e mesmo que o som do fim dos meus dias
desça desse pináculo impossível,
continuarei acreditando que o mundo,
para mim, não irá acabar...