Embalam-se os sonhos
na névoa que oculta os desejos,
como se essa bruma despudorada
guardasse segredo de todas as imprudências,
sossegando faltas e inconfessos sonhos,
num silencioso conforto amniótico.
Lá fora tudo se promove sincopadamente,
e a realidade excita os sentidos
com toda a sorte de incertezas ruidosas.
Adivinho, de entre estes copiosos tumultos,
o subtil suspiro que apenas o teu olhar exala,
e dessa brisa sagrada
que o vento obsequiosamente me traz,
esboça-se a perfeição do teu peito
respirando, na frágil eternidade de um gemido,
toda a impossibilidade da paixão.
terça-feira, dezembro 21, 2010
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Desligado
O que o olhar alcança,
escapa-se num simples gesto,
e os sons do delírio somem-se
no frémito com que a paixão
anima os dedos que a tocam
inevitavelmente sentenciados
à abstracção futura da lembrança.
A felicidade é uma sensação instantânea,
uma vela frágil,
enfunada pelas brisas da memória
voando sobre os abismos óbvios
das tragédias que sangram,
sem compaixão, a carne dos dias.
Aos sentidos resta tocar
a substância do vazio,
quando, sob o manto de ilusões
que a noite cose,
silêncio e solidão
transubstanciam a ausência em incompreensão
e a dor é agora uma voz
que não aceita a fonte
de onde brota o nome da saudade.
escapa-se num simples gesto,
e os sons do delírio somem-se
no frémito com que a paixão
anima os dedos que a tocam
inevitavelmente sentenciados
à abstracção futura da lembrança.
A felicidade é uma sensação instantânea,
uma vela frágil,
enfunada pelas brisas da memória
voando sobre os abismos óbvios
das tragédias que sangram,
sem compaixão, a carne dos dias.
Aos sentidos resta tocar
a substância do vazio,
quando, sob o manto de ilusões
que a noite cose,
silêncio e solidão
transubstanciam a ausência em incompreensão
e a dor é agora uma voz
que não aceita a fonte
de onde brota o nome da saudade.
quarta-feira, dezembro 15, 2010
Monólogo chorado
Por vezes chorar é inevitável, mesmo que o choro, ele mesmo, não se manifeste para fora.
Por vezes chorar é certo, pois sim, por ser a única forma que nos resta de expressar revolta e indignação, ou, pura e simplesmente, encarar a incompreensão.
Por vezes chorar é o melhor, eu sei, ainda que insistam que rir é o melhor remédio... Após o secar das lágrimas, continuar é possível.
Por vezes chorar é um princípio de esperança, o salto urgente e necessário quando os pés tocam o chão que se funda no desespero.
Por vezes chorar é, e tudo o mais é merda.
Depois?... Depois, logo se vê!
segunda-feira, dezembro 13, 2010
Invernos
Fui ingénuo,
tanto quanto pode ser ingénuo
aquele que se construiu
na penumbra das esperas.
Já me senti certezas
cristalinamente escorrendo
o sentido,
num sentir medido em palavras,
como se o mundo se desejasse urdir
na soberba de um fruto,
depois desprezado,
num aceno desapegado
dos elementos.
Cai a noite
onde caiu já o Inverno,
e a memória dorida
entorpece ao compasso da chuva que cai
num indefinido lá fora.
Um dia acordará diferente,
poderei, talvez,
renascer.
tanto quanto pode ser ingénuo
aquele que se construiu
na penumbra das esperas.
Já me senti certezas
cristalinamente escorrendo
o sentido,
num sentir medido em palavras,
como se o mundo se desejasse urdir
na soberba de um fruto,
depois desprezado,
num aceno desapegado
dos elementos.
Cai a noite
onde caiu já o Inverno,
e a memória dorida
entorpece ao compasso da chuva que cai
num indefinido lá fora.
Um dia acordará diferente,
poderei, talvez,
renascer.
sexta-feira, dezembro 10, 2010
Lamento
Enlouquece a memória
no tumulto sofrido dos desejos,
e cresce entre compreensão e desdém
o sonho que dá sentido aos beijos.
Enfada-se o ar
em devaneios ocos
e um pulsar vigorosamente inútil
esboça-nos a morte aos poucos.
A ilusão sente-se
como paradoxo iluminado,
e na luz que alumia os outros
funde-se o que é,
no engodo de um Fado.
Os passos estão dados
comprometidos no sinuoso carreiro
que os leva, talvez, enganados...
E os olhos, somando perdição e lágrimas,
cedem herméticos
ao horror das lástimas
que erodem os ossos e fazem adivinhar o futuro.
A escuridão acolherá o resto,
e uma carcaça vácua fará testemunho
de um rumo inconsequente
para sempre calando,
sob o pesado compasso da solidão,
todo e qualquer protesto.
terça-feira, dezembro 07, 2010
Medida
Todos os marmóreos altares,
de onde os deuses de antanho tocaram os homens,
perderam o brilho e cederam o poder
ao entendimento causal dos dias.
Deus afasta-se num argumento abstracto,
num conceito inconcebível
para a substância que concretiza cada instante,
e estes, sem a bonomia divina,
aceleram nos afazeres materiais
que se enganam num hedonismo sem rumo.
Mas mesmo sem deuses
a maravilha existe,
e basta um sorriso, sem desígnio superior,
para, humanamente,
o revelar...
de onde os deuses de antanho tocaram os homens,
perderam o brilho e cederam o poder
ao entendimento causal dos dias.
Deus afasta-se num argumento abstracto,
num conceito inconcebível
para a substância que concretiza cada instante,
e estes, sem a bonomia divina,
aceleram nos afazeres materiais
que se enganam num hedonismo sem rumo.
Mas mesmo sem deuses
a maravilha existe,
e basta um sorriso, sem desígnio superior,
para, humanamente,
o revelar...
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