quinta-feira, maio 27, 2010

O Apóstata

Juliano tomba, cai da sua montada,
a garganta fatalmente trespassada.
Jaz por terra, corpo quebrado, sem tino,
adágio miserável de um destino
pronunciado nos versos das Sibilas...
O Cordeiro extingue o Óptimo do mundo
adormentando mentes já esquecidas
da velha glória que no mais profundo
dos sentidos se julgava imperecível!
Este anacrónico cadáver decreta,
desprovido de aforismo inesquecível,
quão efémera se revela a incerta
digressão que os homens afanosamente
alicerçam sobre os escombros pretéritos...
Cessaram as vozes de antanho e seus méritos,
assome um Pai num futuro diferente.

sexta-feira, maio 21, 2010

Dúvida

Buscas a segurança da certeza,
quando a dúvida, em toda a sua beleza,
é mais certa em ti e no resto do mundo,
talvez por pressentires que no fundo
todo o universo apenas te interessa
enquanto proscénio por onde os dias
se vão escoando sem muita pressa,
alheados dos sonhos e magias
que o nosso pueril sentido inventa...
O silêncio e o vazio são como vastos
cúmplices dos nossos escassos
momentos, e o que então nos alimenta,
mais que quaisquer sonhadas conclusões,
é o próprio sonhar, são as emoções...

quinta-feira, maio 20, 2010

Dor Minimal

Por vezes sinto-me
gotas quebrando,
em terra árida;
morte toando
neste finito
acontecer
que somos nós...

terça-feira, maio 18, 2010

Mentira

Envolve-me um sentimento de mentira
uma ilusão construída sobre dores
diversas e assim fatalmente mantida
qual arco-íris desprovido das suas cores...
A canção do mundo é também feita em tons
de singela alegria, com aquele jeito
das coisas simples, de momentos tão bons
como a suavidade perfeita de um beijo
aquietando na alma uma qualquer ferida...
Mas é depois que o desespero tempera,
num choro de felicidade perdida,
o momento em que a dor destrona a espera
descobrindo o engodo de ser feliz
na crueza final do que o teu olhar diz…

sexta-feira, maio 14, 2010

Condição

São impossíveis as palavras
que quero que oiças e por isso
não as direi, mas é preciso
que saibas o quanto são raras
as formas como sou lamento...
Envolve-me então um pensamento
uma vigorosa vontade
de me levantar para além
das vãs fronteiras da vaidade
e num estonteado vai e vem,
gritar em humilde exposição,
as falhas do meu coração!...
Todos os meus vícios brotam,
de uma imagem apaixonada
onde se prologam e esgotam
em sincero e triste discurso
as metamorfoses do nada
em que me desfaço confuso...
Perdoa-me este balbuciar
patético e desiludido
um continuado mal-estar
onde o sentimento diluído
está, entre o que hoje me faz
e o que tudo o resto desfaz...

quarta-feira, maio 12, 2010

Amor Sôfrego

Procura-me na luz, procura-me em tudo,
estarei lá, onde tu queiras, prometo...
Mas se não estiver terás como certo
que nunca mais serei feliz neste mundo...
Agora perdoa-me, porque sou fraco,
e beija-me com toda a urgência do tempo
como se fossemos apenas momento,
como se aos dois sorvesses, de um só trago!

segunda-feira, maio 10, 2010

Todas estas nossas noções,
do tempo, do amor e da morte
são óbvios véus, claras ilusões,
versos sem alento nem sorte,
lançados ao mundo feroz
que nos vai sonegando o fôlego.
E se é nesse cosmos que nós
sentimos o desejo sôfrego,
uma desmedida vontade
de cantar fogo e liberdade,
de gritar contra o vento
amo-te!, e quero-te!, mais
que a tudo! É então o momento,
na subtil medição dos ais,
de todo o universo nos dar
uma jura de luz e de paz!...

sexta-feira, maio 07, 2010

Forçam-me o travo amargo do cansaço,
como se o mundo, indiferente ao meu passo,
gritasse sem pudor o meu obituário
perante a indiferença dos que vivos
de mim fizeram morto solitário.
Sou agora uma sombra entre os esquecidos,
desmemoriada presença sem fé,
solidão arrastada entre os labirintos
que a morte no esquecimento lê...
Antes fui génio de sonhos famintos
num passado de vontade e certeza
tentei enlear Átropos em seus fios,
mas é Láquesis com toda a sageza
que me vai enredando agora nos frios
caminhos por onde enfim sou levado...
E tudo quanto quis, foi ser amado!

quinta-feira, maio 06, 2010

O Péssimo tranformado em "ismo"...

Em certas alturas o tormento deixa de ser derivado dos sucedâneos do verbo sentir para ser enfim um acentuado, desolador e contínuo cansaço.
Entre a realidade e o sonho somos apenas formas diversas de desilusão.

segunda-feira, maio 03, 2010

Indecisões

Sentou-se, longos anos,
frente a imagens, imaginárias...
E sem memória nem danos,
sonhou cousas visionárias
sem as dizer, partilhando
somente o simples desmando
das palavras que não disse.
Fosse esse o único deslize,
não foi, e hesitou no mal
seu constante companheiro
numa luta desigual
ignorando o verdadeiro
sentido do sentimento...
A dúvida é são alimento,
mas jamais se compadece
de quem, na apatia, se esquece...