quarta-feira, dezembro 21, 2011

Visão


O mundo não sente a mão da justiça
nem acusa o bafo do sentido.
o mundo não se esquece pois não sabe sequer
o que é lembrar.
o mundo não ama a curva sensual rodeando os recantos de um dos teus sorrisos,
nem se curva sob o peso da dúvida e do medo.
o mundo não sabe nem aprende ao que sabe uma maçã
nem ao que cheira uma flor
nem ao que se agita num beijo.
o mundo é um vazio cego de vísceras e pedras
de sons e de luta, sem fito outro que não,
continuar entropicamente e mais nada.
o mundo é tudo isto
e tudo isto é um monte de nada.
o mundo não me vê mas,
fendido por todos os meus preconceitos
enganado pelo consolo vago da consciência dos nervos
eu vejo o mundo...
eu vejo o mundo e nele me vejo a vê-lo...
nesse processo dorido de continuar a ser;
mergulhado nesse preceito
aprendo
e vejo o mundo que aprendo
para depois aprender
a ver o mundo com olhos mudados.

tu estás lá
com os outros, comigo também,
a ver o mundo
e depois
já não apenas a vê-lo
pois no fundo
o mundo
é também estes
a quem chamamos,
após aprender todos estes sublimes e inúteis trejeitos
e mais,


nós.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Processamento



Enrolas agora a manhã
com os preceitos distraídos
de quem embrulhando quer alucinar.
o negócio de cada gesto é pois uma luta
um argumento mais na direcção curtida do espaço.
olhas para o espelho daquilo que pensas
assim lentamente como uma calúnia.
os sons definem na distância
as formas dos sorrisos.

Depois deste encadeamento
da mentira simétrica do sonho e da vida,
é apenas liberdade um sentimento válido,
formato canónico das tuas sentenças,
arrancando ao domínio impossível do infinito
as flores e os rostos,
todos os cheiros e hálitos,
que compõem a poesia visceral dos seres.

A resposta ao conceito
é pois uma pedra;
o obstáculo que te acorda
por instantes
do sonho ridículo que cose um dia ao seguinte.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Espinhos


A verdade é uma forma cansada
de animar o que já foi.
é uma cristalização do mundo
ou daquela parte do mundo
que nos consola e nos descansa.
e eis que assome a sinceridade,
qual invólucro sensual,
dotando as coisas
daquela qualidade que atrai os olhares
e fixa certezas
cheias da vacuidade indesculpável dos preconceitos.
arrastados pelo temor
por essa ousadia de eternidade chamada futuro
não desviamos os olhos dessas pequenas verdades
as convicções
e dos motes que sinceros lhe devotamos
para depois julgar com um toque de vaidade
o cheiro e os actos
dos outros.
a verdade é uma forma cansada
de marcar estremas no mundo;
é um fardo
um peso de espinhos
com uma rosa inacessível
no seu cume demasiado alto
tantalizando
com a promessa inodoramente longínqua
do seu perfume.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Determinismo

O Determinismo diz-nos que tudo o que aconteceu, aconteceu então, por ser inevitável que acontecesse; e em toda essa inevitabilidade, nós, sendo menos em tudo isto que um grão de areia para todos os desertos da terra, somos um meio determinado com que o universo determinou a Música, ela que sente, entre outras coisas, o inconcebível, e a Ciência, ela que desvela, entre outras coisas, o sentimento. O Determinismo diz-nos pois que o sentimento, como a matemática, é um produto inevitável das leis da física.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

[pre]ver


o cinzento é a cor dos dias
de todos os dias que passam por nós
com todas as suas palavras
ou gestos
ou coisas.
no seio das nossas curtas e enleadas conspirações
está um universo autista
onde todas as cores se neutralizam
e o porvir é somente imaginário;
Cassandra viu o cinzento presente
inundar-se de todas as cores do futuro
e por isso mesmo
é profeta silenciada
pelos diques incolores
daqueles cujo senso
mora só
no tempo do possível.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Sem


Há dias de desinspiração
pedaços de desintegração
sem o fluir reconfortante das emoções
ou de inventadas e profusas
e perfumadas
multidões de flores.

nisto o sentimento das coisas
transmuta num consumo
sempre excessivo
de sensações.
Imagine-se o som de um beijo,
a sua cor e textura
os seus gemidos surdos
as complexas e subtilezas que o dotam;
hoje não consigo sonhar nada disso
excepto uma espécie de beijo-produto
sem o consolo amoroso e sentimental
de que o desejamos envolto.

há como que um vazio doloroso
uma cova funda
húmida
fria
onde me escondo sem vontade de me esconder;
existem depois as memórias
que vão e vêm como ondas do mar
trazendo e levando certezas de ontem
que hoje não tenho.

há dias de desinspiração
nesses dias
as palavras não trazem mais que denotações
e tudo cá dentro lhes conota sentidos vis
que se sentam
esperando
que o amanhã regresse.