quarta-feira, dezembro 21, 2011
Visão
O mundo não sente a mão da justiça
nem acusa o bafo do sentido.
o mundo não se esquece pois não sabe sequer
o que é lembrar.
o mundo não ama a curva sensual rodeando os recantos de um dos teus sorrisos,
nem se curva sob o peso da dúvida e do medo.
o mundo não sabe nem aprende ao que sabe uma maçã
nem ao que cheira uma flor
nem ao que se agita num beijo.
o mundo é um vazio cego de vísceras e pedras
de sons e de luta, sem fito outro que não,
continuar entropicamente e mais nada.
o mundo é tudo isto
e tudo isto é um monte de nada.
o mundo não me vê mas,
fendido por todos os meus preconceitos
enganado pelo consolo vago da consciência dos nervos
eu vejo o mundo...
eu vejo o mundo e nele me vejo a vê-lo...
nesse processo dorido de continuar a ser;
mergulhado nesse preceito
aprendo
e vejo o mundo que aprendo
para depois aprender
a ver o mundo com olhos mudados.
tu estás lá
com os outros, comigo também,
a ver o mundo
e depois
já não apenas a vê-lo
pois no fundo
o mundo
é também estes
a quem chamamos,
após aprender todos estes sublimes e inúteis trejeitos
e mais,
nós.
quarta-feira, dezembro 14, 2011
Processamento
Enrolas agora a manhã
com os preceitos distraídos
de quem embrulhando quer alucinar.
o negócio de cada gesto é pois uma luta
um argumento mais na direcção curtida do espaço.
olhas para o espelho daquilo que pensas
assim lentamente como uma calúnia.
os sons definem na distância
as formas dos sorrisos.
Depois deste encadeamento
da mentira simétrica do sonho e da vida,
é apenas liberdade um sentimento válido,
formato canónico das tuas sentenças,
arrancando ao domínio impossível do infinito
as flores e os rostos,
todos os cheiros e hálitos,
que compõem a poesia visceral dos seres.
A resposta ao conceito
é pois uma pedra;
o obstáculo que te acorda
por instantes
do sonho ridículo que cose um dia ao seguinte.
quarta-feira, dezembro 07, 2011
Espinhos
A verdade é uma forma cansada
de animar o que já foi.
é uma cristalização do mundo
ou daquela parte do mundo
que nos consola e nos descansa.
e eis que assome a sinceridade,
qual invólucro sensual,
dotando as coisas
daquela qualidade que atrai os olhares
e fixa certezas
cheias da vacuidade indesculpável dos preconceitos.
arrastados pelo temor
por essa ousadia de eternidade chamada futuro
não desviamos os olhos dessas pequenas verdades
as convicções
e dos motes que sinceros lhe devotamos
para depois julgar com um toque de vaidade
o cheiro e os actos
dos outros.
a verdade é uma forma cansada
de marcar estremas no mundo;
é um fardo
um peso de espinhos
com uma rosa inacessível
no seu cume demasiado alto
tantalizando
com a promessa inodoramente longínqua
do seu perfume.
terça-feira, dezembro 06, 2011
Determinismo
O Determinismo diz-nos que tudo o que aconteceu, aconteceu então, por ser inevitável que acontecesse; e em toda essa inevitabilidade, nós, sendo menos em tudo isto que um grão de areia para todos os desertos da terra, somos um meio determinado com que o universo determinou a Música, ela que sente, entre outras coisas, o inconcebível, e a Ciência, ela que desvela, entre outras coisas, o sentimento. O Determinismo diz-nos pois que o sentimento, como a matemática, é um produto inevitável das leis da física.
segunda-feira, dezembro 05, 2011
[pre]ver
o cinzento é a cor dos dias
de todos os dias que passam por nós
com todas as suas palavras
ou gestos
ou coisas.
no seio das nossas curtas e enleadas conspirações
está um universo autista
onde todas as cores se neutralizam
e o porvir é somente imaginário;
Cassandra viu o cinzento presente
inundar-se de todas as cores do futuro
e por isso mesmo
é profeta silenciada
pelos diques incolores
daqueles cujo senso
mora só
no tempo do possível.
sexta-feira, dezembro 02, 2011
Sem
Há dias de desinspiração
pedaços de desintegração
sem o fluir reconfortante das emoções
ou de inventadas e profusas
e perfumadas
multidões de flores.
nisto o sentimento das coisas
transmuta num consumo
sempre excessivo
de sensações.
Imagine-se o som de um beijo,
a sua cor e textura
os seus gemidos surdos
as complexas e subtilezas que o dotam;
hoje não consigo sonhar nada disso
excepto uma espécie de beijo-produto
sem o consolo amoroso e sentimental
de que o desejamos envolto.
há como que um vazio doloroso
uma cova funda
húmida
fria
onde me escondo sem vontade de me esconder;
existem depois as memórias
que vão e vêm como ondas do mar
trazendo e levando certezas de ontem
que hoje não tenho.
há dias de desinspiração
nesses dias
as palavras não trazem mais que denotações
e tudo cá dentro lhes conota sentidos vis
que se sentam
esperando
que o amanhã regresse.
quarta-feira, novembro 30, 2011
[I]mortalidade
Não sei como começar
e todos os começos se revestem
daquela dúvida medrosa
que os separa do futuro
já não muito distante
em que deixam de o ser
- começos...
o sol e a lua
e bem assim todo o universo
são como janelas para a imensidão
do que lentamente se suspende
sobre o teatro efémero
dos que se esgotam prodigiosamente
no afã espectacular da mortalidade.
o sol e a lua
e bem assim todo o universo
não têm como temer o peso do remorso
nem o desgaste constante da dúvida,
testemunham apenas,
longe de todas as angústias do ser,
como quem morre se compromete
com quem morre também
e desconhecem portanto
a urgência fundamental
de cada um dos passos pensados,
do mais pequeno dos sentimentos
ao mais insensato dos amores,
ignorando a pequenez grandiosa
que mora fugaz
em cada mortal.
O mortal define-se
em tantas medidas
pelo medo de começar;
a eternidade não tem como temer
qualquer fim.
terça-feira, novembro 29, 2011
Dás com a mão certa
pelo preceito errado;
como se o acto de dar,
desprendido da emoção da partilha,
cortado do sacrifício e do sentimento,
exprimisse alguma forma de bem.
No enredo da vida
enlaçam-se multidões de pequenos jeitos,
de gestos tão graciosos quanto imperfeitos
e, no centro da nossa efémera desconfiança,
contam-se histórias ternas
que suavizam, de forma patética,
a inevitabilidade dolorosa e confusa da indiferença.
A hipocrisia chora descarada
a miséria dos outros
enchendo-se de uma superioridade perturbadora
no vigor ávido e nojento da esmola.
sexta-feira, novembro 25, 2011
Já és Saudade...
A Monserrat Figueras, com a ressalva óbvia de não lhe poder fazer a justa homenagem...
Como se pode conceber a perda
a ausência do som subtil de quem vive
e de todos aqueles jeitos deliciosos e únicos
que vestem os tratos simples dos dias?
como se pode conceber a aceitação dos gestos crus
que inexoravelmente colam as premissas da vida ao colo da morte?
Como se pode conceber o silêncio
o vazio que fica por não haver mais aquela voz precisa
que encheu o espaço dos sentidos com uma forma improvável de sentido?
a dúvida é um motor inquebrantável,
um encadear impreciso de condoídas fatalidades e de catarses felizes;
em todo o seu traço de inevitabilidade é por vezes mansa
e então esquece-nos por breves instantes
enquanto escutamos um som diverso
sentimos um sentimento distinto
e colhemos sabedoria de um fruto proibido.
E tudo isto é possível
não pela mão invisível de um deus cobarde e ausente
mas pelo gesto vivo de uma vida diferente
infelizmente tão breve
felizmente tão viva!
É deste corso visceral que se faz a saudade...
daí a sua dor
daí a sua beleza.
Como se pode conceber a perda
a ausência do som subtil de quem vive
e de todos aqueles jeitos deliciosos e únicos
que vestem os tratos simples dos dias?
como se pode conceber a aceitação dos gestos crus
que inexoravelmente colam as premissas da vida ao colo da morte?
Como se pode conceber o silêncio
o vazio que fica por não haver mais aquela voz precisa
que encheu o espaço dos sentidos com uma forma improvável de sentido?
a dúvida é um motor inquebrantável,
um encadear impreciso de condoídas fatalidades e de catarses felizes;
em todo o seu traço de inevitabilidade é por vezes mansa
e então esquece-nos por breves instantes
enquanto escutamos um som diverso
sentimos um sentimento distinto
e colhemos sabedoria de um fruto proibido.
E tudo isto é possível
não pela mão invisível de um deus cobarde e ausente
mas pelo gesto vivo de uma vida diferente
infelizmente tão breve
felizmente tão viva!
É deste corso visceral que se faz a saudade...
daí a sua dor
daí a sua beleza.
quinta-feira, novembro 24, 2011
O Eu que se Dissolve
E assim se esgota
a urgência tola das palavras
quando o som erode a abstracção da linguagem
erigindo catedrais transitórias
que dão sentido efémero
a uma religião impossível.
o centro do mundo
fulcro inexistente e permanente falácia
atrai necessariamente enquanto emoção
como se em nós se produzisse um espaço
concreta matéria
energia
desprovido do movimento relativo do tempo.
é nesta suspensão improvável
que se realiza o cosmos do eu
para depressa se esfumar
na respiração inevitável
da realidade que seguramos de forma ingénua.
quarta-feira, novembro 23, 2011
Ao Som que Soa a Música e o Sentimento
O som como que nasce
de todos os sítios
de uma indefinição geral
de tudo e de nada.
depois
as notas transmigram
viajam fantasmagóricas
em multidão
por entre os poros da pele
acariciando o corpo
que se abandona às subtis vibrações sonoras.
enquanto assim se alheia
a vontade também se vê chorar
apenas um pouco
o suficiente
para que o entendimento se faça
da sensação de estar vivo.
tanto aurora quanto ocaso
se reclamam de atenções especiais
no entanto
todos os momentos
reservam uma identidade única
ainda que partilhem somente
de comiserada banalidade.
é no acento tónico
que o espírito punge e geme
pois todos os sentidos
nervos
percepções
se entregam a esse sentir
misto de plenitude e abandono
que é o escutar...
tanto aqui
quanto lá longe
onde o horizonte se chama já desconhecido
isto é verdade
tanto quanto verdade pode ser
um emaranhado de sentimentos.
terça-feira, novembro 22, 2011
Conotação
Entre o agradável
e o desconforto
jazem mil'uma e mais palavras.
Para umas a intenção é-lhes indiferente
em outras
apenas o contexto racionalmente as desambigua
e
finalmente
é no reduto do sentimento enquanto sentido
ou da emoção assenhoreando-se da razão
que caem todas as outras.
Quando dois belos motes se unem
não conformam uma inspiração maior;
de Zéfiro a bonança
de Bóreas o absoluto desconcerto.
A vida toda navega
sem decoros ou certezas
entre brisa e tempestade.
segunda-feira, novembro 21, 2011
Transição
Sinto um frio
um desconforto de momentos
quando a brisa gélida
se faz vento por um pouco
e corta a dormência dos sentidos.
é então que fito
com alguma demora
o sentido do que aí vem
indefinido e informe
que não sendo exactamente um segredo
é dúvida e receio e também medo
daquele medo do escuro
esse mesmo
dono subtil do instante
em que a luz se insinua
fazendo assim
renascer a esperança...
sexta-feira, novembro 18, 2011
Hoje
A página que deixei vazia
conta
em um momento preciso
a secessão dramática
entre os sentimentos não partilhados
e o silêncio expressivo
do espaço branco que deixei
descuidado.
Houvera um simples trejeito diverso
e talvez tivesse escrito aquela ode que me prometo desde sempre.
A vantagem das páginas por escrever
é encerrarem sempre
em simultâneo
todas as ideias possíveis
sendo tal coisa
a mais perfeita definição de nada.
Parece-me
não sei
mas
talvez a inspiração seja como aquele mundo extremo das partículas que não vemos
e quem escreve
seja apenas um diletante observador da música cósmica
cristalizando com a ilusão da vontade
o sítio justo de cada palavra
até se forçar uma realidade possível
num texto improvável.
quinta-feira, novembro 17, 2011
Temporário
Olá!
quando a noite me deixou finalmente
o sol magoou-me os olhos
e essa astrologia decidiu por mim
dorida
a forma precisa
embora visivelmente turva
do novo dia.
revesti-me nos moldes próprios
dos formatos aceites
para ligar
os passos certos
conformes às exigências produtivas.
é uma covardia imensa
esta de ser submisso
a uma miríade de vontades alheias
coagindo sem dó
uma singela vontade só.
covardia inevitável
de quem ama
diria.
o manto resvala de cima
de um céu indefinido
indizível medo
e vai aderindo ao corpo
numa espécie de tecido conformador
que submerge o pensar e designa o mover.
ouso ainda assim os argumentos
formas intrincadas de consolidar ideias
emergindo depois subtilezas
travões certeiros que desgastam a pressa
inequívoca
das conclusões meramente úteis.
já não é a verdade que conta
apenas o temporário
que tomou do tempo essa celeridade extrema
do resultado imediato.
seja
é a mentira que manda
e o sucesso está nisso mesmo.
quarta-feira, novembro 16, 2011
O Dia Inicia-se...
O dia inicia-se
por decreto
com o distanciamento de uma precisão mecânica.
Mas a sensação de renascer
que o descreve enquanto intuição
apenas se sente
experimenta
como sequência
que depois transmuta o coração vivo
do coito da noite
ao bulício de imprevistos entrançando-se em mais um dia.
Entre a engrenagem dos inevitáveis
e a paixão das vísceras
constrói-se uma verdade relativa
e um sentimento
arrogante
mas sublime o suficiente
para se convencer universal.
terça-feira, novembro 15, 2011
Sentimento e Emoção
Nota como o vento
se insinua pelo corpo
como uma veste estranha
mas logo te despe
e a estranheza desse despir imediato
transmuta o frio que já sentes
em emotivo desamparo.
Nem tudo o que na aparência nos veste
na realidade nos conforta.
A emoção está para o sentimento
como o desconforto está para o vento.
Sente mais
emociona-te então
na justa medida daquilo
que verdadeiramente
sentes...
segunda-feira, novembro 14, 2011
A Cor do Desejo
a vantagem da cor
é que se modela nos olhos
e se sente na pele
entre os olhares e os dedos
sem carecer
do toque.
a cor é o humor da luz
banhando os corpos
animando-os com surpresa e movimento
fazendo da distância
paradoxo necessário que excita
finalmente
a vontade de tornar o que se afasta próximo
chamando-o depois
desejo.
as mãos buscam sufocar o suspiro
o suspiro busca o sufoco das mãos
numa urgência que cresce desmedida
cedendo à sedução dos predicados
naturalmente distantes
pelo toque que se atrasa
pelo abraço que finalmente queima
até ao êxtase que celebra o que se une.
no esquema aleatório do mundo
o que se pensa enquanto cálculo frio
também se sente nas vísceras
como paixão sublime
devoção
liberdade
amor
e desejo
vestido de cores impossíveis.
sexta-feira, novembro 11, 2011
Interagindo
Na forma que finalmente assumem
os pensamentos interligam-se e mesclam-se;
nomes
percursos
vontades distintas
concorrem pela acção da vigília
dotando o putativo vigilante
de consequente sequencialidade.
O eco de identidades diversas
recua
submetido ao som ingénuo que vence.
A voz aclara-se
o discurso flui
os gestos também;
deste concerto complexo
emerge o processo inquieto
tomador de consciência do mundo
fazedor de coisas concretas
de sentimentos pungentes
de palavrosas partilhas
que outros vêem, escutam, sentem e aceitam
como sendo
um outro.
quinta-feira, novembro 10, 2011
Metafísica [...]
Medram aleatoriamente as películas pelo ar
como eclodem a teimosia
e a preguiça
por entre os pensamentos mais rectos.
A matéria é a resposta do tempo
à permutação da energia
a consciência cola-se a esse preceito
deduzindo leis
tomadas primariamente
das intuições da carne.
De todas estas cordas
que superiormente se entrelaçam
vibram todas as coisas
esse sorriso
essa lágrima
o amor que se faz
o sentido que falha em todos os momentos.
Observa então
como a partícula ondula
finalmente extrai disso
a única dualidade verdadeira
até chegares ao osso...
quarta-feira, novembro 09, 2011
Interior
A solidão não se faz
apenas
dos espaços vazios e dos silêncios desacompanhados.
A solidão é um estado
uma consequência real de coisas
talvez ficcionadas
e de outras
coisas
que por vezes de tão subtis
se fazem ao outro invisíveis.
O solitário é aquele que se julga constantemente no espelho
perscrutando obsessivamente os mais ínfimos defeitos
com um bisturi implacável e frieza inquisitória.
A solidão não é uma escolha
ainda menos uma expiação
é assim tal qual deve ser
instrumento
é assim
e mais nada.
terça-feira, novembro 08, 2011
E agora?!
Talvez a noite de ontem se foque
precisa
nas fantasias da minha memória.
Talvez a sorte seja ilusão
apenas
e cada um dos passos que já dei
sejam mesmo
os meus passos.
Talvez o medo se dilua
agora
e
para todo o resto do tempo
seja apenas uma insinuação
movendo-se por entre as sombras e a dúvida.
Talvez as palavras que dizes
não sejam afinal pedras
mas antes flores
que
por falha minha
não consigo entender.
Talvez, talvez, talvez...
mas
e agora?!
sexta-feira, novembro 04, 2011
A chuva que me dissolve os passos e neles se dissolve também...
Neste cinzento distrito
zona de rotundas sem fim
de estradas indiferentes
cheias de regras contraditórias
injustamente financeiras
encontras alegorias
e encontras histórias.
Lágrimas e procissões de gentes profanas.
A mão que já nada guia
distingue porém
o espaço de uma abstracção excessiva.
Agora não é um incenso qualquer
que move o sentimento de ir
é o cheiro do cimento húmido
de onde se eleva o som urbano
e a urgência indefinida de chegar.
Eu caminho lentamente
porém com intento
pois se os fins não justificam os meios
o caminho será
eu sinto
tudo quanto me interessa...
quinta-feira, novembro 03, 2011
Ver
Do topo do monte
a vista quase tudo alcança;
mas essa visão do mundo
é somente um ponto de vista.
A flor é flor em qualquer lado.
A escuridão tem do silêncio a prova
do quanto somos cegos
aos pequenos tiques do mundo.
Ofuscados pelo brilho dos desejos
perdemos o singelo sol
que brilha em cada pirilampo.
quarta-feira, novembro 02, 2011
Contexto
Os olhos que se cruzam calam a mentira
a mesma que se adorna no som dos verbos
e na prolixidade quase estéril dos advérbios.
O julgamento
como o amor
veste-se de ornamentos palavrosos
mas o silêncio é
por certo
o mais temível dos juízes.
segunda-feira, outubro 31, 2011
[a]fatalismo
Quanto nas cores se confessa o dia?
As folhas castanhas do Outono
contam o fado da decadência
como se de um nome apenas
exalasse precisa
a nomeação da senescência.
É inútil desejar a Primavera
mesmo que o nome
imortalize a vitalidade;
o mundo não se compadece disso.
Da inutilidade física
desse fatalismo a que cheira a realidade
promoveu-se o estranho perfume do sonho
a mortificação idílica do desejo
e a memória
referência suprema daquele que sonha e deseja
mesmo que indiferentes lhe sejam
todos os ciclos do mundo.
Tanto no desprovimento do Inverno como na prolixidade da Primavera
germinam desejos e sonhos.
sexta-feira, outubro 28, 2011
Seis Confissões
I
A memória é como o som de passos pequeninos
eco de risos infantes
trespassando o coração da indiferença.
II
Situados acima do horizonte estão os teus olhos
brilham com a certeza que reconheço impossível
das coisas que medram dos átomos da simplicidade.
E como simples as classifico humildes
e como humildes as sussurro quais verdades universais.
III
A manhã segue-me após a noite com uma inevitabilidade mortal
e cada mutação entre o Sol e a Lua
soa como um "tic tac" ineludível
universalmente disposto para mim
oculto porém da intelecção mundana.
IV
Esgotam-se lá fora as gotas em chuva intensa
e em cada uma zune uma sílaba
marcando o passo do poema inteiro
que passa pelos dias de Inverno.
E nesta cadência imersiva
distinta
e minha
escuto um outro compasso
aquele que ritma dentro do peito.
V
É toda esta sequência uma promessa;
após o poema da chuva
virá outra coisa
e aí reside toda a esperança.
VI
Eu mudo na mudez própria da minha solidão
sabendo que sendo fundamentalmente só
tenho mãos que dão e tocam
braços que erguem e abraçam
lábios que beijam
e lágrimas
e sorrisos
para juntar tudo isto.
quinta-feira, outubro 27, 2011
Micro Ensaio sobre a Canseira
Queixas-te da monotonia
da canseira profunda dos cinzentos.
Sabe pois que existem sorrisos perfeitos
mesmo quando apenas os vês
a "preto e branco"...
E agora imagino-te diva
doando ao mundo o teu corpo
num espreguiçar atávico
anacronicamente descolorido
e sensualmente variado.
E agora imagino-me sorrindo
e tu sorrindo de volta.
E assim se faz impossível
cansar-me do mundo
mesmo que apenas sorrias
a "preto e branco"...
quarta-feira, outubro 26, 2011
Julgamento
São estrangeiros os olhos que me julgam
como exteriores são também os dedos
dos quais
talvez
deseje em segredo
tanto carícias quanto sedução.
Na distância a que ficam os horizontes
o troar de tumultos abafa-se
quase se esquece
e o desassossego é apenas um perigo latente
longínquo
afastado do cerne dos medos.
São os meus desejos
assim
como preces infames
rogando clemência a uma deusa
entre pia e ímpia
que me ame para além de véus e sombras.
Fecho então os olhos
com força
e assim
de um falso negrume profundo
insinuam-se-me
impossíveis e paradoxais
os contornos últimos da perfeição.
terça-feira, outubro 25, 2011
Do Que Tu Não Vês
O vento não passa
por essas flores que imaginas
e os risos que sonhas
soam a coisa nenhuma.
E mesmo assim choras
por dentro
e quem para ti olha
não vê sofrimento
apenas a luz serena
que brilha no olhar
sujeito principal
dos motes emudecidos
da esperança.
segunda-feira, outubro 24, 2011
Temporário
Sentado no topo
encontra-se o Tempo
velho e mudo
enquanto o resto tudo
passa num jorro sem sentido.
E estando figurativamente ali
não é separado
mas uno
com todas as coisas.
A seiva do universo
germina de toda a sorte possível de eventos
num vasto teatro desinteressado
palco de passos e pensamentos
vestes e corpos
num molde entrópico
de interacções materiais.
O sol nasce
mas não o conhece
e ainda menos o sente;
e quem assim o julga
perecerá num ápice.
Do centro da Galáxia aos nossos olhos
concentram-se
nos elementos da Luz
sem nada querer com sentidos ou razões
desejos ou desvarios
tantas histórias mais
que todas quanto somamos
a essa ousadia temporária
a que entregámos o nome
História.
sexta-feira, outubro 21, 2011
Escravidão
Os segredos manipulados;
as sombras que se mexem
frenéticas
sem rumo
arte
ou ciência aparente
nas paredes confusas
que tudo envolvem.
A ignorância suprema do medo.
Contam-se as pedras como entulho
apenas
engulhos vários
asfixiando inercialmente o futuro.
Há um cansaço definitivo nas fronteiras de quem sente
degradando-se na vileza
zombeteira dessa decência vítima de opressão externa.
Há quem lamente
amparando os olhos nas mãos rudes
construtoras mecânicas
do presente afastadamente opulento de outrem
sem provisão própria
de esperança
de luz.
A indiferença é um mote dorido
nesta ladainha mortífera
levantada de um chão desolado
por espíritos sem tino nem fito.
É certo
nos desertos também brotam flores
mas nos desertos
morre-se muito mais.
quinta-feira, outubro 20, 2011
Luta
Enquanto entregas as mãos
a esse teu colo de realidade
a realidade
ela mesma
desvela-se numa sensual ilusão.
Eu trago um futuro nas minhas memórias
e como um dique instável
sinto a premonição ruidosa do passado
destroçando as frágeis linhas
do que por agora nos mente.
Ergueste um punho de coragem
talvez possas depois sorrir
mas agora
não é tempo disso.
quarta-feira, outubro 19, 2011
O Sentido (3)
Foram outrora remos
e velas
a rasgarem o Desconhecido
e sob o signo de um desenho divino
afastaram-se as fronteiras do fim do mundo
desvelando o despropósito de tudo.
Foram outrora braços voluntariosos
que elevaram pedras
e levantaram templos
a deuses sedentos
apenas
da riqueza humana e dos recursos da terra.
Foram outrora enganos
que hoje nos traem os ossos;
amanhã vencerá
em toda a probabilidade
mais um engodo
agora
não havendo desígnios exógenos
não há propósito melhor
que o amor que sentes.
terça-feira, outubro 18, 2011
O Sentido (2)
Entre o espiritual
e o concreto do chão
consome-se
gentilmente
ou dolorosamente
o modo de as coisas serem.
De versos
se constrói o poema
e neles
em todos eles
se consome o poeta.
A viagem do mundo
consome-se em pedras
e o sentido
encontra-se
apenas
em cada um
e em todos
nós.
O Sentido
segunda-feira, outubro 17, 2011
Relatividade
O homem na capa
não é o homem na capa
o homem que olha
não vê aquilo que os teus olhos imaginam visto.
O absurdo de algumas palavras
não torna coerente o restante do mundo.
E se todas estas margens se relativizam
moldando-se em interpenetrações múltiplas
com pensamentos, sentimentos
vontades, submissões
enfim
não se conclui forçosamente
que tudo se iguale
nem que tudo se diferencie
fundamentalmente.
O espaço entre fases é
talvez
apenas combustível da loucura;
os preceitos do movimento
anulam-se entre si
e o motor alimenta-se
por fim
no golpe libertador
da Consciência.
sexta-feira, outubro 14, 2011
Ser feliz.
O que é a Felicidade?
A pergunta é ela própria... feliz?!
Ainda consigo recordar, difusa, aquela nota precisa que me comoveu outrora.
Vejo claramente, agora, o quanto se engana o sentimento e então
É a vontade, entre outras imagens, descuidos e desvarios vários
Unívoca referência das distâncias metafísicas, e morais, entre todos quantos são.
Sendo feliz
Omito o passado, esqueço-me de sonhar o futuro, não há precisão
Agora estou aqui, sendo feliz... Assim.
A presença é a miragem, a miragem é tudo, agora, nada o logo após, enquanto ainda o não é.
Num pedestal está, o tal mundo, aquele que vêem meus olhos
Anelado numa certeza inequívoca
Demoradamente presente, demoradamente o Presente...
Afinal, onde estou eu?
Quando te sentas, finalmente,
Usas da calmaria num concreto lugar
Estremecendo por dentro ou simplesmente suspirando.
Mantém então esse zelo íntegro
Essa vontade soberba que sustenta a vastidão que desconheces.
Rebela-te e grita!
Defende-te e destrói os ícones fáceis!
Ah! És no final, tudo! - mesmo sendo nada; ilude-te, desilude-te, mas vive sem grilhões!
quinta-feira, outubro 13, 2011
os Passos
Esconde-se entre as rugas da terra que piso
uma espécie de vergonha que se tumula em cada passo.
É um sentimento disperso e baixo mas não totalmente impuro
que progride em lentidão pela memória que se faz depois
como se a razão que logo lhe assiste seja somente enquanto futuro.
Deixei de contar os cabelos brancos
mergulhando naquele fatalismo informe
que define o desmame desse outro conceito tolo que nos sonha eternos
e de todas essas outras formas desconexas e pueris de ser
a que nos damos pelo cheiro até nos acharmos finalmente velhos.
Não é um compasso de morte nem um preciso fim de caminho que se pressente
é antes a calma improvável e parcimoniosa de quem já viu morrer o quanto baste.
Todas as estradas servem pelo menos um destino
e raramente este se casa com as sortes dos perdidos que por lá seguem.
Seca então as tuas lágrimas
irmão
e sorri comigo.
A vontade que nos fez não é mais um limite
mas uma esperança fundada na memória
e o futuro
qual seja
sabes bem
está logo ali.
quarta-feira, outubro 12, 2011
Erodido
Nem suavidade
nem calmaria
se finaram
perdeu-se
antes
a forma ingénua
que se comovia ao senti-las.
Hoje ocorrem enxames de medo
perversões de outros
com que outros ainda
mais nos sufocam.
São hoje céleres os abismos
a que destinamos os dias
e o que se erodiu
na verdade
não foram as coisas em si
mas antes
o nosso sentimento delas.
terça-feira, outubro 11, 2011
Esquecidos
Existe uma noção perdida
nos passos do tempo
talvez...
Existe um agoiro presente
nos caminhos do dia
que descuidado se grita
querendo-se mais do que é.
A moda dos motes
soa constante
e perde-se
inefável
na poeira dos argumentos.
Antigamente as gentes juntavam-se
e juntas
tocando-se
bebiam as palavras dos velhos.
O sonho fazia-se no deleite das horas.
A memória persiste
mas o esquecimento
tem por aliança
a entropia.
quinta-feira, outubro 06, 2011
Abismo silencioso
Encontro
nos locais da minha perdição
um conforto estranho
e um caos torturante.
Como se no próprio instante
se fizesse excessivamente claro
um sentir raro e calmo
e desejo
puro
consumindo o infinito.
A decisão enferma de uma pequenez pecadora
de uma meticulosa demonstração de humanidade
a noite cai-me
e a solidão toma uma cor inconfessável
tingindo a ilusão da alma
numa paz impossível;
aguardo notícia de um abraço
talvez menção de um beijo
mas a resignação sussurra-me
a fatalidade de tudo isto.
Todos os sons que me envolvem
chamam aquilo
que para outros apenas tangencialmente se insinua
e que
para mim
é um desenho perfeito
precisamente dimensionado
de um abismo.
segunda-feira, outubro 03, 2011
Obscuro
São os acasos
paradoxos caminhantes
dessa outra pose
antítese assumida
da fatalidade.
Nascemos num incompleto centro de tudo
factualmente sós
na multidão dispersa dos átomos
e do outro.
Crás se lembrará no discurso
o contorno da explicação
pacientemente escrutinada
pelas mentes
que numa teimosia pueril
barram
a inevitável maré da distância.
São os acasos
o mote final do poema
ainda por escrever
e depois
a luz cessará
no silêncio.
sexta-feira, setembro 30, 2011
Cru
Hoje é aquele dia
que se mede pela dimensão
imprecisa
de uma dor diversa.
Eu sei o que sinto
quando a ternura me invade
qual veludo
pelos olhos adentro.
E sinto-a
digo-te
como um cheiro bom
e um suspiro
daqueles que sabem
a uma brisa
envolvendo um jardim.
E dentro da jaula
que hoje me dói
não é a solidão
apenas
que me segreda o futuro
é aquela fatalidade
enorme
que se chama fim
que me diz
- olha e esquece.
O verdadeiro desassossego
é pois
o cru terror
de esquecer.
quinta-feira, setembro 29, 2011
Os Passos
O cimento que me enforma o caminhar
é uma gaiola da alma
ela que sonha voar longe
e um conforto
estranho
para o corpo que a gerou.
Todos os paradoxos nascem de nós mesmos
como todas as coisas que sonhamos
como certas e justas
ou choramos
de injustas ou dolorosas.
É visceral a justiça
o amor
também o ódio
as lágrimas
o choro
os sorrisos.
E porque todos somos
na medida da química que nos evoluiu
sentimos de dentro o talvez absurdo
absoluto
destas coisas de fora
como transcrevendo a universalidade.
Malditos aqueles
que
menosprezam o bom
por o bom se contar
"apenas"
humano.
A rua existe
sinto-a nos meus pés
mas a rua existe
apenas
porque existem as pessoas.
quarta-feira, setembro 28, 2011
Oásis
Escondido no meio da desilusão
isola-se iludido
quem outrora se sonhou
outro
e ora
pois
é somente este.
A manhã antecede a tarde
e indiferentes são as cores
os cheiros
rodeando o deserto
onde secam flores de antanho.
Eu queria um sorriso
supremo egoísmo
e chora-me um espectro
das gretas da terra secada
uma memória e um tormento
portanto.
Há quem se alegre com a vertigem
o delírio em peito hostil
mas todos desejam
oásis.
terça-feira, setembro 27, 2011
De Ecos e Sombras
Sinto
na fachada gasta
dos prédios cansados
da minha cidade
a mensagem implícita
do abandono.
São solitárias estas paredes
estas portas
as janelas;
solitárias para além dos cinzentos
quais daguerreótipos
testemunhando uma velhice escorreita.
O silêncio intenso
que soma como aura mística
quebrado apenas
pelo calcar de passos
também eles velhos junto ao esquecimento
promete a chegada de um cheiro de morte
renegociando vida
por entre as pedras que morrem.
Elevas então os teus olhos
de um escuro profundo
e prometes uma lenda
uma ladainha roubada ao infortúnio
cantas de levezinho
e eu choro baixinho
com as mãos inúteis
pendendo no vazio.
E em todos estes gestos vencidos
reside a vitória dos pequenos
aquela que conta
mas da qual não se conta a História.
segunda-feira, setembro 26, 2011
Prece Profana
Diz-me tu de onde nascem
todas as fontes.
Conta-me
com os teus olhos
como posso beber o sentir
num jorro que se descontrola
por entre mistério e certeza pura
de uma fonte
que
também ela
é fatal
desconheço.
Eu tento-me nas curvas dos horizontes
onde toda a sensualidade explode
na inevitabilidade vital
do que está entre o de cá
e o de mais além;
eu tento-me nos olhos
e na pele
no toque virtual
e na carícia intensa
na luz
na treva
e no sonho;
eu tento-me nas nuvens
que parecem trazer
o teu sopro amoroso
aos céus.
A vontade medra
na justa distância
entre os impossíveis.
sexta-feira, setembro 23, 2011
Dona de Si
Não prometas mais impossíveis
diz a rosa humedecida pela noite
à parte do sol que a deseja abraçar.
A luz convoca o calor
e com ele o conforto das coisas vivas
a rosa ilumina-se
mas apenas sorri
apenas se dá
a quem muito bem quer.
quinta-feira, setembro 22, 2011
Intimidade
Existe
na humidade dos corpos
que se achegam na singular intimidade do sexo
a sensação de uma fronteira frágil
entre o amor
e o obsceno
entre a carícia
e o êxtase.
E enquanto se tocam
num crescendo de gestos gemidos
de estremeções na pele dos sentimentos
são
os amantes
corpos que se plasmam
na unívoca vontade
de serem um só.
São depois as mãos
que teimam agarrar
o instante já sido
e em olhares sorridos
finalmente
insinua-se o Tempo
impondo sem pudores
o seu imenso império.
quarta-feira, setembro 21, 2011
Essências...
É um engano quando desejas
que te desejem conhecer
tal qual és.
Aquilo que nos seduz
no perfume das flores
não é a estória
a procissão biológica
que as monta e mostra ao mundo
mas
muito menos que isso
é a impressão
que aflora ao entendimento
persistindo depois
enquanto prazer
ou incómodo
melancolia
ou deslumbramento.
A natureza
inevitavelmente
segue as linhas do menor esforço
como tu
como eles
como tudo.
terça-feira, setembro 20, 2011
O Sentido
Resulta falsa
por certo
essa ideia de ser certa
a convicção que temos
de havermos cá dentro
algo que nos leve além da vida.
E sendo nós
mera produção evoluída do mundo
fazemos dele música
e inventamos
ao que soa o uivo do vento
e o marulhar das águas;
e sentimos
o prazer sublime
vindo do sabor dos vinhos
e do perfume das rosas
temendo
no cheiro da morte
perder tudo quanto ganhámos
num instantâneo sorriso.
O sentido que tanto se deseja
pode bem
não fazer sentido algum
mas
desejá-lo apenas
é já uma forma
de o fazer
real.
segunda-feira, setembro 19, 2011
Nasce
São para lá de belas
as insinuações que
pelos fins da madrugada
nos traz a luz morna do sol;
espreitando sobre montes
inundando vales
beijando planícies.
Se existem momentos mágicos
no sentido de inesperados
e voluntariamente inexplicáveis
serão mesmo estes
que pela surpresa
nos assaltam
e numa poesia infantil
nos fazem esquecer
as nossas escolhas reais
e todos os seus deveres, sentidos, fatalidades e razões.
sexta-feira, setembro 16, 2011
Comprometimento
Digo-te um olá virtuoso
na virtualidade que tudo conforma;
pois parte dos sentimentos transmutam
de ingénuos humores e desejos do corpo
num processamento
retardado
das radiações do mundo.
E este visceral sentir
de quem foi gerado dentro de alguém
para ser para sempre dentro de si
procura talvez
romper a crisálida aconchegada
e solitária
do ego
para se soltar
perigosamente
no dorido e deslumbrado
comprometimento
do tu e eu.
quinta-feira, setembro 15, 2011
Sobre o que se insinua como Perfeição
Existem formas
desenhos
que se acertam aos invisíveis moldes
do mundo.
E esses segredos
esses fios principais
murmuram os preceitos
cuidando de aliviar a corrupção
inconjurável dona do futuro.
Não sendo o porvir
perfeito
eu sei
cá dentro
que perfeito será
o que neste momento sustenta
os teus olhos
brilhando
no caminho dos meus.
quarta-feira, setembro 14, 2011
Por Dentro
Por vezes confunde-se o chão
com os pés que o calcam.
Como se caminhar e caminho
falassem de uma mesma fábula;
como se contar uma história
fosse o mesmo
que vivê-la.
É de noite que as memórias mais luzem
algures
entre silêncio e escuridão
se prodigaliza o sentido
mas
fatalmente
não é nem o silêncio
nem a escuridão
que o entende.
terça-feira, setembro 13, 2011
Após logo...
Enchi de luz um propósito
todo ele escuro
e fiz dele uma história
uma pequena e vácua vingança
sobre o discorrer imparável do Tempo.
Estava preso numa espécie de paragem
uma espera feita de coisa alguma
ou de quase nada
e sem sustento
portanto
esperava eu ali sentado
desvelando o quanto as nuances da luz
enfeitiçam a esperança que
por sua vez
se insinua como uma corzita
por sobre o cinzento que zune no fundo de tudo.
Estendi o braço
mas a mão nada apanhou
para além do corpo fantástico do silêncio.
Talvez amanhã traga
o Tempo
no seu útero vago
o fruto que sabe ao futuro
mas esse fruto será pouco
talvez mesmo um nada
pois logo a seguir
sonharei
um outro.
segunda-feira, setembro 12, 2011
Eu Busco
Eu busco
no rasto dos teus passos
a via luminosa
que se convoca
qual poder divinatório
nos teus olhos.
Eu sei
ou temo
é mais certo
que a cavernosa impureza que me define
ensombre fatalmente
a poesia que te alumia
e por isso
certamente por isso
solto estes queixumes infantes
em lágrimas insecáveis
e lamento baixinho
num beco qualquer
definido concretamente
na palavra
longe.
sexta-feira, setembro 09, 2011
Espiral
São tantos os silêncios
incontáveis gotas únicas
marcando em minúsculos sons
o compasso das mentiras piedosas
com que os desejos se velam
e se ondeia o ser.
Todas as imagens ditas reais
agudizam a solidão fundamental de quem se sente.
Seguindo assim a linha do tempo
surpreende afinal
sonhar
esta espécie
de lucidez...
quinta-feira, setembro 08, 2011
Uma centena de vontades
odeiam-se
sedentes de atenção
recolhendo
em cada sílaba
lágrimas subtis
que pingam desalmadamente
o tecido diáfano do universo.
Já não são
apenas palavras
desejos
indecisões
são fontes mágicas
troçando da fome de perfeição
que mata
com modos lentos
mas firmes
a paixão mortal dos dias.
quarta-feira, setembro 07, 2011
Emancipação
Existe uma imensidão
que se contém num paradoxo
um suspiro
talvez
ou um grito
que arranca da última fronteira
o lastro do sossego.
E assim
da voz delicada do húmus
e da brisa
voa livre a semente
do futuro.
segunda-feira, setembro 05, 2011
Regresso(s)
Regresso
como regressa
aliás
a humidade
que
entre outras cousas
seduz a terra seca.
Regresso
com o sussurro
de cada pequeno raio de luz do sol
de cada ténue acento da fúria dos ventos
acompanhando
numa suavidade humilde
a inevitabilidade regeneradora
da chuva.
Regresso
pois todas as viagens
e ausências
sendo sementes e tumbas
têm por certo
o desejo de sossegar naquele regaço
naquele olhar
que
mesmo ilusoriamente
nos dá sentir
e sentido.
sexta-feira, agosto 12, 2011
T(eu)
É na rudeza do chão
na simplicidade primária das rugas
sentidas
acariciadas
caminhadas
vividas
que a verdade emerge
qual áspera premonição.
O tempo que nos fechará os olhos
deixa-nos experimentar
cruelmente
uma ideia de eternidade
na prodigiosa propagação de círculos
que concentricamente nos acanham.
Este ego infantilmente assustado
esta prisão que se chora e ri
que fala e ama
que diz e cala
quer abraçar uma forma da esperança
e esta
excessivamente abstracta
esfuma-se em menos que poeira
afastadamente neutra.
Talvez o Amor seja a derradeira Revolução
grito que se faz ponte
princípio de uma negação estrutural
do eu
pateticamente absoluto
e amargurosamente
só...
quinta-feira, agosto 11, 2011
A candura sorri desdentada
e o contra-senso envolve
alegremente
a passagem dos minutos.
A manhã sente nos sons
e na luz que a inunda
as contradições que a noite segredou.
O rio passa
como um sonho sereno
na paisagem monótona
molhando cordatamente
os sulcos
outrora secos
que castigam quem caminha.
Ainda ecoam
abafados embora pela velhice do tempo
risos enxutos
e puros
transportando uma esperança infantil;
nas margens rebentam as flores mais belas
acariciadas por mãozinhas pequenas
que as fazem sorrir ao sol
e ajudarão
mais tarde
o sono sob astros mais subtis.
Por ora tudo segue
submetido à fragrância inocente dos inícios
das fábulas
das promessas
mas toda esta calma cessa
e a criança perde-se
na urgência de crescer.
terça-feira, agosto 09, 2011
Opressão
O cheiro da urbe
fala de uma urgência antiga
ecoando perene
pelas sinuosas prisões
que se abrem aos céus.
As cores esbatem-se num cinzento betúmico
sussurrando o arrastado dos ferros
e a opressão dos açaimes.
As ruas bebem o sangue
de quem ousa desafiar o silêncio
tácito
submisso
que perpétuo se esconde por becos escuros.
A noite conta-nos então
ainda que sob a forma de um segredo inútil
o motivo que se fez avenida
e a madrugada fará dele passeio
tomando da Liberdade o nome
e da Revolta
a ideia!
segunda-feira, agosto 08, 2011
Recordação
Fica por saborear o recato
que toma as coisas simples
por serem simples
ficam por dizer as palavras certas
que de tão justas são supérfluas
e de tão subtis reverberam
a paixão que as inspira.
Da matéria
corrupta e temporal
se inventam os motes e as subtilezas
que nos fazem sorrir
e que nos fazem
também
chorar.
Se a morte é o começo
do nosso esquecimento
a vida é como o latejar
incómodo talvez
sublime por vezes
de tudo o quanto nos torna
depois
memória...
sexta-feira, agosto 05, 2011
O Pastor Ateu
Eu estive ali
apenas estando
sentado
e esperando nada
mas encontrei
no som calmo da brisa
que o sol aquece
uma forma reminiscente
ilusória por certo
de sentido.
Perguntas-me se foi Deus
não
fui eu
não apenas eu
foi também a brisa
e o sol
claro.
quarta-feira, agosto 03, 2011
(des)construção
É quando me detenho nesse vocábulo escorreito
nessa descrição vigorosa daquilo que é diáfano
suspenso
desenformado
e quase irreal
que mais sei sobre o que é ser o que sou
e esse mesmo saber
sendo ele intuição
na essência
está a um estreito passo da ilusão.
As engrenagens da realidade
carregam consigo o cheiro definitivo das coisas
girando sem destino
que não seja
apenas
aquele encadear implacável de consequências
que
improvavelmente
também a mim me fez.
Não sendo eu fabricante das coisas
sou relator de sonhos e interpretações
estes sim
arquitectos
pais
dos caminhos que nos vão construindo.
segunda-feira, agosto 01, 2011
Distâncias
A verdade de cada margem
é que
em cada uma delas
se exige ao caudal do rio que passa
o exercício físico da separação.
E é abstinência
que se impõe ao desejo
de ajuntar dois corpos
achegados pelas arbitrariedades
da geometria e do espaço
e separados
talvez
por tudo o resto.
quarta-feira, julho 27, 2011
Na Raiz das Palavras
Na raiz das palavras
reside o conflito inevitável
uma seiva dialéctica
que flui sem dono entre o esplendor
ruidoso
das ideias.
Conto-te a história
daquele que descobre
ou inventa
o modo como certos motivos se abraçam
se amam e entrelaçam
agem e reagem
aproximando sentidos
materializados num espaço de hipóteses
ou, talvez, tecidos no inesperado.
Conto-te uns pedaços de caminho
síncopes descomprometidas com o que sentes
e remotamente ligadas ao que digo eu
cruamente
apaixonadamente.
Conto-te
das mil formas que te amo
os pedacitos possíveis
e tu
talvez escutes dois ou três sons
que desconheço
e ouso
então
ler nos olhos
a projecção precisa do meu desejo.
Não preciso de mais.
terça-feira, julho 26, 2011
Que me dizes tu?
Começo aqui
e logo paro
perante a irracionalidade
desse acto que se deseja
uma continuidade.
Sou alfaiate dos momentos
e num assomo de orgulho
visto a dúvida com os ornamentos da retórica
digo que sei
sabendo tão bem
que desconheço no para além dos motes
aquela crueza fundamental
que cimenta hipóteses
e sonha hipérboles
as quais
sob o pêndulo da luz
transportam a inevitabilidade
talvez apenas aparente
dos dias.
Não sou indiferente
nem às rochas
que desfalecem nos caminhos e nas escarpas
nem às flores
que zombam temporariamente
do fado da putrefacção.
Não sei que movimento me leva
ou se uma maré
constantemente me devolve
ao início dos meus passos
como uma espécie de memória das impossibilidades.
Ou
no final
(parece-me agora)
tudo isto
nada mais seja
que preconceito
tontaria...
Que me dizes tu?
segunda-feira, julho 25, 2011
Para nos lembrar o que somos...
De somenos importância
sobejando
até
de uma primeva ignorância
eu sei
desenvolve-se o momento do achado.
Aqui se choraram mortos
aqui berraram nados-vivos
hoje anónimos
desconhecidos
esquecidos.
O que acontece
recorda-se
por vezes
com uma voz uma entoação própria
uma forma de dar sentimento
e sentido
ao que passou.
Eu sou um passageiro
apenas isso
pensando como alguém
outrora
foi aqui dono de si
amante e amado
guerreiro e escravo
menino
velho
morto.
Do refugo da terra
falam-me restos
contando silenciosamente
como a intimidade
se toma estranhamente
por tubo de ensaio
da História.
Mas
feitas todas as experiências
contadas todas as nuances
ousadas todas as interpretações
temos sempre nos gestos mais singelos
os nossos sentimentos mais fortes.
O abraço
sexta-feira, julho 22, 2011
(Tradutor)
Morou no fundo de um beco
como moram só os esquecidos
mas, enquanto vivo, lembrou-se
de tudo o que era importante.
A rua dobrava-se abruptamente
escondendo a passagem
tanto ao vento quanto à memória
e o vazio era por vezes quase letal
e assim se fazia efeito
para que uma história de outras terras
houvesse voz silenciosa
nas páginas brancas e vazias
que lhe serviram de salvação.
Morou
pois
num local escondido
expondo-se apenas à luz solar
que os prédios demasiadamente chegados
permitiam.
Morou
mas não mora mais
nem lá nem cá
"no where"
e toda a memória que dele resta
é estrangeira
e nossa
pois as palavras inscritas a preto
por folhas indiferentes
talvez sejam agora lidas
tremulamente
ruidosamente
estupidamente
avidamente
rigorosamente
por outros
que, quem sabe?, vivam no desafogo
impensável
de uma planície sem prédios.
quarta-feira, julho 20, 2011
Eu Sinto...
Eu sinto o que sinto
numa incerteza sentida
por sentir isto mesmo
que sinto.
Eu sinto a vertigem
que os meus olhos vestem
sentida nos contornos
difusos
da tua sensual passagem.
Assim
sentido
abandono corpo
abandono esperanças
e sinto
com a intensidade dos loucos
aquele sentir
que se sente
quando se ama
um perfume que fica
mas que está
ausente.
segunda-feira, julho 18, 2011
Talvez
Não tenho missão
ou destino,
sou uma incógnita em mim mesmo,
uma traça inebriada
pela luz intensa do futuro.
Talvez seja cegueira
a palavra que me define
e hesitação
a ideia que excita a química que sou.
Talvez a morte seja tão medonha
que toda a vida passe
sem provar doutra coisa
que não desse medo.
Talvez possa sorrir,
assim,
e depois virar a mesa
num póquer inútil
espelhado no mármore amarelecido,
velho,
desse sorriso aberto.
Talvez a loucura não seja
e o mote continuado
que grita o mundo entre luz e trevas
possa trazer a calma.
Talvez a calma não exista mais
mas suspeito,
sei,
que calmaria não sinto.
Talvez possa ter o que tu és
e ser o que tu me queres.
Talvez tudo sejam sombras
e a delusão seja o beijo possível,
salvação
da alma que não existe.
Talvez…
mas já não sei.
Seja!
quinta-feira, julho 14, 2011
Limes
É ódio que sinto
daquele Tempo que corre demais
quando desejo escorar
aquele momento perfeito.
Ou daquele outro
Tempo
que se alonga sem sentido
na pérfida conjura do tédio
ou da dor.
Para além do concreto,
do que óbvio se impõe
sobre a nossa ingénua sensatez,
existem subtilezas
que
infinitamente conluiam
contra a sequiosa urgência
de ser livre.
terça-feira, julho 12, 2011
Entretecido
As palavras esquivam-se ligeiras
e despegam-se delas os conceitos
com que as grudamos
umas às outras.
As palavras nuas
dizem livremente o indizível
vertendo a História
num compasso de sílabas;
e essa memória
que delas se esvai
não é inocente,
nem os fios que arguciosamente a juntam
se ensarilharam em vão.
Parte do que será
vê-se já no labirinto
de todas as palavras
que contam o que foi.
sexta-feira, julho 08, 2011
Bom fim-de-semana!
Stefano Landi - "La Passacaglia della Vita"
(L'Arpeggiata, Marco Beasley, Johannette Zomer)
Sensações
São variados os formatos
tomados do mundo
pela ilusão.
E estando nós iludidos por tantalizantes sensações,
julgamos verdadeiros
o conjunto de todos os gestos,
cores,
objectos,
com que os sentidos se excitam.
Os enganos irmanam-se com os cimentos,
a luz abraça-se de sombras,
o vento escorrega pelos contornos das rochas.
E eu, paradoxalmente ausente,
sinto o quanto tudo isto parece murmurar por mim,
sabendo prontamente que lhe sou estranho
como um filho desavindo
que finalmente retorna.
quarta-feira, julho 06, 2011
Termodinâmica
Encontro,
nos passos deixados no caminho
a memória espontânea
que o futuro não saberá lembrar.
E sendo eu futuro
de tanta memória finada,
sinto na prosa dos pós
o discorrer menos falso de tudo.
A matéria envolve-se de nada
e a imaginação,
intangível plano,
adere ao mundo pelo imperfeito acto
que finalmente a produz.
Por isso são perfeitos os sonhos,
até se transverterem no cimento
nas rugas
nas lágrimas
nas calosidades
na revolta
e, em momentos mais felizes,
nos sorrisos.
nos passos deixados no caminho
a memória espontânea
que o futuro não saberá lembrar.
E sendo eu futuro
de tanta memória finada,
sinto na prosa dos pós
o discorrer menos falso de tudo.
A matéria envolve-se de nada
e a imaginação,
intangível plano,
adere ao mundo pelo imperfeito acto
que finalmente a produz.
Por isso são perfeitos os sonhos,
até se transverterem no cimento
nas rugas
nas lágrimas
nas calosidades
na revolta
e, em momentos mais felizes,
nos sorrisos.
sexta-feira, julho 01, 2011
Coisas 2
Julgo a alma
uma falácia.
E todas as almas
então
um erro plural
que paira
ou não
nos discursos
diálogos
interacções
dos vivos
que (se) pensam.
A mente
mente a si mesma
para ter mão
nos grumos
que apoquentam o mundo.
Receio que nada conte
nem a matemática
nem deus
nem
eu...
Mas as paixões
e quiçá os vícios
mantêm-nos
enganados
talvez
mas vivos.
uma falácia.
E todas as almas
então
um erro plural
que paira
ou não
nos discursos
diálogos
interacções
dos vivos
que (se) pensam.
A mente
mente a si mesma
para ter mão
nos grumos
que apoquentam o mundo.
Receio que nada conte
nem a matemática
nem deus
nem
eu...
Mas as paixões
e quiçá os vícios
mantêm-nos
enganados
talvez
mas vivos.
quarta-feira, junho 29, 2011
Coisas...
Procura ver-me nos intervalos das coisas,
nos silêncios criados nas raias do desassossego,
nas cores que, desmaiando de tonalidades exuberantes,
vestem de mansinho a monotonia que marca o Tempo.
Somos estes átomos que se querem mais,
estas coisas que se sonham como sonhos de um deus
procurando na finitude exígua de cada passo
um inefável sentido para tudo.
Talvez tudo o que foi
tenha que ter sido;
talvez tudo o que será
forçosamente será como depois o veremos ser.
Mas nada disso importa
quando me sorris.
nos silêncios criados nas raias do desassossego,
nas cores que, desmaiando de tonalidades exuberantes,
vestem de mansinho a monotonia que marca o Tempo.
Somos estes átomos que se querem mais,
estas coisas que se sonham como sonhos de um deus
procurando na finitude exígua de cada passo
um inefável sentido para tudo.
Talvez tudo o que foi
tenha que ter sido;
talvez tudo o que será
forçosamente será como depois o veremos ser.
Mas nada disso importa
quando me sorris.
segunda-feira, junho 27, 2011
Para além do silêncio...
Para além do silêncio
sentem-se os espaços como tons descolorados
enformando, no sentir, o vazio.
Em moradas arruinadas
dormitam as palavras
que nelas se ouviram;
vácuas promessas de amor,
mentiras várias,
risos
e morte.
O sonho que hoje nasce insonoro
será cimento de cemitérios,
flores selvagens,
porventura sementará uma canção.
E tudo isto será medida,
fruto dúbio
de dúbia contemplação;
do sonho à mesura
contam-se palavras
e em cada palavra sobram,
além de signos e sons,
todos os seus vastos sentidos...
sentem-se os espaços como tons descolorados
enformando, no sentir, o vazio.
Em moradas arruinadas
dormitam as palavras
que nelas se ouviram;
vácuas promessas de amor,
mentiras várias,
risos
e morte.
O sonho que hoje nasce insonoro
será cimento de cemitérios,
flores selvagens,
porventura sementará uma canção.
E tudo isto será medida,
fruto dúbio
de dúbia contemplação;
do sonho à mesura
contam-se palavras
e em cada palavra sobram,
além de signos e sons,
todos os seus vastos sentidos...
quarta-feira, junho 15, 2011
Viver
Não sei se para lá da linha inventada
a que chamamos horizonte
se encontra o que os meus enganos somam
e gostam, silenciosamente, de se prometer.
Todos os futuros são incógnitos
todas as promessas se sujam
inevitavelmente, às vezes inocentemente,
de mentira,
e nada disso invalida o domínio do desejo
que faz das farturas
ou das misérias do momento,
úteros prodigiosos do porvir.
Talvez fite em demasia o horizonte,
ignorando tudo quanto,
aquém deste,
bate como o coração do mundo.
O desejo segreda-me o desassossego,
o Presente grita-me a distracção.
Entretanto,
fica tudo quanto me faz vivo.
a que chamamos horizonte
se encontra o que os meus enganos somam
e gostam, silenciosamente, de se prometer.
Todos os futuros são incógnitos
todas as promessas se sujam
inevitavelmente, às vezes inocentemente,
de mentira,
e nada disso invalida o domínio do desejo
que faz das farturas
ou das misérias do momento,
úteros prodigiosos do porvir.
Talvez fite em demasia o horizonte,
ignorando tudo quanto,
aquém deste,
bate como o coração do mundo.
O desejo segreda-me o desassossego,
o Presente grita-me a distracção.
Entretanto,
fica tudo quanto me faz vivo.
terça-feira, junho 14, 2011
Dúvida
Existe uma profunda melancolia
nos lemas que laqueiam
as artérias das nossas estórias...
Um olhar mistificado grita-se
enquanto guia equívoco dos signos
com que nos obrigamos.
Passado e futuro são fantasmas
ensombrando os passos concretos
de onde ressoam os vocábulos
que saciam o Presente.
Da imensidão da dúvida
constrói-se o caminho de luz
tacteado num escuro absurdo.
nos lemas que laqueiam
as artérias das nossas estórias...
Um olhar mistificado grita-se
enquanto guia equívoco dos signos
com que nos obrigamos.
Passado e futuro são fantasmas
ensombrando os passos concretos
de onde ressoam os vocábulos
que saciam o Presente.
Da imensidão da dúvida
constrói-se o caminho de luz
tacteado num escuro absurdo.
quinta-feira, junho 09, 2011
Ecoando
O futuro purga-se em palavras,
mentindo com sentidos impróprios
ao próprio sentido que o desfaz.
O futuro ecoa o som dos sonhos
esgotando o passado do mundo
para ser quimera principal
das infinidades do Presente.
O futuro é, antes de um fim,
a vertigem do que por lá vem
sentida num momento, agora,
como prelúdio silencioso
de uma eternidade sem destino.
A voz se cala e se esquece o gesto,
a lágrima inuma-se na terra,
mas as palavras são testamento
do sentimento todo que as falou...
mentindo com sentidos impróprios
ao próprio sentido que o desfaz.
O futuro ecoa o som dos sonhos
esgotando o passado do mundo
para ser quimera principal
das infinidades do Presente.
O futuro é, antes de um fim,
a vertigem do que por lá vem
sentida num momento, agora,
como prelúdio silencioso
de uma eternidade sem destino.
A voz se cala e se esquece o gesto,
a lágrima inuma-se na terra,
mas as palavras são testamento
do sentimento todo que as falou...
quarta-feira, junho 08, 2011
Sempre
Esconde-se nos mais ínfimos gestos
o preceito profundo e também a dor envergonhada.
Os ventos são por vezes brisas,
mimos improváveis,
mas toda a bonança se sente, um pouco,
pelo mal que faz quase esquecer.
E o mal, nunca está só.
o preceito profundo e também a dor envergonhada.
Os ventos são por vezes brisas,
mimos improváveis,
mas toda a bonança se sente, um pouco,
pelo mal que faz quase esquecer.
E o mal, nunca está só.
terça-feira, junho 07, 2011
Imaterial
Resume-se o que sentes
numa projecção mitológica,
esvoaçam fadas sussurrando carícias
e palavras imaginárias
beijam a pele amada
com lábios que sabem a mel...
São tiranos os olhos
e num sufoco de cobiça
consomem-se na ansiedade
acicatando o desejo
num frenesim
que deliciosamente descontrola a ponta dos dedos...
Amanhã os pós serão diferentes
mas,
os sentimentos,
não.
numa projecção mitológica,
esvoaçam fadas sussurrando carícias
e palavras imaginárias
beijam a pele amada
com lábios que sabem a mel...
São tiranos os olhos
e num sufoco de cobiça
consomem-se na ansiedade
acicatando o desejo
num frenesim
que deliciosamente descontrola a ponta dos dedos...
Amanhã os pós serão diferentes
mas,
os sentimentos,
não.
sexta-feira, junho 03, 2011
Fraqueza
A solidão chega por vezes de mansinho,
e num relâmpago nos cega
e num trovão
nos amouca!...
As voltas do mundo,
as volutas em que se enrolam os pensamentos,
as espirais que sugam os sentimentos,
são apenas serviçais de uma crueldade primordial.
E essa, ao comando de todas as nossas fraquezas,
troça baixinho
da angústia que nos toma.
E assim, arrastadamente, se morre.
e num relâmpago nos cega
e num trovão
nos amouca!...
As voltas do mundo,
as volutas em que se enrolam os pensamentos,
as espirais que sugam os sentimentos,
são apenas serviçais de uma crueldade primordial.
E essa, ao comando de todas as nossas fraquezas,
troça baixinho
da angústia que nos toma.
E assim, arrastadamente, se morre.
quinta-feira, junho 02, 2011
Caem notas, decaindo em tons,
assim como gotas, como dons,
tornando-se a magia do momento
prelúdio para mais sentimento.
A morte salga as frestas da estrada,
almejando a salvação nas péras
que acolhem o tento da passada.
Se neste mundo tu desesperas,
ouve o gentil burilar do vento
que sussurra um perene portento
feito nas mil cores da esperança.
Faz de todas as palavras crastos
e de todos os gestos arrastos
levando o futuro, numa dança!
assim como gotas, como dons,
tornando-se a magia do momento
prelúdio para mais sentimento.
A morte salga as frestas da estrada,
almejando a salvação nas péras
que acolhem o tento da passada.
Se neste mundo tu desesperas,
ouve o gentil burilar do vento
que sussurra um perene portento
feito nas mil cores da esperança.
Faz de todas as palavras crastos
e de todos os gestos arrastos
levando o futuro, numa dança!
terça-feira, maio 31, 2011
Firme
Amontoando paixões e ilusão
corre célere o rio que tudo move.
E os espectros divergem como loucos
sob a volúpia insensata das águas
e o devaneio hipnótico das sombras.
Ao vento, obedecem-lhe os acordes
que ora vão ora chegam, mas nunca partem,
naquele carecimento sonoro
que aferretoa sentir e momento.
A fúria encerra uma porção de sonho,
e é num olhar que o nome se grita
tendo no horizonte mais uma ponte.
corre célere o rio que tudo move.
E os espectros divergem como loucos
sob a volúpia insensata das águas
e o devaneio hipnótico das sombras.
Ao vento, obedecem-lhe os acordes
que ora vão ora chegam, mas nunca partem,
naquele carecimento sonoro
que aferretoa sentir e momento.
A fúria encerra uma porção de sonho,
e é num olhar que o nome se grita
tendo no horizonte mais uma ponte.
segunda-feira, maio 30, 2011
É sábio o caminho da água;
em toda a sua fúria,
em toda a sua calmaria,
encontra sempre modo
de se fazer futuro.
Por detrás do véu subtil dos sonhos
acaricia-nos o conforto prometido da luz
que, sempre além, a vigília não sabe alcançar.
É sábio o caminho dos sonhos,
mas duros são os passos do sonhador.
em toda a sua fúria,
em toda a sua calmaria,
encontra sempre modo
de se fazer futuro.
Por detrás do véu subtil dos sonhos
acaricia-nos o conforto prometido da luz
que, sempre além, a vigília não sabe alcançar.
É sábio o caminho dos sonhos,
mas duros são os passos do sonhador.
sexta-feira, maio 27, 2011
Do que não se vê
A rua dobra e oculta
tudo quanto dessa volta depois fica.
O desenho das coisas conspira
com o invisível,
fazendo do desejo
um arauto enlouquecido
gritando pelas migalhas
que escorrem pelas frestas dos sonhos.
Os nossos dias cobrem-se de espaço e de tempo
embrumando o caminho por onde flui o futuro,
mas se desconhecemos o porvir,
somos donos, ainda que por instantes,
das nossas memórias
e dos nossos amores...
tudo quanto dessa volta depois fica.
O desenho das coisas conspira
com o invisível,
fazendo do desejo
um arauto enlouquecido
gritando pelas migalhas
que escorrem pelas frestas dos sonhos.
Os nossos dias cobrem-se de espaço e de tempo
embrumando o caminho por onde flui o futuro,
mas se desconhecemos o porvir,
somos donos, ainda que por instantes,
das nossas memórias
e dos nossos amores...
quinta-feira, maio 26, 2011
Aparências
Existe sempre uma mancha,
uma névoa, um véu,
escondendo a ideia de uma alma
num engano suave
que morre numa lágrima.
Como num azul falsamente infinito
se esconde a verdade dos céus,
também na torrente das palavras casuais
e na babel ruidosa dos gestos mundanos
se ensombra tudo
quanto os olhos espelham.
uma névoa, um véu,
escondendo a ideia de uma alma
num engano suave
que morre numa lágrima.
Como num azul falsamente infinito
se esconde a verdade dos céus,
também na torrente das palavras casuais
e na babel ruidosa dos gestos mundanos
se ensombra tudo
quanto os olhos espelham.
quarta-feira, maio 25, 2011
Derivas
Perdi-me algures
em verdades nuas,
fragilidades e impurezas,
juras entre ficções,
talvez,
mas, com uma fronteira invadida
por inexpressivas multidões
reconheço a fundação dos meus medos.
A solidão não é irmã do silêncio,
os sentidos doem
e o perdão é como uma expressão cortante
ecoando pelos oblíquos planos da vida.
A rocha sente a acção das espumas
que, contra si,
a água revolta despacha;
é desse revoltar cíclico,
dessa suada sexualidade,
que a paisagem nasce
para, finalmente, os olhos a beberem.
Morro e renasço no regaço de cada hora que passa,
e nisso me toma um cansaço feito de tempo
e abrem-se os ramos rugosos
que, sem o rigor dos escritos,
abraçam os contornos esponjosos
de um futuro...
em verdades nuas,
fragilidades e impurezas,
juras entre ficções,
talvez,
mas, com uma fronteira invadida
por inexpressivas multidões
reconheço a fundação dos meus medos.
A solidão não é irmã do silêncio,
os sentidos doem
e o perdão é como uma expressão cortante
ecoando pelos oblíquos planos da vida.
A rocha sente a acção das espumas
que, contra si,
a água revolta despacha;
é desse revoltar cíclico,
dessa suada sexualidade,
que a paisagem nasce
para, finalmente, os olhos a beberem.
Morro e renasço no regaço de cada hora que passa,
e nisso me toma um cansaço feito de tempo
e abrem-se os ramos rugosos
que, sem o rigor dos escritos,
abraçam os contornos esponjosos
de um futuro...
terça-feira, maio 24, 2011
Peso
Sente-se a inutilidade pesar
sobre a matéria e sobre o sonho
como um nefando augúrio
oprimindo em abstracta distância
aquilo que se fará inevitável.
É certa a temporalidade paradoxal
de todas as rochas,
de todas as formas de recortar
nos horizontes
a metáfora infinita dos céus.
No meio de tantas coisas que se finam,
de tantas imagens tácteis do que cessa,
talvez eterno
seja
apenas
sentimento.
sobre a matéria e sobre o sonho
como um nefando augúrio
oprimindo em abstracta distância
aquilo que se fará inevitável.
É certa a temporalidade paradoxal
de todas as rochas,
de todas as formas de recortar
nos horizontes
a metáfora infinita dos céus.
No meio de tantas coisas que se finam,
de tantas imagens tácteis do que cessa,
talvez eterno
seja
apenas
sentimento.
sexta-feira, maio 20, 2011
Silêncios...
Os silêncios são coisas maravilhosas,
sussurros de deuses mortos
segredando baixinho ao ouvido solitário
fórmulas de verdades impossíveis;
e são também momentos a que se nomeia,
por vezes,
de angústia...
Mas quando o mundo não fala,
está calado,
e o silêncio é o único discurso
fazendo-se e desfazendo-se nos gestos
e nos movimentos dos vivos,
podemos, talvez, ouvir-nos
e, numa epifania,
improvavelmente,
descobrir.
sussurros de deuses mortos
segredando baixinho ao ouvido solitário
fórmulas de verdades impossíveis;
e são também momentos a que se nomeia,
por vezes,
de angústia...
Mas quando o mundo não fala,
está calado,
e o silêncio é o único discurso
fazendo-se e desfazendo-se nos gestos
e nos movimentos dos vivos,
podemos, talvez, ouvir-nos
e, numa epifania,
improvavelmente,
descobrir.
quinta-feira, maio 19, 2011
Distâncias
É na distância das coisas
que se chega ao destino
do que delas podemos entender.
Entretanto,
perdidos na dolência aguda da proximidade,
no tempo ou no espaço,
somos néscios ao fundamental.
Nada existe de mais perfeito
que o perfume fresco das flores,
mas apenas o descobrimos,
quando essa perfeição secou,
no cheiro que intangivelmente se sente
nos labirintos da recordação.
que se chega ao destino
do que delas podemos entender.
Entretanto,
perdidos na dolência aguda da proximidade,
no tempo ou no espaço,
somos néscios ao fundamental.
Nada existe de mais perfeito
que o perfume fresco das flores,
mas apenas o descobrimos,
quando essa perfeição secou,
no cheiro que intangivelmente se sente
nos labirintos da recordação.
quarta-feira, maio 18, 2011
Lá, onde
O embaraço desce
pelo emaranhado confuso dos momentos,
e um soluço distancia-se
da imagem que se concretiza
logo ali.
Perfumes e musas
são como beijos divinos,
motes mélicos
suspirados pelos poros
por onde sensualmente bebem
os jardins da Terra
toda a sorte de coisas.
Lá onde o sol se vê deitar
estará o refúgio,
para sempre indiscernível,
de quem nunca se encontra
onde está.
pelo emaranhado confuso dos momentos,
e um soluço distancia-se
da imagem que se concretiza
logo ali.
Perfumes e musas
são como beijos divinos,
motes mélicos
suspirados pelos poros
por onde sensualmente bebem
os jardins da Terra
toda a sorte de coisas.
Lá onde o sol se vê deitar
estará o refúgio,
para sempre indiscernível,
de quem nunca se encontra
onde está.
terça-feira, maio 17, 2011
Legados
Não são impossíveis os sons certos,
não são definitivas as teias
enredando os dias que velejam por nós
céleres e inevitáveis.
As mensagens do Passado
tanto se lêem
quanto se escutam;
algures entre o som das palavras
e a tinta das letras,
está uma construção do Futuro
- por aí se faz o caminho
aí se inscreve a esperança.
não são definitivas as teias
enredando os dias que velejam por nós
céleres e inevitáveis.
As mensagens do Passado
tanto se lêem
quanto se escutam;
algures entre o som das palavras
e a tinta das letras,
está uma construção do Futuro
- por aí se faz o caminho
aí se inscreve a esperança.
segunda-feira, maio 16, 2011
Sobre a Perfeição
É por vezes o mundo,
enquanto sentimento,
nada mais do que imagino ser
tudo quanto, generosamente aberto,
o teu olhar alcança.
E quando sonho,
com os teus olhos
procurando encontrar os meus,
o mundo deixa de ser infinito,
poderoso, vasto, incompreensível...
para ser,
simplesmente,
um templo de memória
a esse momento perfeito.
enquanto sentimento,
nada mais do que imagino ser
tudo quanto, generosamente aberto,
o teu olhar alcança.
E quando sonho,
com os teus olhos
procurando encontrar os meus,
o mundo deixa de ser infinito,
poderoso, vasto, incompreensível...
para ser,
simplesmente,
um templo de memória
a esse momento perfeito.
quinta-feira, maio 12, 2011
Daquilo que pode ser
Ponderei e pondero
sobre imagens impossíveis.
Sentimentos secretos,
talvez impudicos, doridos;
ideias que sem prumo
se elaboram como memórias falsas
numa espécie de resumo exangue
de todos os meus intentos.
São os desejos como gritos
- desaforos patéticos largados ao mundo.
As palavras calam-se
no fumo espiralado da dúvida,
e os olhares, que querem urgentemente encontrar-se,
afastam-se comprometidos,
submissos ao reino
daquilo que pode ser.
sobre imagens impossíveis.
Sentimentos secretos,
talvez impudicos, doridos;
ideias que sem prumo
se elaboram como memórias falsas
numa espécie de resumo exangue
de todos os meus intentos.
São os desejos como gritos
- desaforos patéticos largados ao mundo.
As palavras calam-se
no fumo espiralado da dúvida,
e os olhares, que querem urgentemente encontrar-se,
afastam-se comprometidos,
submissos ao reino
daquilo que pode ser.
terça-feira, maio 10, 2011
Sonhei obviamente demais.
Todo o sonho é demasia,
desejo que se deseja impossível
para que possa ser aquilo que é
- sonho.
No silêncio da noite,
enquanto uma Lua imensa despudoradamente sorri
a luz com que o Sol secretamente a ama,
fantasia-se a fantasia num manto ilusoriamente concreto
e, num soberbo instante,
o sonho respira
e é quase conforto, e é quase memória,
e, decerto,
será alimento
da esperança.
Todo o sonho é demasia,
desejo que se deseja impossível
para que possa ser aquilo que é
- sonho.
No silêncio da noite,
enquanto uma Lua imensa despudoradamente sorri
a luz com que o Sol secretamente a ama,
fantasia-se a fantasia num manto ilusoriamente concreto
e, num soberbo instante,
o sonho respira
e é quase conforto, e é quase memória,
e, decerto,
será alimento
da esperança.
sexta-feira, maio 06, 2011
La Folie
Os átomos, que procedem dos elementos da matéria, entrelaçam-se precisamente, contendo essa precisão as necessárias mesuras, explicando, talvez, a função observada.
Extravia-se dessa exactidão, pelo menos na aparência, a confusa e abstracta produção do discurso, coerente ou incoerente; produzido que é por uma ordem estatisticamente reforçada de inúmeros processos mecânicos.
Ser louco, desnormalizado, diferente, estranho, é um produto exacto, e necessário, das "leis" da Física...
E ainda bem!
Extravia-se dessa exactidão, pelo menos na aparência, a confusa e abstracta produção do discurso, coerente ou incoerente; produzido que é por uma ordem estatisticamente reforçada de inúmeros processos mecânicos.
Ser louco, desnormalizado, diferente, estranho, é um produto exacto, e necessário, das "leis" da Física...
E ainda bem!
quarta-feira, maio 04, 2011
Perdição
Um cinzento chuvoso
lamenta gemidamente uma ausência.
Um passado ignoto esbanjou-se algures
e assombra, num lamento silencioso,
a quietude das pedras.
Sobe da ruína um adágio
sonegando às palavras a esperança,
pois o cião não se respira aqui
nem a suave brisa de um sol primaveril
trazendo em insinuação florida
o som de sorrisos profanos.
Os meus olhos fecham
e forçam a contemplação
da impossibilidade do desejo;
sinto na pele
o gelo de uma escuridão
de onde se apaga o calor
que luz nos teus olhos...
E assim sou perdido.
lamenta gemidamente uma ausência.
Um passado ignoto esbanjou-se algures
e assombra, num lamento silencioso,
a quietude das pedras.
Sobe da ruína um adágio
sonegando às palavras a esperança,
pois o cião não se respira aqui
nem a suave brisa de um sol primaveril
trazendo em insinuação florida
o som de sorrisos profanos.
Os meus olhos fecham
e forçam a contemplação
da impossibilidade do desejo;
sinto na pele
o gelo de uma escuridão
de onde se apaga o calor
que luz nos teus olhos...
E assim sou perdido.
terça-feira, maio 03, 2011
No íntimo dos momentos,
no colo célere dos segundos,
enrolam-nos as tramas tensas
onde se vão enredando
todas as nossas pequenas histórias.
Dessa manta emaranhada pelos fios do tempo
nascem rugas,
ásperos e descontínuos testemunhos,
que cobrem de ilusão
a inevitabilidade de um caminho
rasgado por incontáveis espinhos.
É nos limites do silêncio
que o ser se escuta
e, enquanto murmurado segredo,
finalmente se dá
sem os ruídos do medo.
no colo célere dos segundos,
enrolam-nos as tramas tensas
onde se vão enredando
todas as nossas pequenas histórias.
Dessa manta emaranhada pelos fios do tempo
nascem rugas,
ásperos e descontínuos testemunhos,
que cobrem de ilusão
a inevitabilidade de um caminho
rasgado por incontáveis espinhos.
É nos limites do silêncio
que o ser se escuta
e, enquanto murmurado segredo,
finalmente se dá
sem os ruídos do medo.
sexta-feira, abril 29, 2011
Sobre o nomear
Eu oiço dos nomes o desconcerto dos sentimentos que me despertam. Como se, por exemplo, um dado nome se plastificasse de encontro ao molde de um dia de sol e que umas nuvens esfarrapadas num fundo idealmente azul o associassem a algodão, quem sabe se doce.
O primeiro sentido dos nomes é poder chamá-los às coisas, e pessoas, bem entendido, identificar, catalogar, racionalizar; mas também se formam por lhe associarmos algo além: credos, desejos, esperanças, sentimentos, até mundanas sensações - materialismo puro e duro.
Mas os nomes das coisas, e das pessoas, carregam consigo, além de todas as coisas boas em que gostamos de acreditar e com as quais sonhamos e sobre as quais construímos e vivemos, de todas as nossas obsessões ou vícios, o peso individualmente inconcebível da história e, mais em concreto, os preconceitos que nos encarceram num determinado lugar e tempo do mundo.
Os nomes são, ao mesmo tempo, fonte de aparente constância e constante fonte de mudança.
O primeiro sentido dos nomes é poder chamá-los às coisas, e pessoas, bem entendido, identificar, catalogar, racionalizar; mas também se formam por lhe associarmos algo além: credos, desejos, esperanças, sentimentos, até mundanas sensações - materialismo puro e duro.
Mas os nomes das coisas, e das pessoas, carregam consigo, além de todas as coisas boas em que gostamos de acreditar e com as quais sonhamos e sobre as quais construímos e vivemos, de todas as nossas obsessões ou vícios, o peso individualmente inconcebível da história e, mais em concreto, os preconceitos que nos encarceram num determinado lugar e tempo do mundo.
Os nomes são, ao mesmo tempo, fonte de aparente constância e constante fonte de mudança.
terça-feira, abril 26, 2011
Até onde?
A felicidade vê-se,
escuta-se,
sente-se na ponta dos dedos,
no som das palavras
e nas incontáveis vertigens
que nos enchem
sentidos e sentimentos;
tal qual a miséria,
o rancor,
a tristeza,
todas as coisas que,
continuadamente,
sustentam os nossos passos.
Apenas os mortos sossegam
e não mais se agastam,
sob os conluios da Sorte,
entre a saudade e o sonho.
escuta-se,
sente-se na ponta dos dedos,
no som das palavras
e nas incontáveis vertigens
que nos enchem
sentidos e sentimentos;
tal qual a miséria,
o rancor,
a tristeza,
todas as coisas que,
continuadamente,
sustentam os nossos passos.
Apenas os mortos sossegam
e não mais se agastam,
sob os conluios da Sorte,
entre a saudade e o sonho.
segunda-feira, abril 18, 2011
Anátema
A voz da humanidade é sincopada, organicamente impossível de escutar. Uma tragédia cacofónica descompassada, contraditória, brusca.
Nos seus extremos mora um silêncio sem objectivo, não menos tumultuoso, vastamente espectacular, mas sem a glória e o tormento da consciência.
Aquilo que nos separa deste silêncio sonoramente potente, é uma gloriosa forma de inconsequência; mas ainda assim é uma forma de o mesmo, silêncio, ter, ainda que momentaneamente, uma espécie de destino.
Talvez este curto espaço de memória, estranho momento em que o inconsciente se permite a consciência de ser com base naquilo que já foi, seja além de um acontecimento raro também uma maldição.
Efectivamente, o vasto silêncio de tudo finalmente se apercebe de uma fundamental precariedade - a morte da voz consciente é inevitável - da memória, a estatística do equilíbrio termodinâmico apagará a memória, e o silêncio, enumerará o nada.
Melhor seria que o nada fosse apenas nada?
A tragédia poderia não o ser, apenas por não ser conscientemente prevista; seria muda eventualmente classificada como néscia por uma consciência impossível de ser - melhor assim como é/foi, então...
Nos seus extremos mora um silêncio sem objectivo, não menos tumultuoso, vastamente espectacular, mas sem a glória e o tormento da consciência.
Aquilo que nos separa deste silêncio sonoramente potente, é uma gloriosa forma de inconsequência; mas ainda assim é uma forma de o mesmo, silêncio, ter, ainda que momentaneamente, uma espécie de destino.
Talvez este curto espaço de memória, estranho momento em que o inconsciente se permite a consciência de ser com base naquilo que já foi, seja além de um acontecimento raro também uma maldição.
Efectivamente, o vasto silêncio de tudo finalmente se apercebe de uma fundamental precariedade - a morte da voz consciente é inevitável - da memória, a estatística do equilíbrio termodinâmico apagará a memória, e o silêncio, enumerará o nada.
Melhor seria que o nada fosse apenas nada?
A tragédia poderia não o ser, apenas por não ser conscientemente prevista; seria muda eventualmente classificada como néscia por uma consciência impossível de ser - melhor assim como é/foi, então...
sexta-feira, abril 15, 2011
quinta-feira, abril 14, 2011
Sobre a Utilidade
O útil é um freio à liberdade,
por força quer despejar tudo
quanto julga, superficialmente, inútil...
Esquece-se o útil que inútil terá sido
antes de ser o que ora é,
ou seja,
temporariamente... útil!
O útil e o seu contrário
morrem
tal como, desapaixonada,
a entropia segue a sua estatística fatal.
O mais patético do útil
é que quem o cria,
em toda a probabilidade,
é... digamos assim,
inútil!
por força quer despejar tudo
quanto julga, superficialmente, inútil...
Esquece-se o útil que inútil terá sido
antes de ser o que ora é,
ou seja,
temporariamente... útil!
O útil e o seu contrário
morrem
tal como, desapaixonada,
a entropia segue a sua estatística fatal.
O mais patético do útil
é que quem o cria,
em toda a probabilidade,
é... digamos assim,
inútil!
quarta-feira, abril 13, 2011
Beijo
O olhar prendeu-se muito antes
de qualquer outro preceito,
e não foi um feitiço ou enfeite
que nos fez um por instantes,
foi só, um beijo perfeito!
de qualquer outro preceito,
e não foi um feitiço ou enfeite
que nos fez um por instantes,
foi só, um beijo perfeito!
terça-feira, abril 12, 2011
Os sonhos esquecem-nos do mundo,
e sonhamos,
na inocência imprecisa
dos nossos medos,
todas as perplexidades imaturas
que testemunham a história vã dos dias que nos fazem.
São os dias então como duros degraus,
obstinadas traições íngremes
exaurindo a liberdade
numa embrumada vontade
que seguramente nos condena
a todo um rol de inanes verdades.
O caminho consome em nós a memória,
na umbra das incertezas,
de todo este nada
que implacavelmente nos define,
que implacavelmente nos limita.
terça-feira, abril 05, 2011
Quanto em cada nova manhã
se perde para todas as outras manhãs?
Quantas coisas doces apodrecem
sem que o mundo saiba
quão doce a sua doçura seria?
Quantas lágrimas desacompanhadas
se perdem
num angustioso e descompassado nada?
Quantos sorrisos não abençoam
quem, de um ou de outro sonho,
os fez brotar?
Quanto de nós se perde,
a cada instante,
no império das obsessões fúteis?
Todas as horas encerram
uma espécie de juízo mudo;
todas as horas conjuram
incessantemente,
no massacre célere dos segundos,
sombras com augúrios,
luz com paixão,
vida e morte.
Adivinha-se na poeira que molda as coisas,
que lentamente se agrega num húmus
fertilizador de vidas inteiras,
uma calma que a distância, qualquer que seja, promete;
e quando esta quietude, finalmente,
desliza, se desprende dos preceitos mecânicos do mundo,
renova-se algo de precioso
talvez num adágio, quem sabe se num suspiro,
sussurrando a urgência
de unir as vontades
de tudo a quanto, pacientemente, sentimos o pulso.
E assim seguimos,
rumando...
Com um fito talvez preciso,
em cada nova manhã...
se perde para todas as outras manhãs?
Quantas coisas doces apodrecem
sem que o mundo saiba
quão doce a sua doçura seria?
Quantas lágrimas desacompanhadas
se perdem
num angustioso e descompassado nada?
Quantos sorrisos não abençoam
quem, de um ou de outro sonho,
os fez brotar?
Quanto de nós se perde,
a cada instante,
no império das obsessões fúteis?
Todas as horas encerram
uma espécie de juízo mudo;
todas as horas conjuram
incessantemente,
no massacre célere dos segundos,
sombras com augúrios,
luz com paixão,
vida e morte.
Adivinha-se na poeira que molda as coisas,
que lentamente se agrega num húmus
fertilizador de vidas inteiras,
uma calma que a distância, qualquer que seja, promete;
e quando esta quietude, finalmente,
desliza, se desprende dos preceitos mecânicos do mundo,
renova-se algo de precioso
talvez num adágio, quem sabe se num suspiro,
sussurrando a urgência
de unir as vontades
de tudo a quanto, pacientemente, sentimos o pulso.
E assim seguimos,
rumando...
Com um fito talvez preciso,
em cada nova manhã...
quarta-feira, março 30, 2011
Movimento duvidoso
Eu não sei por onde se esconde o medo
para que dele não veja a sombra
até dele ter sentido já, o arrepio...
Viaja o medo pelos fios dos meus nervos
até me ver cair no gelo da decisão,
e num momento,
entre arremedos de astúcia
e um ignoto fatalismo,
rumar a mais um sonho
levado nos passos
que,
depois de dados,
se acham inevitáveis.
para que dele não veja a sombra
até dele ter sentido já, o arrepio...
Viaja o medo pelos fios dos meus nervos
até me ver cair no gelo da decisão,
e num momento,
entre arremedos de astúcia
e um ignoto fatalismo,
rumar a mais um sonho
levado nos passos
que,
depois de dados,
se acham inevitáveis.
sexta-feira, março 25, 2011
Violência
Fazias um gracejo inocente,
qualquer coisa, um não sei que mais,
sobre como sou assim tão indolente...
E hoje o que nos dizem os jornais
enforma uma loucura colectiva
que notoriamente se efectiva
na morte da indolência burguesa...
Que venha a Revolução Francesa!
A violência é, bem sei, um mal
mas há quem a mereça afinal...
qualquer coisa, um não sei que mais,
sobre como sou assim tão indolente...
E hoje o que nos dizem os jornais
enforma uma loucura colectiva
que notoriamente se efectiva
na morte da indolência burguesa...
Que venha a Revolução Francesa!
A violência é, bem sei, um mal
mas há quem a mereça afinal...
quinta-feira, março 24, 2011
Crises...
Os desaforos rolam na fúria incontida,
contida agora em segundos imparáveis.
A memória arroga-se,
nos seus abismos humanos,
de direitos e soberbas,
deslizando com fel
por caminhos de exagero e omissão.
Morrem as ideias
sacrificadas aos gritos vazios da circunstância.
Uma chusma demagógica
cola-se ao tecido do mundo
e o seu som perturbado
confunde quem se força a escutar
até
quiçá
ser tarde sem remedeio...
Talvez, por entre a tempestade dos índices
e a mecânica viciada que dá a quem tem
tirando dos cada vez mais, nadas...
Talvez,
possa ainda existir
a vontade decente da consciência...
contida agora em segundos imparáveis.
A memória arroga-se,
nos seus abismos humanos,
de direitos e soberbas,
deslizando com fel
por caminhos de exagero e omissão.
Morrem as ideias
sacrificadas aos gritos vazios da circunstância.
Uma chusma demagógica
cola-se ao tecido do mundo
e o seu som perturbado
confunde quem se força a escutar
até
quiçá
ser tarde sem remedeio...
Talvez, por entre a tempestade dos índices
e a mecânica viciada que dá a quem tem
tirando dos cada vez mais, nadas...
Talvez,
possa ainda existir
a vontade decente da consciência...
terça-feira, março 22, 2011
Olhares...
Quem olha vê coisas que outros olhos verão, mas verá mais e menos, tudo e nada, vibrações e finas linhas imóveis tecendo histórias diferentes em mundos idênticos; trocando os mesmos átomos mas excitando-os com paixões diversas.
E o silêncio.
E o silêncio.
sexta-feira, março 18, 2011
Subtilezas...
As palavras sabem-me ao sangue
que o momento moribundo me dá;
e languidamente os segundos que o matam,
desprovidos de sentimento,
sem mancha ou remorso,
rasgam-lhe a pele cúmplice
que se oferta ao despudor fatal
que toda a urgência implica.
O que a mão acaricia,
não sendo de todo ilusão,
compreende bem menos
que o mais singelo dos sentimentos
revela
na pouquidade enganosa de um gemido.
que o momento moribundo me dá;
e languidamente os segundos que o matam,
desprovidos de sentimento,
sem mancha ou remorso,
rasgam-lhe a pele cúmplice
que se oferta ao despudor fatal
que toda a urgência implica.
O que a mão acaricia,
não sendo de todo ilusão,
compreende bem menos
que o mais singelo dos sentimentos
revela
na pouquidade enganosa de um gemido.
quarta-feira, março 16, 2011
Pistas...
Os senhores de toda a razão
transformam as fronteiras difusas
que conformam o frágil copro das coisas livres
num cárcere duro,
num agreste e inóspito degredo,
onde a dor fala
e a incompreensão grita
com a voz de quem se vê
desesperar.
O falso e o verdadeiro
escondem-se nas cegas fábricas do cosmos
amalgamando numa indiferença permanente
a dúvida e a certeza
com o trajecto da vida.
São árduos os caminhos do pensamento
e extenuantes os desvios profícuos do sentimento;
nada somos além de passos
vontades crescendo além-corpo,
vontades de ser
universo,
vontades de construir
liberdade.
Vontades
tão somente...
E tão mais que isso!
transformam as fronteiras difusas
que conformam o frágil copro das coisas livres
num cárcere duro,
num agreste e inóspito degredo,
onde a dor fala
e a incompreensão grita
com a voz de quem se vê
desesperar.
O falso e o verdadeiro
escondem-se nas cegas fábricas do cosmos
amalgamando numa indiferença permanente
a dúvida e a certeza
com o trajecto da vida.
São árduos os caminhos do pensamento
e extenuantes os desvios profícuos do sentimento;
nada somos além de passos
vontades crescendo além-corpo,
vontades de ser
universo,
vontades de construir
liberdade.
Vontades
tão somente...
E tão mais que isso!
sexta-feira, março 11, 2011
Padrão
Meço-me perante as medidas ideais
das metas que invento
no resguardo que continuadamente se agasta
em todas as minhas tentativas
e por todas as coisas por mim falhadas.
São os momentos corridas,
promessas e mentiras,
verdades incertas, dúvidas tíbias,
alimentos de loucura,
porventura ténue inflexão de morte.
Sei que aquilo que simplório chamo sorte
procede numa neutra indiferença
nos intervalos anestesiados
que sentem as minhas crenças;
sou hoje incerto pensamento
do que ontem tinha como certeza,
e por certo,
amanhã serei menos preciso,
ainda que, sonhadamente, possa ser feliz.
Talvez nisso resida o verdadeiro saber,
feito de uma aceitação inquieta,
um interminável jogo de aproximações,
das alegrias e dos escolhos do mundo.
Creio o maior dos sábios
como o mais simples dos sabedores.
das metas que invento
no resguardo que continuadamente se agasta
em todas as minhas tentativas
e por todas as coisas por mim falhadas.
São os momentos corridas,
promessas e mentiras,
verdades incertas, dúvidas tíbias,
alimentos de loucura,
porventura ténue inflexão de morte.
Sei que aquilo que simplório chamo sorte
procede numa neutra indiferença
nos intervalos anestesiados
que sentem as minhas crenças;
sou hoje incerto pensamento
do que ontem tinha como certeza,
e por certo,
amanhã serei menos preciso,
ainda que, sonhadamente, possa ser feliz.
Talvez nisso resida o verdadeiro saber,
feito de uma aceitação inquieta,
um interminável jogo de aproximações,
das alegrias e dos escolhos do mundo.
Creio o maior dos sábios
como o mais simples dos sabedores.
quarta-feira, março 09, 2011
Logro
Sinto o enleio dos sentimentos
nesta clausura amorfa que simplesmente acontece
a cada novo sol.
Fecho os olhos
e imagino um céu cuja luz abandonou as sombras
e de onde se sente um sopro
que leve e mornamente nos toca a insinuada presença da pele;
sabe o ar que aí mora
ao desmaculado sentir
que suponho povoar os picos impossíveis
de montanhas ideais, intangíveis,
não o recebo qual lâmina gélida
torturando a indolência dos sentidos,
mas como uma brisa desenhando
a forma de um perfume divino.
No leito sensual dos sonhos
é a paixão conforto,
e o tormento
nasce na calmaria,
pois é do mais secreto dos desejos
que se alimenta o fulgor da alma;
apenas sonhando
pode a paixão ser outro algo
além desassossego
transmutando a quietude numa espécie de morte
carpida, quase sem voz, nos murmúrios da resignação.
Sonho coisas, ideias, impossíveis
- pois sim,
mas de outra forma estaria por certo morto,
vítima da vertigem imensa
norma das coisas (absurdamente) serenas...
terça-feira, março 01, 2011
Teu
Já não me vejo para além de ti,
e os teus silêncios são como véus implícitos
adormecendo a luz que conforta o que sinto.
Não sei como adivinhar as palavras
que seriam por certo justiça na tua voz,
são talvez como sonhos que se sonham pelo sonho adentro
e sendo assim se dotam desta fatalidade incongruente
das coisas que jamais se farão passado.
Adiante,
(invento, talvez) uma hesitação nos teus lábios mudos,
um trejeito inocente
que se morde quase imperceptivelmente...
e aí mesmo ouso a possibilidade de um beijo,
um grito furioso de tempestade!,
e não é mais isto que um desejo,
um desejo de ser
para ser
só teu.
Teu.
e os teus silêncios são como véus implícitos
adormecendo a luz que conforta o que sinto.
Não sei como adivinhar as palavras
que seriam por certo justiça na tua voz,
são talvez como sonhos que se sonham pelo sonho adentro
e sendo assim se dotam desta fatalidade incongruente
das coisas que jamais se farão passado.
Adiante,
(invento, talvez) uma hesitação nos teus lábios mudos,
um trejeito inocente
que se morde quase imperceptivelmente...
e aí mesmo ouso a possibilidade de um beijo,
um grito furioso de tempestade!,
e não é mais isto que um desejo,
um desejo de ser
para ser
só teu.
Teu.
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Os teus olhos são cor e som e esperança
Existe um cinzento além cinzento
que se vai insinuando até se fazer tudo,
já não é sombra, nem só um tormento,
é uma venda cegando o horizonte
degredando o simples movimento
para uma não vida desprovida do consolo das cores
perdendo-se num abismo sem sons...
É assim que urge a memória do sol
colorindo a brisa com o seu amarelejado cântico.
É assim que o monótono dos dias
se pinta com a luz da memória,
talvez remota, talvez perdida,
mas soberbamente decorada
por uma paixão que explode em pequenos detalhes.
É assim que o sorriso nos enleva
enredando-nos no sonho suave que apenas a cor sabe dar
à música
que apenas os teus olhos me cantam...
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
É ilusivo o que eterno nos cerca
e se dá como névoa e nos cega
desfazendo o presente em distância.
É tão triste perder-se da infância
o sentir que se molda incerteza
esquecendo deslumbre e surpresa.
Elegemos incertos momentos,
da falácia montando argumentos,
exigimos que o mel que tocamos
nos sublime e venere seu amado;
reduzimos o que é desejado
a ser só como nós desejamos...
Se este mundo se faz da vontade
o desejo esmorece em saudade.
e se dá como névoa e nos cega
desfazendo o presente em distância.
É tão triste perder-se da infância
o sentir que se molda incerteza
esquecendo deslumbre e surpresa.
Elegemos incertos momentos,
da falácia montando argumentos,
exigimos que o mel que tocamos
nos sublime e venere seu amado;
reduzimos o que é desejado
a ser só como nós desejamos...
Se este mundo se faz da vontade
o desejo esmorece em saudade.
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
Ilusões
Comparo-me ao desagrado,
desagradando em degredo
a um desagradável medo...
Comparo-me ao triste fado,
pois a luz, eternizada
pela sucessão dos dias
traz minh'alma atormentada
entre as inúmeras vias
por onde o mal se adivinha.
Comparo-me ao azarado,
vou percorrendo enganado
uma estrada que não a minha,
e ao fundo, quase invisível,
pressinto o jeito impossível
da verdade e da certeza.
Comparo-me à fraqueza,
partícula de desejo
que se perde por um beijo
cedendo à ilusão
que me esvazia o coração.
Não sei o quanto serei inútil
mas tudo aquilo que sou
é tudo o quanto te dou,
ainda que o julgues fútil.
É nas palavras, enfim,
que inscrevo os meus desenganos,
se aí encontrares por fim
os demónios humanos
que comandam os meus passos,
verás já não os vagos traços
que mentem as minhas formas,
mas antes as firmes normas
que relevam no meu peito
a ilusão de ser perfeito.
desagradando em degredo
a um desagradável medo...
Comparo-me ao triste fado,
pois a luz, eternizada
pela sucessão dos dias
traz minh'alma atormentada
entre as inúmeras vias
por onde o mal se adivinha.
Comparo-me ao azarado,
vou percorrendo enganado
uma estrada que não a minha,
e ao fundo, quase invisível,
pressinto o jeito impossível
da verdade e da certeza.
Comparo-me à fraqueza,
partícula de desejo
que se perde por um beijo
cedendo à ilusão
que me esvazia o coração.
Não sei o quanto serei inútil
mas tudo aquilo que sou
é tudo o quanto te dou,
ainda que o julgues fútil.
É nas palavras, enfim,
que inscrevo os meus desenganos,
se aí encontrares por fim
os demónios humanos
que comandam os meus passos,
verás já não os vagos traços
que mentem as minhas formas,
mas antes as firmes normas
que relevam no meu peito
a ilusão de ser perfeito.
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
Lembrança
Imagino de onde chega o ódio,
mas eu, eu não o consigo entender.
A imagem reflectida do próprio
terror, remete a um sentir perder
que isola do medo o cheiro exacto
de um detalhe subtil da memória...
E desta minha lembrança aflora,
quase com a certeza do tacto,
a vontade nua de o teu corpo
ser um templo e os teus olhos um outro
altar onde me prostro devoto.
Mas tudo é um tanto ilusivo,
do meu desejo se faz castigo
e do teu olhar um sonho remoto.
mas eu, eu não o consigo entender.
A imagem reflectida do próprio
terror, remete a um sentir perder
que isola do medo o cheiro exacto
de um detalhe subtil da memória...
E desta minha lembrança aflora,
quase com a certeza do tacto,
a vontade nua de o teu corpo
ser um templo e os teus olhos um outro
altar onde me prostro devoto.
Mas tudo é um tanto ilusivo,
do meu desejo se faz castigo
e do teu olhar um sonho remoto.
quarta-feira, fevereiro 09, 2011
Eu sou dor que se busca
Eu sou dor que se busca
sem desejo de se encontrar
quando todos os propósitos se mostram,
na distância indefinida de um horizonte,
como duvidosas promessas de transcendência.
A luz aquece a escuridão
mas não sossega o preconceito do vácuo,
e são vastas as bifurcações
que magoam o tecido áspero da vida;
como se os passos se condenassem sem remédio
na fatalidade de um caminho excessivamente rugoso,
cujas sinuosidades tolhem o sonho.
Valem as cores sobre os princípios do cinzento,
frágeis testemunhas da sensação,
que se faz urgente,
de querer sorrir, de saber chorar.
Passado e Futuro são janelas impossíveis
vistas de um Presente que,
mal se contempla,
já não existe mais.
sem desejo de se encontrar
quando todos os propósitos se mostram,
na distância indefinida de um horizonte,
como duvidosas promessas de transcendência.
A luz aquece a escuridão
mas não sossega o preconceito do vácuo,
e são vastas as bifurcações
que magoam o tecido áspero da vida;
como se os passos se condenassem sem remédio
na fatalidade de um caminho excessivamente rugoso,
cujas sinuosidades tolhem o sonho.
Valem as cores sobre os princípios do cinzento,
frágeis testemunhas da sensação,
que se faz urgente,
de querer sorrir, de saber chorar.
Passado e Futuro são janelas impossíveis
vistas de um Presente que,
mal se contempla,
já não existe mais.
terça-feira, fevereiro 08, 2011
Somos como um sussurro
Somos como um sussurro
subindo a delicada espiral do tempo.
Um som subtil
bebendo melancolia e esperança,
sofrimento e êxtase,
tudo e nada
e mais o indiferente.
E este dualismo louco
é a essência inefável
de cada pequena história,
de cada minúsculo fragmento de vontade,
dos incontáveis motes
colando os versos
que improvisam aquilo a que chamamos
o mundo...
subindo a delicada espiral do tempo.
Um som subtil
bebendo melancolia e esperança,
sofrimento e êxtase,
tudo e nada
e mais o indiferente.
E este dualismo louco
é a essência inefável
de cada pequena história,
de cada minúsculo fragmento de vontade,
dos incontáveis motes
colando os versos
que improvisam aquilo a que chamamos
o mundo...
sexta-feira, fevereiro 04, 2011
Procurando um beijo barroco
As minhas palavras são incómodos,
escarpas cortantes por onde
os ventos se anunciam párodos
bramando o que o coração esconde.
As minhas lágrimas resvalam
lentamente até aos teus pés
e aí soando a adágio salgam
a minha dor uma e outra vez...
O som da minha fome grita
e tudo quanto eu sou se agita
na urgência a que chamam desejo.
Pudesse eu comandar o tempo,
e pará-lo junto a um teu beijo,
e seria então, num momento,
ó inconcebível vaidade!,
uma espécie de eternidade.
escarpas cortantes por onde
os ventos se anunciam párodos
bramando o que o coração esconde.
As minhas lágrimas resvalam
lentamente até aos teus pés
e aí soando a adágio salgam
a minha dor uma e outra vez...
O som da minha fome grita
e tudo quanto eu sou se agita
na urgência a que chamam desejo.
Pudesse eu comandar o tempo,
e pará-lo junto a um teu beijo,
e seria então, num momento,
ó inconcebível vaidade!,
uma espécie de eternidade.
quinta-feira, fevereiro 03, 2011
Resvala a mão acompanhando-a um olhar
desligado, sem aparente propósito,
escarnecendo de qualquer urgência ou vontade.
E no entanto é o desejo que me toma
num crescendo de emoção
que formiga com desmedida intensidade.
Tudo quanto vibra ao nosso redor é ilusão,
imprecisa mesura de formas
que nos abraçam, que nos tolhem,
que enganadamente queremos amar.
E através destes véus palpáveis
esconde-se a outra verdade quase insubstancial,
mergulhada no invisível plano
que só os olhos fechados iluminam.
A madrugada abre-se finalmente
e os seus raios primaveris
rasgam as películas amnióticas
da mentirosa quietude noctívaga.
Cheira ao orvalho beijando o sol
e a brisa segreda-nos suavemente
o epílogo de um sonho...
desligado, sem aparente propósito,
escarnecendo de qualquer urgência ou vontade.
E no entanto é o desejo que me toma
num crescendo de emoção
que formiga com desmedida intensidade.
Tudo quanto vibra ao nosso redor é ilusão,
imprecisa mesura de formas
que nos abraçam, que nos tolhem,
que enganadamente queremos amar.
E através destes véus palpáveis
esconde-se a outra verdade quase insubstancial,
mergulhada no invisível plano
que só os olhos fechados iluminam.
A madrugada abre-se finalmente
e os seus raios primaveris
rasgam as películas amnióticas
da mentirosa quietude noctívaga.
Cheira ao orvalho beijando o sol
e a brisa segreda-nos suavemente
o epílogo de um sonho...
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Nada de novo
Todas as mentiras, dizem,
são como pequenas mortes,
cada vício, mortal doença,
se cada uma destas coisas
te acontece todo o dia
então morrerás bem mais
que a contagem dos teus dias.
são como pequenas mortes,
cada vício, mortal doença,
se cada uma destas coisas
te acontece todo o dia
então morrerás bem mais
que a contagem dos teus dias.
terça-feira, fevereiro 01, 2011
Só
A noite fechou
descolorando as formas
sob um céu que se apagou.
Não encontro o teu olhar
que imagino generosamente perdido nos mil sonhos
belos e subtis
que amorosamente desejo sonhar junto a ti.
Não sinto o respirar sensual do teu peito,
trazendo a promessa do teu corpo,
nem a forma como os teus lábios perfumam
o cinzento do meu nome.
Não estás
e essa evidente ausência
desnuda a conspiração
entre o ensurdecedor silêncio nocturno
e a indefinida forma dos meus desatinos.
Não estás
e por isso mesmo eu estou, e estarei, aqui
só...
à espera...
descolorando as formas
sob um céu que se apagou.
Não encontro o teu olhar
que imagino generosamente perdido nos mil sonhos
belos e subtis
que amorosamente desejo sonhar junto a ti.
Não sinto o respirar sensual do teu peito,
trazendo a promessa do teu corpo,
nem a forma como os teus lábios perfumam
o cinzento do meu nome.
Não estás
e essa evidente ausência
desnuda a conspiração
entre o ensurdecedor silêncio nocturno
e a indefinida forma dos meus desatinos.
Não estás
e por isso mesmo eu estou, e estarei, aqui
só...
à espera...
sexta-feira, janeiro 28, 2011
Desfaçatez
Faço-me companhia das horas que passam,
cúmplice das suas deambulações
e dos labirínticos pequenos nadas
que enformam a quimera do universo.
Faço-me irmão dos instantes,
que na sua correria invisível
e no seu afã incansável
são arquétipos do Tempo dos homens;
e tendo esse poder
esgotam-se fatalmente um após outro
sem conhecer esperança ou afecto.
Faço-me companheiro do desejo,
pleno de incerteza e erro,
numa saudade tola de montanhas que nunca vi,
mares imensos cuja maresia ignoro,
terras para sempre incógnitas,
sorrisos deliciosamente irreais.
Faço-me e desfaço-me
nesta miríade de equívocos
por que disperso
o próprio engano que me faz ser
e, esperançosamente
abandono a lenta agonia das fronteiras,
fechadas pelo preconceito dos horizontes longínquos,
e choro a loucura imensa da paixão
que respira a ingénua impossibilidade
de um coração feliz.
cúmplice das suas deambulações
e dos labirínticos pequenos nadas
que enformam a quimera do universo.
Faço-me irmão dos instantes,
que na sua correria invisível
e no seu afã incansável
são arquétipos do Tempo dos homens;
e tendo esse poder
esgotam-se fatalmente um após outro
sem conhecer esperança ou afecto.
Faço-me companheiro do desejo,
pleno de incerteza e erro,
numa saudade tola de montanhas que nunca vi,
mares imensos cuja maresia ignoro,
terras para sempre incógnitas,
sorrisos deliciosamente irreais.
Faço-me e desfaço-me
nesta miríade de equívocos
por que disperso
o próprio engano que me faz ser
e, esperançosamente
abandono a lenta agonia das fronteiras,
fechadas pelo preconceito dos horizontes longínquos,
e choro a loucura imensa da paixão
que respira a ingénua impossibilidade
de um coração feliz.
terça-feira, janeiro 25, 2011
Aprender
São migalhas o que o tempo nos dá,
pequenas memórias, fragmentos,
coisas de nada,
filigranas de esperança
laboriosamente esculpidos
pelo desejo que, efémero, entrelaça os dias.
Despojado da riqueza confusa da emoção
dormes só,
esquecido daquela companhia
que se anima nas vozes
que guiam ao porvir.
O mundo não se rende ao óbvio desconforto,
nem se perde em prantos;
aprende a rir
para que seques as lágrimas;
aprende como se chora
para que possas, por fim, saber como rir.
Assim, tudo pode começar...
pequenas memórias, fragmentos,
coisas de nada,
filigranas de esperança
laboriosamente esculpidos
pelo desejo que, efémero, entrelaça os dias.
Despojado da riqueza confusa da emoção
dormes só,
esquecido daquela companhia
que se anima nas vozes
que guiam ao porvir.
O mundo não se rende ao óbvio desconforto,
nem se perde em prantos;
aprende a rir
para que seques as lágrimas;
aprende como se chora
para que possas, por fim, saber como rir.
Assim, tudo pode começar...
sexta-feira, janeiro 21, 2011
Os Passos
O sulco que se fez caminho
guarda segredo de todos os desejos
dos passos que o sulcaram
e lhe moldaram a forma
de alcançar os seus vácuos horizontes.
O caminho faz-se de histórias mundanas
de brita calcada,
de rocha gasta,
de insistente desespero,
até se elevar sobre tudo isso
na confusão inevitável que nos enlaça
e nos compromete com o engodo chamado destino.
O caminho soma-se de caminhantes
e sinuosamente progride
arrastando, lenta, a vontade e o sonho,
a dor e a morte,
o amor e a traição,
e o desejo,
até ao derradeiro sorriso secando a última lágrima...
guarda segredo de todos os desejos
dos passos que o sulcaram
e lhe moldaram a forma
de alcançar os seus vácuos horizontes.
O caminho faz-se de histórias mundanas
de brita calcada,
de rocha gasta,
de insistente desespero,
até se elevar sobre tudo isso
na confusão inevitável que nos enlaça
e nos compromete com o engodo chamado destino.
O caminho soma-se de caminhantes
e sinuosamente progride
arrastando, lenta, a vontade e o sonho,
a dor e a morte,
o amor e a traição,
e o desejo,
até ao derradeiro sorriso secando a última lágrima...
quarta-feira, janeiro 19, 2011
Do Silêncio dos Sons
Os sons de que fazemos memória
são como faróis
na névoa nocturna que o sonho usa
para nos arrancar à realidade.
Eles são amor
na recordação amorosa
da doçura infinita de uma voz amada.
E também saudade,
entranhando nos sentidos
a moléstia das ausências.
Tomamos por eternas
certezas demasiado pequenas,
e numa ingénua inutilidade
construímos mundos inteiros de engano!
Por uns momentos,
na serena honestidade
dos instantes de solidão,
são os fantasmas dos sons passados
que nos fazem ouvir a razão
na imensidão impossível
de um silêncio...
são como faróis
na névoa nocturna que o sonho usa
para nos arrancar à realidade.
Eles são amor
na recordação amorosa
da doçura infinita de uma voz amada.
E também saudade,
entranhando nos sentidos
a moléstia das ausências.
Tomamos por eternas
certezas demasiado pequenas,
e numa ingénua inutilidade
construímos mundos inteiros de engano!
Por uns momentos,
na serena honestidade
dos instantes de solidão,
são os fantasmas dos sons passados
que nos fazem ouvir a razão
na imensidão impossível
de um silêncio...
sexta-feira, janeiro 14, 2011
Encontro
Nos braços de uma árvore impossível
aguarda Isolda, Tristão.
E uma melodia amorosamente goteja
na impaciência apaixonada
com que o anseio se transforma
em insuportável solidão...
Por fim, encontram-se os corpos
no impulso descontrolado
de corações que urgem sentir-se
até ao grito de um além-desejo
e finalmente se criam
enquanto um só,
ainda que apenas
por um límpido, profundo, pleno e veloz
momento!...
aguarda Isolda, Tristão.
E uma melodia amorosamente goteja
na impaciência apaixonada
com que o anseio se transforma
em insuportável solidão...
Por fim, encontram-se os corpos
no impulso descontrolado
de corações que urgem sentir-se
até ao grito de um além-desejo
e finalmente se criam
enquanto um só,
ainda que apenas
por um límpido, profundo, pleno e veloz
momento!...
quinta-feira, janeiro 13, 2011
Abandono
Além do patético
e do quanto temporariamente
nos distrai,
assome o cheiro da morte;
como se o mundo aguilhoasse a consciência,
maldosamente expandindo a dor
do esforço aparentemente injusto de ser,
com o desgosto impartilhável
por um olhar que se afasta,
por uma vontade que,
oh infelicidade,
se desinteressa
e nos abandona...
A prova amarga da solidão
sente-se na imensidão insólita
do silêncio bramante
dos nossos sentimentos.
e do quanto temporariamente
nos distrai,
assome o cheiro da morte;
como se o mundo aguilhoasse a consciência,
maldosamente expandindo a dor
do esforço aparentemente injusto de ser,
com o desgosto impartilhável
por um olhar que se afasta,
por uma vontade que,
oh infelicidade,
se desinteressa
e nos abandona...
A prova amarga da solidão
sente-se na imensidão insólita
do silêncio bramante
dos nossos sentimentos.
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