quarta-feira, janeiro 30, 2013

absurdo

o absurdo
adorna cada esquina do mundo,
arredondando suas aresta sangradas
com a precisão dolente de um bisturi,
cortando sem remorso
a película liberal
de um sonho
imoderadamente lúcido.
e nessa dimensão abstracta,
onde o tecido vivo
deslembra o remoer das vísceras,
se promove um senso real:
a rosa morta
freme em um vermelho vivo
e a húmida promessa,
que escorrega lânguida pela encosta
de uma submissão perfumada,
encharca a consciência
de fados impossíveis.
enrolando-se em tudo,
tudo flui;
sinais,
vertigens,
são promessas embusteiras,
murmuradas para dentro
gritadas depois
ao mundo.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

ver



o que está lá,
se queda ingenuamente aqui
por ali estar exposto,
embora o que lá esteja
possa ser,
digamos,
predicado diferente
por divergir em opinião outra;
olhos vários
espiralam pois
numa voragem de interpretações.
apenas morrer,
aventuro postular,
será igual,
ou parecido
enfim,
mas apenas
para quem não pode mais
usar as vísceras
para nisso assestar um julgamento.
nada muda
apenas fitando,
nada fica o mesmo
após ser olhado.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

máquinas


quando se ignora o murmúrio frágil
que impregna um sentido inventado
nas coisas,
com a soberba
dúctil
de quem escolheu esquecer as subtilezas,
por vezes doridas,
de sentir,
resta então,
a esse novelo de coisas impossíveis
cujo objecto deve ser
entrelaçar carne além-carne,
elevar
sem hesitações excessivas
o dedo indicador,
e desligar
o botão.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

penso-rápido


redunda no arredondar do vento
a expressão provavelmente correcta.
remonta na afronta do eco
a voz de outrora,
rouca,
com o pensamento suspenso
na dimensão iludente de uma acção futura.
consola-me,
em toda esta roda inútil,
a ilusão fugaz
de não estar só.
o regaço,
enfim,
cumpre o efeito postulado,
como faz o aço
pela estrutura exógena,
sustento desta sorte de caverna,
que me anexa em conforto obsequente;
e assim se tenta embustear o devir
embora o mundo teime na sujeição ao tempo,
não vertendo olhar que seja
por sobre a parvidade
dos meus medos.

terça-feira, janeiro 15, 2013

fascinação


seduz-se a moribunda ideia dos instantes
na palavra que despe,
com a demora exigida aos sábios,
o sentimento.
cada sílaba reverbera,
e exala-se qual incenso,
voluteando
uma fronteira do infinito;
ecoa-se,
póstuma,
na abstracção assisada
com que lemos augúrios inúteis.
o segredo da eternidade
desvela-se com um pudor ingénuo
na consciência que pinga
sobre todos os segundos;
depois decai,
como um pó,
uma subtileza permeando tudo,
imperceptível
por sobre as cabeças mortais
que inutilmente
a namoram.

segunda-feira, janeiro 07, 2013

cerco


concretiza-se a memória dos sonhos
na verdade oculta,
chamada com modos lentos,
no domínio oblíquo dos desejos.
os dedos
adivinham um progresso erótico
seguindo o trilho de um corpo,
que se curva e se molda
e se respira
com a urgência do tempo
que se esvai.
para além dos olhos,
muito além da teimosa vigília
que ineludível nos tolhe,
ficam as imagens proibidas
das coisas várias
que coleccionamos
enquanto pecados sem substância.
e é por isso,
e não por medo ou vergonha,
que os olhos se baixam;
ver assim
dói.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

das coisas que (não) são


coisas são
que se tomam,
no mover pendulado dos dias,
de uma leveza excessiva.
como acontece
à superfície adimensional
separando a água,
por debaixo,
do ar ao de cima;
coisas são
que se nomeiam
em conceitos ingénuos,
que após se revelam
inesperadas definições de complexidade.
coisas são
que na substância das outras coisas,
afinal,
não são;
sendo que nestas,
coisas que não são,
se imprime a película mais insubstancial de todas
- o sentido.