quarta-feira, novembro 30, 2011

[I]mortalidade


Não sei como começar
e todos os começos se revestem
daquela dúvida medrosa
que os separa do futuro
já não muito distante
em que deixam de o ser
- começos...
o sol e a lua
e bem assim todo o universo
são como janelas para a imensidão
do que lentamente se suspende
sobre o teatro efémero
dos que se esgotam prodigiosamente
no afã espectacular da mortalidade.
o sol e a lua
e bem assim todo o universo
não têm como temer o peso do remorso
nem o desgaste constante da dúvida,
testemunham apenas,
longe de todas as angústias do ser,
como quem morre se compromete
com quem morre também
e desconhecem portanto
a urgência fundamental
de cada um dos passos pensados,
do mais pequeno dos sentimentos
ao mais insensato dos amores,
ignorando a pequenez grandiosa
que mora fugaz
em cada mortal.
O mortal define-se
em tantas medidas
pelo medo de começar;
a eternidade não tem como temer
qualquer fim.

terça-feira, novembro 29, 2011


Dás com a mão certa
pelo preceito errado;
como se o acto de dar,
desprendido da emoção da partilha,
cortado do sacrifício e do sentimento,
exprimisse alguma forma de bem.
No enredo da vida
enlaçam-se multidões de pequenos jeitos,
de gestos tão graciosos quanto imperfeitos
e, no centro da nossa efémera desconfiança,
contam-se histórias ternas
que suavizam, de forma patética,
a inevitabilidade dolorosa e confusa da indiferença.
A hipocrisia chora descarada
a miséria dos outros
enchendo-se de uma superioridade perturbadora
no vigor ávido e nojento da esmola.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Já és Saudade...

A Monserrat Figueras, com a ressalva óbvia de não lhe poder fazer a justa homenagem...




Como se pode conceber a perda
a ausência do som subtil de quem vive
e de todos aqueles jeitos deliciosos e únicos
que vestem os tratos simples dos dias?
como se pode conceber a aceitação dos gestos crus
que inexoravelmente colam as premissas da vida ao colo da morte?
Como se pode conceber o silêncio
o vazio que fica por não haver mais aquela voz precisa
que encheu o espaço dos sentidos com uma forma improvável de sentido?
a dúvida é um motor inquebrantável,
um encadear impreciso de condoídas fatalidades e de catarses felizes;
em todo o seu traço de inevitabilidade é por vezes mansa
e então esquece-nos por breves instantes
enquanto escutamos um som diverso
sentimos um sentimento distinto
e colhemos sabedoria de um fruto proibido.
E tudo isto é possível
não pela mão invisível de um deus cobarde e ausente
mas pelo gesto vivo de uma vida diferente
infelizmente tão breve
felizmente tão viva!
É deste corso visceral que se faz a saudade...
daí a sua dor
daí a sua beleza.

quinta-feira, novembro 24, 2011

O Eu que se Dissolve


E assim se esgota
a urgência tola das palavras
quando o som erode a abstracção da linguagem
erigindo catedrais transitórias
que dão sentido efémero
a uma religião impossível.
o centro do mundo
fulcro inexistente e permanente falácia
atrai necessariamente enquanto emoção
como se em nós se produzisse um espaço
concreta matéria
energia
desprovido do movimento relativo do tempo.
é nesta suspensão improvável
que se realiza o cosmos do eu
para depressa se esfumar
na respiração inevitável
da realidade que seguramos de forma ingénua.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Ao Som que Soa a Música e o Sentimento


O som como que nasce
de todos os sítios
de uma indefinição geral
de tudo e de nada.
depois
as notas transmigram
viajam fantasmagóricas
em multidão
por entre os poros da pele
acariciando o corpo
que se abandona às subtis vibrações sonoras.
enquanto assim se alheia
a vontade também se vê chorar
apenas um pouco
o suficiente
para que o entendimento se faça
da sensação de estar vivo.
tanto aurora quanto ocaso
se reclamam de atenções especiais
no entanto
todos os momentos
reservam uma identidade única
ainda que partilhem somente
de comiserada banalidade.
é no acento tónico
que o espírito punge e geme
pois todos os sentidos
nervos
percepções
se entregam a esse sentir
misto de plenitude e abandono
que é o escutar...
tanto aqui
quanto lá longe
onde o horizonte se chama já desconhecido
isto é verdade
tanto quanto verdade pode ser
um emaranhado de sentimentos.

terça-feira, novembro 22, 2011

Conotação


Entre o agradável
e o desconforto
jazem mil'uma e mais palavras.
Para umas a intenção é-lhes indiferente
em outras
apenas o contexto racionalmente as desambigua
e
finalmente
é no reduto do sentimento enquanto sentido
ou da emoção assenhoreando-se da razão
que caem todas as outras.
Quando dois belos motes se unem
não conformam uma inspiração maior;
de Zéfiro a bonança
de Bóreas o absoluto desconcerto.
A vida toda navega
sem decoros ou certezas
entre brisa e tempestade.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Transição

Sinto um frio
um desconforto de momentos
quando a brisa gélida
se faz vento por um pouco
e corta a dormência dos sentidos.
é então que fito
com alguma demora
o sentido do que aí vem
indefinido e informe
que não sendo exactamente um segredo
é dúvida e receio e também medo
daquele medo do escuro
esse mesmo
dono subtil do instante
em que a luz se insinua
fazendo assim
renascer a esperança...

sexta-feira, novembro 18, 2011

Hoje


A página que deixei vazia
conta
em um momento preciso
a secessão dramática
entre os sentimentos não partilhados
e o silêncio expressivo
do espaço branco que deixei
descuidado.
Houvera um simples trejeito diverso
e talvez tivesse escrito aquela ode que me prometo desde sempre.
A vantagem das páginas por escrever
é encerrarem sempre
em simultâneo
todas as ideias possíveis
sendo tal coisa
a mais perfeita definição de nada.
Parece-me
não sei
mas
talvez a inspiração seja como aquele mundo extremo das partículas que não vemos
e quem escreve
seja apenas um diletante observador da música cósmica
cristalizando com a ilusão da vontade
o sítio justo de cada palavra
até se forçar uma realidade possível
num texto improvável.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Temporário


Olá!
quando a noite me deixou finalmente
o sol magoou-me os olhos
e essa astrologia decidiu por mim
dorida
a forma precisa
embora visivelmente turva
do novo dia.
revesti-me nos moldes próprios
dos formatos aceites
para ligar
os passos certos
conformes às exigências produtivas.
é uma covardia imensa
esta de ser submisso
a uma miríade de vontades alheias
coagindo sem dó
uma singela vontade só.
covardia inevitável
de quem ama
diria.
o manto resvala de cima
de um céu indefinido
indizível medo
e vai aderindo ao corpo
numa espécie de tecido conformador
que submerge o pensar e designa o mover.
ouso ainda assim os argumentos
formas intrincadas de consolidar ideias
emergindo depois subtilezas
travões certeiros que desgastam a pressa
inequívoca
das conclusões meramente úteis.
já não é a verdade que conta
apenas o temporário
que tomou do tempo essa celeridade extrema
do resultado imediato.
seja
é a mentira que manda
e o sucesso está nisso mesmo.

quarta-feira, novembro 16, 2011

O Dia Inicia-se...


O dia inicia-se
por decreto
com o distanciamento de uma precisão mecânica.
Mas a sensação de renascer
que o descreve enquanto intuição
apenas se sente
experimenta
como sequência
que depois transmuta o coração vivo
do coito da noite
ao bulício de imprevistos entrançando-se em mais um dia.
Entre a engrenagem dos inevitáveis
e a paixão das vísceras
constrói-se uma verdade relativa
e um sentimento
arrogante
mas sublime o suficiente
para se convencer universal.

terça-feira, novembro 15, 2011

Sentimento e Emoção


Nota como o vento
se insinua pelo corpo
como uma veste estranha
mas logo te despe
e a estranheza desse despir imediato
transmuta o frio que já sentes
em emotivo desamparo.

Nem tudo o que na aparência nos veste
na realidade nos conforta.
A emoção está para o sentimento
como o desconforto está para o vento.
Sente mais
emociona-te então
na justa medida daquilo
que verdadeiramente
sentes...

segunda-feira, novembro 14, 2011

A Cor do Desejo


a vantagem da cor
é que se modela nos olhos
e se sente na pele
entre os olhares e os dedos
sem carecer
do toque.
a cor é o humor da luz
banhando os corpos
animando-os com surpresa e movimento
fazendo da distância
paradoxo necessário que excita
finalmente
a vontade de tornar o que se afasta próximo
chamando-o depois
desejo.
as mãos buscam sufocar o suspiro
o suspiro busca o sufoco das mãos
numa urgência que cresce desmedida
cedendo à sedução dos predicados
naturalmente distantes
pelo toque que se atrasa
pelo abraço que finalmente queima
até ao êxtase que celebra o que se une.
no esquema aleatório do mundo
o que se pensa enquanto cálculo frio
também se sente nas vísceras
como paixão sublime
devoção
liberdade
amor
e desejo
vestido de cores impossíveis.

sexta-feira, novembro 11, 2011

Interagindo



Na forma que finalmente assumem
os pensamentos interligam-se e mesclam-se;
nomes
percursos
vontades distintas
concorrem pela acção da vigília
dotando o putativo vigilante
de consequente sequencialidade.
O eco de identidades diversas
recua
submetido ao som ingénuo que vence.
A voz aclara-se
o discurso flui
os gestos também;
deste concerto complexo
emerge o processo inquieto
tomador de consciência do mundo
fazedor de coisas concretas
de sentimentos pungentes
de palavrosas partilhas
que outros vêem, escutam, sentem e aceitam
como sendo
um outro.

quinta-feira, novembro 10, 2011

Metafísica [...]


Medram aleatoriamente as películas pelo ar
como eclodem a teimosia
e a preguiça
por entre os pensamentos mais rectos.
A matéria é a resposta do tempo
à permutação da energia
a consciência cola-se a esse preceito
deduzindo leis
tomadas primariamente
das intuições da carne.
De todas estas cordas
que superiormente se entrelaçam
vibram todas as coisas
esse sorriso
essa lágrima
o amor que se faz
o sentido que falha em todos os momentos.
Observa então
como a partícula ondula
finalmente extrai disso
a única dualidade verdadeira
até chegares ao osso...

quarta-feira, novembro 09, 2011

Interior



A solidão não se faz
apenas
dos espaços vazios e dos silêncios desacompanhados.
A solidão é um estado
uma consequência real de coisas
talvez ficcionadas
e de outras
coisas
que por vezes de tão subtis
se fazem ao outro invisíveis.
O solitário é aquele que se julga constantemente no espelho
perscrutando obsessivamente os mais ínfimos defeitos
com um bisturi implacável e frieza inquisitória.
A solidão não é uma escolha
ainda menos uma expiação
é assim tal qual deve ser
instrumento
é assim
e mais nada.

terça-feira, novembro 08, 2011

E agora?!


Talvez a noite de ontem se foque
precisa
nas fantasias da minha memória.
Talvez a sorte seja ilusão
apenas
e cada um dos passos que já dei
sejam mesmo
os meus passos.
Talvez o medo se dilua
agora
e
para todo o resto do tempo
seja apenas uma insinuação
movendo-se por entre as sombras e a dúvida.
Talvez as palavras que dizes
não sejam afinal pedras
mas antes flores
que
por falha minha
não consigo entender.
Talvez, talvez, talvez...
mas
e agora?!

sexta-feira, novembro 04, 2011

A chuva que me dissolve os passos e neles se dissolve também...


Neste cinzento distrito
zona de rotundas sem fim
de estradas indiferentes
cheias de regras contraditórias
injustamente financeiras
encontras alegorias
e encontras histórias.
Lágrimas e procissões de gentes profanas.

A mão que já nada guia
distingue porém
o espaço de uma abstracção excessiva.

Agora não é um incenso qualquer
que move o sentimento de ir
é o cheiro do cimento húmido
de onde se eleva o som urbano
e a urgência indefinida de chegar.

Eu caminho lentamente
porém com intento
pois se os fins não justificam os meios
o caminho será
eu sinto
tudo quanto me interessa...

quinta-feira, novembro 03, 2011

Ver



Do topo do monte
a vista quase tudo alcança;
mas essa visão do mundo
é somente um ponto de vista.
A flor é flor em qualquer lado.

A escuridão tem do silêncio a prova
do quanto somos cegos
aos pequenos tiques do mundo.
Ofuscados pelo brilho dos desejos
perdemos o singelo sol
que brilha em cada pirilampo.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Contexto


Os olhos que se cruzam calam a mentira
a mesma que se adorna no som dos verbos
e na prolixidade quase estéril dos advérbios.
O julgamento
como o amor
veste-se de ornamentos palavrosos
mas o silêncio é
por certo
o mais temível dos juízes.