quarta-feira, julho 27, 2011
Na Raiz das Palavras
Na raiz das palavras
reside o conflito inevitável
uma seiva dialéctica
que flui sem dono entre o esplendor
ruidoso
das ideias.
Conto-te a história
daquele que descobre
ou inventa
o modo como certos motivos se abraçam
se amam e entrelaçam
agem e reagem
aproximando sentidos
materializados num espaço de hipóteses
ou, talvez, tecidos no inesperado.
Conto-te uns pedaços de caminho
síncopes descomprometidas com o que sentes
e remotamente ligadas ao que digo eu
cruamente
apaixonadamente.
Conto-te
das mil formas que te amo
os pedacitos possíveis
e tu
talvez escutes dois ou três sons
que desconheço
e ouso
então
ler nos olhos
a projecção precisa do meu desejo.
Não preciso de mais.
terça-feira, julho 26, 2011
Que me dizes tu?
Começo aqui
e logo paro
perante a irracionalidade
desse acto que se deseja
uma continuidade.
Sou alfaiate dos momentos
e num assomo de orgulho
visto a dúvida com os ornamentos da retórica
digo que sei
sabendo tão bem
que desconheço no para além dos motes
aquela crueza fundamental
que cimenta hipóteses
e sonha hipérboles
as quais
sob o pêndulo da luz
transportam a inevitabilidade
talvez apenas aparente
dos dias.
Não sou indiferente
nem às rochas
que desfalecem nos caminhos e nas escarpas
nem às flores
que zombam temporariamente
do fado da putrefacção.
Não sei que movimento me leva
ou se uma maré
constantemente me devolve
ao início dos meus passos
como uma espécie de memória das impossibilidades.
Ou
no final
(parece-me agora)
tudo isto
nada mais seja
que preconceito
tontaria...
Que me dizes tu?
segunda-feira, julho 25, 2011
Para nos lembrar o que somos...
De somenos importância
sobejando
até
de uma primeva ignorância
eu sei
desenvolve-se o momento do achado.
Aqui se choraram mortos
aqui berraram nados-vivos
hoje anónimos
desconhecidos
esquecidos.
O que acontece
recorda-se
por vezes
com uma voz uma entoação própria
uma forma de dar sentimento
e sentido
ao que passou.
Eu sou um passageiro
apenas isso
pensando como alguém
outrora
foi aqui dono de si
amante e amado
guerreiro e escravo
menino
velho
morto.
Do refugo da terra
falam-me restos
contando silenciosamente
como a intimidade
se toma estranhamente
por tubo de ensaio
da História.
Mas
feitas todas as experiências
contadas todas as nuances
ousadas todas as interpretações
temos sempre nos gestos mais singelos
os nossos sentimentos mais fortes.
O abraço
sexta-feira, julho 22, 2011
(Tradutor)
Morou no fundo de um beco
como moram só os esquecidos
mas, enquanto vivo, lembrou-se
de tudo o que era importante.
A rua dobrava-se abruptamente
escondendo a passagem
tanto ao vento quanto à memória
e o vazio era por vezes quase letal
e assim se fazia efeito
para que uma história de outras terras
houvesse voz silenciosa
nas páginas brancas e vazias
que lhe serviram de salvação.
Morou
pois
num local escondido
expondo-se apenas à luz solar
que os prédios demasiadamente chegados
permitiam.
Morou
mas não mora mais
nem lá nem cá
"no where"
e toda a memória que dele resta
é estrangeira
e nossa
pois as palavras inscritas a preto
por folhas indiferentes
talvez sejam agora lidas
tremulamente
ruidosamente
estupidamente
avidamente
rigorosamente
por outros
que, quem sabe?, vivam no desafogo
impensável
de uma planície sem prédios.
quarta-feira, julho 20, 2011
Eu Sinto...
Eu sinto o que sinto
numa incerteza sentida
por sentir isto mesmo
que sinto.
Eu sinto a vertigem
que os meus olhos vestem
sentida nos contornos
difusos
da tua sensual passagem.
Assim
sentido
abandono corpo
abandono esperanças
e sinto
com a intensidade dos loucos
aquele sentir
que se sente
quando se ama
um perfume que fica
mas que está
ausente.
segunda-feira, julho 18, 2011
Talvez
Não tenho missão
ou destino,
sou uma incógnita em mim mesmo,
uma traça inebriada
pela luz intensa do futuro.
Talvez seja cegueira
a palavra que me define
e hesitação
a ideia que excita a química que sou.
Talvez a morte seja tão medonha
que toda a vida passe
sem provar doutra coisa
que não desse medo.
Talvez possa sorrir,
assim,
e depois virar a mesa
num póquer inútil
espelhado no mármore amarelecido,
velho,
desse sorriso aberto.
Talvez a loucura não seja
e o mote continuado
que grita o mundo entre luz e trevas
possa trazer a calma.
Talvez a calma não exista mais
mas suspeito,
sei,
que calmaria não sinto.
Talvez possa ter o que tu és
e ser o que tu me queres.
Talvez tudo sejam sombras
e a delusão seja o beijo possível,
salvação
da alma que não existe.
Talvez…
mas já não sei.
Seja!
quinta-feira, julho 14, 2011
Limes
É ódio que sinto
daquele Tempo que corre demais
quando desejo escorar
aquele momento perfeito.
Ou daquele outro
Tempo
que se alonga sem sentido
na pérfida conjura do tédio
ou da dor.
Para além do concreto,
do que óbvio se impõe
sobre a nossa ingénua sensatez,
existem subtilezas
que
infinitamente conluiam
contra a sequiosa urgência
de ser livre.
terça-feira, julho 12, 2011
Entretecido
As palavras esquivam-se ligeiras
e despegam-se delas os conceitos
com que as grudamos
umas às outras.
As palavras nuas
dizem livremente o indizível
vertendo a História
num compasso de sílabas;
e essa memória
que delas se esvai
não é inocente,
nem os fios que arguciosamente a juntam
se ensarilharam em vão.
Parte do que será
vê-se já no labirinto
de todas as palavras
que contam o que foi.
sexta-feira, julho 08, 2011
Bom fim-de-semana!
Stefano Landi - "La Passacaglia della Vita"
(L'Arpeggiata, Marco Beasley, Johannette Zomer)
Sensações
São variados os formatos
tomados do mundo
pela ilusão.
E estando nós iludidos por tantalizantes sensações,
julgamos verdadeiros
o conjunto de todos os gestos,
cores,
objectos,
com que os sentidos se excitam.
Os enganos irmanam-se com os cimentos,
a luz abraça-se de sombras,
o vento escorrega pelos contornos das rochas.
E eu, paradoxalmente ausente,
sinto o quanto tudo isto parece murmurar por mim,
sabendo prontamente que lhe sou estranho
como um filho desavindo
que finalmente retorna.
quarta-feira, julho 06, 2011
Termodinâmica
Encontro,
nos passos deixados no caminho
a memória espontânea
que o futuro não saberá lembrar.
E sendo eu futuro
de tanta memória finada,
sinto na prosa dos pós
o discorrer menos falso de tudo.
A matéria envolve-se de nada
e a imaginação,
intangível plano,
adere ao mundo pelo imperfeito acto
que finalmente a produz.
Por isso são perfeitos os sonhos,
até se transverterem no cimento
nas rugas
nas lágrimas
nas calosidades
na revolta
e, em momentos mais felizes,
nos sorrisos.
nos passos deixados no caminho
a memória espontânea
que o futuro não saberá lembrar.
E sendo eu futuro
de tanta memória finada,
sinto na prosa dos pós
o discorrer menos falso de tudo.
A matéria envolve-se de nada
e a imaginação,
intangível plano,
adere ao mundo pelo imperfeito acto
que finalmente a produz.
Por isso são perfeitos os sonhos,
até se transverterem no cimento
nas rugas
nas lágrimas
nas calosidades
na revolta
e, em momentos mais felizes,
nos sorrisos.
sexta-feira, julho 01, 2011
Coisas 2
Julgo a alma
uma falácia.
E todas as almas
então
um erro plural
que paira
ou não
nos discursos
diálogos
interacções
dos vivos
que (se) pensam.
A mente
mente a si mesma
para ter mão
nos grumos
que apoquentam o mundo.
Receio que nada conte
nem a matemática
nem deus
nem
eu...
Mas as paixões
e quiçá os vícios
mantêm-nos
enganados
talvez
mas vivos.
uma falácia.
E todas as almas
então
um erro plural
que paira
ou não
nos discursos
diálogos
interacções
dos vivos
que (se) pensam.
A mente
mente a si mesma
para ter mão
nos grumos
que apoquentam o mundo.
Receio que nada conte
nem a matemática
nem deus
nem
eu...
Mas as paixões
e quiçá os vícios
mantêm-nos
enganados
talvez
mas vivos.
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