Embalam-se os sonhos
na névoa que oculta os desejos,
como se essa bruma despudorada
guardasse segredo de todas as imprudências,
sossegando faltas e inconfessos sonhos,
num silencioso conforto amniótico.
Lá fora tudo se promove sincopadamente,
e a realidade excita os sentidos
com toda a sorte de incertezas ruidosas.
Adivinho, de entre estes copiosos tumultos,
o subtil suspiro que apenas o teu olhar exala,
e dessa brisa sagrada
que o vento obsequiosamente me traz,
esboça-se a perfeição do teu peito
respirando, na frágil eternidade de um gemido,
toda a impossibilidade da paixão.
terça-feira, dezembro 21, 2010
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Desligado
O que o olhar alcança,
escapa-se num simples gesto,
e os sons do delírio somem-se
no frémito com que a paixão
anima os dedos que a tocam
inevitavelmente sentenciados
à abstracção futura da lembrança.
A felicidade é uma sensação instantânea,
uma vela frágil,
enfunada pelas brisas da memória
voando sobre os abismos óbvios
das tragédias que sangram,
sem compaixão, a carne dos dias.
Aos sentidos resta tocar
a substância do vazio,
quando, sob o manto de ilusões
que a noite cose,
silêncio e solidão
transubstanciam a ausência em incompreensão
e a dor é agora uma voz
que não aceita a fonte
de onde brota o nome da saudade.
escapa-se num simples gesto,
e os sons do delírio somem-se
no frémito com que a paixão
anima os dedos que a tocam
inevitavelmente sentenciados
à abstracção futura da lembrança.
A felicidade é uma sensação instantânea,
uma vela frágil,
enfunada pelas brisas da memória
voando sobre os abismos óbvios
das tragédias que sangram,
sem compaixão, a carne dos dias.
Aos sentidos resta tocar
a substância do vazio,
quando, sob o manto de ilusões
que a noite cose,
silêncio e solidão
transubstanciam a ausência em incompreensão
e a dor é agora uma voz
que não aceita a fonte
de onde brota o nome da saudade.
quarta-feira, dezembro 15, 2010
Monólogo chorado
Por vezes chorar é inevitável, mesmo que o choro, ele mesmo, não se manifeste para fora.
Por vezes chorar é certo, pois sim, por ser a única forma que nos resta de expressar revolta e indignação, ou, pura e simplesmente, encarar a incompreensão.
Por vezes chorar é o melhor, eu sei, ainda que insistam que rir é o melhor remédio... Após o secar das lágrimas, continuar é possível.
Por vezes chorar é um princípio de esperança, o salto urgente e necessário quando os pés tocam o chão que se funda no desespero.
Por vezes chorar é, e tudo o mais é merda.
Depois?... Depois, logo se vê!
segunda-feira, dezembro 13, 2010
Invernos
Fui ingénuo,
tanto quanto pode ser ingénuo
aquele que se construiu
na penumbra das esperas.
Já me senti certezas
cristalinamente escorrendo
o sentido,
num sentir medido em palavras,
como se o mundo se desejasse urdir
na soberba de um fruto,
depois desprezado,
num aceno desapegado
dos elementos.
Cai a noite
onde caiu já o Inverno,
e a memória dorida
entorpece ao compasso da chuva que cai
num indefinido lá fora.
Um dia acordará diferente,
poderei, talvez,
renascer.
tanto quanto pode ser ingénuo
aquele que se construiu
na penumbra das esperas.
Já me senti certezas
cristalinamente escorrendo
o sentido,
num sentir medido em palavras,
como se o mundo se desejasse urdir
na soberba de um fruto,
depois desprezado,
num aceno desapegado
dos elementos.
Cai a noite
onde caiu já o Inverno,
e a memória dorida
entorpece ao compasso da chuva que cai
num indefinido lá fora.
Um dia acordará diferente,
poderei, talvez,
renascer.
sexta-feira, dezembro 10, 2010
Lamento
Enlouquece a memória
no tumulto sofrido dos desejos,
e cresce entre compreensão e desdém
o sonho que dá sentido aos beijos.
Enfada-se o ar
em devaneios ocos
e um pulsar vigorosamente inútil
esboça-nos a morte aos poucos.
A ilusão sente-se
como paradoxo iluminado,
e na luz que alumia os outros
funde-se o que é,
no engodo de um Fado.
Os passos estão dados
comprometidos no sinuoso carreiro
que os leva, talvez, enganados...
E os olhos, somando perdição e lágrimas,
cedem herméticos
ao horror das lástimas
que erodem os ossos e fazem adivinhar o futuro.
A escuridão acolherá o resto,
e uma carcaça vácua fará testemunho
de um rumo inconsequente
para sempre calando,
sob o pesado compasso da solidão,
todo e qualquer protesto.
terça-feira, dezembro 07, 2010
Medida
Todos os marmóreos altares,
de onde os deuses de antanho tocaram os homens,
perderam o brilho e cederam o poder
ao entendimento causal dos dias.
Deus afasta-se num argumento abstracto,
num conceito inconcebível
para a substância que concretiza cada instante,
e estes, sem a bonomia divina,
aceleram nos afazeres materiais
que se enganam num hedonismo sem rumo.
Mas mesmo sem deuses
a maravilha existe,
e basta um sorriso, sem desígnio superior,
para, humanamente,
o revelar...
de onde os deuses de antanho tocaram os homens,
perderam o brilho e cederam o poder
ao entendimento causal dos dias.
Deus afasta-se num argumento abstracto,
num conceito inconcebível
para a substância que concretiza cada instante,
e estes, sem a bonomia divina,
aceleram nos afazeres materiais
que se enganam num hedonismo sem rumo.
Mas mesmo sem deuses
a maravilha existe,
e basta um sorriso, sem desígnio superior,
para, humanamente,
o revelar...
terça-feira, novembro 30, 2010
Contagens
É como se da memória
pingassem os momentos,
um a um,
lentamente,
como num adágio
discorrendo as escalas inefáveis
da minha possível felicidade...
Procuramos cunhar a vida
com os rótulos mais fáceis;
olhar o sentimento à lupa
é o mesmo que medir a dor,
contando lágrimas...
pingassem os momentos,
um a um,
lentamente,
como num adágio
discorrendo as escalas inefáveis
da minha possível felicidade...
Procuramos cunhar a vida
com os rótulos mais fáceis;
olhar o sentimento à lupa
é o mesmo que medir a dor,
contando lágrimas...
sexta-feira, novembro 26, 2010
Sei que não...
O silêncio é uma forma dorida
de cavar distâncias,
sangrando a terra que nos incarna
sob os passos
que numa dureza cruamente alienada
nos perdem.
Talvez a noite
permita escutar os murmúrios
inaudíveis no bulício do excessivamente luminoso,
talvez...
E talvez esses sussurros doces
transportem aquele nome sonhado perfeito
no perfume quente que nos invade
e que apenas a saudade
sabe, tão bem, excitar...
Talvez possa, então,
simplesmente respirar
sem urgências ou descontrolo,
na calmaria das coisas que imaginamos resolvidas.
Talvez...
Talvez tudo possa ser mais simples,
talvez...
Mas sei que não.
quarta-feira, novembro 24, 2010
Visão
Sou um corolário de esperas,
um passadiço que se perde,
em toda a sua fragilidade,
num horizonte brumosamente indistinto.
Sou uma dor que fica a meio,
entre os teus olhos
e a nudez incómoda do que,
tanto e tão confuso,
sinto.
Um vento gélido anuncia,
finalmente,
a vontade cortante dos deuses que imagino
para conforto precário das minhas dúvidas.
A bruma dispersa fugaz,
revelando um súbito mar luminoso
incendiando o olhar.
Por vezes a Luz
é a dolorosa medida
da nossa constante cegueira...
um passadiço que se perde,
em toda a sua fragilidade,
num horizonte brumosamente indistinto.
Sou uma dor que fica a meio,
entre os teus olhos
e a nudez incómoda do que,
tanto e tão confuso,
sinto.
Um vento gélido anuncia,
finalmente,
a vontade cortante dos deuses que imagino
para conforto precário das minhas dúvidas.
A bruma dispersa fugaz,
revelando um súbito mar luminoso
incendiando o olhar.
Por vezes a Luz
é a dolorosa medida
da nossa constante cegueira...
sexta-feira, novembro 19, 2010
A Meio...
Não é a distância que nos magoa
mas a ausência que nos dói...
E quando o presente se acinzenta,
pois as cores alegres se condenam ao degredo,
resta o refúgio iluminado da memória
evocando, quais ecoados murmúrios,
o som do que já foi perfeito
e a ideia esperançosa
do que ainda poderemos ser.
mas a ausência que nos dói...
E quando o presente se acinzenta,
pois as cores alegres se condenam ao degredo,
resta o refúgio iluminado da memória
evocando, quais ecoados murmúrios,
o som do que já foi perfeito
e a ideia esperançosa
do que ainda poderemos ser.
quinta-feira, novembro 18, 2010
Não te percas no Destino, compromete-te tentando
Procuras nos ventos
mensagens dos deuses,
mas os deuses estão mortos
e o coração humano,
outrora sujeito aos caprichos mesquinhos dos elementos,
motor subtil que ousou mover montanhas pela vontade,
anuncia agora um compasso diferente.
Hoje, o cinzento do dia
promete outro dia cinzento,
e a luz do sol
é fonte de energia
e já não evoca poesia.
O mundo não te permite parar
e se paras
é para que sintas um castigo
definitivamente mecânico.
E no entanto,
o vórtice estonteante que nos consome
é ele mesmo fonte de estímulos,
de prazeres ignotos,
de esperanças por sonhar.
O universo esconde-se
nos interstícios do tempo
e nas texturas porosas,
grandes e ínfimas, do espaço,
e tudo isto se enrola
num labirinto
aliciando a mente à descoberta
de cintilantes surpresas
que iluminarão, sem dogmas,
todas as hesitações da busca.
mensagens dos deuses,
mas os deuses estão mortos
e o coração humano,
outrora sujeito aos caprichos mesquinhos dos elementos,
motor subtil que ousou mover montanhas pela vontade,
anuncia agora um compasso diferente.
Hoje, o cinzento do dia
promete outro dia cinzento,
e a luz do sol
é fonte de energia
e já não evoca poesia.
O mundo não te permite parar
e se paras
é para que sintas um castigo
definitivamente mecânico.
E no entanto,
o vórtice estonteante que nos consome
é ele mesmo fonte de estímulos,
de prazeres ignotos,
de esperanças por sonhar.
O universo esconde-se
nos interstícios do tempo
e nas texturas porosas,
grandes e ínfimas, do espaço,
e tudo isto se enrola
num labirinto
aliciando a mente à descoberta
de cintilantes surpresas
que iluminarão, sem dogmas,
todas as hesitações da busca.
terça-feira, novembro 16, 2010
Mito
Havia uma flor isolada que numa bravata desmedida se opôs ao ritmo das Estações e às voltas cegas do Tempo.
Protegia-se do vento ignorando as suas rajadas com a força que lhe advinha de apenas o desejar, abraçava com tal vontade todos os raios do Sol que este, fatalmente, se apaixonou, jorrando-lhe amorosamente toda a sua luz.
Os céus, comovidos, choraram-lhe delicadamente a água e os solos, por baixo, deram-lhe sem descanso tudo o que tinham.
A flor finalmente cantou o seu perfume sublime, pacientemente colhido de todos os momentos passados, tanto dos seus como dos partilhados, harmonizando os elementos no seu desejo férreo de ser eternidade. Mas neste preceito, entendeu por fim o lugar da decadência, pois, atingindo um tal pináculo de perfeição, o mundo desequilibrou-se em todos os seus outros pontos e engoliu, sôfrego, aquela perfeição singular, perdendo-a assim para sempre.
Mas se a perdeu, à perfeição feita flor ou à flor perfeita, a ideia, junto com a memória, inevitavelmente floresceu. E se naquele ponto singular se perdeu essa entidade única, por todo o lado é agora memória, perfume, desejo e esperança.
Protegia-se do vento ignorando as suas rajadas com a força que lhe advinha de apenas o desejar, abraçava com tal vontade todos os raios do Sol que este, fatalmente, se apaixonou, jorrando-lhe amorosamente toda a sua luz.
Os céus, comovidos, choraram-lhe delicadamente a água e os solos, por baixo, deram-lhe sem descanso tudo o que tinham.
A flor finalmente cantou o seu perfume sublime, pacientemente colhido de todos os momentos passados, tanto dos seus como dos partilhados, harmonizando os elementos no seu desejo férreo de ser eternidade. Mas neste preceito, entendeu por fim o lugar da decadência, pois, atingindo um tal pináculo de perfeição, o mundo desequilibrou-se em todos os seus outros pontos e engoliu, sôfrego, aquela perfeição singular, perdendo-a assim para sempre.
Mas se a perdeu, à perfeição feita flor ou à flor perfeita, a ideia, junto com a memória, inevitavelmente floresceu. E se naquele ponto singular se perdeu essa entidade única, por todo o lado é agora memória, perfume, desejo e esperança.
segunda-feira, novembro 15, 2010
A Luz da Manhã
A luz desta manhã
como de todas as outras manhãs
trouxe-me a novidade
e renovou-me a angústia.
Pois se iluminando,
aquece e conforta,
força contudo
um necessário desconhecido.
Não é o medo que me tolhe,
aquele medo mesquinho
que suspende com um toque subtil
de frio terror
aquilo que há de vir,
mas antes a inevitabilidade da perda,
imensamente mais certa
que qualquer parca forma de felicidade.
Leio cada nova manhã
como uma carta que chega
com um cheirinho anunciando
a saudade.
O resto fica em suspenso,
o resto virá mais tarde.
como de todas as outras manhãs
trouxe-me a novidade
e renovou-me a angústia.
Pois se iluminando,
aquece e conforta,
força contudo
um necessário desconhecido.
Não é o medo que me tolhe,
aquele medo mesquinho
que suspende com um toque subtil
de frio terror
aquilo que há de vir,
mas antes a inevitabilidade da perda,
imensamente mais certa
que qualquer parca forma de felicidade.
Leio cada nova manhã
como uma carta que chega
com um cheirinho anunciando
a saudade.
O resto fica em suspenso,
o resto virá mais tarde.
sexta-feira, novembro 12, 2010
Nunca Tenho Tempo Para Nada...
O Tempo exige-nos toda a urgência de ser, cada passo inexorável seguido de outro inevitável, ou assim aparentando, postulando-se o absurdo de uma eternidade que o justifica e na qual julgamos encontrar algum conforto; nem que seja apenas pela ilusão de, dentro dessa infinidade, ser possível que tenhamos algum momento, "apenas" para nós.
Se ontem o tempo faltava, hoje já sabemos que não basta, e agora, neste preciso momento, qualquer insignificante distracção parece um sufoco, mas, em boa verdade, altera muito pouco, ou mesmo nada, a multiplicidade de urgências que cada um nós dentro de si mesmo transporta, e, ainda menos, aliviará o pânico de morte que sentimos por saber como certa, irremediável e fatal, a passagem do tempo.
Se ontem o tempo faltava, hoje já sabemos que não basta, e agora, neste preciso momento, qualquer insignificante distracção parece um sufoco, mas, em boa verdade, altera muito pouco, ou mesmo nada, a multiplicidade de urgências que cada um nós dentro de si mesmo transporta, e, ainda menos, aliviará o pânico de morte que sentimos por saber como certa, irremediável e fatal, a passagem do tempo.
quinta-feira, novembro 11, 2010
Onde Ainda se Escutam Sorrisos e Sombras
O sol arrasta as coisas do mundo até às sombras
que cobrem em escurecidas insinuações
as paredes brancas, fronteirando a privacidade
de quem atrás delas se acoita
dos olhos do mundo.
O vento então fala,
na resistência sonora que lhe fazem
as coisas que dependem, mesmo que vagamente,
das bênçãos desinteressadas da terra.
E nesse vale onde o bulício da restolhada
faz esquecer o ruído da mecanicidade urbana
o sorriso escuta-se
na serenidade que o vento sopra
e o sol, num abraço quente,
suavemente o contorna e estampa,
sem egoísmos ou distracções,
no sussurro demorado das sombras...
que cobrem em escurecidas insinuações
as paredes brancas, fronteirando a privacidade
de quem atrás delas se acoita
dos olhos do mundo.
O vento então fala,
na resistência sonora que lhe fazem
as coisas que dependem, mesmo que vagamente,
das bênçãos desinteressadas da terra.
E nesse vale onde o bulício da restolhada
faz esquecer o ruído da mecanicidade urbana
o sorriso escuta-se
na serenidade que o vento sopra
e o sol, num abraço quente,
suavemente o contorna e estampa,
sem egoísmos ou distracções,
no sussurro demorado das sombras...
terça-feira, novembro 09, 2010
Sobre o Cansaço
Encontramo-nos quando cruzamos os passos,
inadvertidos ou previstos,
por caminhos de escolhas parcas...
E o amor, esse nada escolhe,
e esconde muito pouco no pudor
que docemente o acoita.
Apenas persegue um sentimento límpido
que se suplicia nas tormentas da dúvida
com que os dias nos castigam.
O cansaço é a herança
a que a vida sucessivamente nos sujeita,
e a incerteza é o prémio
que nos espera a cada passo.
Para lá de certos e de incertos,
do esforço inglório, finalmente da morte,
existem momentos nossos
pois partilhados com outros
que se tocam na faísca das paixões
ou no sublime conforto do amor,
e em cujas memórias
vibramos e fazemos,
e faremos certamente, a vida.
Pelo menos a vida que interessa,
aquela que vale a pena viver.
inadvertidos ou previstos,
por caminhos de escolhas parcas...
E o amor, esse nada escolhe,
e esconde muito pouco no pudor
que docemente o acoita.
Apenas persegue um sentimento límpido
que se suplicia nas tormentas da dúvida
com que os dias nos castigam.
O cansaço é a herança
a que a vida sucessivamente nos sujeita,
e a incerteza é o prémio
que nos espera a cada passo.
Para lá de certos e de incertos,
do esforço inglório, finalmente da morte,
existem momentos nossos
pois partilhados com outros
que se tocam na faísca das paixões
ou no sublime conforto do amor,
e em cujas memórias
vibramos e fazemos,
e faremos certamente, a vida.
Pelo menos a vida que interessa,
aquela que vale a pena viver.
segunda-feira, novembro 08, 2010
Alguns Momentos
A saudade embrulha-se numa dor
que faz agudamente presente
o que sentimos ausente.
As lágrimas,
quais arautos do momento,
caem com estrondo
nos lagos salgados do desapontamento.
O mundo não se perde no meu desconsolo,
indiferente assume o seu rumo desconhecido,
mas por vezes, sem aviso,
os seus passos encontram o meu caminho
e no perfume de uma rosa,
na graça de uma deusa,
num simples olhar que sorri,
expõe-se a fonte da minha dor
a uma esquiva carícia que aplaca
o desassossego que, perene, me descreve.
que faz agudamente presente
o que sentimos ausente.
As lágrimas,
quais arautos do momento,
caem com estrondo
nos lagos salgados do desapontamento.
O mundo não se perde no meu desconsolo,
indiferente assume o seu rumo desconhecido,
mas por vezes, sem aviso,
os seus passos encontram o meu caminho
e no perfume de uma rosa,
na graça de uma deusa,
num simples olhar que sorri,
expõe-se a fonte da minha dor
a uma esquiva carícia que aplaca
o desassossego que, perene, me descreve.
sexta-feira, novembro 05, 2010
Ciclo
Degradam-se as flores
quais testemunhos do inevitável
enquanto os limites se acanham
na monotonia do tempo que passa.
O caule dobra, fenece,
o perfume evola e perde-se para sempre
no ar que indiferente
o reduz a uma distante memória.
O botão, antes belo e deliciosamente frágil
é agora um espectro acinzado,
figura hirta, seca,
cheirando a conclusão...
Todos os finais
excitam uma profunda melancolia,
e por cada caminho que se cerra
a vida reinventa-se noutro
que seguirá, pujante e fraco,
vulgar e sublime,
até ao altar
onde o sacrifício necessário
regenera o Mundo...
quais testemunhos do inevitável
enquanto os limites se acanham
na monotonia do tempo que passa.
O caule dobra, fenece,
o perfume evola e perde-se para sempre
no ar que indiferente
o reduz a uma distante memória.
O botão, antes belo e deliciosamente frágil
é agora um espectro acinzado,
figura hirta, seca,
cheirando a conclusão...
Todos os finais
excitam uma profunda melancolia,
e por cada caminho que se cerra
a vida reinventa-se noutro
que seguirá, pujante e fraco,
vulgar e sublime,
até ao altar
onde o sacrifício necessário
regenera o Mundo...
quinta-feira, novembro 04, 2010
Gradações
São azuis os momentos
em que o vazio acaricia o silêncio
enclausurando as formas
com que o espaço engole o pensamento
para depois o parir, em maior perfeição...
São rosa aquelas alturas
em que o ar se perfuma
na insinuação dos teus passos,
em que o espaço se dobra em si mesmo
como que prometendo aconchego, consolo...
São verdes as paisagens
que adornam o horizonte
onde a esperança ilumina
os meus tantos sonhos e devaneios
dos quais o mundo teima troçar...
São arco-íris os passos
na companhia daqueles
que me sopram um viver quase perfeito
onde tudo o mais se funde
e cresce
nos caminhos e nos sentimentos...
São cinzentos que tingem as tensões,
quebras, prisões e perdas
que estropiam o sossego
e se promovem num sofrimento absurdo.
Tudo isto me constrói,
tudo isto me faz,
tudo isto sou eu.
Sem luz,
um nada,
se queda o resto.
em que o vazio acaricia o silêncio
enclausurando as formas
com que o espaço engole o pensamento
para depois o parir, em maior perfeição...
São rosa aquelas alturas
em que o ar se perfuma
na insinuação dos teus passos,
em que o espaço se dobra em si mesmo
como que prometendo aconchego, consolo...
São verdes as paisagens
que adornam o horizonte
onde a esperança ilumina
os meus tantos sonhos e devaneios
dos quais o mundo teima troçar...
São arco-íris os passos
na companhia daqueles
que me sopram um viver quase perfeito
onde tudo o mais se funde
e cresce
nos caminhos e nos sentimentos...
São cinzentos que tingem as tensões,
quebras, prisões e perdas
que estropiam o sossego
e se promovem num sofrimento absurdo.
Tudo isto me constrói,
tudo isto me faz,
tudo isto sou eu.
Sem luz,
um nada,
se queda o resto.
quarta-feira, novembro 03, 2010
Despertar
Estranho as entranhas dos sonhos;
descem como véus enredos desconexos
acariciando desconfortavelmente
uma pele imaginária que se excita.
Brisas fantasmagóricas
percorrem sem obstáculo real
as atmosferas onde se ilude o presente,
são como rochedos escuros
recortando abruptamente um céu impossível
e sangrando a delicada película
que aparta os pensamentos
do que corre no mundo.
Imagino como um certo olhar alheio
se concentra num pormenor
das coisas que, de certo,
num outro momento me escapou.
E por esse filtro estrangeiro
leio impotente
desejos imensos e sentimentos profundos
eleitos em uma vontade diversa.
Nestes ocasos espontâneos
a realidade corrompe-se e coroa-se
num movimento perpétuo
de impossibilidades,
e o mundo finalmente se espanta
no olhar e nos actos de quem,
por fim,
desperta!...
descem como véus enredos desconexos
acariciando desconfortavelmente
uma pele imaginária que se excita.
Brisas fantasmagóricas
percorrem sem obstáculo real
as atmosferas onde se ilude o presente,
são como rochedos escuros
recortando abruptamente um céu impossível
e sangrando a delicada película
que aparta os pensamentos
do que corre no mundo.
Imagino como um certo olhar alheio
se concentra num pormenor
das coisas que, de certo,
num outro momento me escapou.
E por esse filtro estrangeiro
leio impotente
desejos imensos e sentimentos profundos
eleitos em uma vontade diversa.
Nestes ocasos espontâneos
a realidade corrompe-se e coroa-se
num movimento perpétuo
de impossibilidades,
e o mundo finalmente se espanta
no olhar e nos actos de quem,
por fim,
desperta!...
terça-feira, novembro 02, 2010
Caminhando
Escalei montanhas inventadas,
vi o mundo de pináculos impossíveis
onde num ar despojado de pesos
as ideias se fazem senhoras do Tempo
enganando a Morte
por labirintos de utopia.
E à verdade,
esbocei-a levemente entre dores e pecado,
lavada em prantos desvairados,
traçada por gargalhadas soberbas!
Submeti, ilusoriamente, todos os meus defeitos
a uma sobriedade asceta,
marcada na solidão
por engodos cavernosos
e compromissos murmurados,
celeremente traídos
nos caminhos precisos da realidade.
São todas as ilusões
vontades entorpecidas
pela confusão das alternativas,
promessas e impossibilidades;
o futuro promete-se enquanto véu
seduzindo com sonhos
e matando, subtilmente, com a excessividade
da Luz...
vi o mundo de pináculos impossíveis
onde num ar despojado de pesos
as ideias se fazem senhoras do Tempo
enganando a Morte
por labirintos de utopia.
E à verdade,
esbocei-a levemente entre dores e pecado,
lavada em prantos desvairados,
traçada por gargalhadas soberbas!
Submeti, ilusoriamente, todos os meus defeitos
a uma sobriedade asceta,
marcada na solidão
por engodos cavernosos
e compromissos murmurados,
celeremente traídos
nos caminhos precisos da realidade.
São todas as ilusões
vontades entorpecidas
pela confusão das alternativas,
promessas e impossibilidades;
o futuro promete-se enquanto véu
seduzindo com sonhos
e matando, subtilmente, com a excessividade
da Luz...
sexta-feira, outubro 29, 2010
Até ao teu próximo beijo...
Soam por este dia escuro
os acordes da solidão
como sons nascendo abafados
nas masmorras da perdição.
A memória da luz faz
estrago geral nos sentidos,
que numa turva depressão
se degradam entorpecidos...
É momento para a saudade
urdir com afã seus ensejos
fazendo de um sonho acordado
montra impudor dos meus desejos...
Estou entre confuso e cansado,
entregue aos intentos de um fogo
e às tropelias de um gelo
buscando um caminho sem dolo.
Talvez a estrada se conquiste
trilhando um trecho divergente,
e que a verdade se demonstre
numa candura diferente...
É a busca que faz viver
o caminho, o movimento,
pois o engano que dói num dia
é apenas mais um momento.
Acaricio enfim e em paz
um corpo que já não é lembrança,
e o mel que trocamos num beijo
é um elixir de esperança!
quinta-feira, outubro 28, 2010
Sobre o Sonhar
Há uma singular lição de beleza
no jeito como os ventos
esculpem as nuvens.
Uma beleza que é pura,
pois, para além da realidade
e de todas as explicações
que os homens engendram,
ela nasce num olhar deslumbrado
ingenuamente sonhada, imaginada,
sugerindo a cada momento
uma libertação
e logo após
criação!
Pudera o resto do tempo
fazer-se do mesmo
mas é difícil prolongar
uma forma inocente de felicidade
para além do mundo etéreo dos sonhos...
no jeito como os ventos
esculpem as nuvens.
Uma beleza que é pura,
pois, para além da realidade
e de todas as explicações
que os homens engendram,
ela nasce num olhar deslumbrado
ingenuamente sonhada, imaginada,
sugerindo a cada momento
uma libertação
e logo após
criação!
Pudera o resto do tempo
fazer-se do mesmo
mas é difícil prolongar
uma forma inocente de felicidade
para além do mundo etéreo dos sonhos...
quarta-feira, outubro 27, 2010
Fraquezas
Indeciso o movimento que nos afasta
para a deriva que consta do que inconstante
se move além de padrões e limites.
Há um esboço tosco de certeza que nos seduz
até ao leito capcioso
onde se compromete a dúvida
no conforto falso de uma crença néscia;
é mais fácil encontrar a fé num engano
que procurar a verdade toda a vida...
para a deriva que consta do que inconstante
se move além de padrões e limites.
Há um esboço tosco de certeza que nos seduz
até ao leito capcioso
onde se compromete a dúvida
no conforto falso de uma crença néscia;
é mais fácil encontrar a fé num engano
que procurar a verdade toda a vida...
terça-feira, outubro 26, 2010
Modus Operandi
São ingratos os momentos mudos,
tristes as sombras prolongadas
de uma luz finando em ocaso.
O silêncio é o grande traidor
de aventureiros e apaixonados.
Queremos dizer as coisas certas
enquanto o tempo não nos destrói
mas as palavras tornam-se lâminas
e os sentimentos sangram em vão
ignorados nos vários olhares
que jorram copiosa a indiferença.
Assim se vai cunhando no mundo
a indelével marca da vergonha
perene companheira da vida.
Assim cresce crua esta vontade
de ver para além das aparências.
Não há como encontrar a Razão
senão como sequência da dúvida,
sendo esta a derradeira semente
de onde germinará a vibrante
esperança de haver um futuro.
Não há como fazê-lo calado.
Não há como vivê-lo sem dor.
tristes as sombras prolongadas
de uma luz finando em ocaso.
O silêncio é o grande traidor
de aventureiros e apaixonados.
Queremos dizer as coisas certas
enquanto o tempo não nos destrói
mas as palavras tornam-se lâminas
e os sentimentos sangram em vão
ignorados nos vários olhares
que jorram copiosa a indiferença.
Assim se vai cunhando no mundo
a indelével marca da vergonha
perene companheira da vida.
Assim cresce crua esta vontade
de ver para além das aparências.
Não há como encontrar a Razão
senão como sequência da dúvida,
sendo esta a derradeira semente
de onde germinará a vibrante
esperança de haver um futuro.
Não há como fazê-lo calado.
Não há como vivê-lo sem dor.
segunda-feira, outubro 25, 2010
Apenas
Não somos estátuas
esculpidas sem termo
na rocha do mundo.
Não somos constantes
como sonetos perfeitos
ecoando a amores puros e profundos.
Não somos certezas
escritas em livros sagrados
ou nos registos da História.
Não somos apenas falsos
ou apenas verdadeiros,
porque a verdade
não se cimenta em absolutos.
Somos nada
mas um nada
que pode amar sem limites.
Somos, apenas,
e enquanto somos,
seremos, apenas,
aquilo que somos.
E isto porque
podemos ser sempre mais!...
esculpidas sem termo
na rocha do mundo.
Não somos constantes
como sonetos perfeitos
ecoando a amores puros e profundos.
Não somos certezas
escritas em livros sagrados
ou nos registos da História.
Não somos apenas falsos
ou apenas verdadeiros,
porque a verdade
não se cimenta em absolutos.
Somos nada
mas um nada
que pode amar sem limites.
Somos, apenas,
e enquanto somos,
seremos, apenas,
aquilo que somos.
E isto porque
podemos ser sempre mais!...
sexta-feira, outubro 22, 2010
Mais Que Imperfeito
Onde estão aquelas doces flores
que, ainda ontem, me adornavam
os passos certos e voavam
como aves de soberbas cores
fogueando um tenso Universo?
Ah!, coubessem em fácil verso
os meus imensos desatinos...
Sei que não cabem, a não ser
quando escrevo como morrer
em cada gesto aos bocadinhos...
É no fundo do desespero,
já sei, que somos mais perfeitos,
e nesse cavado exagero
somos mais que os nossos defeitos!...
que, ainda ontem, me adornavam
os passos certos e voavam
como aves de soberbas cores
fogueando um tenso Universo?
Ah!, coubessem em fácil verso
os meus imensos desatinos...
Sei que não cabem, a não ser
quando escrevo como morrer
em cada gesto aos bocadinhos...
É no fundo do desespero,
já sei, que somos mais perfeitos,
e nesse cavado exagero
somos mais que os nossos defeitos!...
quinta-feira, outubro 21, 2010
Estar...
É assaz inconstante o vento
assim tal como o sentimento...
E fala-me como doença
como uma náusea perene
que se exulta na indiferença
que em toda a parte nos persegue!
Empeçonha-se o ar nas ausências
oprimindo o peito num nó
cego carpindo impaciências!
Pudesse apartar este pó,
que me tolda a visão de tudo,
e seria não um poço escuro
mas doce toque de veludo
acariciando o futuro!
Entretanto sou neste estar
que apenas sabe como errar!...
assim tal como o sentimento...
E fala-me como doença
como uma náusea perene
que se exulta na indiferença
que em toda a parte nos persegue!
Empeçonha-se o ar nas ausências
oprimindo o peito num nó
cego carpindo impaciências!
Pudesse apartar este pó,
que me tolda a visão de tudo,
e seria não um poço escuro
mas doce toque de veludo
acariciando o futuro!
Entretanto sou neste estar
que apenas sabe como errar!...
terça-feira, outubro 19, 2010
Um Tango...
Não te movas...
Fica onde estás,
aí, nessa pose
que eloquente
impõe
a tua perfeição.
Não te movas,
ou move-te, sim,
devagarinho,
pois movendo-te
assim
serás ainda mais
tu!...
Não te movas...
Mas mexe-te, rápido!,
e estanca!...
junto a mim...
Fica onde estás,
aí, nessa pose
que eloquente
impõe
a tua perfeição.
Não te movas,
ou move-te, sim,
devagarinho,
pois movendo-te
assim
serás ainda mais
tu!...
Não te movas...
Mas mexe-te, rápido!,
e estanca!...
junto a mim...
segunda-feira, outubro 18, 2010
A Linha Invisível
A felicidade trinou incompleta
excitando uma fome selvagem
nos olhares que se cruzam no instante
e logo fogem, em vertigem descontrolada,
para o conforto
neutro e sem compromisso
do horizonte.
A distância suaviza o tumulto
e o tempo submete com seus vagares
sentidos e sentimentos
que doutra forma seriam,
logo ali, motivo de perdição.
A continuidade lava-se da dúvida,
não é o incerto que se busca.
Reprimem-se desejos e sonhos
para cruzar sem atritos
os caminhos onde o infinito
se compromete no concreto,
e o absoluto é uma miragem
legada pelo medo ao que, certamente,
não será o futuro.
É incompleto o gesto, o maneirismo,
que patético se insinua no ar
e se julga imperativo no olhar alheio...
O corte é profundo
e a cicatriz, signo externo de regeneração,
degreda o sentimento inteiro
num poço impossível...
excitando uma fome selvagem
nos olhares que se cruzam no instante
e logo fogem, em vertigem descontrolada,
para o conforto
neutro e sem compromisso
do horizonte.
A distância suaviza o tumulto
e o tempo submete com seus vagares
sentidos e sentimentos
que doutra forma seriam,
logo ali, motivo de perdição.
A continuidade lava-se da dúvida,
não é o incerto que se busca.
Reprimem-se desejos e sonhos
para cruzar sem atritos
os caminhos onde o infinito
se compromete no concreto,
e o absoluto é uma miragem
legada pelo medo ao que, certamente,
não será o futuro.
É incompleto o gesto, o maneirismo,
que patético se insinua no ar
e se julga imperativo no olhar alheio...
O corte é profundo
e a cicatriz, signo externo de regeneração,
degreda o sentimento inteiro
num poço impossível...
sexta-feira, outubro 15, 2010
Lux Nulla
Todas as passagens encerram,
a luz apenas verte
pelas frestas que o tempo rasga
na madeira carcomida dos sentimentos.
O rosto no espelho
tomou-se de um rigor fictício;
como aquela estrada,
por onde desejo e sonho andaram,
se perdeu no nevoeiro
de uma memória acobardada.
É fixado o bater do sofrimento,
num ritmo pendular
latejando dorido e monótono,
diverso no seu alcance,
pleno nos medos que evoca...
Fecham-se as nuvens
esconde-se o sol
e, num instante, a soberba esvai-se;
na escuridão sinto-me aqui,
mas tal constatação é já inútil...
a luz apenas verte
pelas frestas que o tempo rasga
na madeira carcomida dos sentimentos.
O rosto no espelho
tomou-se de um rigor fictício;
como aquela estrada,
por onde desejo e sonho andaram,
se perdeu no nevoeiro
de uma memória acobardada.
É fixado o bater do sofrimento,
num ritmo pendular
latejando dorido e monótono,
diverso no seu alcance,
pleno nos medos que evoca...
Fecham-se as nuvens
esconde-se o sol
e, num instante, a soberba esvai-se;
na escuridão sinto-me aqui,
mas tal constatação é já inútil...
quarta-feira, outubro 13, 2010
Bem sei que talvez sim!...
Rumei junto àquele absurdo que se sente
como murmúrios de deuses esquecidos.
E o vento trouxe-me as promessas
que o amor lhe segreda baixinho.
São, estes segredos,
como pequenas flores
que ingenuamente se dão
ao calor incerto e intenso
de um sol traiçoeiro.
Habituei-me aos escolhos do caminho,
as barreiras são hoje trampolins
e as vozes desvairadas
nascendo enlutadas de si mesmas
na raiva incontrolada da turba,
ela sim controlada
por lixos diversos,
divertidos e potentes,
nojentos quanto baste,
são abafadas pela geometria dobrada
do meu amniótico espaço
de afastamento cúmplice.
Vejo os instantes já não como cardos
ou vastas extensões sequenciais e desoladas,
mas como pequenas descobertas discretas
onde a continuidade anui
de forma a curvar-se na sensualidade
de um infinito concebível!
São todos estes vales
que acolhem agora os meus jardins viçosos,
irrigam a paixão pelas coisas
e afastam o avanço cinzentão e estéril
da inconsequência e da estupidez...
É assim que procuro o sentido,
já não me escapa
o sacana!,
embora me fuja, constantemente...
É assim que me imagino,
possivelmente, feliz!...
como murmúrios de deuses esquecidos.
E o vento trouxe-me as promessas
que o amor lhe segreda baixinho.
São, estes segredos,
como pequenas flores
que ingenuamente se dão
ao calor incerto e intenso
de um sol traiçoeiro.
Habituei-me aos escolhos do caminho,
as barreiras são hoje trampolins
e as vozes desvairadas
nascendo enlutadas de si mesmas
na raiva incontrolada da turba,
ela sim controlada
por lixos diversos,
divertidos e potentes,
nojentos quanto baste,
são abafadas pela geometria dobrada
do meu amniótico espaço
de afastamento cúmplice.
Vejo os instantes já não como cardos
ou vastas extensões sequenciais e desoladas,
mas como pequenas descobertas discretas
onde a continuidade anui
de forma a curvar-se na sensualidade
de um infinito concebível!
São todos estes vales
que acolhem agora os meus jardins viçosos,
irrigam a paixão pelas coisas
e afastam o avanço cinzentão e estéril
da inconsequência e da estupidez...
É assim que procuro o sentido,
já não me escapa
o sacana!,
embora me fuja, constantemente...
É assim que me imagino,
possivelmente, feliz!...
terça-feira, outubro 12, 2010
Não Sei...
Na confluência das perspectivas
afunda-se a percepção,
quando as palavras querem gritar um sentimento,
ante um oceano de intrigas,
e apenas o vazio as confronta
com os seus silêncios escusos
e a sua memória esquecida.
Não se perde mais que a vontade
prostrada diante do inexorável poder da negação;
o sentido advém do sonho,
o sonho é o desejo
transmutado em visão
e nós apenas vemos
superficialmente.
afunda-se a percepção,
quando as palavras querem gritar um sentimento,
ante um oceano de intrigas,
e apenas o vazio as confronta
com os seus silêncios escusos
e a sua memória esquecida.
Não se perde mais que a vontade
prostrada diante do inexorável poder da negação;
o sentido advém do sonho,
o sonho é o desejo
transmutado em visão
e nós apenas vemos
superficialmente.
segunda-feira, outubro 11, 2010
A Cada Dia Que Por Nós Passa...
Em cada madrugada
uma parte do mundo redefine
as formas esquivas da esperança.
Um remoinho sufoca
e explode progressivamente
nos buliçosos caminhos do dia,
não traz a novidade,
ainda menos, o consolo.
Cresce num desassossego perene,
com a promessa mortal
de que o cinzento perdurará
para lá do horizonte adivinhado do futuro.
Mas existir é quebrar os impossíveis,
é eternizar um momento pela surpresa,
vencer a dor e a injustiça pela vontade,
é ser o que se sonha
e sonhar muito mais!...
O tempo escoa-se
em inutilidades amorfas,
em gestos de indiferença,
mas a esperança está logo ali
desafiando a nossa liberdade
a, finalmente, agir!
uma parte do mundo redefine
as formas esquivas da esperança.
Um remoinho sufoca
e explode progressivamente
nos buliçosos caminhos do dia,
não traz a novidade,
ainda menos, o consolo.
Cresce num desassossego perene,
com a promessa mortal
de que o cinzento perdurará
para lá do horizonte adivinhado do futuro.
Mas existir é quebrar os impossíveis,
é eternizar um momento pela surpresa,
vencer a dor e a injustiça pela vontade,
é ser o que se sonha
e sonhar muito mais!...
O tempo escoa-se
em inutilidades amorfas,
em gestos de indiferença,
mas a esperança está logo ali
desafiando a nossa liberdade
a, finalmente, agir!
sexta-feira, outubro 08, 2010
Condição
Lá do topo descem as águas
que já foram gelo.
Eu queria contar-te
o que essas águas
limpam em mim.
Mas as palavras não servem,
são como um leito desconfortável
para uma imagem de algodão doce
que enforma misteriosamente os meus sonhos.
Talvez o silêncio
seja a forma exacta
para transmitir a luz
que em mim sinto
e que se desprende do sal do mar,
do perfume das flores
e da emoção das lágrimas
que escorrem numa lentidão eloquente
por todas as veredas do mundo
partindo da perfeição possível das montanhas.
Os dias desprendem uma qualidade
quase intangível, subtilmente tangencial,
que nos beija e morde
erodindo o corpo
na exaltação sensual do desejo...
Acumula-se então um cansaço,
uma angústia indefinida,
como que brotando do chão,
como que entranhando na carne,
que ilude o essencial
da canção que embala a passagem dos instantes.
O ciclo quer eternizar-se
mas rompe-se no choro nocturno
desse deus enlameado
que fala incessantemente dentro de nós.
que já foram gelo.
Eu queria contar-te
o que essas águas
limpam em mim.
Mas as palavras não servem,
são como um leito desconfortável
para uma imagem de algodão doce
que enforma misteriosamente os meus sonhos.
Talvez o silêncio
seja a forma exacta
para transmitir a luz
que em mim sinto
e que se desprende do sal do mar,
do perfume das flores
e da emoção das lágrimas
que escorrem numa lentidão eloquente
por todas as veredas do mundo
partindo da perfeição possível das montanhas.
Os dias desprendem uma qualidade
quase intangível, subtilmente tangencial,
que nos beija e morde
erodindo o corpo
na exaltação sensual do desejo...
Acumula-se então um cansaço,
uma angústia indefinida,
como que brotando do chão,
como que entranhando na carne,
que ilude o essencial
da canção que embala a passagem dos instantes.
O ciclo quer eternizar-se
mas rompe-se no choro nocturno
desse deus enlameado
que fala incessantemente dentro de nós.
quinta-feira, outubro 07, 2010
O Salto da Imaginação
A imaginação dispersa-se
enamorando-se de hipóteses remotas;
talvez fisicamente inacessíveis ou impossíveis,
ilustradas, por exemplo,
num remotíssimo passado cósmico
que se observa no frágil brilho,
quase inconcebível,
das estrelas mais distantes.
É estranho este poder,
esta forma de viajar sem limites
pelas ideias do universo
partindo de dentro
de um quase nada...
enamorando-se de hipóteses remotas;
talvez fisicamente inacessíveis ou impossíveis,
ilustradas, por exemplo,
num remotíssimo passado cósmico
que se observa no frágil brilho,
quase inconcebível,
das estrelas mais distantes.
É estranho este poder,
esta forma de viajar sem limites
pelas ideias do universo
partindo de dentro
de um quase nada...
quarta-feira, outubro 06, 2010
Volição
És saudade,
esse sentir que entende o longínquo
como um desejo melancólico de estar perto
que constantemente se vê desviado, flui,
em truques da luz
e na geometria que habitamos,
enrolando e confundindo sentir, espaço e tempo...
A vontade
é então a força que anseia rasgar
o espaço das distâncias
e unir as diferenças
que o mundo insiste apartar;
é a vontade que se move
para que o Todo vibre naquele tom perfeito
que aplanará os defeitos
num tecido exacto,
contrariando a repulsão
de sentimentos descontrolados
e o atrito das contrariedades,
reduzindo a descontinuidade nefasta dos preconceitos.
O Mundo entoa-se enquanto saudade e vontade
numa disputa incessante e desigual entre o Ser e o Devir,
mas encanta-se, emociona-se, sente-se,
naquela simples imagem
de duas mãos
que se dão, sem mais nada,
uma à outra.
segunda-feira, outubro 04, 2010
O Sentir do Tempo
O Tempo é aquela ideia do mundo
que se inventou na Consciência,
dotando os fenómenos
por ela discernidos,
de um antes de um depois.
Lê-se após isso
naquilo que se sente perder
em todos os sítios
onde a impaciência se eleva acima do tolerável,
é pois uma medição de egoísmo intolerante
mas também de urgência, ausências e dor.
Mais além,
o Tempo transubstancia-se nas memórias,
aquela trama ilusória
que alimenta os labirintos do futuro,
ensinando a um caprichoso aqui e agora,
pleno das incertezas do viver,
as lições do que foi
e a esperança que os sonhos projectam...
Depois
este Tempo quebrará
logo que a Consciência cesse;
e a matéria,
nos braços de um outro tempo
- inutilmente preciso,
inutilmente referencial,
embora precioso motor -
fluirá sem haver disso sentimento,
pois não há mais emoção,
nenhum pensamento,
que se deslumbre ante o seu subtil poder...
sexta-feira, outubro 01, 2010
Verdade Ingenuidade...
As palavras têm muitos dons,
dizem o que dizem
dizendo muito a uns,
menos a outros.
As palavras são como rios,
alimentam vida,
fazem e acompanham crescimentos,
acolhem a acutilância das dúvidas,
ilustram finais, felizes, tristes…
Mas, de quando em vez,
assumem caudais furiosamente transbordantes
e, mantendo intacta uma sublime beleza,
são como macabros abraços
asfixiando sem piedade
o que outrora acarinharam
em amoroso distanciamento...
Nestes momentos aflitivos,
não olvides a pureza
que brota
mesmo que transitoriamente naufragada,
daquela origem distante,
quase mágica,
que é a fonte...
dizem o que dizem
dizendo muito a uns,
menos a outros.
As palavras são como rios,
alimentam vida,
fazem e acompanham crescimentos,
acolhem a acutilância das dúvidas,
ilustram finais, felizes, tristes…
Mas, de quando em vez,
assumem caudais furiosamente transbordantes
e, mantendo intacta uma sublime beleza,
são como macabros abraços
asfixiando sem piedade
o que outrora acarinharam
em amoroso distanciamento...
Nestes momentos aflitivos,
não olvides a pureza
que brota
mesmo que transitoriamente naufragada,
daquela origem distante,
quase mágica,
que é a fonte...
quinta-feira, setembro 30, 2010
O meu bebé adormeceu... ssshhh...
A noite envolveu-te
serena e silenciosa,
e o teu rosto pequenino vai brilhando
na frágil luminosidade
que visivelmente te isola
de papões invisíveis,
com a perfeição fantasiosa
dos anjinhos...
ssshhh...
Estou aqui, pertinho,
suspirando devagarinho
junto com o meu desejo
de ser companhia, amorosa e atenta,
perfeitamente ligado
ao perfeito ciclo do teu perfeito respirar...
Tens agora, sob os teus olhinhos adormentados,
sonhos próprios dos bebés
onde eu, sonhando acordado,
espero ser sonhado,
guiando-te pela mãozinha
e iluminando os teus passitos que hesitam de curiosos
com a firmeza de um sorriso
e depois, de mais um beijinho...
Mas, mais que tudo isto que aqui digo,
sonho estar, em todos os teus caminhos,
agora e depois,
acordados ou sonhados,
não tanto como um deus protector,
mas sempre como teu pai amoroso.
serena e silenciosa,
e o teu rosto pequenino vai brilhando
na frágil luminosidade
que visivelmente te isola
de papões invisíveis,
com a perfeição fantasiosa
dos anjinhos...
ssshhh...
Estou aqui, pertinho,
suspirando devagarinho
junto com o meu desejo
de ser companhia, amorosa e atenta,
perfeitamente ligado
ao perfeito ciclo do teu perfeito respirar...
Tens agora, sob os teus olhinhos adormentados,
sonhos próprios dos bebés
onde eu, sonhando acordado,
espero ser sonhado,
guiando-te pela mãozinha
e iluminando os teus passitos que hesitam de curiosos
com a firmeza de um sorriso
e depois, de mais um beijinho...
Mas, mais que tudo isto que aqui digo,
sonho estar, em todos os teus caminhos,
agora e depois,
acordados ou sonhados,
não tanto como um deus protector,
mas sempre como teu pai amoroso.
quarta-feira, setembro 29, 2010
Pequeno Conto (de) Infantil(idade)...
Existiam naquela terra dois anões que, conta-se, eram também irmãos. Um anão branco e um anão cinzento. Quando interpelados separadamente, o anão branco mostrava-se feliz e sonhador, o cinzento resignado e realista.
Certo dia chegou um grupo de saltimbancos e um circo rapidamente se instalou. No meio da algazarra o anão branco sorriu e o anão cinzento respingou.
O anão branco chamava-se Luz e o anão cinzento Sombra. Os dois andavam sempre juntos. Não havia Luz sem Sombra. Não havia Sombra sem Luz. Completavam-se e eram muito amigos.
Ora, é contado que, de entre o tal grupo circense, se destacava uma bela e formosa rapariga a quem os pais haviam nomeado Discórdia. Nome apropriado, aliás, para esta história que vou contar.
Consta que Luz foi quem primeiro, digamos assim, iluminou a Discórdia e que logo após Sombra a quis envolver. Discórdia, não querendo nem um nem o outro, decidiu-se, de forma mesquinha, a separá-los e assim, conta-se, da intromissão da Discórdia entre Sombra e Luz ao mundo vieram as ignominiosas irmãs, as Trevas!...
Ora, Esperança, irmã inconformada da Discórdia e conhecedora das limitações sentimentais dos homens, sejam eles anões ou não, decidiu-se a ajudar. Esperança tocou então Sombra e fez-lhe lembrar Luz, as Trevas não gostaram muito, mas não mais conseguiram apagar Luz da cabeça de Sombra. Sombra sem Luz? Impossível!
Entretanto, Esperança soprou subtilmente, como só ela sabe fazer, um ventinho de saudade no ouvido de Luz e este, inevitavelmente, percebeu quanta falta Sombra lhe fazia.
As Trevas, como já disse, não gostaram nada e, queixaram-se à Discórdia
- Vem Discórdia, vem! Que a Esperança junta Luz e Sombra!
A Discórdia veio, furiosa!, tão furiosa que até as Trevas tremeram.
Esperança e Discórdia lutam, a luta dura até hoje, umas vezes a Esperança cede e as Trevas esvaziam o espaço de Luz e Sombra, outras vezes quebra um pouco a Discórdia e Luz abraça Sombra sorrindo.
É por causa disto que temos Dia e Noite, e é também por isto que a única forma de separar Luz e Sombra, definhando a Esperança, é ceder aos caprichos e à força da Discórdia e das Trevas...
Certo dia chegou um grupo de saltimbancos e um circo rapidamente se instalou. No meio da algazarra o anão branco sorriu e o anão cinzento respingou.
O anão branco chamava-se Luz e o anão cinzento Sombra. Os dois andavam sempre juntos. Não havia Luz sem Sombra. Não havia Sombra sem Luz. Completavam-se e eram muito amigos.
Ora, é contado que, de entre o tal grupo circense, se destacava uma bela e formosa rapariga a quem os pais haviam nomeado Discórdia. Nome apropriado, aliás, para esta história que vou contar.
Consta que Luz foi quem primeiro, digamos assim, iluminou a Discórdia e que logo após Sombra a quis envolver. Discórdia, não querendo nem um nem o outro, decidiu-se, de forma mesquinha, a separá-los e assim, conta-se, da intromissão da Discórdia entre Sombra e Luz ao mundo vieram as ignominiosas irmãs, as Trevas!...
Ora, Esperança, irmã inconformada da Discórdia e conhecedora das limitações sentimentais dos homens, sejam eles anões ou não, decidiu-se a ajudar. Esperança tocou então Sombra e fez-lhe lembrar Luz, as Trevas não gostaram muito, mas não mais conseguiram apagar Luz da cabeça de Sombra. Sombra sem Luz? Impossível!
Entretanto, Esperança soprou subtilmente, como só ela sabe fazer, um ventinho de saudade no ouvido de Luz e este, inevitavelmente, percebeu quanta falta Sombra lhe fazia.
As Trevas, como já disse, não gostaram nada e, queixaram-se à Discórdia
- Vem Discórdia, vem! Que a Esperança junta Luz e Sombra!
A Discórdia veio, furiosa!, tão furiosa que até as Trevas tremeram.
Esperança e Discórdia lutam, a luta dura até hoje, umas vezes a Esperança cede e as Trevas esvaziam o espaço de Luz e Sombra, outras vezes quebra um pouco a Discórdia e Luz abraça Sombra sorrindo.
É por causa disto que temos Dia e Noite, e é também por isto que a única forma de separar Luz e Sombra, definhando a Esperança, é ceder aos caprichos e à força da Discórdia e das Trevas...
terça-feira, setembro 28, 2010
Desgaste
As insinuações do desejo e da rejeição
enfeitam-se de incontáveis formas;
diáfanos mantos, levíssimos robes
insuportavelmente sensuais,
deixando entrever aquele pouco
que o sonho agigantará,
e que para sempre nos será vedado,
e que nesse momento preciso nos fará loucos...
Todas as paixões encerram
um sentir desmedido da dor,
e esta, nos mais felizes encontros,
transmuta libertando-se em êxtase
num caudal imparável prometendo imortalidade
mas quebrando-se inevitavelmente,
com um estrondo externamente imperceptível,
na rocha dos nossos impossíveis.
A perda resolve-se em silêncio
convocando os pedaços de sentimento
banidos pela força dos argumentos sensatos,
respirando-lhes a urgência
e calando-lhes os queixumes.
Alargam-se, por fim e mais um pouco, as infames fronteiras da indiferença.
O Mundo pode ser constante renovação,
mas o coração, sempre generoso, não se renovará eternamente...
enfeitam-se de incontáveis formas;
diáfanos mantos, levíssimos robes
insuportavelmente sensuais,
deixando entrever aquele pouco
que o sonho agigantará,
e que para sempre nos será vedado,
e que nesse momento preciso nos fará loucos...
Todas as paixões encerram
um sentir desmedido da dor,
e esta, nos mais felizes encontros,
transmuta libertando-se em êxtase
num caudal imparável prometendo imortalidade
mas quebrando-se inevitavelmente,
com um estrondo externamente imperceptível,
na rocha dos nossos impossíveis.
A perda resolve-se em silêncio
convocando os pedaços de sentimento
banidos pela força dos argumentos sensatos,
respirando-lhes a urgência
e calando-lhes os queixumes.
Alargam-se, por fim e mais um pouco, as infames fronteiras da indiferença.
O Mundo pode ser constante renovação,
mas o coração, sempre generoso, não se renovará eternamente...
Palavras...
- Estava aqui à procura da palavra certa, quando tal coisa não há. Existem momentos, raros, que parecem emprestar alguma perfeição às palavras, quando passam estas naufragam inevitavelmente no tumulto tempestuoso dos oceanos dos contextos e das interpretações.
- Que dizes!?
- Precisamente...
- Que dizes!?
- Precisamente...
segunda-feira, setembro 27, 2010
Margens
Não procurem em mim postulados,
nem teoremas;
apenas argumentos de incerteza
na honestidade que as palavras
podem contar.
Existir é estender o entendimento
ao sentir do outro, um ser que nos é alheio,
e ousar nisso, uma ponte.
Todas as pontes carecem de margens,
pontos de outra forma desunidos
em diferenças dolorosas, mas também gloriosas,
diferenças tão somente,
espraiando-se entre paisagens e vontades
que se amam, odeiam e completam.
São por tal, estas pontes tentadas,
um conceito sagrado,
Escrituras sem Deus tacteando cegamente
o relevo esquivo e impossível
daquilo que sonhamos ser a Verdade.
E no fim, depois de tocados os extremos,
aquieta-se a inefável angústia,
a suprema náusea,
que nasce só
na solidão que mora
em cada um de nós.
sexta-feira, setembro 24, 2010
Subtileza?
É com estranheza que sinto
na brisa matinal
o suave olor da esperança
desfazendo-se no enxofre
da reprovação.
É como se uma conspiração
se revelasse
e um sentimento de impotência
me soprasse ao ouvido
uma nebulosa definição
dos medos que devo sentir...
São subtis as tramas
que nos envolvem,
como subtis são
os dons que as revelam.
quinta-feira, setembro 23, 2010
Sentido III
O Belo e o Justo
não se amam,
e a sua passagem por entre os elementos,
ignota,
apenas se substancia
nos passos
da Consciência,
ora ponderados, ora exaltados,
perpetuamente atolados em incerteza.
Um processo cósmico,
desprovido do mais ínfimo pudor,
sentir ou pensamento,
promoveu um dos seus frutos
ao penar da sabedoria
e, por entre labirintos e abismos,
permite o sonho,
o sonho
que tudo faça sentido...
quarta-feira, setembro 22, 2010
Sentido II
Morrem as flores
e os seus pólenes caem
na infertilidade dura do cimento.
Os espaços cobrem-se de um cinzento urbano
descolorindo os sonhos
e engolindo a esperança.
Todos os momentos se cumprem numa tonalidade
e ainda assim
perdemos a cor
em toda a sua exuberância etérea,
estando imersos nas efémeras tristezas
que compõem a paleta dos dias...
A liberdade é também assumir a coragem
de ousar um Futuro colorido
confundidos que estamos
neste Presente sem cores...
Sentido
Reduzes as palavras ao sentido do mundo
e o sentido do mundo não existe
pois o mundo não se pensa,
nem fala,
nem escreve,
nem espera pelo amanhã.
O que sobra?
Sobram as palavras,
e o nosso pobre entendimento delas
e do mundo,
em todas as suas omissões,
interpretações,
loucura,
e tudo o resto,
harmonizando o diálogo impossível
entre coração e razão,
dando um frágil, mas profundo, sentido humano
ao que em si mesmo
e fora de todos nós
não tem nem faz
sentido nenhum!
e o sentido do mundo não existe
pois o mundo não se pensa,
nem fala,
nem escreve,
nem espera pelo amanhã.
O que sobra?
Sobram as palavras,
e o nosso pobre entendimento delas
e do mundo,
em todas as suas omissões,
interpretações,
loucura,
e tudo o resto,
harmonizando o diálogo impossível
entre coração e razão,
dando um frágil, mas profundo, sentido humano
ao que em si mesmo
e fora de todos nós
não tem nem faz
sentido nenhum!
terça-feira, setembro 21, 2010
De um fôlego...
Fulaninho raíz de si mesmo é loucura que se perpetua soando distante a um uivo na noite que nunca se cansa de procurar o abrigo dos sãos nos olhos fechados da vendetta e do improviso excelso e pedante da mentira pensada na altura precisa em que te disseram adeus e tudo termina assim numa nuvem enganosa e num nevoeiro que não se dissipa para além dos desejos humedecidos pela incerteza no afã ecológico das árvores e das flores adeus então enquanto buscas pois nas intricadas florestas do teu pensamento lembrar-te de que nada pára até definitivamente morrer!
Sentimento de Mim
Descem as palavras
sobre aquele vale profundo
onde, agrilhoados,
dialogam os motes
dos meus medos
e das minhas crenças.
Estou só
e a torrente sem sentido
acomete-se de contextos
e soma interpretações
sem vestígios de sentimento,
sem remorso possível,
ignorando a compaixão.
E nesse tumulto,
origem enevoada para uma revolta
e um sentimento de ser,
amontoam-se penosamente os átomos
que substanciam
o meu conceito de mundo;
e a partilha, dorida e frágil,
promete uma esperança
à distância de um arco-íris
alimentado em desejos,
perplexidades,
fúrias,
exaltações,
devaneios,
multidões...
sobre aquele vale profundo
onde, agrilhoados,
dialogam os motes
dos meus medos
e das minhas crenças.
Estou só
e a torrente sem sentido
acomete-se de contextos
e soma interpretações
sem vestígios de sentimento,
sem remorso possível,
ignorando a compaixão.
E nesse tumulto,
origem enevoada para uma revolta
e um sentimento de ser,
amontoam-se penosamente os átomos
que substanciam
o meu conceito de mundo;
e a partilha, dorida e frágil,
promete uma esperança
à distância de um arco-íris
alimentado em desejos,
perplexidades,
fúrias,
exaltações,
devaneios,
multidões...
segunda-feira, setembro 20, 2010
O Nome do Desejo
Todas as metas se reduzem
ao odor que docemente te contorna,
como se dele se desprendesse
a tua definição.
E teu nome, qual flor,
se libertasse num amoroso espreguiçar
exalando num perfume irresistível
o sussurro do desejo,
até roçar subtil a ponta dos meus dedos...
Toda a respiração cessa
e o Silêncio reclama o momento,
frágil, temporário, etéreo
e, assim mesmo, eternamente perfeito...
sexta-feira, setembro 17, 2010
Pensa nisto...
O sol é indiferente a Bem e Mal
não se apoquenta com o que pensas;
é verdadeiro na sua luz
e sincero no seu calor,
mas não ama ninguém
nem se importa
e, sendo, para tantos,
motivo de felicidade,
não se pode sentir, ele mesmo,
feliz...
Ladainha Decrescente
De manhã a promessa
de ser mais logo,
depois se verá,
e entretanto
vou sendo
agora...
de ser mais logo,
depois se verá,
e entretanto
vou sendo
agora...
quinta-feira, setembro 16, 2010
Cicuta
Tomou-a acreditando que se libertaria e a liberdade que do gesto se desprendeu tornou inútil o esforço de ser livre pois prendeu-o, em definitivo, ao seu próprio fim, desconhecendo se o gesto originalmente livre, temporariamente libertador, libertou por fim aqueles que, sendo dos seus ou sendo dos outros, nele sentiram, sentem ou sentirão o conceito, a ideia de sacrifício, o ideal que o inspirou, e como consequência se verão forçados a torná-lo parte do futuro.
Acreditou, e isso, independentemente de todas as conjecturas, previsões ou censuras, melhorou uma parte do mundo.
quarta-feira, setembro 15, 2010
Dor
Um nevoeiro aperta-me os passos
e um labirinto assome, na aparência,
de uma eternidade dispersa;
da confusão urge
a necessidade do futuro...
No momento procuro paliativos
mas é inútil contrariar
esta dor presente;
o tempo, esse companheiro
alheio e analgésico,
amenizará a dor
em outros passos, outros nevoeiros,
outro dia
restando no meu caminho, qual rasto,
uma porção de fantasia,
uma porção de desejo,
um sentimento impossível...
Dúvida
Os momentos encerram
loucura e sanidade,
falando ao rebordo dos sonhos
enquanto o todo emite,
num continuado zunir,
a mensagem do início dos tempos
pressagiando, talvez, o seu fim...
Insistimos, e a busca
bebe de qualquer coisa
esquivamente fundamental,
talvez um deus ou uma certeza
para além de toda a dúvida...
Mas duvidar soma honestidade
e a dúvida não precisa de deuses,
não carece de nada,
para além do tempo
e de quem, em consciência, o viva.
loucura e sanidade,
falando ao rebordo dos sonhos
enquanto o todo emite,
num continuado zunir,
a mensagem do início dos tempos
pressagiando, talvez, o seu fim...
Insistimos, e a busca
bebe de qualquer coisa
esquivamente fundamental,
talvez um deus ou uma certeza
para além de toda a dúvida...
Mas duvidar soma honestidade
e a dúvida não precisa de deuses,
não carece de nada,
para além do tempo
e de quem, em consciência, o viva.
terça-feira, setembro 14, 2010
De Cervantes a Kafka
Não pretendo escrever um tratado, para tal não tenho habilitações suficientes (nem é minha ambição fazê-lo, pelo menos aqui), nem acrescentar qualquer ponto literário ou intelectual que porventura enriqueça a interpretação destas obras fundamentais da Cultura Ocidental; apenas quero escrevinhar umas ideias simples que me foram surgindo sobre o Quixote e sobre (talvez maioritariamente o Processo de) Kafka.
A minha tese é que o Ocidente andou à procura de Kafka desde que leu o Quixote. Este último, para além de ser um genial compêndio de sabedoria e uma caracterização sociológica da Europa crescendo do século XVI para o XVII, da Espanha em particular, centra-se na figura obviamente tresloucada de D. Quixote de la Mancha, figura anacrónica, patética e certamente anedótica de uma certa nobreza decadente e saudosista contemporânea de Cervantes. D. Quixote é então o mote que permite a Cervantes expor o seu subtil pensamento e o seu imenso conhecimento, tanto o intelectual como o mundano; Quixote representa, na minha certamente simplista tese, o quanto o individuo se pode alhear do que o rodeia, criar a sua "realidade" e vivê-la com tal intensidade e imersão que tudo o que se passa à sua volta se reduz ao seu mundo de sonho e à dimensão da sua "loucura"; a sua leitura ressurge pertinente, curiosamente, no mundo actual em que a Realidade Virtual se apresenta cada vez mais "à mão". Em Kafka, K., é pelo contrário o mote para contar a história do individuo, pelo menos na aparência normal, podemos dizer frio, que se confronta com a "loucura" burocrática e tecnocrata, onde o sentido das coisas se perdeu na mecânica incontrolada e esmagadora, ou pelo menos estranhamente arbitrária (para os mais paranóicos o termo adequado será, conspiratória...), do "Sistema".
Comum aos dois personagens é uma solidão fundamental, ambos estão desligados da "realidade" - Quixote porque enlouqueceu, K. porque o "Sistema" está louco. O sentimento Ocidental está então emparedado entre a loucura individual e a loucura da sociedade burocrática que foi evoluindo, talvez, para regrar e filtrar a loucura dos seus membros. Os casos patológicos, Quixote e o "Sistema" de K., documentam a precariedade em que vivemos, entre a loucura do indivíduo e a loucura da sociedade.
segunda-feira, setembro 13, 2010
Estudo
Ventos e labirintos
tormentas e confusas tramas
entrelaçam-se enquanto dor e esperança
num longo beijo apaixonado.
A luz dobra-se
na gravidade excessiva da emoção,
rasgando o espaço
onde se manifestam vontades
e registam reacções;
tudo o resto se sonha
enquanto dúvida
gerando novos desejos
com o sabor idoso
da curiosidade.
O Mundo nada sabe
da Consciência
e esta descobre-se
descobrindo, finalmente,
o Mundo...
tormentas e confusas tramas
entrelaçam-se enquanto dor e esperança
num longo beijo apaixonado.
A luz dobra-se
na gravidade excessiva da emoção,
rasgando o espaço
onde se manifestam vontades
e registam reacções;
tudo o resto se sonha
enquanto dúvida
gerando novos desejos
com o sabor idoso
da curiosidade.
O Mundo nada sabe
da Consciência
e esta descobre-se
descobrindo, finalmente,
o Mundo...
sábado, setembro 11, 2010
O Voo do Desejo
Reconheço certos ecos
como perto de um infinito,
perturbando a definição
de um longínquo plano
que por certo desconheço
e por onde, ainda mais certo,
me engano...
Múltiplos motes enlaçam a sorte
e os meus vícios escorrem
pelas escusas ruas da evidência;
e não será grande ciência
descobri-los brilhando,
em indecorosa inocência,
no reflexo imaculado dos teus olhos...
como perto de um infinito,
perturbando a definição
de um longínquo plano
que por certo desconheço
e por onde, ainda mais certo,
me engano...
Múltiplos motes enlaçam a sorte
e os meus vícios escorrem
pelas escusas ruas da evidência;
e não será grande ciência
descobri-los brilhando,
em indecorosa inocência,
no reflexo imaculado dos teus olhos...
sexta-feira, setembro 10, 2010
Sem Glória...
Sufoco lentamente
na aversão louca de ser gente,
e nos passos perdidos
que marcam os motivos doridos
de ser quase outro eu
num oblívio murmurado de Orfeu.
Não sou de modas,
e digo-te que sinto as cordas
amarrando a paixão
aos tumultos crescendo no coração...
Enlouqueço, finalmente,
na sanidade perversa que a mente
faz impor como aceite e boa,
e é assim que o dia segue
e é assim, que me magoa...
na aversão louca de ser gente,
e nos passos perdidos
que marcam os motivos doridos
de ser quase outro eu
num oblívio murmurado de Orfeu.
Não sou de modas,
e digo-te que sinto as cordas
amarrando a paixão
aos tumultos crescendo no coração...
Enlouqueço, finalmente,
na sanidade perversa que a mente
faz impor como aceite e boa,
e é assim que o dia segue
e é assim, que me magoa...
quinta-feira, setembro 09, 2010
Desert Rose
Movem-se as sombras
com a velocidade urgente
do desconhecido.
E desse mundo de sussurros
brotam órfãos e subtis,
os botões quase invisíveis
donde explodirão,
em violência amorosa,
as suaves pétalas da esperança.
com a velocidade urgente
do desconhecido.
E desse mundo de sussurros
brotam órfãos e subtis,
os botões quase invisíveis
donde explodirão,
em violência amorosa,
as suaves pétalas da esperança.
terça-feira, setembro 07, 2010
The Flower Blues
Existe um suave pranto
escondido por entre os véus
que acariciam os mais profundos segredos;
um espaço constrito
onde a dor é sagrada
e o sentido do futuro se constrói
nas memórias
e se sente, qual premonição,
no vento
trazido por vultos estrangeiros...
escondido por entre os véus
que acariciam os mais profundos segredos;
um espaço constrito
onde a dor é sagrada
e o sentido do futuro se constrói
nas memórias
e se sente, qual premonição,
no vento
trazido por vultos estrangeiros...
segunda-feira, setembro 06, 2010
Regressos...
O vazio enche-nos
com os ecos dos sentimentos
que ainda ontem
eram tudo.
O vento sibila
a presença incómoda
da solidão,
mais tarde, do Silêncio!...
E o mundo é
contínuo e indiferente
nos seus gumes doridos,
com ou sem percepção...
com os ecos dos sentimentos
que ainda ontem
eram tudo.
O vento sibila
a presença incómoda
da solidão,
mais tarde, do Silêncio!...
E o mundo é
contínuo e indiferente
nos seus gumes doridos,
com ou sem percepção...
sexta-feira, agosto 13, 2010
Argumentação Válida vs Natureza da Verdade
"[...]há um sentido no qual as proposições podem ser ditas verdadeiras ou falsas, e que todas as proposições são ou verdadeiras ou falsas. Que isto sucede com as proposições é quanto basta para caracterizar a natureza do raciocínio correcto. Mas é possível dizer que as proposições, que podem ser premissas em argumentos, podem ser verdadeiras (ou falsas) independentemente de ser possível saber-se se o são. Esta é a distinção entre algo ser verdadeiro e o pensar-se que o é. Há um sentido indisputável em que se concordaria que existe tal noção de verdade. Por exemplo, é verdade que as aranhas, geralmente, ou entram nas banheiras trepando pelo ralo, ou caem nelas depois de, rastejando pelo bordo, serem incapazes de trepar pelas superfícies lisas. A primeira é uma crença comum, mas de facto é a última que é verdadeira. A noção de raciocínio correcto não depende de nenhuma noção de verdade, apenas de que há uma."
John Shand,
Arguing Well
Tradução de Artur Polónio retirada daqui
John Shand,
Arguing Well
Tradução de Artur Polónio retirada daqui
quinta-feira, agosto 12, 2010
Silêncio
A manhã reflecte-se como solidão,
o sol brilha indiferente ao sentimento
que por aqui finda e já além freme...
E das muitas ousadias do silêncio
assome o cansaço ab-rogando a vontade
e entranha no desejo toda a urgência e
toda a inquietação.
O mundo não cessa, e tanto sussurra quanto ruge,
e enquanto a morte avança
rodeando a vida num aperto angustiante
esta, em suas múltiplas subtilezas, seduz
numa encenação pueril
e paradoxalmente potente
todas as formas que sonham
e todas as formas que amam...
o sol brilha indiferente ao sentimento
que por aqui finda e já além freme...
E das muitas ousadias do silêncio
assome o cansaço ab-rogando a vontade
e entranha no desejo toda a urgência e
toda a inquietação.
O mundo não cessa, e tanto sussurra quanto ruge,
e enquanto a morte avança
rodeando a vida num aperto angustiante
esta, em suas múltiplas subtilezas, seduz
numa encenação pueril
e paradoxalmente potente
todas as formas que sonham
e todas as formas que amam...
terça-feira, agosto 10, 2010
segunda-feira, agosto 09, 2010
Do Sonho e da Memória nas Palavras
Enquanto viagens
as palavras
chamam-se promessas
de tudo o que se pode vencer,
e veneram-se enquanto certezas
com a pompa efémera
do entusiasmo.
Logo que cessa o caminho
e o pó das sandálias
assenta sem glória
no conforto do regresso,
as palavras entregam-se ao desejo
e são agora também sonho,
mais logo, serão memórias...
As palavras contornam a morte
trazendo consigo,
numa quase real fantasia,
os perfumes, os arremedos
e os gestos concretos
de outra forma extintos
na multidão dos passos,
das esperanças
e dos caminhos possíveis...
as palavras
chamam-se promessas
de tudo o que se pode vencer,
e veneram-se enquanto certezas
com a pompa efémera
do entusiasmo.
Logo que cessa o caminho
e o pó das sandálias
assenta sem glória
no conforto do regresso,
as palavras entregam-se ao desejo
e são agora também sonho,
mais logo, serão memórias...
As palavras contornam a morte
trazendo consigo,
numa quase real fantasia,
os perfumes, os arremedos
e os gestos concretos
de outra forma extintos
na multidão dos passos,
das esperanças
e dos caminhos possíveis...
quinta-feira, agosto 05, 2010
Sentir Urgente
A dor insinua-se subtil
a partir das frestas
absurdas da minha decência...
E é uma voz decadente
que por mim fala
quando falho daquelas mil
infames maneiras
que de mim tão bem conheces...
Pudesse ser luz
e seria um pedaço de esperança,
uma dança, de mais palavras,
cores, sons e carícias!
Assim sendo, sou apenas sombra
e, ao invés de ser e sentir
enquanto prolongado carinho,
sou um ligeiro estorvo,
ou talvez menos que isso
e seja somente a lembrança
daquele inconsequente sonho mau
que em inadvertida felicidade
se esquece
logo após acordar.
a partir das frestas
absurdas da minha decência...
E é uma voz decadente
que por mim fala
quando falho daquelas mil
infames maneiras
que de mim tão bem conheces...
Pudesse ser luz
e seria um pedaço de esperança,
uma dança, de mais palavras,
cores, sons e carícias!
Assim sendo, sou apenas sombra
e, ao invés de ser e sentir
enquanto prolongado carinho,
sou um ligeiro estorvo,
ou talvez menos que isso
e seja somente a lembrança
daquele inconsequente sonho mau
que em inadvertida felicidade
se esquece
logo após acordar.
quarta-feira, julho 28, 2010
Vontade
Não uses as palavras
como adagas mortais,
nem faças da dor,
em prosa definitiva,
uma mecânica descrição
do desespero.
Liberta o que sentes
como a luz
que rasga as trevas na alvorada
qual radiosa imagem de liberdade;
ou a escuridão,
que amorosamente
supre o fulgor do sol,
abraçando devagarinho
as formas que sentem
mais todas as suas sombras.
como adagas mortais,
nem faças da dor,
em prosa definitiva,
uma mecânica descrição
do desespero.
Liberta o que sentes
como a luz
que rasga as trevas na alvorada
qual radiosa imagem de liberdade;
ou a escuridão,
que amorosamente
supre o fulgor do sol,
abraçando devagarinho
as formas que sentem
mais todas as suas sombras.
terça-feira, julho 27, 2010
O Tempo (que) urge
A urgência dos relógios
marca-nos os Sonhos
com a fúria áscua
do Presente.
Mas no mesmo mundo
onde o afogadilho dos ponteiros
seca as pétalas da esperança,
crescem rosas
em jardins viçosos
e o seu perfume,
frágil e temporário,
é testemunho do Bem
que, é certo,
algures
nos espera...
marca-nos os Sonhos
com a fúria áscua
do Presente.
Mas no mesmo mundo
onde o afogadilho dos ponteiros
seca as pétalas da esperança,
crescem rosas
em jardins viçosos
e o seu perfume,
frágil e temporário,
é testemunho do Bem
que, é certo,
algures
nos espera...
sexta-feira, julho 23, 2010
Venho daqui
Como gotas
caem as palavras
com a cadência
ritmo
de quem deseja
das coisas
os nomes
e substância.
O mundo vive-se
nesta distância
entre sonhos
e caminhos.
caem as palavras
com a cadência
ritmo
de quem deseja
das coisas
os nomes
e substância.
O mundo vive-se
nesta distância
entre sonhos
e caminhos.
terça-feira, julho 20, 2010
segunda-feira, julho 19, 2010
O meu Silêncio
Sou esta viagem sem requintes,
sem dotes nem substância;
sou aquela ideia,
que se fez dor abandonada
por todos os olhos que amo...
Oiço agora das pedras do caminho
um lamento sumido, quase inaudível
no seu distanciamento sereno e perene,
falando-me de todas as histórias da solidão;
e nessa confusão de culpas e omissões,
conspiração entre dúvidas e certezas,
vão tombando sem estrondo,
como folhas de Outono,
as despudoradas máscaras
que, lá fora, no mundo,
acoitam ainda
a minha vergonha.
sem dotes nem substância;
sou aquela ideia,
que se fez dor abandonada
por todos os olhos que amo...
Oiço agora das pedras do caminho
um lamento sumido, quase inaudível
no seu distanciamento sereno e perene,
falando-me de todas as histórias da solidão;
e nessa confusão de culpas e omissões,
conspiração entre dúvidas e certezas,
vão tombando sem estrondo,
como folhas de Outono,
as despudoradas máscaras
que, lá fora, no mundo,
acoitam ainda
a minha vergonha.
terça-feira, julho 13, 2010
Cá em baixo
Os meus absurdos são cristalina evidência
da minha insanidade absoluta...
Existem loucos que cantam
não sou um deles.
De todos quantos olham o azul do céu
sou o que do ponto mais baixo o faz,
por isso toda a luz
sinto-a enquanto bênção.
E ao calor do sol sinto-o mais
ou talvez não.
O Destino não existe,
mas a sua ilusão não deixa de magoar
e toda a dor
é um passo implacavelmente lúcido
em direcção
à morte...
da minha insanidade absoluta...
Existem loucos que cantam
não sou um deles.
De todos quantos olham o azul do céu
sou o que do ponto mais baixo o faz,
por isso toda a luz
sinto-a enquanto bênção.
E ao calor do sol sinto-o mais
ou talvez não.
O Destino não existe,
mas a sua ilusão não deixa de magoar
e toda a dor
é um passo implacavelmente lúcido
em direcção
à morte...
segunda-feira, julho 12, 2010
Medidas
A minha medida de ilusão faz-se de olhar,
daqueles que vejo, daqueles que sinto verem-me,
de quantos de mim se afastam, e de todos os outros.
E de ninguém...
A minha medida de vazio enche-se de ausências,
das que me entristecem, das que me negam,
de quantas de mim arrancam pedacinhos de esperança.
E mais nada...
A minha medida de solidão escreve-se nas palavras,
das que sonhei ditas, das que não foram escritas,
de quantas, e são tantas, que não disse e não me disseram.
E o silêncio...
A minha medida de futuro rasga-se na minha pele,
nas rugas do tempo, nas carícias ainda possíveis
de quantos momentos que implicam, ainda, o desconhecimento.
E a morte...
daqueles que vejo, daqueles que sinto verem-me,
de quantos de mim se afastam, e de todos os outros.
E de ninguém...
A minha medida de vazio enche-se de ausências,
das que me entristecem, das que me negam,
de quantas de mim arrancam pedacinhos de esperança.
E mais nada...
A minha medida de solidão escreve-se nas palavras,
das que sonhei ditas, das que não foram escritas,
de quantas, e são tantas, que não disse e não me disseram.
E o silêncio...
A minha medida de futuro rasga-se na minha pele,
nas rugas do tempo, nas carícias ainda possíveis
de quantos momentos que implicam, ainda, o desconhecimento.
E a morte...
Existir...
Existe uma escarpa, na minha montanha,
de onde apenas a morte murmura,
e mesmo que o som do fim dos meus dias
desça desse pináculo impossível,
continuarei acreditando que o mundo,
para mim, não irá acabar...
de onde apenas a morte murmura,
e mesmo que o som do fim dos meus dias
desça desse pináculo impossível,
continuarei acreditando que o mundo,
para mim, não irá acabar...
terça-feira, junho 29, 2010
Um Estranho numa Terra Estranha - Todos nós...
Estar aqui, rodeado de estranhos, define a essência de ser português, tanto como define a essência de ser chinês ou guineense; todos somos uma forma de solidão, uma voz isolada entre perplexidades incómodas e acomodações reconfortantes. Todos somos, é uma questão de honestidade, filhos que esperam por um carinho de mãe, loucos ardendo por um beijo apaixonado, por uma carícia de alguém amado, ou desejado, mulheres e homens sisudos que se derretem num riso estridente, ou no sorriso luminoso, de um filho.
No fim das contas, não somos tão diferentes assim.
No fim das contas, não somos tão diferentes assim.
sexta-feira, junho 25, 2010
Que dizes?
Os sentimentos que vês são meus
tal como estas palavras quando
as escrevi, mas são tantos véus
com que o mundo subtil vai enleando
quem se dispõe a despir preconceitos,
que apenas alguns, poucos eleitos,
cantarão o sentir essencial
das coisas, sem receios nem mal...
tal como estas palavras quando
as escrevi, mas são tantos véus
com que o mundo subtil vai enleando
quem se dispõe a despir preconceitos,
que apenas alguns, poucos eleitos,
cantarão o sentir essencial
das coisas, sem receios nem mal...
quinta-feira, junho 24, 2010
Angústia
Todos os dias por aqui passo
e aqui fica de mim uma parte,
um sonho caído
ignorado por quem por ele passa;
porque o mundo é assim mesmo,
como brisa suave
ou vento belicoso,
dispersa com indiferença
as folhas secas
onde a vida despudoradamente inscreveu,
o rol dos meus sonhos e das minhas fraquezas.
e aqui fica de mim uma parte,
um sonho caído
ignorado por quem por ele passa;
porque o mundo é assim mesmo,
como brisa suave
ou vento belicoso,
dispersa com indiferença
as folhas secas
onde a vida despudoradamente inscreveu,
o rol dos meus sonhos e das minhas fraquezas.
terça-feira, junho 15, 2010
Digo-te assim...
Faço-me vontade de acreditar
que todas estas ideias devassas
são, no final das contas, não desgraças
mas caminhos tortos para te amar...
Sei que em todos os reflexos te vejo,
ora como miragem, depois beijo,
e nos teus olhos invoco os sentidos
dos meus passos, os certos e os perdidos...
que todas estas ideias devassas
são, no final das contas, não desgraças
mas caminhos tortos para te amar...
Sei que em todos os reflexos te vejo,
ora como miragem, depois beijo,
e nos teus olhos invoco os sentidos
dos meus passos, os certos e os perdidos...
terça-feira, junho 01, 2010
Os meus espaços são como memórias dos teus passos
O vazio rouba-me espaço
e expande um inexorável
paradoxo em cada passo,
transformando-se em notável
mesura da vacuidade
do meu frágil sentimento.
Fica presente o momento
que reprime sem piedade
as cores do meu desejo...
Sobejará na memória
o perfume de um teu beijo,
feliz, selando a história.
e expande um inexorável
paradoxo em cada passo,
transformando-se em notável
mesura da vacuidade
do meu frágil sentimento.
Fica presente o momento
que reprime sem piedade
as cores do meu desejo...
Sobejará na memória
o perfume de um teu beijo,
feliz, selando a história.
quinta-feira, maio 27, 2010
O Apóstata
Juliano tomba, cai da sua montada,
a garganta fatalmente trespassada.
Jaz por terra, corpo quebrado, sem tino,
adágio miserável de um destino
pronunciado nos versos das Sibilas...
O Cordeiro extingue o Óptimo do mundo
adormentando mentes já esquecidas
da velha glória que no mais profundo
dos sentidos se julgava imperecível!
Este anacrónico cadáver decreta,
desprovido de aforismo inesquecível,
quão efémera se revela a incerta
digressão que os homens afanosamente
alicerçam sobre os escombros pretéritos...
Cessaram as vozes de antanho e seus méritos,
assome um Pai num futuro diferente.
a garganta fatalmente trespassada.
Jaz por terra, corpo quebrado, sem tino,
adágio miserável de um destino
pronunciado nos versos das Sibilas...
O Cordeiro extingue o Óptimo do mundo
adormentando mentes já esquecidas
da velha glória que no mais profundo
dos sentidos se julgava imperecível!
Este anacrónico cadáver decreta,
desprovido de aforismo inesquecível,
quão efémera se revela a incerta
digressão que os homens afanosamente
alicerçam sobre os escombros pretéritos...
Cessaram as vozes de antanho e seus méritos,
assome um Pai num futuro diferente.
sexta-feira, maio 21, 2010
Dúvida
Buscas a segurança da certeza,
quando a dúvida, em toda a sua beleza,
é mais certa em ti e no resto do mundo,
talvez por pressentires que no fundo
todo o universo apenas te interessa
enquanto proscénio por onde os dias
se vão escoando sem muita pressa,
alheados dos sonhos e magias
que o nosso pueril sentido inventa...
O silêncio e o vazio são como vastos
cúmplices dos nossos escassos
momentos, e o que então nos alimenta,
mais que quaisquer sonhadas conclusões,
é o próprio sonhar, são as emoções...
quando a dúvida, em toda a sua beleza,
é mais certa em ti e no resto do mundo,
talvez por pressentires que no fundo
todo o universo apenas te interessa
enquanto proscénio por onde os dias
se vão escoando sem muita pressa,
alheados dos sonhos e magias
que o nosso pueril sentido inventa...
O silêncio e o vazio são como vastos
cúmplices dos nossos escassos
momentos, e o que então nos alimenta,
mais que quaisquer sonhadas conclusões,
é o próprio sonhar, são as emoções...
quinta-feira, maio 20, 2010
Dor Minimal
Por vezes sinto-me
gotas quebrando,
em terra árida;
morte toando
neste finito
acontecer
que somos nós...
gotas quebrando,
em terra árida;
morte toando
neste finito
acontecer
que somos nós...
terça-feira, maio 18, 2010
Mentira
Envolve-me um sentimento de mentira
uma ilusão construída sobre dores
diversas e assim fatalmente mantida
qual arco-íris desprovido das suas cores...
A canção do mundo é também feita em tons
de singela alegria, com aquele jeito
das coisas simples, de momentos tão bons
como a suavidade perfeita de um beijo
aquietando na alma uma qualquer ferida...
Mas é depois que o desespero tempera,
num choro de felicidade perdida,
o momento em que a dor destrona a espera
descobrindo o engodo de ser feliz
na crueza final do que o teu olhar diz…
uma ilusão construída sobre dores
diversas e assim fatalmente mantida
qual arco-íris desprovido das suas cores...
A canção do mundo é também feita em tons
de singela alegria, com aquele jeito
das coisas simples, de momentos tão bons
como a suavidade perfeita de um beijo
aquietando na alma uma qualquer ferida...
Mas é depois que o desespero tempera,
num choro de felicidade perdida,
o momento em que a dor destrona a espera
descobrindo o engodo de ser feliz
na crueza final do que o teu olhar diz…
sexta-feira, maio 14, 2010
Condição
São impossíveis as palavras
que quero que oiças e por isso
não as direi, mas é preciso
que saibas o quanto são raras
as formas como sou lamento...
Envolve-me então um pensamento
uma vigorosa vontade
de me levantar para além
das vãs fronteiras da vaidade
e num estonteado vai e vem,
gritar em humilde exposição,
as falhas do meu coração!...
Todos os meus vícios brotam,
de uma imagem apaixonada
onde se prologam e esgotam
em sincero e triste discurso
as metamorfoses do nada
em que me desfaço confuso...
Perdoa-me este balbuciar
patético e desiludido
um continuado mal-estar
onde o sentimento diluído
está, entre o que hoje me faz
e o que tudo o resto desfaz...
que quero que oiças e por isso
não as direi, mas é preciso
que saibas o quanto são raras
as formas como sou lamento...
Envolve-me então um pensamento
uma vigorosa vontade
de me levantar para além
das vãs fronteiras da vaidade
e num estonteado vai e vem,
gritar em humilde exposição,
as falhas do meu coração!...
Todos os meus vícios brotam,
de uma imagem apaixonada
onde se prologam e esgotam
em sincero e triste discurso
as metamorfoses do nada
em que me desfaço confuso...
Perdoa-me este balbuciar
patético e desiludido
um continuado mal-estar
onde o sentimento diluído
está, entre o que hoje me faz
e o que tudo o resto desfaz...
quarta-feira, maio 12, 2010
Amor Sôfrego
Procura-me na luz, procura-me em tudo,
estarei lá, onde tu queiras, prometo...
Mas se não estiver terás como certo
que nunca mais serei feliz neste mundo...
Agora perdoa-me, porque sou fraco,
e beija-me com toda a urgência do tempo
como se fossemos apenas momento,
como se aos dois sorvesses, de um só trago!
estarei lá, onde tu queiras, prometo...
Mas se não estiver terás como certo
que nunca mais serei feliz neste mundo...
Agora perdoa-me, porque sou fraco,
e beija-me com toda a urgência do tempo
como se fossemos apenas momento,
como se aos dois sorvesses, de um só trago!
segunda-feira, maio 10, 2010
Todas estas nossas noções,
do tempo, do amor e da morte
são óbvios véus, claras ilusões,
versos sem alento nem sorte,
lançados ao mundo feroz
que nos vai sonegando o fôlego.
E se é nesse cosmos que nós
sentimos o desejo sôfrego,
uma desmedida vontade
de cantar fogo e liberdade,
de gritar contra o vento
amo-te!, e quero-te!, mais
que a tudo! É então o momento,
na subtil medição dos ais,
de todo o universo nos dar
uma jura de luz e de paz!...
do tempo, do amor e da morte
são óbvios véus, claras ilusões,
versos sem alento nem sorte,
lançados ao mundo feroz
que nos vai sonegando o fôlego.
E se é nesse cosmos que nós
sentimos o desejo sôfrego,
uma desmedida vontade
de cantar fogo e liberdade,
de gritar contra o vento
amo-te!, e quero-te!, mais
que a tudo! É então o momento,
na subtil medição dos ais,
de todo o universo nos dar
uma jura de luz e de paz!...
sexta-feira, maio 07, 2010
Forçam-me o travo amargo do cansaço,
como se o mundo, indiferente ao meu passo,
gritasse sem pudor o meu obituário
perante a indiferença dos que vivos
de mim fizeram morto solitário.
Sou agora uma sombra entre os esquecidos,
desmemoriada presença sem fé,
solidão arrastada entre os labirintos
que a morte no esquecimento lê...
Antes fui génio de sonhos famintos
num passado de vontade e certeza
tentei enlear Átropos em seus fios,
mas é Láquesis com toda a sageza
que me vai enredando agora nos frios
caminhos por onde enfim sou levado...
E tudo quanto quis, foi ser amado!
como se o mundo, indiferente ao meu passo,
gritasse sem pudor o meu obituário
perante a indiferença dos que vivos
de mim fizeram morto solitário.
Sou agora uma sombra entre os esquecidos,
desmemoriada presença sem fé,
solidão arrastada entre os labirintos
que a morte no esquecimento lê...
Antes fui génio de sonhos famintos
num passado de vontade e certeza
tentei enlear Átropos em seus fios,
mas é Láquesis com toda a sageza
que me vai enredando agora nos frios
caminhos por onde enfim sou levado...
E tudo quanto quis, foi ser amado!
quinta-feira, maio 06, 2010
O Péssimo tranformado em "ismo"...
Em certas alturas o tormento deixa de ser derivado dos sucedâneos do verbo sentir para ser enfim um acentuado, desolador e contínuo cansaço.
Entre a realidade e o sonho somos apenas formas diversas de desilusão.
Entre a realidade e o sonho somos apenas formas diversas de desilusão.
segunda-feira, maio 03, 2010
Indecisões
Sentou-se, longos anos,
frente a imagens, imaginárias...
E sem memória nem danos,
sonhou cousas visionárias
sem as dizer, partilhando
somente o simples desmando
das palavras que não disse.
Fosse esse o único deslize,
não foi, e hesitou no mal
seu constante companheiro
numa luta desigual
ignorando o verdadeiro
sentido do sentimento...
A dúvida é são alimento,
mas jamais se compadece
de quem, na apatia, se esquece...
frente a imagens, imaginárias...
E sem memória nem danos,
sonhou cousas visionárias
sem as dizer, partilhando
somente o simples desmando
das palavras que não disse.
Fosse esse o único deslize,
não foi, e hesitou no mal
seu constante companheiro
numa luta desigual
ignorando o verdadeiro
sentido do sentimento...
A dúvida é são alimento,
mas jamais se compadece
de quem, na apatia, se esquece...
quarta-feira, abril 28, 2010
Devoto
Recordas-te de quando em criança
sentias felicidade na brisa
da Primavera e que a esperança
se mostrava uma coisa precisa
por entre risos e brincadeiras?
Eras ser de coisas verdadeiras,
um espaço sem fim de vontade
onde se encantava a liberdade!
Diz-me agora que te faz chorar,
para que seque tão tristes lágrimas
e com meus beijos te vá tocar
no sítio onde guardas as últimas
dores do teu gentil sentimento;
seremos um só - tu, eu e o momento...
sentias felicidade na brisa
da Primavera e que a esperança
se mostrava uma coisa precisa
por entre risos e brincadeiras?
Eras ser de coisas verdadeiras,
um espaço sem fim de vontade
onde se encantava a liberdade!
Diz-me agora que te faz chorar,
para que seque tão tristes lágrimas
e com meus beijos te vá tocar
no sítio onde guardas as últimas
dores do teu gentil sentimento;
seremos um só - tu, eu e o momento...
terça-feira, abril 27, 2010
O Morto
A morte sorveu-te assim sem reservas
numa qualquer vereda iluminada,
a indiferença olhou despudorada
como se fosses igual ás ervas
que ignoramos na beira de um caminho...
Foste em tempos um pai, amante, vizinho
e agora és mais um acerto do nada
parábola de um vazio idealmente
cantado como saudade chorada...
Viverás um pouco mais, diferente,
como memória aninhada no amor
até seres uma pequena dor,
recordação difusa dos momentos
em que foste um deus doutros sentimentos...
numa qualquer vereda iluminada,
a indiferença olhou despudorada
como se fosses igual ás ervas
que ignoramos na beira de um caminho...
Foste em tempos um pai, amante, vizinho
e agora és mais um acerto do nada
parábola de um vazio idealmente
cantado como saudade chorada...
Viverás um pouco mais, diferente,
como memória aninhada no amor
até seres uma pequena dor,
recordação difusa dos momentos
em que foste um deus doutros sentimentos...
sexta-feira, abril 23, 2010
sexta-feira, abril 16, 2010
São os momentos confusos
os que nos trazem surpresas
do mundo; é toda a sorte
de sons e véus, soltando
erro e verdade na exacta
cor e medida, que cavam
os sentimentos em nós...
Sou ser de buscas e dor,
sonho e quimera de luz
que louco sai procurando
tanto o recato sem mácula
como o pecado da paixão!
Não canto mais sobre amor
e assim me calo na fé
de que o futuro será
singela oferta de paz
tendo o sossego afinal
certo lugar em meu fim...
os que nos trazem surpresas
do mundo; é toda a sorte
de sons e véus, soltando
erro e verdade na exacta
cor e medida, que cavam
os sentimentos em nós...
Sou ser de buscas e dor,
sonho e quimera de luz
que louco sai procurando
tanto o recato sem mácula
como o pecado da paixão!
Não canto mais sobre amor
e assim me calo na fé
de que o futuro será
singela oferta de paz
tendo o sossego afinal
certo lugar em meu fim...
quarta-feira, abril 14, 2010
Esforço (para ser) heróico...
Sinto imensas as formas do remorso,
da dorida contagem dos momentos,
à angustia deformada pelo esforço
e pela vil voragem dos tormentos...
Cai suma e sonorosa uma chuvada
de enganos tão sofrida e assim chorada
forma de se enganar os alterosos
caprichos divinais e poderosos
do que por fim se afasta dos mortais!
Há quem se deite calmo e talvez certo
de ter feito passado o que decerto
teriam sido em mim coisas fatais...
Não são apenas palavras o que corrói
ou apenas sentimento o que assim dói...
da dorida contagem dos momentos,
à angustia deformada pelo esforço
e pela vil voragem dos tormentos...
Cai suma e sonorosa uma chuvada
de enganos tão sofrida e assim chorada
forma de se enganar os alterosos
caprichos divinais e poderosos
do que por fim se afasta dos mortais!
Há quem se deite calmo e talvez certo
de ter feito passado o que decerto
teriam sido em mim coisas fatais...
Não são apenas palavras o que corrói
ou apenas sentimento o que assim dói...
terça-feira, abril 06, 2010
Procura
Qual a fonte?
ilusão, realidade, nada?
seja o que for,
não tendo exclusiva resposta,
assomará das experiências
- paradoxo virtuoso -
geradas pela cândida urgência
da mortalidade...
ilusão, realidade, nada?
seja o que for,
não tendo exclusiva resposta,
assomará das experiências
- paradoxo virtuoso -
geradas pela cândida urgência
da mortalidade...
quarta-feira, março 31, 2010
Profecia
A mortalha envolvendo o húmus ubíquo
revela-se no acinzentamento
das cores que, contrastando,
cantam os louvores do universo.
O vento do desassossego traz em si mesmo
o louvor da acção e, este fatal movimento,
arranca o sublime das entranhas da frustração.
revela-se no acinzentamento
das cores que, contrastando,
cantam os louvores do universo.
O vento do desassossego traz em si mesmo
o louvor da acção e, este fatal movimento,
arranca o sublime das entranhas da frustração.
terça-feira, março 30, 2010
Súplica
Se choro aos tropeções
faz sentimento que me levante!
Se caio prostrado diante
de um espectro de enfunadas emoções
faz pensamento que grite
quanto do sofrimento é patético!
Que o universo se agite
num afã de infame orgulho poético
e faça de mim a invenção
que ab-rogue a dor no meu coração!
faz sentimento que me levante!
Se caio prostrado diante
de um espectro de enfunadas emoções
faz pensamento que grite
quanto do sofrimento é patético!
Que o universo se agite
num afã de infame orgulho poético
e faça de mim a invenção
que ab-rogue a dor no meu coração!
sexta-feira, março 26, 2010
Impossibilidade
Todas as coisas se medem contra
uma ou outra forma de impossibilidade.
Estando o teu coração numa montra
exposto aos olhos da iniquidade,
jamais terás qualquer conforto,
nunca sentirás o sossego se elevando
acima do resto, de tudo quanto jaz morto
ao fundo do caminho, e em desmando
desnorteado farão esboçar o quadrado
firmemente traçando as rectas fronteiras
do teu final austero e atormentado...
Mesmo que o não desejes, o não queiras,
não terás como fugir a tudo isto
e a tua morte encerrará o sabor misto
desta fraca paz sonhada na medida
do desassossego que dotou a tua vida.
uma ou outra forma de impossibilidade.
Estando o teu coração numa montra
exposto aos olhos da iniquidade,
jamais terás qualquer conforto,
nunca sentirás o sossego se elevando
acima do resto, de tudo quanto jaz morto
ao fundo do caminho, e em desmando
desnorteado farão esboçar o quadrado
firmemente traçando as rectas fronteiras
do teu final austero e atormentado...
Mesmo que o não desejes, o não queiras,
não terás como fugir a tudo isto
e a tua morte encerrará o sabor misto
desta fraca paz sonhada na medida
do desassossego que dotou a tua vida.
quarta-feira, março 24, 2010
Por que te calas?...
Sofres em surdina a dor
prova de que vives neste mundo
e é nas quimeras do amor,
e na sua ausência, que o profundo
mistério de ser assenta;
o frémito da história movimenta,
num furioso arranjo musical,
o sublime destrato entre Bem e Mal,
resumo de todo um universo
que num ápice será o seu inverso
- o silêncio...
prova de que vives neste mundo
e é nas quimeras do amor,
e na sua ausência, que o profundo
mistério de ser assenta;
o frémito da história movimenta,
num furioso arranjo musical,
o sublime destrato entre Bem e Mal,
resumo de todo um universo
que num ápice será o seu inverso
- o silêncio...
segunda-feira, março 22, 2010
Todas as Manhãs em Mim...
A manhã e os seus frescos odores,
lembra os primeiros e ingénuos amores
guiando o coração ignoto, para além
do abrigo infantil naquele vai e vem,
definição incontornável de idade,
que vai levando dos sonhos a inocência...
O mundo em toda a sua vulgar ciência
é também um crescente trinar de saudade
nas cordas que o tempo compõe a preceito.
É este nascer e morrer que faz da vida
prazer e dor, misturando assim no peito
a madureza da alma e a infância esquecida.
lembra os primeiros e ingénuos amores
guiando o coração ignoto, para além
do abrigo infantil naquele vai e vem,
definição incontornável de idade,
que vai levando dos sonhos a inocência...
O mundo em toda a sua vulgar ciência
é também um crescente trinar de saudade
nas cordas que o tempo compõe a preceito.
É este nascer e morrer que faz da vida
prazer e dor, misturando assim no peito
a madureza da alma e a infância esquecida.
sexta-feira, março 19, 2010
Dissonância
Sinto-me as presas da besta
e a carne por elas dilacerada,
uma quimera entre desejo e dor,
impossibilidade rasgada
entre o que em mim se crê Bem
e o que cinzela o Tempo
na pedra dos meus dias.
e a carne por elas dilacerada,
uma quimera entre desejo e dor,
impossibilidade rasgada
entre o que em mim se crê Bem
e o que cinzela o Tempo
na pedra dos meus dias.
quarta-feira, março 17, 2010
Caminho
O ritmo do sofrimento
revela-se na pulsão da dor
evoluindo nos compassos
da escala das desilusões...
O movimento que continuamente
cresce até ao mais sublime sentimento,
é o caminho inexorável
para o fim dos teus dias
mas também é a cor aquecendo o sentir
que vai dentro de ti;
e transborda enfim,
ou assim o desejas,
para o oceano dos vivos,
querendo tocar os corações onde pulsam
a esperança, a força e o amor dos outros.
revela-se na pulsão da dor
evoluindo nos compassos
da escala das desilusões...
O movimento que continuamente
cresce até ao mais sublime sentimento,
é o caminho inexorável
para o fim dos teus dias
mas também é a cor aquecendo o sentir
que vai dentro de ti;
e transborda enfim,
ou assim o desejas,
para o oceano dos vivos,
querendo tocar os corações onde pulsam
a esperança, a força e o amor dos outros.
terça-feira, março 16, 2010
Adagietto Molto Lento
Sêcas as lágrimas são as palavras,
tolhidas pela honestidade possível dos sentimentos,
que buscam a visão dos múltiplos sentidos
da nossa desgraça e da nossa esperança.
Ao mundo que nos fere e embala
ora dando, ora tirando,
devolvemos com ressentimento
a nossa profunda consciência da solidão,
o nosso medo infantil de viver.
tolhidas pela honestidade possível dos sentimentos,
que buscam a visão dos múltiplos sentidos
da nossa desgraça e da nossa esperança.
Ao mundo que nos fere e embala
ora dando, ora tirando,
devolvemos com ressentimento
a nossa profunda consciência da solidão,
o nosso medo infantil de viver.
quinta-feira, março 04, 2010
Intento
Os meus sentimentos
querem abraçar a força
com que o mar
se apaixona pela terra
esculpindo na rocha nua
dos desejos e da esperança
a ideia que fazem do amor.
querem abraçar a força
com que o mar
se apaixona pela terra
esculpindo na rocha nua
dos desejos e da esperança
a ideia que fazem do amor.
quarta-feira, março 03, 2010
Simetria oca (Eterno retorno ao Nada)
Aquilo que momentaneamente sei
rapidamente deixa de ser
mais que uma sombra
espectro
que desliza sem som
no frio espaço supérfluo
entre o que pensei e o que sou
rapidamente deixa de ser
mais que uma sombra
espectro
que desliza sem som
no frio espaço supérfluo
entre o que pensei e o que sou
sexta-feira, fevereiro 26, 2010
(Para ser suspirado...)
A Perfeição visitou-me
e eu a cantei num suspiro,
pois mais que isso seria,
é certo, demais...
O Fado é testemunha
do quanto me dói
o prazer que sinto
nesta delicada melodia,
efémera promessa de viver
uma forma de eternidade,
algures, nas asas do teu desejo.
e eu a cantei num suspiro,
pois mais que isso seria,
é certo, demais...
O Fado é testemunha
do quanto me dói
o prazer que sinto
nesta delicada melodia,
efémera promessa de viver
uma forma de eternidade,
algures, nas asas do teu desejo.
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
Soberba
As minhas palavras
querem-se sementes auspiciosas
lançadas em multidão
nos solos férteis da imaginação...
As minhas palavras
querem-se Zéfiro amando
Clóris, qu'em lânguido anseio
se espoja, despudoradamente esperando
um acto de paixão...
As minhas palavras,
oh diabólica soberba!,
querem-se tanto
que, por vezes, nada mais são
que desespero, dor e pranto!...
querem-se sementes auspiciosas
lançadas em multidão
nos solos férteis da imaginação...
As minhas palavras
querem-se Zéfiro amando
Clóris, qu'em lânguido anseio
se espoja, despudoradamente esperando
um acto de paixão...
As minhas palavras,
oh diabólica soberba!,
querem-se tanto
que, por vezes, nada mais são
que desespero, dor e pranto!...
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
O Amargo no Doce
Por entre escombros
se ergue a esperança,
enquanto a morte,
troçando, dança
com a dor do Mundo...
O desespero é uma forma
de ruína da mente,
carcomendo indiferente
os templos erigidos
à felicidade possível.
se ergue a esperança,
enquanto a morte,
troçando, dança
com a dor do Mundo...
O desespero é uma forma
de ruína da mente,
carcomendo indiferente
os templos erigidos
à felicidade possível.
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
O Pleno de um Momento
A minha busca sendo incessante, apaixonada,
é raro descobrir algo mais que nada...
Mas nesses raros momentos, fatalmente mudo,
sinto este sublime pouco como se fosse tudo!
é raro descobrir algo mais que nada...
Mas nesses raros momentos, fatalmente mudo,
sinto este sublime pouco como se fosse tudo!
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Liberdade de Opinião
"[...]If all mankind minus one, were of one opinion, and only one person were of the contrary opinion, mankind would be no more justified in silencing that one person, than he, if he had the power, would be justified in silencing mankind."
John Stuart Mill (1859), On Liberty, Chapter II - Of the Liberty of Thought and Discussion
Este preceito, aparentemente fundamental em qualquer tipo de regime que se diga democrático, não é um dado adquirido e, a meu ver, para que seja devidamente salvaguardado e compreendido, deve ser constantemente reaprendido por cada geração.
A opinião não é em si um delito, por mais incómoda (ou repugnante para alguém, seja maioria ou minoria) que seja. E a opinião "maioritária" tem que ter em conta e saber respeitar qualquer outra. Isto como é evidente nunca será fácil e, em certos momentos, para certas pessoas, parecerá impossível.
Neste aspecto uma das grandes questões da vida numa sociedade democrática está em conseguir discernir por entre a saudável multidão de opiniões quais delas está disposta a trazer do mundo das ideias para o frio escrutínio da realidade e para o julgamento da História.
John Stuart Mill (1859), On Liberty, Chapter II - Of the Liberty of Thought and Discussion
Este preceito, aparentemente fundamental em qualquer tipo de regime que se diga democrático, não é um dado adquirido e, a meu ver, para que seja devidamente salvaguardado e compreendido, deve ser constantemente reaprendido por cada geração.
A opinião não é em si um delito, por mais incómoda (ou repugnante para alguém, seja maioria ou minoria) que seja. E a opinião "maioritária" tem que ter em conta e saber respeitar qualquer outra. Isto como é evidente nunca será fácil e, em certos momentos, para certas pessoas, parecerá impossível.
Neste aspecto uma das grandes questões da vida numa sociedade democrática está em conseguir discernir por entre a saudável multidão de opiniões quais delas está disposta a trazer do mundo das ideias para o frio escrutínio da realidade e para o julgamento da História.
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
O Presente
Através da janela observo ignoto, imerso num ilusório conforto, o afã com que se mexe o mundo.
A velha que lentamente se move com um propósito hesitante; a criança que rapidamente corre como que fugindo do próprio Tempo; os carros que urgentemente se movem como que escapando de um inominável terror; tantas e tantas coisas.
Todo este enleado de cálculos e movimentos infinitesimais, esta avalanche de pequenas consequências, transforma-se na torrente indómita que, num momento quase fotográfico e através de uma qualquer janela, intuímos como sendo o Presente.
A velha que lentamente se move com um propósito hesitante; a criança que rapidamente corre como que fugindo do próprio Tempo; os carros que urgentemente se movem como que escapando de um inominável terror; tantas e tantas coisas.
Todo este enleado de cálculos e movimentos infinitesimais, esta avalanche de pequenas consequências, transforma-se na torrente indómita que, num momento quase fotográfico e através de uma qualquer janela, intuímos como sendo o Presente.
terça-feira, fevereiro 09, 2010
Mensagem
Sou tal qual tu,
pedaço de mim é mentira,
outra parte sinceridade
simples, sem rodeios, artifícios
ou máscaras.
Sou tal qual tu,
um olhar nu
indagando o infinito
e todas as impossibilidades
que nesta vida
fazemos passado.
Sou tal qual tu,
humano
traído e traidor,
apaixonado e indiferente,
cansado, enfim,
com modos de quem por raiva
se move para lá
de todos os obstáculos do mundo!
Sou tal qual tu,
mão estendida
em busca de um corpo
para acariciar,
incessantemente procurando
quem compreenda
esta vontade que tenho
de compreender.
Sou tal qual tu,
uma confissão
arrastada
despida de lamentos,
pois as coisas arrancadas
ao fundo da alma,
doem,
mas
são sempre
verdadeiras
são sempre
boas
são sempre,
nossas...
pedaço de mim é mentira,
outra parte sinceridade
simples, sem rodeios, artifícios
ou máscaras.
Sou tal qual tu,
um olhar nu
indagando o infinito
e todas as impossibilidades
que nesta vida
fazemos passado.
Sou tal qual tu,
humano
traído e traidor,
apaixonado e indiferente,
cansado, enfim,
com modos de quem por raiva
se move para lá
de todos os obstáculos do mundo!
Sou tal qual tu,
mão estendida
em busca de um corpo
para acariciar,
incessantemente procurando
quem compreenda
esta vontade que tenho
de compreender.
Sou tal qual tu,
uma confissão
arrastada
despida de lamentos,
pois as coisas arrancadas
ao fundo da alma,
doem,
mas
são sempre
verdadeiras
são sempre
boas
são sempre,
nossas...
segunda-feira, fevereiro 08, 2010
Os Passos da Incompreensão
Ao anoitecer
abres as tuas confissões...
O mundo lentamente escurece
a as sombras da noite
embalam tu'alma exangue
num ilusório e volátil sossego.
O Silêncio faz-se teu fiel companheiro,
amigo da Solidão,
confessor imaterial
dos teus desejos,
alegrias e medos.
Todos os passos
ecoam histórias,
todos os sons
chamam fragmentos do passado,
e as memórias são emaranhados
dispersando a vontade.
A tua existência revela-se,
por fim,
na frágil verdade das tuas palavras
e no acervo inútil dos teus actos;
e é escondida, esmagada,
pelas certezas enunciadas,
qual juízo final,
por todos os que cruzam os teus passos...
abres as tuas confissões...
O mundo lentamente escurece
a as sombras da noite
embalam tu'alma exangue
num ilusório e volátil sossego.
O Silêncio faz-se teu fiel companheiro,
amigo da Solidão,
confessor imaterial
dos teus desejos,
alegrias e medos.
Todos os passos
ecoam histórias,
todos os sons
chamam fragmentos do passado,
e as memórias são emaranhados
dispersando a vontade.
A tua existência revela-se,
por fim,
na frágil verdade das tuas palavras
e no acervo inútil dos teus actos;
e é escondida, esmagada,
pelas certezas enunciadas,
qual juízo final,
por todos os que cruzam os teus passos...
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Sobre Perda e Esperança
É sempre diferente a forma como lidamos com a perda, mas sempre dolorosa; cada perda sentida é como se (mais) um pedaço de esperança nos fosse arrancado do coração.
Neste sentido o envelhecimento também se mede pelo desgaste da esperança por via da inconstante e imprevisível, porém inevitável, brutalidade da perda.
Manter um espírito jovem depende então, pelo menos em parte, da nossa capacidade de regenerar a esperança.
Neste sentido o envelhecimento também se mede pelo desgaste da esperança por via da inconstante e imprevisível, porém inevitável, brutalidade da perda.
Manter um espírito jovem depende então, pelo menos em parte, da nossa capacidade de regenerar a esperança.
terça-feira, fevereiro 02, 2010
Amor-Perfeito
Insinuados tons de fogo,
o estrado e a cama
sobre o chão;
e o candeeiro
cuja luz,
sensualmente abafada,
invade com apudorada discrição
os inconfessados segredos
da escuridão.
Desenham-se assim os corpos,
fundindo-se em sentimento,
por entre a cumplicidade
docemente indiferente
das sombras.
A noite é o invólucro perfeito
do amor.
o estrado e a cama
sobre o chão;
e o candeeiro
cuja luz,
sensualmente abafada,
invade com apudorada discrição
os inconfessados segredos
da escuridão.
Desenham-se assim os corpos,
fundindo-se em sentimento,
por entre a cumplicidade
docemente indiferente
das sombras.
A noite é o invólucro perfeito
do amor.
quinta-feira, janeiro 28, 2010
Estás aqui, dormindo, e não te vejo sorrir
De que interessa
ter as palavras certas
para dizer,
quando o sentido destas
se perde na pressa
com que se vivem os dias?
Medito no mundo
a horas tardias,
envolto no silêncio
próprio da solidão;
vejo-me, de súbito,
acordando
de um qualquer momento
em que sorrias,
para outro
onde apenas revelo,
embalado no teu nocturno suspiro,
o desconsolo
do meu coração.
ter as palavras certas
para dizer,
quando o sentido destas
se perde na pressa
com que se vivem os dias?
Medito no mundo
a horas tardias,
envolto no silêncio
próprio da solidão;
vejo-me, de súbito,
acordando
de um qualquer momento
em que sorrias,
para outro
onde apenas revelo,
embalado no teu nocturno suspiro,
o desconsolo
do meu coração.
quarta-feira, janeiro 20, 2010
O Desmemoriado
Sentes ainda
a dor da perda,
quando a perda, ela mesma,
em ti mesmo se perdeu
...
É estranho
que outros recordem
os teus passos
e tu, que então os deste
e bem assim os sentiste,
não saibas hoje
porquê...
a dor da perda,
quando a perda, ela mesma,
em ti mesmo se perdeu
...
É estranho
que outros recordem
os teus passos
e tu, que então os deste
e bem assim os sentiste,
não saibas hoje
porquê...
terça-feira, janeiro 19, 2010
Presença
Correm as imagens,
entre os diversos
degredos da alma,
daquele sorriso
com que me beijaste
de manhã...
E é esse o bálsamo
temperando meu dia;
fronteira
entre a loucura
que é minha
e o mundo
que é teu.
entre os diversos
degredos da alma,
daquele sorriso
com que me beijaste
de manhã...
E é esse o bálsamo
temperando meu dia;
fronteira
entre a loucura
que é minha
e o mundo
que é teu.
quinta-feira, janeiro 14, 2010
Perspectiva
O que prende um olhar?
E que luz
se faz
dentro do brilho
que aparentam
esses olhos
que a descobrem
ou a evitam?
Não consigo apertar
a medição
do entendimento alheio,
tenho a duvidosa certeza
de um sentir
que sendo meu
é assim incerto...
E apenas em sonho,
quando olho
com o ver da alma,
ouso compreender
o que, na realidade,
jamais saberei...
E que luz
se faz
dentro do brilho
que aparentam
esses olhos
que a descobrem
ou a evitam?
Não consigo apertar
a medição
do entendimento alheio,
tenho a duvidosa certeza
de um sentir
que sendo meu
é assim incerto...
E apenas em sonho,
quando olho
com o ver da alma,
ouso compreender
o que, na realidade,
jamais saberei...
terça-feira, janeiro 05, 2010
O Desiludido
Deste o que de ti pensas ser o melhor. E isso que fizeste, não bastou...Nunca basta aliás, nunca, e talvez seja, apenas, desprezível.
Em troca recebeste as palavras e os gestos da reprovação, dispensados com a frieza distante com que os deuses fulminam os mortais.
Foi melhor assim, melhor que o vazio, melhor que nada, disseste a ti próprio e dessa piedosa mentira se fez o teu caminho em direcção ao esquecimento possível.
Em troca recebeste as palavras e os gestos da reprovação, dispensados com a frieza distante com que os deuses fulminam os mortais.
Foi melhor assim, melhor que o vazio, melhor que nada, disseste a ti próprio e dessa piedosa mentira se fez o teu caminho em direcção ao esquecimento possível.
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