sexta-feira, outubro 29, 2010

Até ao teu próximo beijo...

Soam por este dia escuro
os acordes da solidão
como sons nascendo abafados
nas masmorras da perdição.
A memória da luz faz
estrago geral nos sentidos,
que numa turva depressão
se degradam entorpecidos...
É momento para a saudade
urdir com afã seus ensejos
fazendo de um sonho acordado
montra impudor dos meus desejos...
Estou entre confuso e cansado,
entregue aos intentos de um fogo
e às tropelias de um gelo
buscando um caminho sem dolo.
Talvez a estrada se conquiste
trilhando um trecho divergente,
e que a verdade se demonstre
numa candura diferente...
É a busca que faz viver
o caminho, o movimento,
pois o engano que dói num dia
é apenas mais um momento.
Acaricio enfim e em paz
um corpo que já não é lembrança,
e o mel que trocamos num beijo
é um elixir de esperança!

quinta-feira, outubro 28, 2010

Sobre o Sonhar

Há uma singular lição de beleza
no jeito como os ventos
esculpem as nuvens.
Uma beleza que é pura,
pois, para além da realidade
e de todas as explicações
que os homens engendram,
ela nasce num olhar deslumbrado
ingenuamente sonhada, imaginada,
sugerindo a cada momento
uma libertação
e logo após
criação!
Pudera o resto do tempo
fazer-se do mesmo
mas é difícil prolongar
uma forma inocente de felicidade
para além do mundo etéreo dos sonhos...

quarta-feira, outubro 27, 2010

Fraquezas

Indeciso o movimento que nos afasta
para a deriva que consta do que inconstante
se move além de padrões e limites.
Há um esboço tosco de certeza que nos seduz
até ao leito capcioso
onde se compromete a dúvida
no conforto falso de uma crença néscia;
é mais fácil encontrar a fé num engano
que procurar a verdade toda a vida...

terça-feira, outubro 26, 2010

Modus Operandi

São ingratos os momentos mudos,
tristes as sombras prolongadas
de uma luz finando em ocaso.
O silêncio é o grande traidor
de aventureiros e apaixonados.
Queremos dizer as coisas certas
enquanto o tempo não nos destrói
mas as palavras tornam-se lâminas
e os sentimentos sangram em vão
ignorados nos vários olhares
que jorram copiosa a indiferença.
Assim se vai cunhando no mundo
a indelével marca da vergonha
perene companheira da vida.
Assim cresce crua esta vontade
de ver para além das aparências.
Não há como encontrar a Razão
senão como sequência da dúvida,
sendo esta a derradeira semente
de onde germinará a vibrante
esperança de haver um futuro.
Não há como fazê-lo calado.
Não há como vivê-lo sem dor.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Apenas

Não somos estátuas
esculpidas sem termo
na rocha do mundo.
Não somos constantes
como sonetos perfeitos
ecoando a amores puros e profundos.
Não somos certezas
escritas em livros sagrados
ou nos registos da História.
Não somos apenas falsos
ou apenas verdadeiros,
porque a verdade
não se cimenta em absolutos.

Somos nada
mas um nada
que pode amar sem limites.

Somos, apenas,
e enquanto somos,
seremos, apenas,
aquilo que somos.
E isto porque
podemos ser sempre mais!...

sexta-feira, outubro 22, 2010

Mais Que Imperfeito

Onde estão aquelas doces flores
que, ainda ontem, me adornavam
os passos certos e voavam
como aves de soberbas cores
fogueando um tenso Universo?
Ah!, coubessem em fácil verso
os meus imensos desatinos...
Sei que não cabem, a não ser
quando escrevo como morrer
em cada gesto aos bocadinhos...
É no fundo do desespero,
já sei, que somos mais perfeitos,
e nesse cavado exagero
somos mais que os nossos defeitos!...

quinta-feira, outubro 21, 2010

Estar...

É assaz inconstante o vento
assim tal como o sentimento...
E fala-me como doença
como uma náusea perene
que se exulta na indiferença
que em toda a parte nos persegue!
Empeçonha-se o ar nas ausências
oprimindo o peito num nó
cego carpindo impaciências!
Pudesse apartar este pó,
que me tolda a visão de tudo,
e seria não um poço escuro
mas doce toque de veludo
acariciando o futuro!
Entretanto sou neste estar
que apenas sabe como errar!...

terça-feira, outubro 19, 2010

Um Tango...

Não te movas...
Fica onde estás,
aí, nessa pose
que eloquente
impõe
a tua perfeição.
Não te movas,
ou move-te, sim,
devagarinho,
pois movendo-te
assim
serás ainda mais
tu!...
Não te movas...
Mas mexe-te, rápido!,
e estanca!...
junto a mim...

segunda-feira, outubro 18, 2010

A Linha Invisível

A felicidade trinou incompleta
excitando uma fome selvagem
nos olhares que se cruzam no instante
e logo fogem, em vertigem descontrolada,
para o conforto
neutro e sem compromisso
do horizonte.
A distância suaviza o tumulto
e o tempo submete com seus vagares
sentidos e sentimentos
que doutra forma seriam,
logo ali, motivo de perdição.
A continuidade lava-se da dúvida,
não é o incerto que se busca.
Reprimem-se desejos e sonhos
para cruzar sem atritos
os caminhos onde o infinito
se compromete no concreto,
e o absoluto é uma miragem
legada pelo medo ao que, certamente,
não será o futuro.
É incompleto o gesto, o maneirismo,
que patético se insinua no ar
e se julga imperativo no olhar alheio...
O corte é profundo
e a cicatriz, signo externo de regeneração,
degreda o sentimento inteiro
num poço impossível...

sexta-feira, outubro 15, 2010

Lux Nulla

Todas as passagens encerram,
a luz apenas verte
pelas frestas que o tempo rasga
na madeira carcomida dos sentimentos.
O rosto no espelho
tomou-se de um rigor fictício;
como aquela estrada,
por onde desejo e sonho andaram,
se perdeu no nevoeiro
de uma memória acobardada.
É fixado o bater do sofrimento,
num ritmo pendular
latejando dorido e monótono,
diverso no seu alcance,
pleno nos medos que evoca...
Fecham-se as nuvens
esconde-se o sol
e, num instante, a soberba esvai-se;
na escuridão sinto-me aqui,
mas tal constatação é já inútil...

quarta-feira, outubro 13, 2010

Bem sei que talvez sim!...

Rumei junto àquele absurdo que se sente
como murmúrios de deuses esquecidos.
E o vento trouxe-me as promessas
que o amor lhe segreda baixinho.
São, estes segredos,
como pequenas flores
que ingenuamente se dão
ao calor incerto e intenso
de um sol traiçoeiro.
Habituei-me aos escolhos do caminho,
as barreiras são hoje trampolins
e as vozes desvairadas
nascendo enlutadas de si mesmas
na raiva incontrolada da turba,
ela sim controlada
por lixos diversos,
divertidos e potentes,
nojentos quanto baste,
são abafadas pela geometria dobrada
do meu amniótico espaço
de afastamento cúmplice.
Vejo os instantes já não como cardos
ou vastas extensões sequenciais e desoladas,
mas como pequenas descobertas discretas
onde a continuidade anui
de forma a curvar-se na sensualidade
de um infinito concebível!
São todos estes vales
que acolhem agora os meus jardins viçosos,
irrigam a paixão pelas coisas
e afastam o avanço cinzentão e estéril
da inconsequência e da estupidez...
É assim que procuro o sentido,
já não me escapa
o sacana!,
embora me fuja, constantemente...
É assim que me imagino,
possivelmente, feliz!...

terça-feira, outubro 12, 2010

Não Sei...

Na confluência das perspectivas
afunda-se a percepção,
quando as palavras querem gritar um sentimento,
ante um oceano de intrigas,
e apenas o vazio as confronta
com os seus silêncios escusos
e a sua memória esquecida.
Não se perde mais que a vontade
prostrada diante do inexorável poder da negação;
o sentido advém do sonho,
o sonho é o desejo
transmutado em visão
e nós apenas vemos
superficialmente.

segunda-feira, outubro 11, 2010

A Cada Dia Que Por Nós Passa...

Em cada madrugada
uma parte do mundo redefine
as formas esquivas da esperança.
Um remoinho sufoca
e explode progressivamente
nos buliçosos caminhos do dia,
não traz a novidade,
ainda menos, o consolo.
Cresce num desassossego perene,
com a promessa mortal
de que o cinzento perdurará
para lá do horizonte adivinhado do futuro.
Mas existir é quebrar os impossíveis,
é eternizar um momento pela surpresa,
vencer a dor e a injustiça pela vontade,
é ser o que se sonha
e sonhar muito mais!...
O tempo escoa-se
em inutilidades amorfas,
em gestos de indiferença,
mas a esperança está logo ali
desafiando a nossa liberdade
a, finalmente, agir!

sexta-feira, outubro 08, 2010

Condição

Lá do topo descem as águas
que já foram gelo.
Eu queria contar-te
o que essas águas
limpam em mim.
Mas as palavras não servem,
são como um leito desconfortável
para uma imagem de algodão doce
que enforma misteriosamente os meus sonhos.
Talvez o silêncio
seja a forma exacta
para transmitir a luz
que em mim sinto
e que se desprende do sal do mar,
do perfume das flores
e da emoção das lágrimas
que escorrem numa lentidão eloquente
por todas as veredas do mundo
partindo da perfeição possível das montanhas.
Os dias desprendem uma qualidade
quase intangível, subtilmente tangencial,
que nos beija e morde
erodindo o corpo
na exaltação sensual do desejo...
Acumula-se então um cansaço,
uma angústia indefinida,
como que brotando do chão,
como que entranhando na carne,
que ilude o essencial
da canção que embala a passagem dos instantes.
O ciclo quer eternizar-se
mas rompe-se no choro nocturno
desse deus enlameado
que fala incessantemente dentro de nós.

quinta-feira, outubro 07, 2010

O Salto da Imaginação

A imaginação dispersa-se
enamorando-se de hipóteses remotas;
talvez fisicamente inacessíveis ou impossíveis,
ilustradas, por exemplo,
num remotíssimo passado cósmico
que se observa no frágil brilho,
quase inconcebível,
das estrelas mais distantes.
É estranho este poder,
esta forma de viajar sem limites
pelas ideias do universo
partindo de dentro
de um quase nada...

quarta-feira, outubro 06, 2010

Volição

És saudade,
esse sentir que entende o longínquo
como um desejo melancólico de estar perto
que constantemente se vê desviado, flui,
em truques da luz
e na geometria que habitamos, 
enrolando e confundindo sentir, espaço e tempo...
A vontade
é então a força que anseia rasgar
o espaço das distâncias
e unir as diferenças
que o mundo insiste apartar;
é a vontade que se move
para que o Todo vibre naquele tom perfeito
que aplanará os defeitos
num tecido exacto,
contrariando a repulsão
de sentimentos descontrolados
e o atrito das contrariedades,
reduzindo a descontinuidade nefasta dos preconceitos.
O Mundo entoa-se enquanto saudade e vontade
numa disputa incessante e desigual entre o Ser e o Devir,
mas encanta-se, emociona-se, sente-se,
naquela simples imagem
de duas mãos 
que se dão, sem mais nada,
uma à outra.

segunda-feira, outubro 04, 2010

O Sentir do Tempo

O Tempo é aquela ideia do mundo
que se inventou na Consciência,
dotando os fenómenos
por ela discernidos,
de um antes de um depois.
Lê-se após isso
naquilo que se sente perder
em todos os sítios
onde a impaciência se eleva acima do tolerável,
é pois uma medição de egoísmo intolerante
mas também de urgência, ausências e dor.
Mais além,
o Tempo transubstancia-se nas memórias,
aquela trama ilusória
que alimenta os labirintos do futuro,
ensinando a um caprichoso aqui e agora,
pleno das incertezas do viver,
as lições do que foi
e a esperança que os sonhos projectam...
Depois
este Tempo quebrará
logo que a Consciência cesse;
e a matéria,
nos braços de um outro tempo
- inutilmente preciso,
inutilmente referencial,
embora precioso motor -
fluirá sem haver disso sentimento,
pois não há mais emoção,
nenhum pensamento,
que se deslumbre ante o seu subtil poder...

sexta-feira, outubro 01, 2010

Verdade Ingenuidade...

As palavras têm muitos dons,
dizem o que dizem
dizendo muito a uns,
menos a outros.
As palavras são como rios,
alimentam vida,
fazem e acompanham crescimentos,
acolhem a acutilância das dúvidas,
ilustram finais, felizes, tristes…
Mas, de quando em vez,
assumem caudais furiosamente transbordantes
e, mantendo intacta uma sublime beleza,
são como macabros abraços
asfixiando sem piedade
o que outrora acarinharam
em amoroso distanciamento...
Nestes momentos aflitivos,
não olvides a pureza
que brota
mesmo que transitoriamente naufragada,
daquela origem distante,
quase mágica,
que é a fonte...