viajo todos os dias
por caminhos direitos e
demasiadas vezes
cinzentos,
gosto de me ausentar deles
esquivando-me dessas linhas certinhas
por via de mitos e desejos,
coloquiando prolixo entre ausências amadas
e presenças sonhadas.
[...]
depois sai-me o gesto,
por vezes vago
por vezes extenso
por vezes forte
por vezes vasto;
mas por baixo e por cima
permeando tudo isto
sente,
quem está desperto,
o olor universal e gelado
da morte,
namorando com paciência porfiada
o momento de nos rapinar o riso,
sempre
com demasiada pressa.
o mundo tem de mau
certa saudade,
o mundo tem de bom
certa memória
e certos olhos
que vêem e tocam
o pomo da alma.
hoje estou vivo,
é urgentíssimo
que te abrace!...
quinta-feira, abril 24, 2014
quinta-feira, abril 10, 2014
das coisas
enrolada numa antecâmara tremida
escorrega a gota inútil
abraçada a um reflexo provisório do mundo.
aguarda sem rumores ou sentidos prolixos
a rotura pacífica de uma origem
sem acto inicial
nem referências póstumas;
o conceito de pertença não se convoca
no movimento imposto num ancho silêncio;
feitas as contas,
se contas fizessem as abelhas coleccionando pólenes
ou as flores que deles se esvaem
por via da descoberta cega de assim se fazerem outras,
serviria esse facto,
sem qualquer eco,
um fado gemido sobre a nudez absurda das árvores caducas.
a escassa distância de tal cisão intensa
mora uma infinidade de postulados humanos,
montando um afobado destino
por via da vertigem constante nos medos próprios;
é que depois do tumulto revoltoso dos pós
ou da insídia indiferente dos raios do sol,
constroem-se nuvens que ocultam,
sem vontade expressa,
o momento de luzir a face lunar
queimada na sonolência sem braços
de mais uma noite.
e
nada.
escorrega a gota inútil
abraçada a um reflexo provisório do mundo.
aguarda sem rumores ou sentidos prolixos
a rotura pacífica de uma origem
sem acto inicial
nem referências póstumas;
o conceito de pertença não se convoca
no movimento imposto num ancho silêncio;
feitas as contas,
se contas fizessem as abelhas coleccionando pólenes
ou as flores que deles se esvaem
por via da descoberta cega de assim se fazerem outras,
serviria esse facto,
sem qualquer eco,
um fado gemido sobre a nudez absurda das árvores caducas.
a escassa distância de tal cisão intensa
mora uma infinidade de postulados humanos,
montando um afobado destino
por via da vertigem constante nos medos próprios;
é que depois do tumulto revoltoso dos pós
ou da insídia indiferente dos raios do sol,
constroem-se nuvens que ocultam,
sem vontade expressa,
o momento de luzir a face lunar
queimada na sonolência sem braços
de mais uma noite.
e
nada.
terça-feira, abril 08, 2014
espessura
é espesso o novelo
contando aos pedacinhos,
enleados num conluio vago,
um filigrana das trevas.
aguardo notícias da primavera
neste covil de sussurros;
algures
o cimento ecoa o movimento excessivo dos dias,
enquanto a vida escorre nos poros quentes do alcatrão.
por norma as flores não me falam
tomam-me por traidor,
e as janelas fecham-se fremindo pólenes furiosos
dos seus canteiros lisboetas.
à beira-rio marulha o lodo,
segue sem vontade o pulso da maré
sobe até se marcar na margem,
mas ignora-me as palavras que lhe deixo pelos olhos.
a solidão é esta coisa de pedra
e de areia.
resvala sem propriamente cair
e chama pelo nome todos os rostos embuçados pela
trivialidade.
estava neste instante a matutar no ciclo dos dias,
e em como não existe sequência para além da memória
seja ela saudade
seja dor
seja merda;
estava mesmo atento a este volume infinito
onde ninguém escreveu o que é possível que venha a ser;
e agora perdeu-se-me o fio da coisa.
mas não importa,
pois é espesso o novelo
contando aos pedacinhos,
enleados num conluio vago,
um filigrana das trevas.
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