segunda-feira, setembro 24, 2012

aumento da nebulosidade...

dizem dos factos
que são,
mais que escritos em pedra,
como as próprias pedras.
concretas manifestações de antecedente-consequente
nesse palco,
para alguns altar,
que usámos
por conveniente convenção
chamar “realidade”.
de todos os factos,
aquele que menos convence,
talvez,
é o que emerge daquela cavernosa entidade
perdida no escuso labirinto interior de cada um,
e por tal também do meu,
por onde ecoam
sem substância material que permita um apalpar decisivo,
menos reais que calhaus
portanto,
ideias sobre a dita
realidade dos factos...
seja pois,
eu,
e sejas pois,
que não depois,
tu;
eu e tu
duas sonoras lembranças
de como a realidade é,
afinal,
uma nuvem silenciosamente
fodida...

sexta-feira, setembro 21, 2012

beijar

quanto sobra dessa amostra
tonta
de beijos sonhados,
apenas sonhados,
ficando por dar
ficando só meus...
não sei de tontearia maior
que esta,
de imaginar beijos
que depois de os imaginar
vão ficando,
tristemente,
por dar.
e afinal
é o beijo,
este beijo de que falo eu,
a lembrança
de que é possível
essa coisa
de duas pessoas
dando,
e desse apaixonado gesto 
de quem nele se dá,
aceitar serenamente
receber.
dar-te-ei esse beijo,
prometo.

quinta-feira, setembro 20, 2012

circular


há um horror
gerado no silêncio
de quem contempla
o desatinado amontoar dos números.
como quando a exponencial
se joga ao infinito,
implicando por tal
a aflição dos mortais...
depois de qualquer estouro
conspiram todas as leis
contra a coesão dos pedaços
outrora inseparáveis;
é a morte,
então,
o derradeiro sorriso,
desolando espaços
e apagando esperanças,
no cumprimento estrito
de uma implacável tarefa:
ser semente
do porvir.

quarta-feira, setembro 12, 2012

de cadências


despido do preconceito estúpido
retiro mentalmente,
processando-o com deleite pecaminoso,
a roupa supérflua que te veste
escondendo detalhes que excitam hormonas,
acicatando o desejo.
é isso uma arte,
adivinhando prontamente
o que se revelará depois;
e é maior que aqueloutra
que tolamente veste
deleitando-se no acto inverso de descobrir
chamando-o,
qual paradoxo,
de criativo...
finalmente,
toda a insinuação de arte
finda.

sexta-feira, agosto 31, 2012

colapsar


o cacto tem má fama.
não bastando que suplante a aridez dos desertos,
bem como doses bastardas de solidão,
para que se lhe atenue o ditado podre
dos homens.
a luz vagueia indecisa por fronteiras sombrias,
e o cinzento que se insinua finalmente em preto
sabe mais de todos os trejeitos desta,
no seu remansar de quase eternidade,
que o sol
esse despudorado esbanjador.
eis-nos
nestes precisos dias
perante o maior colosso da humanidade
- a exponencial inquebrantável
da estupidez!...

quinta-feira, agosto 30, 2012

labirinto


a matéria que me faz
desmemoria-se em um pó ubíquo,
e exala inquietações agudas,
porém,
sem definição precisa.
correm céleres imagens epilépticas
e os sons despegam-se em mil despudores sem propósito.
observa-se,
talvez sem o devido e respeitoso comprometimento,
o seguir de subtilezas inanes
sustento que são agora
da mecânica inteira
e indiferente pois sumamente presumida
dos dias.
aqui e ali exacerbam-se gritos,
abafados pelo peso de um cinzento musculado;
são como crianças dobrando esquinas
a quem negam o estrépito inigualável da surpresa,
e o desconhecido é um medo
de onde se esqueceu a esperança
e de onde a dor sussurra
então
como senhora de toda a parte.
não se julgue tudo pela crueza infantil de um final,
seja sonhado,
seja feito,
é no meio das coisas que a dúvida se agudiza nas carnes;
aqui descalçarei os sapatos,
os pés farão a procura de um caminho
sentindo-o na dureza dos factos
que não sabem fazer promessas.

sexta-feira, agosto 03, 2012

passos na calmaria



é uma matemática descuidada
aquela que conta pelos dedos
a passagem dos dias sossegados.
a matéria que se postula
até nos sonhos de homens ociosos,
cria no mundo portentos imprevisíveis,
enquanto o sol,
numa indolência que aborrece almas mais exigentes,
teima na sua curvatura estável
insinuando por isso,
nos desejos discretos dos homens pios,
um anseio de imortalidade.
A forma como os tempos correm
tem destas coisas
que conluiam por se perpetuar iguais,
mas vai inspirando diferenças subtis
vibrando no seio de cada átomo
que se agrega a um outro qualquer,
para que,
mesmo sob o ditado das leis naturais,
a surpresa nos morda
demudando o tédio da certeza
na feliz inquietação da dúvida.

terça-feira, julho 31, 2012

gravidade



os dois mortos juntam-se, e na sua impossível sabedoria de não vivos contam entre si a história dos que, vivos, ignoram, por completo, o conhecimento reservado à calmaria negra onde apenas os mortos contemplam a verdade muda e invisível.
os dois mortos zombam dos vivos; as pessoas, afirmam eles, são fundamentalmente estúpidas, há que forçá-las ao caminho justo que as guie a salvarem-se, apropriadamente, de si mesmas.
os dois mortos comentam friamente a existência dessa sopa insípida e amornada por onde os corpos, dos vivos portanto, deslizam alheios ao facto de o fazerem sem sentirem qualquer insinuação de rumo.
os dois mortos chegam ao fim do sonho; e nem todas as manhas que dos mortos se diz terem, superam a necessidade premente da respiração e, consequentemente, é o caso que os estúpidos dos vivos... continuem vivos.
os dois mortos manifestam-se agora enquanto dois olhos abertos - os sentidos vibram, os nervos trepidam, o entendimento acende-se cedendo espaço ao esquecimento.
os dois mortos antes, são dois olhos abertos agora; tão cegos como no passado, rumando sem excessiva hesitação até à morte que, algures, os vai receber sem reparos nem preconceitos.

segunda-feira, julho 30, 2012

no chuveiro...


diz-se de certas recordações,
e não de todas,
pois claro,
que nos enchem de uma melancolia excessiva
por via dessa dolorosa e pendular vaidade
a que chamamos saudade.
primeiro por hábito de o ouvir chamar a outros,
depois,
e porque cada momento diverge
de todos os que já foram,
por economia de esforço,
preguiça portanto,
e frugalidade da imaginação.
eu não sei ao certo,
no sentido em que precisão
se define como resultado
do encadear das regras mecânicas do mundo,
se a dor que sinto se explica como sequente
de predecessores inescapáveis,
que depois de enrolados pela pertinácia do tempo
nos demais efeitos das demais coisas,
elaboram a ilusão da alma
e o domínio desta pelo artifício do desejo.
para tal
neste momento,
e suspeito que em todos os outros,
falha-me a paciência
e o talento...
talvez que no espaço aparentemente infindo
onde brownianos se entrechocam
sentimentos e pensamentos,
possa emergir a cura
para tanta saudade
e para tanta loucura.

quinta-feira, julho 26, 2012

da subjectividade


o erro embastece
impregnando a ineludível submissão à simplicidade
de equívocos e delícias.
por motivos diversos
dispersamos na subjectividade
o contacto com a realidade
nas inúmeras mutações interpretativas
dos preceitos simples da coisa real,
como se,
talvez sem leviandade propositada,
o mundo dependesse essencialmente
da matéria abstracta
que vai escorregando dos nossos pensamentos.
a simplicidade,
afinal,
rege toda a sequência da matéria,
os amontoados de merda
e o perfume que adoça as flores
germinam do mesmo fluido universal,
pensamentos e sentimentos
são apenas manifestações subjectivamente distintas
da merda e do perfume.
a subjectividade é o corso do erro
e talvez a única fonte possível
da felicidade.

terça-feira, julho 24, 2012

com fundamento na queda


gostamos de namorar frívolas coisas,
modas que fenecem na rapidez distraída de um gesto qualquer,
objectos que meramente nos aceleram rumo ao tédio,
ideias cujo assomo de sofisticação
descarna qualquer sentido,
que haver pudesse,
além da ligeireza oca de onde nasceram.
a medida do concreto
não é o corrimão que nos guia
impedindo a queda,
mas a queda ela mesma;
apenas depois de embater com o mundo
podemos medir fronteiras e contingências,
circunscrevendo o domínio do erro
que,
fundamental e sem propósito místico,
o arquitecta.

sexta-feira, julho 20, 2012

abertura


por detrás de portas
escondem-se pudores,
é certo,
mas também se nutrem liberdades,
pois livre é aquele que pode privar
mantendo seu
o que não deseja exposto.
a liberdade não gosta de caixinhas,
pois não;
nem de prisões ou mordaças,
ou gaiolas de oiro,
ou comoventes torres de marfim,
sendo que,
porém,
em certos momentos
se vive plena
do lado de dentro de uma porta fechada.
concebe-se futuro sob o escrutínio das portas,
pois por elas se excita
o prazer de imaginar
- sejam desejos esquivos,
trivialidades,
amores impossíveis
ou segredos perigosos.
ao mundo não importam as portas,
as portas apenas preocupam
aos que imaginam antes
o que vem
depois de o mundo as abrir...

quinta-feira, julho 19, 2012

origem

o movimento
nas suas muitas manifestações
constrói
por interacções diversas,
e miríade de cumplicidades imprevistas,
imagens onde gravamos
o mistério da saudade.
na origem da melancolia contemplativa,
está esta fúria sem dono,
ou propósito,
que transforma a ordem entrópica do universo
em pensamentos e memórias,
sentimentos e medo,
vontade e desespero.

é na calma implausível
deste pedaço de quase nada,
que despropósito e caos conluiaram,
embaralhando matéria e tempo,
na medida suficiente
para que olhos inquietos
buscassem inventar
sentido.

terça-feira, julho 17, 2012

sobre os tédios


quando a manhã aborrece,
cheia daqueles contratempos pequenitos
que atabafam o mundo de um hálito burocrático,
excita um desejo de simplicidade.
e porque não?
a brisa fresca,
o calor insuportável,
a morte,
são factos dotados de elementaridade;
sensações concretas
vestidas depois
em um qualquer sentimento,
só nosso.
cada dia inflama de uma nova retórica
ditado de necessidades,
obrigações várias,
tentando focar a atenção
num ponto qualquer de complexidade evidente
mas desfavorecido de interesse.
talvez tenha mesmo que ser assim,
desde que não seja
sempre da mesma maneira.
desconfio
que o mas metódico dos jardins,
invólucro fátuo de formas normativamente perfeitas,
e sábias regras,
piedosamente repetidas ad nauseam,
será porventura dos mais belos,
mas dos menos excitantes.

segunda-feira, julho 16, 2012

mais uma voltinha...


em vastas fileiras cerradas
marcha a obrigação produtiva,
batendo em compasso rigoroso
as passadas do fabrico poderoso!
agitam-se os moldes aquecidos
para desassossego dos vivos,
produzam! grita o capataz rijo,
produzam! ou morram esquecidos!

e eis que da vastidão produtiva,
se escapam dos fumos produtos,
e por essa via e moda regenerativa
se condoem noutras fileiras móveis,
os braços aflitos de quem consome!
ah! a cor que brilha no rio dinheiroso
que escorre! ah essa vontade e fome
de arrancar às entranhas fabris
o produto e a bugiganga inútil
que fará do cinzentão apagado, feliz!

consome, consome, consome!
produz, produz, produz!
que alguém embolsa e te come
enquanto o produto te seduz!...

quinta-feira, julho 12, 2012

agradecimento


o azul mais azul
pinta o invisível que só a imaginação alcança;
e esse feito fantástico
nada tem de particularmente útil.
excepto,
talvez,
de nos fazer sonhar
e depois imaginar,
no vagar dos sonhos,
o caminho preciso
para um mundo melhor.

segunda-feira, julho 09, 2012

do caminho dos sábios


entranha-se na trama da manhã,
em silêncio comprometido,
o peso do passado que,
rapidamente,
se faz esquecimento.
a brisa quente de verão
comenta o calor por vir
contra um céu de aparência imutável,
despido da distracção sentimental das nuvens.
nasce a jornada
sob um fundo de sons metálicos
enchendo de propósito e utilidade
o rumo das coisas humanas.
resiste o pensamento à utilidade fria
obrigado a conformar-se,
precisa e metodicamente,
à postulada eficiência do egoísmo.
a sabedoria é um namoro demorado com o mundo,
contrária a todas as pressas,
alheia a urgências artificiais,
que se amontoam como lixo
no caminho dos dias.

quinta-feira, julho 05, 2012

corte


a cidade fatiga
na caminhada labiríntica do tempo
por entre os corpos.
cresce um ruidoso mastigar inorgânico
esmagando o pó
gerado nos gestos inerciais que o dia desfez.
um momento embaraçoso
demora-se naquela moinha
que lenta invade o sangue,
e subtrai fôlego à vontade,
por via de uma saudade proibida.
há gritos
que apenas o silêncio desvela;
coisas desconexas,
entre a multiplicidade cúmplice das cores,
completando pontes
que o bulício constante
teima esconder.

quarta-feira, julho 04, 2012

centro de gravidade


ilude-se a dor
nas imagens desligadas de intento,
centrando-se a atenção
nas partículas que se amotinam,
caóticas,
sob o escrutínio inverosímil da luz.
os dedos agitam-se
indagando o sentir nas coisas,
na sensualidade funda da insinuação
e da memória.
estranha a tudo,
avança a quimera do futuro,
acumulando memória na alma,
esquecimento na morte,
saudade no tecido orgânico dos segundos,
melancolia
no silvo contínuo da contemplação.
é sob o jugo do corpo
que o pensamento discorre,
vagamente sereno,
tumultuado pelas prosas do desejo;
e negar o corpo
é matar a alma...

segunda-feira, julho 02, 2012

transe


o tédio argumenta,
de encontro ao azul calmo do céu,
as façanhas incumpridas dos mortos.
as paredes derretem
sob o calor fantástico das horas,
onde cada segundo tem o sabor amargo
de uma missão perdida.
o encadeamento secreto do futuro
mantém-se oleado,
gemendo quase imperceptível no corrimento do tempo
e nas engrenagens de um destino imaginário.
cada passo sente-se um retorno
enquanto que a brisa acariciando os rostos
cheira a passado.
até o modo como as ruas se dobram,
e enrolam no tecido da cidade,
fere o coito da alma
arrumando a esperança numa gaiola ferrugenta.
é igual que penses o teu tempo
esganando-se por fugir aos corredores caóticos
do tempo dos outros,
ou como uma estrada
guiando as tuas vontades e desejos;
no final o crime será o mesmo,
falando um pouco da saudade
mas muito mais do desespero.