sexta-feira, outubro 26, 2012
rede
elementar na noite
soa o primitivo som do medo
que guia o voo dos morcegos
e por isso lhes dá
a paz.
o sangue toma-se do nervo impróprio
da escuridão mansa e mentirosa,
carregando ao de levezinho
a podridão rastejante
subindo aos dentes,
que depois cuspimos.
a raça dos cães que ladram
cobre de promessas vãs os aflitos;
pois aflição é
também
o comentário obscuro
submisso ao som histérico da multidão
enervada.
corre sem cometeres o pecado de olhar para trás;
no que fica para lá das costas
seria vão procurar o futuro,
pois o furor das coisas
corre,
sem medida,
à tua frente.
como se aquilo em que os olhos focam
fosse sem erro
o receio indefinido que nos eriça os pêlos do pescoço.
agarra então as insinuações do musgo
húmido das paredes que não podes ver;
a intuição do decoro silencioso
é a derradeira prova que
nada é como aquela primeira visão
parindo-te o preconceito.
nos cruzamentos
se transformam os desconfortos
num caminho incógnito
do qual,
depois,
alguém se afirmará explicador.
é essa a merda toda.
quarta-feira, outubro 24, 2012
alicerces
as paredes,
concretas formas erigidas como sustento dos tectos,
buscam fugir ao preceito vulgar do chão
para,
num patamar mais elevado,
concretizar o ideal
em um espaço fechado.
e assim também
se amontoam os actos morais,
procurando escapar aos sentimentos rasteiros
no intento,
certamente pueril,
de alcançar os pés da justiça
e os favores do vulto que se aparenta à verdade.
a coisa certa existe,
a verdade sobre ela
é que não.
sexta-feira, outubro 19, 2012
fim dos dias
sento-me hoje
sobre os porvindoiros escombros
de mais um império.
imaginei-me eu,
com olhos de menino,
olhando o azul redondo de um mundo próspero,
desde uma lua próxima,
perdido em afazeres obviamente épicos;
vejo-me hoje,
tomado na mesma
pelo sentido quimérico dos sonhos,
desesperando por inventar um futuro
para quem me olha,
nestes dias que correm,
com os mesmos olhos de menino
que um dia
já foram os meus...
quinta-feira, outubro 18, 2012
chicken korma
cheira neste pedaço de rua
ao que cheira num pedaço de rua
numa Índia
provavelmente impossível.
mutuamente exóticos
são os passos de quem vejo
e de quem,
vindo desse outro lugar distante,
me vê agora
a mim.
o fosso de gestos,
olhares,
palavras,
cheiros,
esperanças,
é no imediato consumado.
curioso
como todo este lapso conceptual
se desfaz,
na lenta química do processo digestivo,
numa compreensão orgânica e automática
dos componentes últimos
da realidade.
no estômago se processam as diferenças,
nos intestinos se integram,
e a merda
não sendo,
talvez,
exactamente igual,
cheira toda ao mesmo...
quarta-feira, outubro 17, 2012
fragmento
existe um fragmento de escuridão
nos momentos desvestidos
das palavras
que não se deixaram dizer.
e o peso quimérico dessa ausência
coalesce num oceano amargo,
liquefazendo-se,
demoradamente,
numa angustia que goteja.
não existe verdade,
que os olhos contemplem,
para além do tumulto que fundamenta o cosmos;
e este,
tão primordial quanto distante,
é apenas um eco
esquecido no soluçar pueril
que nos leva.
a noite cai neste lado do mundo,
a esperança tornará,
uma e outra vez,
para acariciar a pele
de quem se submeteu
ao imperativo da saudade.
sexta-feira, outubro 12, 2012
fugaz
fazem-se de coisas que se lembram,
leves,
talvez levianas até,
os dias que correm
sob um contínuo e sonoro desconcerto,
quebrado aqui e ali
pelo choque de silêncios imprevistos;
como se o alheamento das coisas vulgares,
agudizasse o vazio
na lembrança de sons que não se escutam.
concedo razão
ao argumento tácito da continuidade,
embora o que devém,
e bem assim suporta tudo quanto continua,
possa nem ser o que julgo,
após o isto e o agora,
continuar.
estes momentos sentenciados por sequências,
ecoados pelas cavernas da carne,
prometem sempre um depois
cujo concreto sentido
constantemente se perde
a cada novo impulso.
e eu guardo este sentimento
como uma pequena fogueira
bruxuleando,
frágil,
numa noite imensa,
mãe exacta de toda a esperança.
quinta-feira, outubro 11, 2012
cenário
os sentimentos confundem,
atropelam-se acções
na emotiva paisagem dos nervos,
desfazendo-se preceitos
em esquemáticas e frágeis promessas,
quebradas num quase gemido,
escutado por quase ninguém.
eu fito o cinzento que escurece
como se a cor o tomasse.
não enquanto exercício pueril
de uma esperança desenxabida,
mas como a árvore estanque,
peremptória,
intemporal,
que por sobre terras volúveis
faz crescer o verde das folhas
e o arco-celeste das flores,
para que desse frondear vivo
jorre a sombra
sobre olhos que sabem esperar.
a medo sussurro eu isto,
pois a coragem de sentir
se toma de uma tal vertigem
que o mundo na aparência se liquefaz,
e os pés perdem o sentido
que as mãos desejam,
talvez vergadas ao desespero,
agarrar.
quarta-feira, outubro 10, 2012
(não)esquecer
a matéria segura-se na evidência
escorrendo esta,
pois urge que o faça,
através de uma fresta impossível.
afinal a percepção recolhe
pequena parte da radiação liberta;
sendo a invisibilidade vasta
adensando portanto o mistério,
e excitando uma metafísica incoerente
tal qual deve ser.
é próprio que sinta um aconchego,
infracto na inumerabilidade natural
de pedacinhos buliçosos,
vendendo venenos perfumados
enquanto uma chusma mal cheirosa
cresce,
sem identidade,
para além de limites intuídos.
a memória é pois uma traição
- quero lembrar cada insinuação ideal
de um corpo teu
perfeito;
e tenho eu
esta mão imaginária,
perdida numa carícia
em ti.
- agora paro,
pois não consigo esquecer.
quinta-feira, outubro 04, 2012
altar meu
encontro aquela agitação infantil
da descoberta
gerada nesse sorriso
recém formado
agora mesmo,
na linha carnuda
que delineia a perfeição
nos teus lábios.
este poder de invenção
- tanto do cheiro da rosa,
como da luz do sol,
da emoção de um luar -
torna o desespero que hoje me esgana,
numa suave colina de promessas
caminhada sob a meiguice
de uma brisa primaveril.
e até os calhaus no caminho
se insinuam,
como se uma vontade benévola
fizesse deles voz
para murmurar o amor.
eu sei bem
que nada disto existe,
excepto tu e teus modos
para mim altares.
não sei se te fez deus,
se deus és tu,
crendo eu que deus não há.
apenas vejo que és esse tudo,
que me faz falta
para poder ser eu.
segunda-feira, setembro 24, 2012
aumento da nebulosidade...
dizem dos factos
que são,
mais que escritos em pedra,
como as próprias pedras.
concretas manifestações de antecedente-consequente
nesse palco,
para alguns altar,
que usámos
por conveniente convenção
chamar “realidade”.
de todos os factos,
aquele que menos convence,
talvez,
é o que emerge daquela cavernosa entidade
perdida no escuso labirinto interior de cada um,
e por tal também do meu,
por onde ecoam
sem substância material que permita um apalpar decisivo,
menos reais que calhaus
portanto,
ideias sobre a dita
realidade dos factos...
seja pois,
eu,
e sejas pois,
que não depois,
tu;
eu e tu
duas sonoras lembranças
de como a realidade é,
afinal,
uma nuvem silenciosamente
fodida...
que são,
mais que escritos em pedra,
como as próprias pedras.
concretas manifestações de antecedente-consequente
nesse palco,
para alguns altar,
que usámos
por conveniente convenção
chamar “realidade”.
de todos os factos,
aquele que menos convence,
talvez,
é o que emerge daquela cavernosa entidade
perdida no escuso labirinto interior de cada um,
e por tal também do meu,
por onde ecoam
sem substância material que permita um apalpar decisivo,
menos reais que calhaus
portanto,
ideias sobre a dita
realidade dos factos...
seja pois,
eu,
e sejas pois,
que não depois,
tu;
eu e tu
duas sonoras lembranças
de como a realidade é,
afinal,
uma nuvem silenciosamente
fodida...
sexta-feira, setembro 21, 2012
beijar
quanto sobra dessa amostra
tonta
de beijos sonhados,
apenas sonhados,
ficando por dar
ficando só meus...
não sei de tontearia maior
que esta,
de imaginar beijos
que depois de os imaginar
vão ficando,
tristemente,
por dar.
e afinal
é o beijo,
este beijo de que falo eu,
a lembrança
de que é possível
essa coisa
de duas pessoas
dando,
e desse apaixonado gesto
de quem nele se dá,
aceitar serenamente
receber.
dar-te-ei esse beijo,
prometo.
quinta-feira, setembro 20, 2012
circular
há um horror
gerado no silêncio
de quem contempla
o desatinado amontoar dos números.
como quando a exponencial
se joga ao infinito,
implicando por tal
a aflição dos mortais...
depois de qualquer estouro
conspiram todas as leis
contra a coesão dos pedaços
outrora inseparáveis;
é a morte,
então,
o derradeiro sorriso,
desolando espaços
e apagando esperanças,
no cumprimento estrito
de uma implacável tarefa:
ser semente
do porvir.
quarta-feira, setembro 12, 2012
de cadências
despido do preconceito estúpido
retiro mentalmente,
processando-o com deleite pecaminoso,
a roupa supérflua que te veste
escondendo detalhes que excitam hormonas,
acicatando o desejo.
é isso uma arte,
adivinhando prontamente
o que se revelará depois;
e é maior que aqueloutra
que tolamente veste
deleitando-se no acto inverso de descobrir
chamando-o,
qual paradoxo,
de criativo...
finalmente,
toda a insinuação de arte
finda.
sexta-feira, agosto 31, 2012
colapsar
o cacto tem má fama.
não bastando que suplante a aridez dos desertos,
bem como doses bastardas de solidão,
para que se lhe atenue o ditado podre
dos homens.
a luz vagueia indecisa por fronteiras sombrias,
e o cinzento que se insinua finalmente em preto
sabe mais de todos os trejeitos desta,
no seu remansar de quase eternidade,
que o sol
esse despudorado esbanjador.
eis-nos
nestes precisos dias
perante o maior colosso da humanidade
- a exponencial inquebrantável
da estupidez!...
quinta-feira, agosto 30, 2012
labirinto
a matéria que me faz
desmemoria-se em um pó ubíquo,
e exala inquietações agudas,
porém,
sem definição precisa.
correm céleres imagens epilépticas
e os sons despegam-se em mil despudores sem propósito.
observa-se,
talvez sem o devido e respeitoso comprometimento,
o seguir de subtilezas inanes
sustento que são agora
da mecânica inteira
e indiferente pois sumamente presumida
dos dias.
aqui e ali exacerbam-se gritos,
abafados pelo peso de um cinzento musculado;
são como crianças dobrando esquinas
a quem negam o estrépito inigualável da surpresa,
e o desconhecido é um medo
de onde se esqueceu a esperança
e de onde a dor sussurra
então
como senhora de toda a parte.
não se julgue tudo pela crueza infantil de um final,
seja sonhado,
seja feito,
é no meio das coisas que a dúvida se agudiza nas carnes;
aqui descalçarei os sapatos,
os pés farão a procura de um caminho
sentindo-o na dureza dos factos
que não sabem fazer promessas.
sexta-feira, agosto 03, 2012
passos na calmaria
é uma matemática descuidada
aquela que conta pelos dedos
a passagem dos dias sossegados.
a matéria que se postula
até nos sonhos de homens ociosos,
cria no mundo portentos imprevisíveis,
enquanto o sol,
numa indolência que aborrece almas mais exigentes,
teima na sua curvatura estável
insinuando por isso,
nos desejos discretos dos homens pios,
um anseio de imortalidade.
A forma como os tempos correm
tem destas coisas
que conluiam por se perpetuar iguais,
mas vai inspirando diferenças subtis
vibrando no seio de cada átomo
que se agrega a um outro qualquer,
para que,
mesmo sob o ditado das leis naturais,
a surpresa nos morda
demudando o tédio da certeza
na feliz inquietação da dúvida.
terça-feira, julho 31, 2012
gravidade
os dois mortos juntam-se, e na sua impossível sabedoria de não vivos contam entre si a história dos que, vivos, ignoram, por completo, o conhecimento reservado à calmaria negra onde apenas os mortos contemplam a verdade muda e invisível.
os dois mortos zombam dos vivos; as pessoas, afirmam eles, são fundamentalmente estúpidas, há que forçá-las ao caminho justo que as guie a salvarem-se, apropriadamente, de si mesmas.
os dois mortos comentam friamente a existência dessa sopa insípida e amornada por onde os corpos, dos vivos portanto, deslizam alheios ao facto de o fazerem sem sentirem qualquer insinuação de rumo.
os dois mortos chegam ao fim do sonho; e nem todas as manhas que dos mortos se diz terem, superam a necessidade premente da respiração e, consequentemente, é o caso que os estúpidos dos vivos... continuem vivos.
os dois mortos manifestam-se agora enquanto dois olhos abertos - os sentidos vibram, os nervos trepidam, o entendimento acende-se cedendo espaço ao esquecimento.
os dois mortos antes, são dois olhos abertos agora; tão cegos como no passado, rumando sem excessiva hesitação até à morte que, algures, os vai receber sem reparos nem preconceitos.
segunda-feira, julho 30, 2012
no chuveiro...
diz-se de certas recordações,
e não de todas,
pois claro,
que nos enchem de uma melancolia excessiva
por via dessa dolorosa e pendular vaidade
a que chamamos saudade.
primeiro por hábito de o ouvir chamar a outros,
depois,
e porque cada momento diverge
de todos os que já foram,
por economia de esforço,
preguiça portanto,
e frugalidade da imaginação.
eu não sei ao certo,
no sentido em que precisão
se define como resultado
do encadear das regras mecânicas do mundo,
se a dor que sinto se explica como sequente
de predecessores inescapáveis,
que depois de enrolados pela pertinácia do tempo
nos demais efeitos das demais coisas,
elaboram a ilusão da alma
e o domínio desta pelo artifício do desejo.
para tal
neste momento,
e suspeito que em todos os outros,
falha-me a paciência
e o talento...
talvez que no espaço aparentemente infindo
onde brownianos se entrechocam
sentimentos e pensamentos,
possa emergir a cura
para tanta saudade
e para tanta loucura.
quinta-feira, julho 26, 2012
da subjectividade
o erro embastece
impregnando a ineludível submissão à simplicidade
de equívocos e delícias.
por motivos diversos
dispersamos na subjectividade
o contacto com a realidade
nas inúmeras mutações interpretativas
dos preceitos simples da coisa real,
como se,
talvez sem leviandade propositada,
o mundo dependesse essencialmente
da matéria abstracta
que vai escorregando dos nossos pensamentos.
a simplicidade,
afinal,
rege toda a sequência da matéria,
os amontoados de merda
e o perfume que adoça as flores
germinam do mesmo fluido universal,
pensamentos e sentimentos
são apenas manifestações subjectivamente distintas
da merda e do perfume.
a subjectividade é o corso do erro
e talvez a única fonte possível
da felicidade.
terça-feira, julho 24, 2012
com fundamento na queda
gostamos de namorar frívolas coisas,
modas que fenecem na rapidez distraída de um gesto qualquer,
objectos que meramente nos aceleram rumo ao tédio,
ideias cujo assomo de sofisticação
descarna qualquer sentido,
que haver pudesse,
além da ligeireza oca de onde nasceram.
a medida do concreto
não é o corrimão que nos guia
impedindo a queda,
mas a queda ela mesma;
apenas depois de embater com o mundo
podemos medir fronteiras e contingências,
circunscrevendo o domínio do erro
que,
fundamental e sem propósito místico,
o arquitecta.
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