terça-feira, novembro 27, 2012

cansaço


estreita-se na estranheza
da luz invernal
o garrote lento
de um cansaço fundamental.
as partículas do tempo,
sobrepostas em sequencialidade monótona,
convocam os ditados próprios
de cada momento que passa.
os monumentos
depois erigidos no aflito afã da produção,
rasgam o tecido liquefeito
que nos molda enquanto vísceras obstinadas,
nos sulcos informes
do destino;
caem flocos brancos
despromovidos dos pedestais coloridos
do sentimento,
molhando um sorriso cadavérico
seco de todas as promessas,
ao qual
adere
na escuridão
o espectro de frutos por vir.
eu sinto o passado
enquanto passa
na ponta dos dedos,
guiando sem visão os passos
tensos,
do caminho que ineludível se faz.
eu olho sem olhos
o horizonte impassível
onde uma ideia inútil
quer tomar o posto vácuo de deus;
o cansaço é agora um concerto
crescendo entre dois adágios,
congregando o poder silencioso da esperança
entre os pilares,
ora mornos,
ora frios,
das mentiras piedosas
que,
no conforto da indecisão,
nos deixamos ouvir.

sexta-feira, novembro 23, 2012

saber?


quando se fala de ti,
seja pelo rugido do vento
ou pelo jeitinho suave de uma brisa,
recolho-me no silêncio dos meus segredos;
aqueles que imagino,
e os outros,
que o mundo ajunta
sem intento nem piedade
em mim.
adivinho,
talvez por mais não poder,
os contornos que te esboçam,
e se,
por traços apenas,
se definissem as pessoas e as coisas,
seria eu um sábio
tão sábio
que o meu saber não conheceria
o medo.
mas não sou nada disso,
apenas existo,
aqui,
neste exíguo espaço e tempo
que nem tomo por certo
ser meu.
talvez por isto tudo,
na realidade tão perto de ser nada,
ouse eu pensar entender
um pouco
do que poderá ser
um outro ser.

domingo, novembro 18, 2012

fosso


toda a matéria de facto
se perpetua em discursos flatos;
o odor perverte o sentido
mesmo do mais ousado,
ainda que se mostre,
após,
como que cambaleando entre ofensas,
fruto de uma espécie de memória débil,
pois até nas paredes mais brancas e despidas de luta
se formam as letras
da revolução.
o coração reserva-se nos devaneios
dos acossados pelo frio das noites,
o seu compassado tumulto
acolhe a todos por igual.
é o meu irmão que grita,
é ele que ri das profundidades cavernosas
do passado.
agora restam as trincheiras
com os seus restos de carne;
a planície,
mesmo em frente,
pejada de vultos que já foram,
promete um alento manhoso na distância do horizonte.
a morte não é silenciosa,
apenas os mortos
o são.

terça-feira, novembro 13, 2012

angulo raso


a matéria que faz os loucos
é como um segmento profícuo de misérias
ocas;
assim como um barulho
repentinamente engrossando o zumbindo colorido
da cama deixada quente
após o sexo.
ergue-se entrementes o sumo fresco
diletante anúncio de coisas de vaga importância e certamente inúteis,
enquanto ela se faz muito mais que qualquer isto mais por aqui;
e tanto mais ela se faz,
que se faz mesmo
para além do cabimento atinado
daqueles que apenas conseguem dar
passinhos cinzentos.
é pois um olhar que me perde
numa subestação feita apeadeiro onde em ordenamento procissional
deslizam carneiros de olhares mortiços,
sem intensidade,
e cuja volição se esqueceu de esguichar futuro.
olha-me igualmente tu,
tu sim,
para nessa igualdade presumida se poder atingir os calcanhares do caos,
e deste modo se prometer carinhos
sem compromisso ou finais cujos desejos se concretizem.
falo agora do cimento
entre flores por morrer,
elas que não sabem nada mas perfumam até o vácuo
onde porfiadamente os santos comem tomate
e engolem qualquer azedume
cagando depois como os outros todos.
os quartos vão vagando lentamente
como um corpo esvaindo-se,
sem excessivas pressas,
num sangramento decidido.
está morto algo
é finalmente um momento;
mas não faço ideia.

quinta-feira, novembro 08, 2012

pasto


dormem os gestos
no degredo húmido
do silenciado,
de onde comoção imprópria
se faz grito,
e incómodo presente,
no corpo dele e de seu irmão
prostrados em desolação medrosa.
a forma das coisas é um sombreado
que adere a uma aparência de barbeito,
uma prisão vincada,
quase um eco,
a cada sílaba muda
vomitando-se em verborreica condenação de nada;
há um traje negro
vestindo-se num esqueleto patético
tropeçando na infinidade escarlate que o precede.
livra-se destes preceitos
o comércio taciturno dos calhaus,
em um pranto vazio
soluçado em vão
nos caminhos equívocos do vento.
há um fantasma da cor de algum sonho,
sonhado sem a urgência de um depois,
em cada pena espiralando sem destino
num dia de primavera;
cada gemido mordido em lábios vendados
promete um prazer indizível
talvez até perverso,
e o futuro,
alheio a tudo isto,
amotina-se!...

segunda-feira, novembro 05, 2012

péssimismo


eu vejo,
rasgando-se na excessiva luminosidade
do led,
sorrisos contrastados
contra o fundo descolorido
por onde o mundo devém
agora.
não que a realidade se importe
ou aflija
com os modos de quem sorri
com tal despudor.
nem tão pouco se admire
com a sageza desértica
das palavras ditas;
sejam elas belas,
profundas
ou merda.
de entre as ideias dos vivos
e o legado dos mortos
escorre uma espécie de lodo,
e aí talvez resida
alguma verdade
embora,
tu sabes,
seja apenas
uma abreviatura do embuste.

sexta-feira, novembro 02, 2012

prelúdio


a chuva amiga-se ao chão
entoando uma melopeia
que parece picada
nas teclas de um piano impressionista.
tem-se,
a chuva,
num crescendo sonoro,
até que por momentos
quase se dissipa aos ouvidos,
forçando a vista
em frenesim imprevisto,
a inquiri-la naqueles traços subtis
riscando a escassa luz dos dias de inverno,
que de escuros serem
nos escurecem,
sempre mais um pouco,
por dentro.
imagino agora
a tua mão planeando-se na minha,
prelúdio de silêncios cúmplices
serenamente compondo
os capítulos que assim se ajuntam
para contar
a nossa história.

sexta-feira, outubro 26, 2012

rede


elementar na noite
soa o primitivo som do medo
que guia o voo dos morcegos
e por isso lhes dá
a paz.
o sangue toma-se do nervo impróprio
da escuridão mansa e mentirosa,
carregando ao de levezinho
a podridão rastejante
subindo aos dentes,
que depois cuspimos.
a raça dos cães que ladram
cobre de promessas vãs os aflitos;
pois aflição é
também
o comentário obscuro
submisso ao som histérico da multidão
enervada.
corre sem cometeres o pecado de olhar para trás;
no que fica para lá das costas
seria vão procurar o futuro,
pois o furor das coisas
corre,
sem medida,
à tua frente.
como se aquilo em que os olhos focam
fosse sem erro
o receio indefinido que nos eriça os pêlos do pescoço.
agarra então as insinuações do musgo
húmido das paredes que não podes ver;
a intuição do decoro silencioso
é a derradeira prova que
nada é como aquela primeira visão
parindo-te o preconceito.
nos cruzamentos
se transformam os desconfortos
num caminho incógnito
do qual,
depois,
alguém se afirmará explicador.
é essa a merda toda.

quarta-feira, outubro 24, 2012

alicerces


as paredes,
concretas formas erigidas como sustento dos tectos,
buscam fugir ao preceito vulgar do chão
para,
num patamar mais elevado,
concretizar o ideal
em um espaço fechado.
e assim também
se amontoam os actos morais,
procurando escapar aos sentimentos rasteiros
no intento,
certamente pueril,
de alcançar os pés da justiça
e os favores do vulto que se aparenta à verdade.
a coisa certa existe,
a verdade sobre ela
é que não.

sexta-feira, outubro 19, 2012

fim dos dias


sento-me hoje
sobre os porvindoiros escombros
de mais um império.
imaginei-me eu,
com olhos de menino,
olhando o azul redondo de um mundo próspero,
desde uma lua próxima,
perdido em afazeres obviamente épicos;
vejo-me hoje,
tomado na mesma
pelo sentido quimérico dos sonhos,
desesperando por inventar um futuro
para quem me olha,
nestes dias que correm,
com os mesmos olhos de menino
que um dia
já foram os meus...

quinta-feira, outubro 18, 2012

chicken korma


cheira neste pedaço de rua
ao que cheira num pedaço de rua
numa Índia
provavelmente impossível.
mutuamente exóticos
são os passos de quem vejo
e de quem,
vindo desse outro lugar distante,
me vê agora
a mim.
o fosso de gestos,
olhares,
palavras,
cheiros,
esperanças,
é no imediato consumado.
curioso
como todo este lapso conceptual
se desfaz,
na lenta química do processo digestivo,
numa compreensão orgânica e automática
dos componentes últimos
da realidade.
no estômago se processam as diferenças,
nos intestinos se integram,
e a merda
não sendo,
talvez,
exactamente igual,
cheira toda ao mesmo...

quarta-feira, outubro 17, 2012

fragmento


existe um fragmento de escuridão
nos momentos desvestidos
das palavras
que não se deixaram dizer.
e o peso quimérico dessa ausência
coalesce num oceano amargo,
liquefazendo-se,
demoradamente,
numa angustia que goteja.
não existe verdade,
que os olhos contemplem,
para além do tumulto que fundamenta o cosmos;
e este,
tão primordial quanto distante,
é apenas um eco
esquecido no soluçar pueril
que nos leva.
a noite cai neste lado do mundo,
a esperança tornará,
uma e outra vez,
para acariciar a pele
de quem se submeteu
ao imperativo da saudade.

sexta-feira, outubro 12, 2012

fugaz


fazem-se de coisas que se lembram,
leves,
talvez levianas até,
os dias que correm
sob um contínuo e sonoro desconcerto,
quebrado aqui e ali
pelo choque de silêncios imprevistos;
como se o alheamento das coisas vulgares,
agudizasse o vazio
na lembrança de sons que não se escutam.
concedo razão
ao argumento tácito da continuidade,
embora o que devém,
e bem assim suporta tudo quanto continua,
possa nem ser o que julgo,
após o isto e o agora,
continuar.
estes momentos sentenciados por sequências,
ecoados pelas cavernas da carne,
prometem sempre um depois
cujo concreto sentido
constantemente se perde
a cada novo impulso.
e eu guardo este sentimento
como uma pequena fogueira
bruxuleando,
frágil,
numa noite imensa,
mãe exacta de toda a esperança.

quinta-feira, outubro 11, 2012

cenário


os sentimentos confundem,
atropelam-se acções
na emotiva paisagem dos nervos,
desfazendo-se preceitos
em esquemáticas e frágeis promessas,
quebradas num quase gemido,
escutado por quase ninguém.
eu fito o cinzento que escurece
como se a cor o tomasse.
não enquanto exercício pueril
de uma esperança desenxabida,
mas como a árvore estanque,
peremptória,
intemporal,
que por sobre terras volúveis
faz crescer o verde das folhas
e o arco-celeste das flores,
para que desse frondear vivo
jorre a sombra
sobre olhos que sabem esperar.
a medo sussurro eu isto,
pois a coragem de sentir
se toma de uma tal vertigem
que o mundo na aparência se liquefaz,
e os pés perdem o sentido
que as mãos desejam,
talvez vergadas ao desespero,
agarrar.

quarta-feira, outubro 10, 2012

(não)esquecer


a matéria segura-se na evidência
escorrendo esta,
pois urge que o faça,
através de uma fresta impossível.
afinal a percepção recolhe
pequena parte da radiação liberta;
sendo a invisibilidade vasta
adensando portanto o mistério,
e excitando uma metafísica incoerente
tal qual deve ser.
é próprio que sinta um aconchego,
infracto na inumerabilidade natural
de pedacinhos buliçosos,
vendendo venenos perfumados
enquanto uma chusma mal cheirosa
cresce,
sem identidade,
para além de limites intuídos.
a memória é pois uma traição
- quero lembrar cada insinuação ideal
de um corpo teu
perfeito;
e tenho eu
esta mão imaginária,
perdida numa carícia
em ti.
- agora paro,
pois não consigo esquecer.

quinta-feira, outubro 04, 2012

altar meu



encontro aquela agitação infantil
da descoberta
gerada nesse sorriso
recém formado
agora mesmo,
na linha carnuda
que delineia a perfeição
nos teus lábios.
este poder de invenção
- tanto do cheiro da rosa,
como da luz do sol,
da emoção de um luar -
torna o desespero que hoje me esgana,
numa suave colina de promessas
caminhada sob a meiguice
de uma brisa primaveril.
e até os calhaus no caminho
se insinuam,
como se uma vontade benévola
fizesse deles voz
para murmurar o amor.
eu sei bem
que nada disto existe,
excepto tu e teus modos
para mim altares.
não sei se te fez deus,
se deus és tu,
crendo eu que deus não há.
apenas vejo que és esse tudo,
que me faz falta
para poder ser eu.

segunda-feira, setembro 24, 2012

aumento da nebulosidade...

dizem dos factos
que são,
mais que escritos em pedra,
como as próprias pedras.
concretas manifestações de antecedente-consequente
nesse palco,
para alguns altar,
que usámos
por conveniente convenção
chamar “realidade”.
de todos os factos,
aquele que menos convence,
talvez,
é o que emerge daquela cavernosa entidade
perdida no escuso labirinto interior de cada um,
e por tal também do meu,
por onde ecoam
sem substância material que permita um apalpar decisivo,
menos reais que calhaus
portanto,
ideias sobre a dita
realidade dos factos...
seja pois,
eu,
e sejas pois,
que não depois,
tu;
eu e tu
duas sonoras lembranças
de como a realidade é,
afinal,
uma nuvem silenciosamente
fodida...

sexta-feira, setembro 21, 2012

beijar

quanto sobra dessa amostra
tonta
de beijos sonhados,
apenas sonhados,
ficando por dar
ficando só meus...
não sei de tontearia maior
que esta,
de imaginar beijos
que depois de os imaginar
vão ficando,
tristemente,
por dar.
e afinal
é o beijo,
este beijo de que falo eu,
a lembrança
de que é possível
essa coisa
de duas pessoas
dando,
e desse apaixonado gesto 
de quem nele se dá,
aceitar serenamente
receber.
dar-te-ei esse beijo,
prometo.

quinta-feira, setembro 20, 2012

circular


há um horror
gerado no silêncio
de quem contempla
o desatinado amontoar dos números.
como quando a exponencial
se joga ao infinito,
implicando por tal
a aflição dos mortais...
depois de qualquer estouro
conspiram todas as leis
contra a coesão dos pedaços
outrora inseparáveis;
é a morte,
então,
o derradeiro sorriso,
desolando espaços
e apagando esperanças,
no cumprimento estrito
de uma implacável tarefa:
ser semente
do porvir.

quarta-feira, setembro 12, 2012

de cadências


despido do preconceito estúpido
retiro mentalmente,
processando-o com deleite pecaminoso,
a roupa supérflua que te veste
escondendo detalhes que excitam hormonas,
acicatando o desejo.
é isso uma arte,
adivinhando prontamente
o que se revelará depois;
e é maior que aqueloutra
que tolamente veste
deleitando-se no acto inverso de descobrir
chamando-o,
qual paradoxo,
de criativo...
finalmente,
toda a insinuação de arte
finda.