sexta-feira, julho 04, 2014

palco

não sei se o desgosto é montanha,
se a verdade pendula sob o jugo da gravidade,
ou a memória engana
quando se verte como enxurrada,
nas contas dos dias,
num excesso de saudade.
não sei buscar fonte que me farte,
nem como aplacar este ardor perene nos olhos;
sinto aliás inútil
a vontade de fixar uma origem de tudo.

teimam os pés em seguir o decreto ininterrupto do sol.

desistir seria mais fácil...

assim me tombam os sonhos,
como caem os frutos maduros;
assim,
dizem-me,
cresço.

...

quando estendo os dedos,
juro que ainda te toco.

quinta-feira, junho 12, 2014

suspensão

adormeço os meus medos
no espaço nu das vírgulas,
pontuando de enredos
o eu que me verte em lágrimas.
nas sombras canto a luz
como quimera bruta
do quanto me seduz.
depois reservo ao tédio
a cor letal das horas,
somando como assédio
o gume dos segundos.
choro esquecido a tudo
sem pinga de vergonha,
sem rasgo de futuro.

em cada pinga um medo,
cada sonho um degredo...

suspira-me esperança
um vento da tua voz,
e essa pequena dança
de sílabas viçosas,
voluteia no reverso
de um entender sumário
dos poros do universo.

o desejo nos dedos
perlonga mais um pouco,
queimando na memória
o fado de ser louco.

quarta-feira, maio 07, 2014

teoria dos jogos

eu não estive quase nada
em lugar algum,
fazendo aliás de conta estar,
parte do tempo todo,
no cume vertiginoso e resplandecente
que imagino,
em traços despidos de concreto,
ser o poiso dos sábios.
investiguei aí
como respirar o dom precioso
de dar tudo no gesto
ornando-o de palavras sangradas,
e ousei ficar só
fechado na planície que se abre
e enche
das tentações várias do bulício.

acabei por te dizer estas coisas finais,
e agora que te dei o que está dito,
reparo
- nem um olhar casual
me deixaste...

quinta-feira, abril 24, 2014

urge

viajo todos os dias
por caminhos direitos e
demasiadas vezes
cinzentos,
gosto de me ausentar deles
esquivando-me dessas linhas certinhas
por via de mitos e desejos,
coloquiando prolixo entre ausências amadas
e presenças sonhadas.
[...]
depois sai-me o gesto,
por vezes vago
por vezes extenso
por vezes forte
por vezes vasto;
mas por baixo e por cima
permeando tudo isto
sente,
quem está desperto,
o olor universal e gelado
da morte,
namorando com paciência porfiada
o momento de nos rapinar o riso,
sempre
com demasiada pressa.
o mundo tem de mau
certa saudade,
o mundo tem de bom
certa memória
e certos olhos
que vêem e tocam
o pomo da alma.
hoje estou vivo,
é urgentíssimo
que te abrace!...

quinta-feira, abril 10, 2014

das coisas

enrolada numa antecâmara tremida
escorrega a gota inútil
abraçada a um reflexo provisório do mundo.
aguarda sem rumores ou sentidos prolixos
a rotura pacífica de uma origem
sem acto inicial
nem referências póstumas;
o conceito de pertença não se convoca
no movimento imposto num ancho silêncio;
feitas as contas,
se contas fizessem as abelhas coleccionando pólenes
ou as flores que deles se esvaem
por via da descoberta cega de assim se fazerem outras,
serviria esse facto,
sem qualquer eco,
um fado gemido sobre a nudez absurda das árvores caducas.
a escassa distância de tal cisão intensa
mora uma infinidade de postulados humanos,
montando um afobado destino
por via da vertigem constante nos medos próprios;
é que depois do tumulto revoltoso dos pós
ou da insídia indiferente dos raios do sol,
constroem-se nuvens que ocultam,
sem vontade expressa,
o momento de luzir a face lunar
queimada na sonolência sem braços
de mais uma noite.

e

nada.

terça-feira, abril 08, 2014

espessura

é espesso o novelo
contando aos pedacinhos,
enleados num conluio vago,
um filigrana das trevas.
aguardo notícias da primavera
neste covil de sussurros;
algures
o cimento ecoa o movimento excessivo dos dias,
enquanto a vida escorre nos poros quentes do alcatrão.
por norma as flores não me falam
tomam-me por traidor,
e as janelas fecham-se fremindo pólenes furiosos
dos seus canteiros lisboetas.
à beira-rio marulha o lodo,
segue sem vontade o pulso da maré
sobe até se marcar na margem,
mas ignora-me as palavras que lhe deixo pelos olhos.
a solidão é esta coisa de pedra
e de areia.
resvala sem propriamente cair
e chama pelo nome todos os rostos embuçados pela trivialidade.
estava neste instante a matutar no ciclo dos dias,
e em como não existe sequência para além da memória
seja ela saudade
seja dor
seja merda;
estava mesmo atento a este volume infinito
onde ninguém escreveu o que é possível que venha a ser;
e agora perdeu-se-me o fio da coisa.

mas não importa,

pois é espesso o novelo
contando aos pedacinhos,
enleados num conluio vago,
um filigrana das trevas.

terça-feira, março 11, 2014

o canto do nu

olho-te nos olhos
um fogo-desencontro;
no céu,
jamais fixarei o grande olhar
sob pena de queimar-me o ver,
sob pena de perder a luz
e esta visão de ti;
caia a noite,
vê-la-ei no dorso de uma fera branca,
correndo entre as fogueiras remotas
de irmãos e crentes distantes.
conheço-te o sorrir
apenas da pele que toco em ti,
mas quero vê-lo,
no todo,
nu,
sem véus,
com estes olhos meus.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

o "dia" dos namorados...

gosto pouco de dias de; dizem-me, em o eu sentir isto, um sinal de ser mal disposto... mas é mesmo raro, muito raro, desejar um dia, de, no dia em que, de, decidiram ser.
depois não me recordo ser dia, de, sem que queiram vender, o, por ser com, de, tão bem "relacionado."
vão, pois, de, bardamerda e um muito obrigado!...

terça-feira, fevereiro 11, 2014

no tom

Não tenho nas mãos as respostas,
tenho antes,
transbordando,
um cesto de perguntas...
o imo da integridade não se coroa em palavras
amontoadas como ditados precisos,
contando-se ao invés,
na valentia incómoda dos silêncios.
por isso me calo,
até me perder depois,
quando finalmente
digo...

sábado, dezembro 21, 2013

dialéctica

choveu sem pinga
na noite sonora em que me fiz calar;
se calhar indaguei pela certeza errada,
e é bem provável ter-me enganado
quando certeiro em demasia te retorqui!
aguardo em meus afazeres conformados
que desvendes a revolução,
pois da serenidade dos guerreiros,
muitas e tantas vezes,
se faz um hino à paz...
estavas ontem dizendo
como creio em coisas falsas,
em ficções antigas e relatos de agora,
de como os números desenrolam verdades precisas
e os discursos montam e desmontam desconcerto.
é de minha natureza procurar dentro
as palavras,
e com vagar e cuidado tomá-las em carreira
até se misturarem com a saliva
em um gosto só meu.
depois mordo-as
para não me permitir falar
sem o imperativo torso.
é nestas paragens sós que me encontrarás quase sempre,
entre fugas e adágios,
pingando até o passado tombar de vez.

quinta-feira, dezembro 12, 2013

velho

quantos silêncios
retornam sanguinárias farpas,
rasgando feridas na pele infinita
por onde me sangram os sentimentos.
por vezes
a proximidade flutua
qual equação incisiva;
manifesto de uma
directamente proporcional relação,
entre a causa
advinda desse teu olhar sem rumo
e a consequente falta,
guiada por gélida precisão laplaciana,
demonstrando o teorema da minha angústia.
o futuro produz-se zombando-me
em todos os infinitésimos erros,
colecciona-se em pedacinhos de memórias ásperas,
até se criar entropia máxima
de uma antepassada esperança.
talvez seja este o peso bruto do tempo,
manifesto inescapável da senescência.
talvez o primevo fascínio do horizonte,
renovado na promessa de cada aurora,
tombe agora em um medo
medrando a cada novo poente.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

caminhando

evito espectar
a sombra inerte
da absoluta certeza.
consta que,
no regaço tácito da verdade imposta,
se anuem somente olhos tapados;
aguardo de pé
que o jeito inquieto da dúvida,
me entrance o corpo
de angústia e frémito.
incessável é o caminho
de quem ousa procurar.

sexta-feira, novembro 15, 2013

guarda

a matéria de que se faz o norte,
no esquema moral dos acontecimentos rochosos,
busca uma quimera soberba,
qual princesa
demorando-se nos preceitos fúteis
de todas as manhãs.
roda entretanto na aurora
a metafórica procissão das flores,
velejando o esquecimento
com o vagar da brisa e o desfiar cego
do tempo;
agradeço-te esse olhar mais ou menos vagaroso,
entre devassa e timidez,
engrandecendo a vontade vertical dos monumentos
antes do crepúsculo nos molhar com dádivas,
e lágrimas,
por vir.
é esse o perfume que buscava,
sugerindo a promessa
da cor dos teus olhos fechados
e dos teus lábios mordidos;
agarro a veemência dessa imagem nas masmorras onde adoeço
os outros dias completos
- é o fogo que flama o enxame
sem rumo
que se parte sem dele jorrar som
aqui mesmo
a meus pés.

quarta-feira, novembro 13, 2013

frente

o calafrio vincou-me a pele imaginária
no preciso momento em que o fecho seccionou a verdade
num decreto impopular.
talvez a aparência dos juros,
esse formato enigmático dos números
expresso em sovinice pelo tempo,
comente por si a emergência incontornável da morte;
talvez,
atrevo-me a supor,
o esgueirar lesto dos sonhos
seja mais concreto que os estores
batendo sonoramente na pedra,
sem sentimentos,
que desenha a base rectilínea de uma certa janela tangente.
a roda consuma enfim a pesada herança da inteligência,
enquanto na distância
o vento escarnece desalinhando idealmente o teu cabelo.
guardo esta imagem nos olhos
enquanto o pó,
ordenado e sisudo,
se escorre por entre as frestas salgadas do futuro;
ordeno aros metálicos enquanto murmúrios simples
de uma destreza conjuntural,
descem por fim estas cores sobre o meu corpo,
desmemoriado dos teus dedos.
é a canção do frio soprando-me
as memórias da primavera.

quinta-feira, outubro 31, 2013

barro

eu estou no ponto do mundo
inundado por tal densidade ruidosa
que cuida o ser,
o meu ser,
tecido num filigrana de choro e riso,
dotar-se de unicidades mórbidas
a jusante do contentamento e,
em todo o caso,
conotadas com a desmemória de um sossego antigo.
o concreto valor do olhar
escorre pela encosta áspera que aparenta futuro,
desenhando o caminho
na medida do adivinhar dos passos.
disseste-me um horror gélido,
paralisando-me os contornos da esperança,
naquele processo vago que se usa
para deslizar por um outro sulco,
e fugir;
os caminhos separam-se definitivos
em filamentos subtis,
um passo lado a lado
e uma queda escarpada...
eu quis diferente,
mas querer não chega
quando a vida cimenta uma parede
por onde antes
se imaginou deslizar
uma nascente...

quinta-feira, setembro 19, 2013

vinco

acho a morte
viés a fresta
de uma janela impossível,
tingida pela luz mortiça
dos preconceitos
que me afrouxam o tento.
a cosmética da noite,
perene balada dos sós,
sussurra uma aparência
de verdades profundas.
esquece tudo quanto essa musa canta,
deita-te sem pudor
com teus medos e anseios
até se fazer alto o dia
e feroz a dança.
o tempo afana-se em cousas vãs
como a estrutura
com que a fortuna
te escora,
e como as palavras,
que te confortam,
vão descendo sem tino ou sustento
até um fantasma de ti.
junta na memória o bulício alegre
de todos os sorrisos esboçados,
depois será noite
uma e outra vez.

sexta-feira, julho 26, 2013

lema

toda a matemática,
espessa,
expressa sem entendimento de si
o mais profundo e subtil
sentido substancial,
do miolo do universo.
as coisas simples adensam-se em postulados,
fragmentos tautológicos,
juntos em teoria
na complexidade incontável dos números.

tão longe está a realidade do mundo
da verdade tangencial
dos sentimentos...

terça-feira, julho 23, 2013

ruído

contam os loucos
o número infante
da passagem dos dias,
tendo como preceito a clareza da lua
e a incontabilidade dos estados
da vergonha.
quando tornei da batalha,
após te haver morto
uma cruel dezena de vezes,
procurei a afronta nas paredes.
acenei vagamente
a sombra que me projecta em escuridão,
e o momento escapou para o céu
até se perder
por um vórtice incompreendido.
os pirilampos morrem avisados
no coito de uma noite indiferente e infinita,
talvez o cansaço me conceda a sua mão materna,
talvez faleça a montanha que se insinua por ti
ao som de um azulado danúbio,
uma fronteira bárbara
de esparvados territórios eruditos.
consta-me o fim;
e o prazer obscuro da brisa
humilha a respiração
deste que ofega em compromissos vãos.

o ódio é um nome silencioso,
faz-se de gestos contundentes,
úlceras
e sangue.
as bestas procuram deslembrar o castigo do sol,
na memória por ele sombreada;
todos os ventos amenos trazem um nome próprio,
uma vítima senhorial,
pois os custos são notáveis
e a fama,
um fardo.
ruiu finalmente o remorso,
por entre ruminações ruidosas
e a utilidade perfeita
do tempo;
em cada segundo geme um conto
em cada conto
esporeia uma vida.
segue-se a estrada
triturada por um ciúme insubmisso,
é impossível seguir por outra vontade.

sexta-feira, julho 12, 2013

circular

a memória esboroa-se em detalhes.
é a cor que se amedronta
ou o espaço
que se contrai,
e a metáfora entretecendo tempo e matéria
perde-nos
ignorando a consciência
frágil
na inevitabilidade universal
da sorte.
ocorre-me pensar num conforto imortal;
mas o jugo de uma fantasia divina
é mais um grilho na carne
que sente,
na carne
que pensa.
o gesto é tudo o que resta,
o gesto que arrasta ao presente
a percepção dorida
desse impossível que aí vem.

quarta-feira, julho 10, 2013

atractor

havia um pedaço frugal da Lua
no teu olhar firme,
era rochoso o projecto mútuo,
um ditado coeso de dispersões,
como se a reciprocidade dos gestos
fosse apenas o amuo,
caprichoso,
de um espasmo evolucionário.
aguardo a devolução dos sentimentos;
é escuro este labirinto
cujas paredes mentirosas tento em vão,
impedir de crescer.
havia uma crença,
por certo vaga,
na brisa que nos unia,
hoje apenas se nota a brusquidão de um vento agressivo;
entre os impropérios tão mudos quanto inúteis
subjaz uma verdade temporária,
pois são assim dotadas as coisas humanas,
não houve,
nem poderá haver,
qualquer fantasma de falsidade.