quarta-feira, junho 29, 2011

Coisas...

Procura ver-me nos intervalos das coisas,
nos silêncios criados nas raias do desassossego,
nas cores que, desmaiando de tonalidades exuberantes,
vestem de mansinho a monotonia que marca o Tempo.
Somos estes átomos que se querem mais,
estas coisas que se sonham como sonhos de um deus
procurando na finitude exígua de cada passo
um inefável sentido para tudo.
Talvez tudo o que foi
tenha que ter sido;
talvez tudo o que será
forçosamente será como depois o veremos ser.
Mas nada disso importa
quando me sorris.

segunda-feira, junho 27, 2011

Para além do silêncio...

Para além do silêncio
sentem-se os espaços como tons descolorados
enformando, no sentir, o vazio.
Em moradas arruinadas
dormitam as palavras
que nelas se ouviram;
vácuas promessas de amor,
mentiras várias,
risos
e morte.
O sonho que hoje nasce insonoro
será cimento de cemitérios,
flores selvagens,
porventura sementará uma canção.
E tudo isto será medida,
fruto dúbio
de dúbia contemplação;
do sonho à mesura
contam-se palavras
e em cada palavra sobram,
além de signos e sons,
todos os seus vastos sentidos...

quarta-feira, junho 15, 2011

Viver

Não sei se para lá da linha inventada
a que chamamos horizonte
se encontra o que os meus enganos somam
e gostam, silenciosamente, de se prometer.
Todos os futuros são incógnitos
todas as promessas se sujam
inevitavelmente, às vezes inocentemente,
de mentira,
e nada disso invalida o domínio do desejo
que faz das farturas
ou das misérias do momento,
úteros prodigiosos do porvir.
Talvez fite em demasia o horizonte,
ignorando tudo quanto,
aquém deste,
bate como o coração do mundo.
O desejo segreda-me o desassossego,
o Presente grita-me a distracção.
Entretanto,
fica tudo quanto me faz vivo.

terça-feira, junho 14, 2011

Dúvida

Existe uma profunda melancolia
nos lemas que laqueiam
as artérias das nossas estórias...
Um olhar mistificado grita-se
enquanto guia equívoco dos signos
com que nos obrigamos.
Passado e futuro são fantasmas
ensombrando os passos concretos
de onde ressoam os vocábulos
que saciam o Presente.
Da imensidão da dúvida
constrói-se o caminho de luz
tacteado num escuro absurdo.

quinta-feira, junho 09, 2011

Ecoando

O futuro purga-se em palavras,
mentindo com sentidos impróprios
ao próprio sentido que o desfaz.
O futuro ecoa o som dos sonhos
esgotando o passado do mundo
para ser quimera principal
das infinidades do Presente.
O futuro é, antes de um fim,
a vertigem do que por lá vem
sentida num momento, agora,
como prelúdio silencioso
de uma eternidade sem destino.
A voz se cala e se esquece o gesto,
a lágrima inuma-se na terra,
mas as palavras são testamento
do sentimento todo que as falou...

quarta-feira, junho 08, 2011

Sempre

Esconde-se nos mais ínfimos gestos
o preceito profundo e também a dor envergonhada.
Os ventos são por vezes brisas,
mimos improváveis,
mas toda a bonança se sente, um pouco,
pelo mal que faz quase esquecer.
E o mal, nunca está só.

terça-feira, junho 07, 2011

Imaterial

Resume-se o que sentes
numa projecção mitológica,
esvoaçam fadas sussurrando carícias
e palavras imaginárias
beijam a pele amada
com lábios que sabem a mel...
São tiranos os olhos
e num sufoco de cobiça
consomem-se na ansiedade
acicatando o desejo
num frenesim
que deliciosamente descontrola a ponta dos dedos...

Amanhã os pós serão diferentes
mas,
os sentimentos,
não.

sexta-feira, junho 03, 2011

Fraqueza

A solidão chega por vezes de mansinho,
e num relâmpago nos cega
e num trovão
nos amouca!...
As voltas do mundo,
as volutas em que se enrolam os pensamentos,
as espirais que sugam os sentimentos,
são apenas serviçais de uma crueldade primordial.
E essa, ao comando de todas as nossas fraquezas,
troça baixinho
da angústia que nos toma.

E assim, arrastadamente, se morre.

quinta-feira, junho 02, 2011

Caem notas, decaindo em tons,
assim como gotas, como dons,
tornando-se a magia do momento
prelúdio para mais sentimento.

A morte salga as frestas da estrada,
almejando a salvação nas péras
que acolhem o tento da passada.
Se neste mundo tu desesperas,

ouve o gentil burilar do vento
que sussurra um perene portento
feito nas mil cores da esperança.

Faz de todas as palavras crastos
e de todos os gestos arrastos
levando o futuro, numa dança!

terça-feira, maio 31, 2011

Firme

Amontoando paixões e ilusão
corre célere o rio que tudo move.
E os espectros divergem como loucos
sob a volúpia insensata das águas
e o devaneio hipnótico das sombras.
Ao vento, obedecem-lhe os acordes
que ora vão ora chegam, mas nunca partem,
naquele carecimento sonoro
que aferretoa sentir e momento.
A fúria encerra uma porção de sonho,
e é num olhar que o nome se grita
tendo no horizonte mais uma ponte.

segunda-feira, maio 30, 2011

É sábio o caminho da água;
em toda a sua fúria,
em toda a sua calmaria,
encontra sempre modo
de se fazer futuro.
Por detrás do véu subtil dos sonhos
acaricia-nos o conforto prometido da luz
que, sempre além, a vigília não sabe alcançar.
É sábio o caminho dos sonhos,
mas duros são os passos do sonhador.

sexta-feira, maio 27, 2011

Do que não se vê

A rua dobra e oculta
tudo quanto dessa volta depois fica.
O desenho das coisas conspira
com o invisível,
fazendo do desejo
um arauto enlouquecido
gritando pelas migalhas
que escorrem pelas frestas dos sonhos.
Os nossos dias cobrem-se de espaço e de tempo
embrumando o caminho por onde flui o futuro,
mas se desconhecemos o porvir,
somos donos, ainda que por instantes,
das nossas memórias
e dos nossos amores...

quinta-feira, maio 26, 2011

Aparências

Existe sempre uma mancha,
uma névoa, um véu,
escondendo a ideia de uma alma
num engano suave
que morre numa lágrima.

Como num azul falsamente infinito
se esconde a verdade dos céus,
também na torrente das palavras casuais
e na babel ruidosa dos gestos mundanos
se ensombra tudo
quanto os olhos espelham.

quarta-feira, maio 25, 2011

Derivas

Perdi-me algures
em verdades nuas,
fragilidades e impurezas,
juras entre ficções,
talvez,
mas, com uma fronteira invadida
por inexpressivas multidões
reconheço a fundação dos meus medos.
A solidão não é irmã do silêncio,
os sentidos doem
e o perdão é como uma expressão cortante
ecoando pelos oblíquos planos da vida.
A rocha sente a acção das espumas
que, contra si,
a água revolta despacha;
é desse revoltar cíclico,
dessa suada sexualidade,
que a paisagem nasce
para, finalmente, os olhos a beberem.
Morro e renasço no regaço de cada hora que passa,
e nisso me toma um cansaço feito de tempo
e abrem-se os ramos rugosos
que, sem o rigor dos escritos,
abraçam os contornos esponjosos
de um futuro...

terça-feira, maio 24, 2011

Peso

Sente-se a inutilidade pesar
sobre a matéria e sobre o sonho
como um nefando augúrio
oprimindo em abstracta distância
aquilo que se fará inevitável.
É certa a temporalidade paradoxal
de todas as rochas,
de todas as formas de recortar
nos horizontes
a metáfora infinita dos céus.
No meio de tantas coisas que se finam,
de tantas imagens tácteis do que cessa,
talvez eterno
seja
apenas
sentimento.

sexta-feira, maio 20, 2011

Silêncios...

Os silêncios são coisas maravilhosas,
sussurros de deuses mortos
segredando baixinho ao ouvido solitário
fórmulas de verdades impossíveis;
e são também momentos a que se nomeia,
por vezes,
de angústia...
Mas quando o mundo não fala,
está calado,
e o silêncio é o único discurso
fazendo-se e desfazendo-se nos gestos
e nos movimentos dos vivos,
podemos, talvez, ouvir-nos
e, numa epifania,
improvavelmente,
descobrir.

quinta-feira, maio 19, 2011

Distâncias

É na distância das coisas
que se chega ao destino
do que delas podemos entender.
Entretanto,
perdidos na dolência aguda da proximidade,
no tempo ou no espaço,
somos néscios ao fundamental.
Nada existe de mais perfeito
que o perfume fresco das flores,
mas apenas o descobrimos,
quando essa perfeição secou,
no cheiro que intangivelmente se sente
nos labirintos da recordação.

quarta-feira, maio 18, 2011

Lá, onde

O embaraço desce
pelo emaranhado confuso dos momentos,
e um soluço distancia-se
da imagem que se concretiza
logo ali.
Perfumes e musas
são como beijos divinos,
motes mélicos
suspirados pelos poros
por onde sensualmente bebem
os jardins da Terra
toda a sorte de coisas.
Lá onde o sol se vê deitar
estará o refúgio,
para sempre indiscernível,
de quem nunca se encontra
onde está.

terça-feira, maio 17, 2011

Legados

Não são impossíveis os sons certos,
não são definitivas as teias
enredando os dias que velejam por nós
céleres e inevitáveis.
As mensagens do Passado
tanto se lêem
quanto se escutam;
algures entre o som das palavras
e a tinta das letras,
está uma construção do Futuro
- por aí se faz o caminho
aí se inscreve a esperança.

segunda-feira, maio 16, 2011

Sobre a Perfeição

É por vezes o mundo,
enquanto sentimento,
nada mais do que imagino ser
tudo quanto, generosamente aberto,
o teu olhar alcança.
E quando sonho,
com os teus olhos
procurando encontrar os meus,
o mundo deixa de ser infinito,
poderoso, vasto, incompreensível...
para ser,
simplesmente,
um templo de memória
a esse momento perfeito.